quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

A elite do atraso

Publicado no Diário dos Campos em 19/01/2018
A elite do atraso – da escravidão à Lava Jato é o título de livro de Jessé Souza, publicado em setembro de 2017. O autor é sociólogo, filósofo e psicanalista com doutorado em Heidelberg, e já publicou diversos livros analisando a situação do Brasil atual.
No A elite do atraso o autor destaca inicialmente o grande equívoco de se considerar os políticos (o Estado) e o povo como os responsáveis pela epidemia de corrupção no país. Para ele, se comparássemos os sistemas que regem o país ao tráfico de drogas, os políticos corruptos seriam o “aviãzinho” que fica com as migalhas, mas os verdadeiros donos de banca, que se escondem atrás dos políticos cuja eleição financiam, estão no mercado de capitais. São os oligopólios, os atravessadores financeiros, que compram a política, a justiça e a imprensa de modo a assaltar legalmente a população. É neste mercado que se decide a sorte do povo e a distribuição de riquezas no país.
Depois o autor analisa a constituição da sociedade brasileira, e suas raízes históricas. Enfatiza a influência dos séculos de escravatura e de divisão entre humanos e não humanos, estes os escravos, que por esse motivo devem ser explorados, odiados, martirizados. E quanto esse estigma marca ainda hoje a nossa sociedade, traduzindo-se não só no preconceito e na exclusão, mas no ódio que aqueles que se consideram filhos de Deus destilam em relação aos não filhos de Deus.
Nossa sociedade seria constituída por quatro classes: a elite proprietária, ou elite do dinheiro, a classe média, os trabalhadores qualificados e por fim os trabalhadores não qualificados, segundo o autor os novos escravos. A classe média seria a de constituição mais heterogênea, nela caberiam quatro subclasses: os protofascistas, os liberais, os expressivistas e os críticos.
Os protofacistas são aqueles que são incapazes de dialogar com pensamentos divergentes e de fazer autocrítica, e reagem com violência a tudo que é diferente. Os liberais são aqueles que acreditam que o mercado é capaz de reger bem a sociedade, e devemos satisfazer todas as demandas do mercado. Os expressivistas são aqueles que se dedicam ao meio ambiente e às minorias, e esquecem que os problemas são muito mais abrangentes. Os críticos, uma minoria dentro da classe média, seriam os capazes de dialogar com o diferente e aprender diante das situações.
Na parte final do livro o autor analisa o conluio entre a grande mídia e a Lava Jato. Esse capítulo é imperdível, todos deveriam lê-lo. Tentando sintetizar o que ele traz de melhor, Jessé Souza ali mostra o conluio entre os interesses da elite do atraso, os políticos, a grande mídia (Globo à frente) e a operação Lava Jato. Este conluio destina-se a aliciar boa parte das classes sociais visando demonizar os governos que procuraram diminuir a distância entre os humanos e os não humanos, e que procuraram dar certa autonomia política e econômica ao Brasil. E destina-se a destruir empresas brasileiras como Petrobras, Odebrecht, JBS e outras, algo impensável nos EUA. Lá eles resolvem seus problemas com acordos secretos que protegem suas empresas e sua economia, e não as destrói.
O capítulo final alerta também que não há golpe de estado na América Latina que não seja orquestrado pelos EUA. E que o Brasil, com as reservas de petróleo do pré-sal e a pretensão, com o BRICS, de construir um bloco concorrente com a hegemonia EUA-UE, esteve perto de emancipar-se do papel de colônia fornecedora de matérias primas. E este é o único papel que nos é reservado no arranjo mundial atual regido pelos EUA e UE.
Nesse capítulo Jessé ressalta que só os tolos não percebem que no Brasil o governo paga os juros mais altos do planeta por uma dívida pública imensa. E que cinquenta e três por cento dessa dívida é paga por pessoas que ganham até três salários mínimos, enquanto os ricos ou não pagam imposto, ou o sonegam em paraísos fiscais.

