quarta-feira, 25 de abril de 2018

Religião, futebol e política

Publicado no Jornal da Manhã em 25/04/2018

Ainda bem menino, frequentemente escutava meu pai dizer: ─ “Religião, futebol e política não se discutem com amigos”. Ele afirmava que tais discussões descambavam sempre para brigas, e amizades viravam inimizades. Dizia também que a afirmação já era dita pelo pai dele, meu avô. Portanto tratava-se de sabedoria popular antiga.
Qual seria o motivo destes temas, todos eles tão importantes, não poderem ser discutidos? Talvez pelo fato de que no Brasil são temas que abraçamos com paixão, sem nenhuma racionalidade? Basta observar as brigas que surgem quando começamos a discutir a nossa religião, o nosso time de futebol ou a nossa opção partidária ou ideológica. Brigas que em alguns casos degeneram em desvairada violência, como nos estádios de futebol, ou, felizmente ainda não no Brasil, em atos de terrorismo em nome de convicções religiosas e/ou ideológicas. Em outros casos, as divergências e as discussões políticas geram ressentimentos que vão alimentando ódios. Estes em nosso país vêm sendo extravasados em segregacionismos e agressões ainda não calamitosas. Até quando?
Por serem escolhas passionais, abdicamos de dedicar a estes três temas os mesmos cuidados de confiabilidade nas informações, reflexão, discernimento e objetividade que dispensamos a outros aspectos que nos são vitais, no trabalho, na saúde, no lar, nas finanças... Em se tratando da política, tal desobrigação de correção torna-nos analfabetos políticos. E não há nada mais nefasto para uma sociedade que os analfabetos políticos.
Mesmo na religião e no futebol a irracionalidade nos empobrece. A fé cega nos impede de ver e vivenciar os edificantes desafios e conquistas do livre arbítrio e da compreensão da fé diversa da nossa. O torcedor fanático não sabe apreciar o bom futebol praticado pelo time adversário. Sofre com ele. Mas não existe nada pior do que a irracionalidade política. Ela nos torna massa de manobra, gado tangido pelos dissimulados e insinuantes interesses que só desejam nos manter como um rebanho que serve ao deleite da insaciável cupidez da parcela de seres humanos que não logra encontrar outro sentido na vida que não seja possuir, explorar e degradar o próximo e o planeta.
A irracionalidade política cega mais que a fé cega. Persuasivas técnicas de manipulação de massas, que atuam via a grande mídia e atualmente também via redes sociais, deformam o que julgamos ser a nossa opinião, constroem uma opinião estranha, que serve à realização de objetivos que podem ser o oposto daquilo que nos beneficiaria.
E assim passamos a odiar o nosso vizinho, passamos a demonizar aqueles que se dedicam a uma sociedade mais justa, ao fortalecimento da soberania nacional frente a rapinantes e dominadores interesses internacionais. E endeusamos quem a mídia nos apresenta com maquiados ares de civilidade.
A irracionalidade, seja na religião, no futebol ou na política, resulta da intrínseca qualidade humana do comodismo. Discernir, deixar de ser irracional, demanda empenho e envolve incertezas e riscos. Mas se não tivermos a coragem de nos tornarmos menos irracionais, não deixaremos de ser rebanho tangido. Nossos sonhos de emancipação humana continuarão sonhos. E o Brasil continuará deitado em berço esplêndido.

