domingo, 13 de novembro de 2022

Separando o joio do trigo

Publicado no Jornal da Manhã em 15/11/2022.

De acordo com o Evangelho de Mateus, Jesus teria contado a parábola do homem que semeou o trigo em seu campo, mas durante a noite, enquanto todos dormiam, veio seu inimigo e semeou o joio em meio ao trigo. Joio e trigo cresceriam e formariam espigas ao mesmo tempo. Os servos perguntaram ao homem o que fazer, ao que ele respondeu: “Deixem que cresçam. Na hora da colheita, juntem primeiro o joio, amarrem-no em feixes, para ser queimado. Depois juntem o trigo e guardem-no no celeiro.” Mateus ainda escreveu que o homem esperou que as espigas se formassem para poder bem distinguir o joio do trigo. Se a separação fosse feita antes, haveria a possibilidade de confundi-los.

Estas polarizadas eleições de 2022, que acirraram os espíritos e têm provocado transtornos nunca dantes vistos, tiveram, por outro lado, o mérito de revelar as diferenças: quem é o joio a ser queimado, quem é o trigo a ser levado ao celeiro? Pudera fôssemos capazes, dois milênios depois, de compreender qual o exemplo de vida de Jesus, e qual o sentido das palavras proferidas em suas parábolas. Vamos relembrar, Jesus é considerado o filho de Deus, enviado para salvar a humanidade de seus erros. Sua mensagem foi de humildade, solidariedade, amor, esperança, verdade, justiça... Jesus seria um espírito de luz reencarnado entre os homens, para inspirá-los para o bem.

Atualmente as religiões de inspiração cristã ainda são as dominantes no mundo. Seus fiéis superam, em número, mesmo os adeptos de outras crenças, nas regiões asiáticas com as maiores populações do planeta. Mas os cristãos aprenderam e praticam os ensinamentos de Jesus? Se tivessem aprendido, não teríamos atualmente tantas guerras e conflitos, alguns ditos por diferenças religiosas. Não teríamos tanta injustiça na distribuição das riquezas que a generosa Mãe Terra nos concede. Não teríamos tanta miséria e tantos refugiados que procuram escapar da fome, da violência e da humilhação. Não teríamos a degradação dos mares, das águas doces, dos solos cultiváveis, das matas, da biodiversidade, da atmosfera que mantém o clima propício à vida no planeta. Não teríamos a indústria da guerra consumindo colossais recursos, que seriam suficientes para resolver todos os problemas da humanidade. Não teríamos a tecnologia que poderia nos irmanar e emancipar sendo utilizada para espalhar mentiras e nos manipular.

As eleições no Brasil mostraram dois lados: um é uma frente ampla que reúne, em nome da democracia, até adversários no campo econômico, unindo desde neoliberais que priorizam o mercado até aqueles que acreditam na economia administrada pelo Estado; outro que não aceita o resultado de eleições legítimas, compactua com uma indústria de mentiras, sente-se no direito de agredir e transtornar a vida de viajantes e moradores, e advoga a violência armada para defender suas crenças. Quem é o joio, quem é o trigo?

Se formos de fato cristãos, está na hora de separar o joio do trigo. Disso depende a colheita de uma sociedade fundada nos princípios de Jesus, que é sintetizada numa frase: “Amai a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a ti mesmo.” Podemos ainda pensar que muitas são as noções de quem, ou o quê, seja Deus. Mas parece haver consenso sobre qual a sua manifestação: a natureza. Amar a Deus pode ser entendido como amar a natureza.

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Cavalos soltos no campus

Recorrentemente, bandos de cavalos reaparecem no campus. Aparentemente, isso acontece em certas épocas, em que conjunções telúricas ou mesmo astrológicas emanam energias esdrúxulas, que estremecem a frágil harmonia entre os viventes.

Nestes dias reapareceu um bando de cavalos por lá. Apesar dos avisos que sua presença ali é ilegal, e sujeita os responsáveis a legislação que prevê multas e até prisão. Mas o bando pasta impunemente pelos gramados do campus, perambula livremente, alheio ao que um cavalo não pode compreender: sua liberdade coloca em risco aqueles que trabalham, estudam ou visitam o campus. Um lugar especial, que tem uma missão louvável: ensinar profissões e formar cidadãos. Às vezes, os quadrúpedes atravancam as vias de acesso do campus, não conseguem atinar que sua presença ali pode causar transtornos e até acidentes fatais.

O bando está sempre junto, os cavalos comportam-se de uma maneira uniformizada, parecem pertencer a um único dono. Este é o verdadeiro responsável pelo crime da presença dos cavalos soltos, embaraçando a liberdade de ir e vir dos usuários do campus, provocando o risco de acidentes e intimidando aqueles que eventualmente não estão habituados a lidar com cavalos.