Mas a mais impressionante afirmação do autor, que deveria nos fazer muito refletir: a elite do atraso e seus conluiados com suas mentiras e fraudes estão imbecilizando o Brasil. A falta de informação plural e juízo autônomo estão nos imbecilizando. E não há perda maior para um país que perder sua capacidade de refletir e de aprender. Imbecilizar é muitíssimo pior que surrupiar quantias financeiras. Imbecilizar é impagável. É frustrar sonhos e esperanças. É matar a nossa jovem democracia.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Pesquisa celestial


Risonho Sensalva de repente viu-se, de novo, diante daquele portal luminoso e grandioso que ele já sabia, era a porta do fim da vida (ver a crônica Juízo final postada em 13/07/2017).
─ Será que agora morri de verdade? Ou de novo vou encontrar-me com aquele cara...
Nem acabou de matutar, vê e ouve o mesmo homem vestido de executivo, o mesmo ipad de última geração nas mãos, manejado com muita desenvoltura.
─ Olá Risonho, como vai? É um prazer recebê-lo aqui de novo!
─ Olá senhor... como é mesmo seu nome?
─ Rufinus Mercadante, ao seu dispor. Como tem passado?
─ Bem! Tenho passado bem... mas... agora morri de vez?
─ Não, ainda não. De novo você está dormindo. Parece um sonho mas não é. Como já lhe disse, a morte é certa, mas incerta é sua hora. Por enquanto, só estamos continuando nossas pesquisas, em prol da eficácia dos trâmites do desenlace final, que não sabemos quando vai ser. Antecipamos os dados, pra manter um serviço exemplar, sem filas, nem esperas, nem confusões de última hora.
─ Mas então, por que é que estou aqui desta vez? Daquela vez já não fizeram o levantamento de minha vida?
─ Bem, estamos iniciando o ano de 2018. Aliás, feliz ano novo pra você e todos os seus! E neste ano, vamos ter eleições no Brasil, o país onde você vive.
─ Sim, sim. É verdade. É um ano de eleição. E também de copa do mundo. Vai ser um ano daqueles.
─ Nossa administração decidiu pesquisar a inclinação eleitoral dos nossos clientes. Parece que isto vai ser levado em conta na hora do parecer final sobre cada um, junto com os outros dados que você já nos forneceu. Já sabe em quem vai votar?
─ Desculpe-me, estive atrapalhado com os compromissos de fim de ano, fechamento do movimento, rebuliço de Natal... Nem tenho pensado em política. Quem são mesmo os candidatos?
─ Bem, são vários. Os principais são quatro. Todos boa gente. De classe média ou que até já superaram a classe média, já alcançaram os píncaros da existência ainda em vida. Temos por exemplo o candidato que é governador do estado dito a locomotiva do país. Um social democrata, mas que reconhece a importância do mercado nos destinos da humanidade, e que zela por bem atender às demandas precípuas do mercado: Estado mínimo, privatizações, ensino e saúde privados, sindicatos domados, leis trabalhistas flexíveis...
─ Não, não... Esse não. Sou trabalhador assalariado. Só vejo retrocesso nas condições de trabalho. Não há mais reposição salarial. Férias e décimo terceiro estão atrasados, nem sei se vamos receber. A justiça trabalhista, que antes estava do lado do trabalhador, agora está do lado do patrão. E, embora não entenda bem disto, um amigo me disse que os tais ditos sociais democratas estão loteando o país, entregando empresas de energia e de petróleo, por exemplo, que custaram muito esforço do povo pra serem construídas.
─ Bem, temos outro candidato. É um religioso fervoroso. Das religiões que mais se disseminam pelo país. Ele tem posições firmes, gosta de dizer de si mesmo que fala o que pensa, não faz parte da farsa atual. É um disciplinador, com ele nada de vadiagem nem de viadagem. Aborto nem pensar. E bandido bom é o bandido morto. Diz que vai pôr o país nos trilhos. Que arruaceiro e ladrão não vão ter lugar no seu governo. É porrete e cadeia neles. E pra ele arruaceiro é todo mundo que não esteja trabalhado ordeiramente pelo bem do país.
─ Não sei não. Tenho parentes e amigos que são gente muito boa, mas sofrida, e que pelo visto seriam perseguidos por esse homem. Tem outros candidatos?
─ Tem, tem. Tem a candidata que já foi ministra, e vem lá das florestas do norte do país. Ela também é religiosa, mas nem tanto quanto o anterior. Ou pelo menos assim parece. Ela é uma ambientalista. Foi ministra do meio ambiente, e cresceu vivendo movimentos ambientalistas nas matas amazônicas. Espera-se que um governo dela venha a ser um governo com ênfase no meio ambiente.
─ Olhe, confesso-lhe que embora o mundo esteja muito necessitado de gente que se preocupe com o meio ambiente, ando achando que temos uma emergência maior. Um incêndio pra ser apagado. Que é a situação de vida do povo pobre. Às vezes tenho a impressão que os tais ecologistas dizem preocupar-se com o meio ambiente pra desviar a atenção do verdadeiro problema, que é a pobreza, a exploração do pobre pelo rico. Temos alguma outra alternativa?
─ Temos, mas esta é muito arriscada. Primeiro, porque nem sabemos se ele vai poder se candidatar. Segundo porque se vier a se candidatar, e ganhar, não se sabe se vai conseguir assumir e governar. Já foi presidente, andou fazendo coisas que desgostaram muita gente. Ficaram tão furiosos com ele que querem vê-lo atrás das grades.
─ O quê ele andou fazendo?
─ Por um lado, fez políticas pra ajudar os mais pobres. Aumentou os salários mais baixos, criou programas de infraestrutura com muitos empregos, criou programas de assistência, facilitou o ingresso de filhos de famílias pobres na universidade, criou programas pra aquisição de casa e eletrodomésticos... E também fez um governo pra fortalecer empresas brasileiras. E, talvez sua irreverência maior, juntou-se com outros países do mundo parecidos com o Brasil pra tentar formar um bloco econômico e político em contraposição ao bloco hegemônico que manda no planeta. Por outro lado, seu governo é acusado de muita corrupção.
─ Ué? E algum dia os governos no Brasil deixaram de ter corrupção?
─ É, mas neste caso a corrupção foi alardeada pela mídia, que não queria o homem, nem sua sucessora, como presidentes. E a mídia é poderosa. Já mostrou isso em outros tempos. Getúlio e Jango, que já estão aqui conosco, que o digam...
─ Nesse caso parece que fico sem opção...
─ Vou colocar aqui que você ainda está indeciso. Não tem tanta pressa. Quem sabe mais adiante ainda se decide? Vou anotar pra voltar a chamá-lo quando estivermos mais perto da eleição.
E de novo Risonho Sensalva acorda pela manhã em seu quarto de dormir, com aquela estranha sensação de que algo se passara. Mas não conseguia lembrar o que fosse. E desta vez, parecia que estava ainda mais confuso.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Feliz 2018, Brasil!