domingo, 15 de abril de 2018

A riqueza da diferença



Vivemos um tempo em que as palavras tolerância, inclusão, alteridade, empatia e outras têm ganho muita expressão, justamente pelo recrudescimento de sentimentos e ações contrários ao que elas significam. Mas se refletirmos um pouco, a vida e a natureza já nos dão pistas seguras de caminhos que a humanidade deveria seguir para pacificar-se e harmonizar-se, e enfim canalizar seus enormes conhecimentos, recursos e tecnologias em prol da iluminação cultural e espiritual, e não de guerras, disputas e ódios, que só fazem acirrar.
Os ecossistemas já nos mostram o poder da diversidade. O clímax de uma biocenose, por exemplo uma floresta, seja ela amazônica, atlântica, de araucárias ou qualquer outra, só é alcançado quando condições favoráveis ao longo de tempo suficiente conseguem permitir que toda uma vasta comunidade de espécies, vegetais, animais, fungos, protistas e moneras, macro e micro-organismos, interaja de modo que cada uma contribua para o apogeu das demais. O mesmo se dá por exemplo no solo, ele só atinge sua fertilidade máxima com uma infindável coletividade de minúsculos seres que convivem numa cooperativa simbiose. E nos mares, rios e lagos o mesmo ensinamento: o equilíbrio e a evolução de toda a população dependem da interação das condições do meio e de inúmeras espécies vivas.
Já viram um plantio de araucárias? Em matas naturais, a araucária é uma árvore de grande porte, com robustos troncos e portentosos dosséis. Ela é a árvore mais majestosa, e sob sua generosa proteção desenvolve-se uma multiplicidade de outras árvores, muitas delas igualmente frondosas. Mas num plantio é muito diferente. Não existem outras espécies além das árvores plantadas, e estas são raquíticas, franzinas se comparadas com suas congêneres das matas naturais. Faltam-lhes os nutrientes que são liberados no solo graças à atividade das outras espécies. Assim são também os homens que desejam ver-se cercados senão por iguais. Falta-lhes grandeza, ficam incultos, pobres de ideias, de ideais e de sentimentos. Falta-lhes a compreensão de diversidade.
 Nós seres humanos parecemos ser uma espécie que ainda não aprendeu essa vital lição da natureza. Nosso impulso de predominar tem nos levado a comprometer tanto o meio ambiente que nos propicia as condições essenciais para a vida quanto as outras espécies que constituem conosco a vasta comunidade viva de nosso planeta nos tempos atuais. E, mais agravante, temos acirrado as desavenças e disputas entre nós mesmos seres humanos, seja pelo sempre renitente impulso de predominar, seja pelos instintos de repulsa e beligerância com o diferente, herdados de nossos ancestrais animais ainda completamente irracionais.
Uma metrópole cosmopolita qualquer do mundo, um aglomerado que congrega em sua população gentes vindas de diferentes lugares, povos e culturas, nos mostra, no ambiente artificial construído pelo ser humano, a riqueza da diversidade. A convivência com o diferente nos ensina que, ao contrário de nos ameaçar, ele nos enriquece. O convívio de raças, religiões, idiomas, alimentos, artes, sotaques, subjetividades e racionalidades diversas nos desarma de nossos preconceitos, e nos abre os olhos para quantos encantos estaríamos perdendo se nos víssemos privados desse edificante congraçamento. Numa grosseira comparação, seria como se tivéssemos que comer sempre a mesma comida, ver sempre o mesmo filme, ler o mesmo livro, escutar a mesma música... Ou ter sempre a mesma opinião.
Apesar dos conhecimentos e da sabedoria que já acumulamos ao longo de nossa história, ainda somos uma espécie muito jovem se pensarmos em escala de tempo de evolução do planeta Terra e da vida aqui encontrada, que se estende por bilhões de anos. O Homo sapiens tem apenas algumas dezenas de milhares de anos. Já somos capazes de destruir o planeta, mas ainda somos como adolescentes, não nos livramos de arraigados instintos primitivos de autopreservação da espécie, como a insegurança, a desconfiança, competitividade, agressividade e o segregacionismo de todo tipo.
Hoje o mundo está globalizado, a tecnologia e as facilidades de deslocamentos nos colocam em contato como nunca antes. Tal intercâmbio pressupõe que tenhamos maturidade e serenidade para saber interagir, respeitando e aprendendo com o diferente. Que sejamos capazes de tal interação, pacífica e compreensiva.