Outro dia, presenciamos um episódio significativo: uma professora, tentando acessar seu local de trabalho, deu com um bando de cavalos bloqueando o portão que obrigatoriamente teria que atravessar. Ela aproximou-se cuidadosa, tentou evitar qualquer reação dos animais, que pastavam pelo gramado bem à frente do portão. Teve paciência de esperar, até que lhe pareceu que poderia ultrapassar o portão sem provocar os quadrúpedes. Mas assim que tentou abrir o portão, eles vieram em direção a ela. Não se poderia dizer qual era a intenção dos equinos, se era curiosidade a respeito daquela professora, se era uma reação agressiva a um humano que lhes invadia o pasto. Intimidada, a professora teve que recuar, esperar que os cavalos se cansassem do interesse nela, fossem enfim pastar na grama mais viçosa que ainda restava um pouco além, ou atendessem a um chamado do líder do bando, que já se afastara, um tanto enciumado por momentaneamente ter a atenção da manada desviada de si para aquela intrusa professora.

Sabe-se que, cuidados com compreensão e amorosidade, os cavalos são dóceis e retribuem os bons tratos, interagindo inteligentemente com seus donos ou treinadores. O problema é justamente este: às vezes os treinadores são menos dóceis e amistosos que seus animais. Também é assim com os cães, que diferentemente dos cavalos, na maioria das vezes não são animais de trabalho, mas sim de companhia.

Por esse motivo, pobres cavalos! Estão sujeitos a recolhimento em enclausurantes abrigos do poder público, até que seus donos, verdadeiros responsáveis pelas contravenções, arquem com as penalidades cabíveis e libertem os animais.

Aos usuários do campus, cuidado ao encontrar o bando de cavalos. Eles podem comportar-se como uma inconformada e ressentida manada. Mas lembrem-se, eles têm um potencial de compreensão e docilidade igual ao dos humanos ordinários. Se estão agressivos, é por culpa de seus donos e treinadores. Paciência, compreensão e bons tratos deverão resgatá-los da passageira asneira.

terça-feira, 1 de novembro de 2022

Amor ou ódio – eleições democráticas ou golpe

Ou, como diriam outros, civilização ou barbárie. Muitos ainda duvidam de quem é quem nesta complicada e acirrada polarização que vivemos no momento, no Brasil e no mundo. Vale pensar a respeito.

Ainda há dúvida de qual o lado do amor e da civilidade, e qual o lado da barbárie e do ódio? Agora talvez o menos importante seja qual lado se considera o quê. O que importa mesmo é resgatar o sentido das palavras, amor e ódio, civilização e barbárie. Este resgate é urgente para revertermos a divisão da sociedade brasileira, que alcançou hostilidade impensável nos últimos anos: rupturas até dentro das famílias, entre irmãos, pais e filhos, cônjuges... E que faz com que alguns derrotados caminhoneiros e militares considerem-se acima de eleições democráticas.

A natureza do ser humano é por demais contraditória. Só assim para tentar entender como somos capazes de, bruscamente, descambarmos de um ambiente pacífico e amistoso para um clima beligerante, agressivo. Esta nossa instabilidade tem sido manipulada há séculos pelos impérios, para dominar suas colônias: o antigo axioma “dividir para conquistar”. Talvez o exemplo mais sanguinário disso tenha sido o genocídio de quase um milhão de pessoas em Ruanda em meados dos anos 1990, quando a etnia tutsi massacrou os antes tolerados hutus, incitados por programas de rádio que incutiam um ódio descabido, com o intuito de insurgir a população e frustrar nascentes aspirações de união e democratização do país.

Dizem os antropólogos que nossa beligerância vem do cérebro reptiliano que ainda conservamos, e que, respeitando a sequência evolutiva, é o primeiro que reage sempre que somos colocados diante de situações críticas. Reagimos instintivamente como os répteis reagiam há centenas de milhões de anos atrás. O cérebro límbico zeloso (dos mamíferos), o neocórtex racional (do Homo sapiens) e o cogitado cérebro hipofisário (dos seres iluminados) só chegam a se manifestar se conseguimos controlar a intempestiva reação do cérebro reptiliano. Assim, com rompantes de nossos ancestrais répteis, deixamo-nos levar facilmente por provocações que despertam nossos instintos mais primitivos. Por isso seria tão fácil transformar amizades em ódio, e legítimas derrotas em ressentidos instintos golpistas. Basta saber como cutucar o réptil que espreita dentro de nós.

Atualmente o imperialismo funciona mais dissimulado. Estamos no tempo da lawfare, das guerras cognitivas, das chantagens e especulações econômicas, da espionagem e da desinformação digital. Mas preserva-se o antigo objetivo: manter as colônias subjugadas, fornecendo matérias primas brutas e baratas, e impedindo o progresso e a verdadeira independência dos países explorados. A estratégia também permanece a mesma, com novas técnicas: provocar reações do cérebro reptiliano das massas, elas mesmas farão o estrago em favor dos impérios e seus lacaios locais.

O Brasil, desde o descobrimento, é uma colônia explorada. Agora enviamos para os países ricos grãos, carne, ferro, petróleo, celulose. Para não sermos eternas vítimas do “dividir para conquistar”, temos que nos unir para que a riqueza do país reverta para seu próprio povo, e não para o lucro do voraz mercado internacional. Para isso, o amor tem de superar a intolerância e o ódio; a civilidade ─ a capacidade de coexistir com respeito e justiça ─, tem de superar a barbárie ─ o fim da concórdia social.

É hora da temperança e da unidade nacional. Golpistas, tomem consciência. Vão para casa!