Publicado no Diário dos Campos em 27/12/17
Que 2018 seja um ano de paz, de tolerância, de compreensão, de liberdade, de verdade, de justiça, de amor. Aliás, não por acaso justo ao fim do ano comemoramos o aniversário do profeta da religião mais difundida no planeta, que, assim como os profetas de outras religiões, vieram nos ensinar estes valores emancipadores e humanísticos.
Que saibamos ter temperança e serenidade para que de nosso ser emane a paz. Que as divergências que vão pelo mundo, muitas vezes incentivadas por aqueles que querem delas aproveitar-se para estender seu domínio, não nos contagiem. Que nós brasileiros recuperemos a alegria, a amizade, a criatividade artística, a hospitalidade, que já foram marcas de nosso povo. E que recuperemos também aquela capacidade de convivência pacífica com o diferente, outra marca de nosso povo, herdada de uma mistura de raças sem igual no mundo. Ainda que tenhamos tido sempre muito a progredir em termos da verdadeira solidariedade.
Que sejamos capazes de substituir a reação instintiva pela reflexão, compreensão e sabedoria. Que nossos posicionamentos e nossas escolhas emanem da nossa capacidade de refletir e de decidir com base em valores que nos são próprios, e não na manipulação interesseira de estímulos e de reações estranhas que nos são imputados via um massacrante condicionamento midiático.
Que logremos escapar desse consenso construído que nos imputa falsas convicções e conflitos descabidos. Que alcancemos a capacidade de nos libertarmos como pessoas. Que passemos a ter idéias e valores próprios, sobre nós mesmos, sobre nossa pátria, sobre nosso devir. E assim que nosso riquíssimo país deixe de ser a eterna colônia, o eterno país do futuro, e alcance o status de grande nação do presente.
Que renasçam em nós os sonhos de felicidade e de dignidade, de soberania, de justiça para todos, não somente para uma casta seleta de presunçosos eleitos. Que nos preocupemos mais com o bem estar coletivo, e menos com os humores do volúvel mercado. E que, nesta era de informação, sejamos capazes de discernir o joio do trigo. Pois a informação é muito diversa, ora nos esclarece e nos ajuda a crescer, ora usa nossas reações instintivas, impensadas, para despertar em nós tudo aquilo que é contrário ao progresso humano, em favor da submissão àqueles que têm a pretensão de dominar o mundo.
Que tenhamos o discernimento para aprender com a boa informação, que nos faz seres humanos mais humanos. Que tenhamos firmeza para superar os atavismos históricos de nossa peculiar sociedade, e que ela definitivamente passe a ser inclusiva. E, neste ano de 2018, sobretudo que saibamos distinguir oportunistas de estadistas.
Fim de ano é a reafirmação dos valores cristãos, é a esperança do novo no ano que começa. Que nos renovemos junto com o calendário, que nos recriemos, que despertemos.
Que 2018 seja um ano de revelação, de emancipação.