domingo, 8 de abril de 2018

Diferenciação, autopoiesis e comunhão

Publicado no Jornal da Manhã em 10/04/2018 e no Diário dos Campos em 20/04/2018

O livro O tao da libertação (Mark Hathaway e Leonardo Boff com prefácio de Fritjof Capra, Editora Vozes, 2012), no capítulo sobre cosmogênese, trata dos conceitos de diferenciação, autopoiesis e comunhão. Estes três conceitos parecem fundamentais nos dias de hoje em que no Brasil e no mundo constata-se retrocesso de valores civilizatórios e democráticos. Andamos confundindo estadistas, que se dedicam à justiça e inclusão social e à soberania frente a tirânicos poderes hegemônicos globais, com oportunistas, que se dedicam a satisfazer inconfessáveis ambições e atavismos pessoais, os quais muitas vezes incluem o serviço à tirania internacional ou à insânia pessoal. Estamos confundindo esclarecimento e entendimento com manipulação e ilusão. Estamos confundindo valores civilizatórios, tais como tolerância e solidariedade, com posturas que desagregam a sociedade, como segregação, intolerância e violência.
Segundo os autores do livro, o cosmos já nos mostra, numa macroescala, os significados dos três conceitos: diferenciação é o momento do big-bang, quando a energia concentrada num ponto expande-se e começa a diferenciar-se nos inúmeros mundos que conhecemos hoje; autopoiesis é a evolução dos mundos em suas singularidades, tal como a Terra, que por bilhões de anos tem evoluído para ter hoje as extraordinárias condições para dar suporte à vida como a conhecemos; comunhão é o colapso previsto pelos astrofísicos no chamado big-crunch, quando todo o universo voltará a contrair-se. O cosmos também viveria ciclos, ou “respiraria”, como noite e dia, verão e inverno, glaciais e interglaciais, expiração e inspiração, os batimentos cardíacos... Mas os conceitos também são aplicáveis à natureza humana, a como evoluímos como pessoas e como espécie.
Diferenciação seria então a nossa individuação, quando passamos a ter personalidade própria, e deixamos de ser gado tangível, ou massa de manobra. A rebeldia talvez seja o primeiro sinal da diferenciação, é bom que cuidemos de entender que um jovem rebelde mostra sinais de que está evoluindo para além da mesmice das massas amorfas, é bom que saibamos orientá-lo para avançar para os conceitos seguintes. A diferenciação, ou individuação, é essencial para que comecemos a ser capazes de refletir sobre as trocas que vivenciamos entre nosso interior e o exterior. Passamos a ser mais críticos, passamos a pensar, passamos a discernir.
Autopoiesis ou autopoesia é o passo seguinte. É a construção da poesia em si mesmo. Poesia no sentido de sensibilidade, reconhecimento e valorização do belo e do sublime, evolução da sabedoria e força interior, fortalecimento e  aperfeiçoamento do caráter alcançado na diferenciação. É quando construímos nossa identidade, nossa subjetividade, nos organizamos interiormente através de valores e condutas harmoniosas e edificantes.
Comunhão começa quando, com a maturação da autopoiesis, conseguimos sair de nós mesmos e estabelecemos a empatia com o que nos cerca, os outros seres humanos que são o nosso próximo, os outros seres vivos do planeta, o planeta que é nosso lar e nos supre tudo que necessitamos para viver. O início da comunhão nos torna mais tolerantes, mais compreensivos, mais generosos, mais responsáveis, conosco mesmo, com a diversidade de seres humanos tão desiguais com quem compartilhamos este momento na existência do planeta, com animais e plantas, com as águas, os solos, as florestas, o ar que respiramos... Tão quimérico quanto imaginar o big-crunch da cosmogênese, seria imaginar onde nos levará o clímax da comunhão. Talvez o congraçamento das almas numa única alma iluminada, como é a crença de algumas religiões orientais.
Deveríamos refletir sobre os conceitos de diferenciação, autopoiesis e comunhão. Quanto já conseguimos nos diferenciar, isto é, quanto já deixamos de ser como gado tangido? Quem estaria hoje a nos tanger? Talvez a grande mídia, talvez as fake-news que incorporamos e replicamos sem um mínimo de discernimento? Talvez simplesmente um consenso construído sabe-se lá por qual soma de agentes que têm o propósito de nos manipular?
E como anda a nossa autopoieisis, que poderíamos traduzir como a nossa educação, a nossa cultura, o cultivo de valores civilizatórios e generosos que nos ampliem e melhorem nossa visão de mundo e de humanidade?
Parece que estes três conceitos estão contidos nas mensagens que nos foram trazidas pelos grandes missionários das religiões do mundo. Cristo teria dito “amar ao próximo como a ti mesmo, e a Deus sobre todas as coisas”. É possível que não estejamos sabendo amar nem a nós mesmos, quanto mais ao próximo. Quanto a Deus, visto que mesmo os teólogos divergem sobre quem seja, podemos admitir que ele esteja manifesto na Natureza, no Universo. Está manifesto também nesta maravilhosa singularidade que é o planeta Terra. Como temos cuidado dela?