Que 2018 seja um ano feliz.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

O Todo Poderoso e as oportunidades

Publicado no Diário dos Campos em 08/12/17
 Estes dias, zapeando a TV, dei por acaso com a comédia A Volta do Todo Poderoso (2007), em que Morgan Freeman encarna Deus e Steve Carell seu moderno Noé, o atônito encarregado de construir uma arca num lugar impensável no interior dos EUA. Apesar de ser um despretensioso entretenimento, o filme tem uma passagem marcante: Deus conversa com Noé e lhe ensina que quando as pessoas lhe pedem algo com fervor, por exemplo a coragem, ele, o Todo Poderoso, não lhes concede propriamente a coragem, mas a oportunidade de praticar a coragem, e, assim, de tornar aquele crente suplicante mais corajoso, pela prática da coragem.

Ou seja, os céus não estariam para nos conceder facilidades, mas estariam sim para nos conceder as condições para que possamos fazer a escolha se queremos ou não conquistar algo que ainda nos faz falta. A coragem, o discernimento, o engajamento, a responsabilidade, a honestidade, a serenidade, a tolerância, a solidariedade, a sobriedade, a temperança, o caráter, a firmeza, a generosidade, a sabedoria, a compreensão, a lucidez, a liberdade, a idoneidade... estariam entre essas qualidades para as quais os céus nos concedem as circunstâncias para que possamos praticá-las, e, com nossa determinação, possamos conquistá-las, para o nosso ser e para o nosso mundo.

Que excepcional oportunidade os céus estão nos concedendo nos dias atuais de crescente iniquidade, no Brasil e na verdade no mundo todo! Se tivermos desprendimento e iniciativa suficientes e refletirmos sobre como vão indo estes nossos tempos, nos veremos diante de uma escolha crucial: ou fechamos os olhos para o que está se passando ou tomamos consciência de uma dura realidade cheia de oportunidades para que possamos conquistar qualidades que ainda estão nos fazendo muita falta para a evolução da humanidade.

Aí me lembro de outro filme, um dos que mais gosto: Contato (1997), baseado em livro de Carl Sagan, em que Jodie Foster encarna uma astrônoma descrente de Deus, que busca obstinadamente sinais de vida extraterrestre. Quando os encontra e candidata-se a ser a enviada para o contato com uma civilização inimaginavelmente mais evoluída que a nossa, questionam-na sobre o que ela perguntaria ao seu interlocutor celestial. Ao que ela responde:

— Perguntaria como foi que sobreviveram ao desvario da adolescência de sua civilização...


domingo, 26 de novembro de 2017

Homo sapiens ou homo erroris?



O livro A segunda guerra fria, do brasileiro radicado na Alemanha Luiz Alberto Moniz Bandeira (falecido no dia 10 de novembro último), nos alerta sobre o uso recente de uma estratégia milenar: iludir, dividir, para governar. Moniz Bandeira nos mostra com uma incomparável riqueza de fontes que, desde a queda da União Soviética, os candidatos a potência com total hegemonia do poder mundial (EUA) têm repetido um mesmo expediente para alastrar seu domínio sobre países estratégicos que tinham governos indesejáveis e/ou eram portadores de riquezas naturais indispensáveis para a dominação do mundo: Geórgia (2003), Ucrânia (2004) e Quirguistão (2005) na Ásia Central, a Primavera Árabe (2010-2012) que devastou os países do Norte Africano e Oriente Médio. Essas regiões são de altíssima relevância estratégica, por constituírem territórios com enormes reservas de recursos energéticos e minerais, e pela posição geopolítica.

As táticas de desestabilização de governos legítimos mas avessos à expansão estadunidense foram semelhantes: formação e financiamento de grupos de ativistas radicais e ONGs de oposição, financiamento de campanha de políticos oposicionistas, domínio da mídia e maciça campanha de desmoralização institucional e governamental, financiamento de “guerras psicológicas” operadas pela mídia visando desestabilizar governos e dividir a população dos países. Essas táticas visaram derrubar governos sem a necessidade de dispendiosas intervenções militares, como no caso do Afeganistão e do Iraque.

O livro de Moniz Bandeira foi concluído em 2013, e republicado no Brasil em 2017. Ele não chega a abordar os golpes em Honduras (2009) e no Paraguai (2012), que igualmente visaram substituir governos eleitos nacionalistas por governos mais simpáticos aos interesses estadunidenses. E muito menos aborda as transformações ocorridas no Brasil a partir de 2013.

Quais transformações ocorreram no Brasil? A partir de 2013 movimentos populares que inicialmente protestavam contra a má qualidade e alta tarifa dos transportes urbanos nas metrópoles transformaram-se em protestos contra a corrupção, o gigantismo e a inoperância do Estado e de suas empresas, principalmente a Petrobras, e de grandes empreiteiras. A mídia produzia o massacre midiático da demonização do Partido dos Trabalhadores e seus governos e governantes, da pífia economia do país, da corrupção que estaria profundamente enraizada em todo o modus operandi nacional por culpa dos governos petistas. A presidenta eleita foi afastada acusada de praticar atos administrativos utilizados por todos seus antecessores, mas os congressistas que caçaram-lhe o mandato não tiveram coragem de negar-lhe direitos políticos, pois tiveram vergonha de condenar politicamente uma estadista com uma estatura ética muito superior à deles.

E no lugar da presidenta deposta assumiu seu vice. Que logo se mostrou a pessoa certa para ocupar o papel esperado por quem patrocinou, do exterior, o golpe sem guerra no Brasil. O “ajuste” das contas públicas está sendo realizado pelo viés da limitação de investimentos em infraestrutura e serviços básicos, reforma do ensino restringindo disciplinas reflexivas e críticas, modificações na legislação trabalhista em prejuízo do trabalhador, reforma da previdência em prejuízo da aposentadoria do cidadão comum, descapitalização da Petrobras e loteamento das imensas jazidas de petróleo do pré-sal, privatização de serviços estratégicos de energia e saneamento... Mas imprescindíveis ajustes na tributação dos rentistas e dos mais ricos, nas privilegiadas aposentadorias de políticos, juristas, militares e outros, nas leis que regulamentam as eleições e os políticos... estes estão fora da pauta de discussões.

Ou seja, no Brasil não nos comportamos de forma diferente dos outros países que, desde o início deste século, têm trocado governos nacionalistas e legitimamente eleitos por governos que estão loteando as riquezas nacionais e explorando seus trabalhadores. E, pior do que lotear as riquezas, estão nos dividindo, quando conseguem transformar diferenças ideológicas em motivo de violência e agressões. Devíamos estar mais atentos a quem são nossos verdadeiros adversários, que merecem nossa indignação e nossa condenação.

E, talvez ainda pior: como o povo de um país pode valorizar conduta ética e responsável, se de seus dirigentes vem um exemplo tão carregado de desmandos?

Está na hora de deixarmos de ser Homo erroris, e tornarmo-nos Homo sapiens.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Carta de repúdio ao General Mourão

 Texto escrito em resposta ao texto "Carta pública de apoio ao General Mourão", publicado em jornal de Ponta Grossa em 07/10/2017.
Quem assina esta não é um grupo de patrimonialistas entidades patronais, mas é um simples professor. Mas tenho convicção que esta carta representa o pensamento da grande maioria dos brasileiros,
A fala do General Mourão não usa estas palavras, mas ameaça com o estado de exceção em que se suprimem os direitos, o que entre nós ocorreu entre 1964 e 1985, durante a ditadura militar. E se hoje nossa jovem democracia está criticamente estremecida pela crise entre os poderes e iniquidades neles enraizadas, o estado de exceção em que os direitos são suprimidos é muito pior. A diferença é que na ditadura as iniquidades, os crimes contra o cidadão e o bem público, são ocultas a peso de chumbo e sangue, enquanto hoje temos certa liberdade, transparência e segurança para denunciar e apurar.
E não nos iludamos que as forças armadas signifiquem acerto nos rumos de uma nação. Se não bastassem os exemplos históricos da França de Napoleão, da Alemanha de Hitler, da Rússia de Stálin, do Chile de Pinochet, do Iraque de Saddam, lembremo-nos de que durante a ditadura militar brasileira o país contraiu a maior dívida externa de sua história, só saldada na última década. Para não falar na imensa dívida educacional, da dívida moral, da dívida dos valores civilizatórios que constroem uma sociedade justa e solidária.
Estas dívidas estamos pagando até hoje, por isso nossa jovem democracia ainda sofre esta crise que estamos vivendo. Mas crises são bem-vindas, elas nos mostram que o velho está morto, já não funciona, e o novo ainda não nasceu para substituí-lo.
O velho está morto. O Brasil do coronelismo, das abismais injustiças sociais, dos privilégios das elites e de suas escandalosas artimanhas para continuarem privilegiadas, está morto. A crise dos poderes que vivemos hoje, inclusive o poder da mídia e dos empresários que elegem a maioria dos políticos, não é fruto da falência dos princípios democráticos. Mas é fruto justamente das forças que se opõem aos princípios democráticos, que sabotam e corroem a democracia, que subvertem princípios e suprimem direitos, seja de forma explícita, como nas ditaduras, seja disfarçadamente, como nas sociedades em que os velhos privilégios e injustiças são implacavelmente defendidos.
O novo Brasil há de ser construído não somente sobre o pilar da verdadeira honestidade, mas também sobre o pilar da inclusão e da justiça social, o pilar da liberdade, o pilar da soberania nacional. É hora do Brasil avançar, e não retroceder de sua jovem, imperfeita mas promissora democracia.

Intervenção militar, ditadura, nunca mais!

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pai nosso...


... assim como nós perdoarmos a quem nos tem ofendido, não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos do mal, amém!
Pai, dai-me forças para que eu possa sempre ser arauto do teu amor, testemunho dos ensinamentos evangélicos...
Cacilda, mas que é que estou colocando nas minhas orações! Bestei? Será que não seria melhor pedir, sim, primeiramente perdão dos meus pecados, mas também dinheiro, celebridade e poder, que ninguém vive sem essas benesses essenciais?
Este nosso mundo não merece alcançar a justiça e a solidariedade que os evangelhos nos ensinam! Parece mais que este é mesmo um mundo de penas, de sofrimento. Aprendemos pelo sofrimento na própria carne, e não aquele vivido por outros. O homem torturado e pregado na cruz não consegue nos ensinar lições de amor e sacrifício. Temos nós mesmos que quebrar a cara pra aprender alguma coisa.
Pai, como será que você está se sentindo ao ver-nos em tantos descaminhos e iniquidades neste nosso planeta que já dá sinais de saturação e colapso? Escarnecemos que você anda com o dedo no botão de destruição de sua obra, arrependido do mundo que criou. Será que está mesmo arrependido?
Às vezes penso que entendemos mal. Sua intenção era essa mesmo. Este é um mundo de provas, uma escola austera, e não um mundo destinado à prosperidade, à fruição, à felicidade e à iluminação. Será que a avareza, a ambição, a crueldade, a competitividade, a soberba, a injustiça nunca vão diminuir no planeta Terra? São qualidades que nos colocam à prova, convivendo com elas aprendemos, ou não! Se aprendermos, então iremos para outros planetas, criados para serem melhores. Parece que o nosso, este decantado planeta azul, nunca vai evoluir. É a escola para os alunos renitentes, que têm dificuldade de aprender.
Será que é isso mesmo? Então minhas preces pedindo por um mundo melhor, por gente melhor neste mundo, são vãs? Melhor seria eu rezar para que o mal esteja cada vez mais fortalecido, e assim nos convença com mais veemência de que o bem é preferível? E rezar para que pelo menos eu, e meus próximos mais próximos, aprendamos, para podermos ter direito a mundos melhores?
Pai, se seu filho aparecesse hoje por aqui na Terra, seu destino não seria diferente do que aconteceu já lá se vão dois milênios. Você e seu filho são uma afronta ao mercado, à livre iniciativa, ao empreendedorismo, à competência e ao dinamismo. Hoje seu filho não seria crucificado, mas talvez virasse um indigente perambulando por este mundo de modernidades. Ou seria assassinado, como já foram vários de seus seguidores que ousaram pregar a paz e o amor.
Aliás, acho que aí é que está o fulcro da questão. Você é um deus que não conseguimos compreender. Enquanto a civilização atual é filha do deus mercado, esse sim presente em nossas vidas. Ele nos diz como viver, como ser felizes, que convicções e ideologias são corretas, como votar... Aliás, ele cria e supre nossos desejos, e também supre leis e governantes que primam por atender esses nossos construídos desejos. O deus mercado é muito eficiente. E você, pai, parece-nos muito ausente...
Bem, pai, isto que era pra ser uma oração, virou uma lamentação. Concordo que, olhando bem, o mundo que nos foi concedido, a Terra com todas suas benesses, parece o paraíso. Tão maravilhoso que concedeu-nos o milagre da vida. Mas por que motivo nós humanos fazemos de nossa passagem por aqui um inferno? Exagero meu? Mas guerras, miséria, injustiças, desigualdades, mesquinhez, desonestidade, crueldade e desumanidade são marcas deste nosso mundo, não são?
Só posso acreditar que esse era mesmo seu plano. Este nosso mundo é uma escola. Implacável. Quem passar de ano, vai pra outros mundos melhores. Este, nossa Terra, é pra ser assim mesmo. Um duro campo de provas. Não vai evoluir.

Será?