quarta-feira, 28 de março de 2018

Ponta Grossa no divã

Publicado no Diário dos Campos em 28/03/2018

      Ponta Grossa protagoniza eventos que fazem pensar que a cidade, ou uma parte expressiva de sua população, andam a precisar de sessões no divã de Freud, para tentar exorcizar alguns arraigados atavismos. Entre estes eventos, alguns míticos, podemos mencionar: a cidade que negou o copo d’água ao beato João Maria, e que este em vingança teria amaldiçoado a ela e sua população; a única cidade do Brasil em que Guilherme Afif Domingos, um candidato inexpressivo de um partido inexpressivo, foi o primeiro colocado numa eleição presidencial fortemente polarizada entre dois candidatos, um fabricado pela mídia, outro representando a esquerda de origem popular; a cidade que tem uma associação de empresários que foi acionada pelo Ministério Público por ter proposto publicamente que beneficiários de programas sociais não pudessem votar; a mesma associação que vem a público reiteradamente apoiar o general que se manifestou na mídia a favor da volta da intervenção militar no país (a ditadura militar), o qual por este motivo foi afastado de suas funções pelos seus comandantes; a cidade da vereadora que simulou o próprio sequestro; a cidade cujo time de futebol só conseguiu sagrar-se campeão após um século de existência, e que no ano seguinte foi rebaixado à segunda divisão do campeonato estadual; e, agora, a cidade que organiza acolhida, manifestação e passeata em favor do candidato militar de terceiro escalão à presidência da república que se manifesta abertamente a favor da violência do aparato do Estado, do segregacionismo (homofobia, xenofobia, misoginia, etc.), diz que bandido bom é bandido morto, e outros absurdos que só demonstram quanto é rancoroso e não foi educado aprendendo valores civilizatórios.
O que acontece com essa provinciana e amedrontada parcela da população de Ponta Grossa, que embora talvez minoritária, é quem ainda prepondera na sociedade local, dominando a mídia, elegendo seus representantes e controlando as decisões que são tomadas na cidade? Talvez só mesmo Freud explique! Talvez o histórico de pouso de tropeiros itinerantes, que sem raízes territoriais onde fincar a identidade fincam-na nas ilusões da posse de bens e de posição social? Talvez a herança de privilegiados sesmeiros que abocanhavam suas posses graças à subserviência ao poder imperial? Talvez resquício dos tempos da escravidão, em que casa grande e senzala eram mundos fendidos, assim como hoje pobres e trabalhadores devem continuar a servir à sanha e ambição insaciável dos proprietários e empreendedores? Talvez o assustado patrimonialismo de proprietários rurais que temem ver a ascensão social e econômica de parcelas maiores da população, limitando seus seculares privilégios? Talvez tudo isso junto e algo mais?
Na verdade, a vinda do candidato fascista e a calorosa receptividade que lhe é prometida por parcela da população hão de ter seu significado em benefício da evolução da consciência social e cívica da cidade. De acordo com os milenares princípios filosóficos orientais, ainda muito mal compreendidos entre nós, um extremo, no caso o retrocesso representado por tais bizarros eventos da elite econômica ponta-grossense, é a semente do extremo oposto, no caso a evolução para uma sociedade imbuída dos princípios de igualdade e solidariedade preponderando sobre a desigualdade, a exclusão, o segregacionismo e a exploração do ser humano pelo ser humano.
Evocando um princípio bíblico, que deveria estar norteando todos os cristãos, que constituem a maior religião do mundo, “bem aventurados os mansos e pacíficos, pois eles herdarão a Terra”. Bem aventurados os que se empenham em concretizar uma sociedade com justiça, solidariedade e inclusão social, pois eles substituirão os que apregoam a violência e o segregacionismo.

terça-feira, 13 de março de 2018

Assédio na Universidade

Publicado no Diário dos Campos em 17/03/2018
Semana passada, quando da comemoração do Dia Internacional da Mulher (8 de março), eventos singulares ocorreram em universidades do Paraná. Em Maringá, na UEM, durante a solenidade de formatura, alunas formandas exibiram cartazes denunciando assédio sexual. Em Ponta Grossa o DCE – Diretório Central dos Estudantes – organizou a elaboração e fixação nos locais de estudo de cartazes com frases assediadoras ditas por professores durante as aulas.
Na verdade estas não são as primeiras denúncias de assédio nestas universidades e em outras do Paraná e do Brasil. Agora as denúncias ganham maior intensidade e repercussão graças aos casos de assédio envolvendo celebridades de Hollywood, que ganharam o mundo. Não se trata de aumento de casos de assédio, mas de coragem de denunciá-los, o que parecia muito mais difícil há pouco tempo atrás.
As frases estampadas em cartazes na UEPG na última semana foram ditas em aula pelos professores, e pareceriam pueris se comparadas com outras ditas pelos assediadores às alunas quando não estão em público. E isto acontece dentro das universidades, o ambiente em tese na vanguarda da sociedade, onde são formados futuros técnicos, professores e cidadãos. O que esperar deles se seus professores dão exemplos de vida de quem considera o assédio, moral e sexual, como uma normalidade? O assédio é herança de uma sociedade arcaica, machista, segregacionista e truculenta, que considera o abuso e a intimidação como direitos dos que se situam hierarquicamente acima. Uma herança da escravidão e do jugo.
Na UEPG, só para citar um caso, há três anos alunas leram numa reunião carta de repúdio a professores assediadores, sem citar quais seriam esses professores. Foram violentamente refutadas pelos professores homens presentes, que diziam considerarem-se todos acusados, uma vez que não eram nominados os destinatários da carta lida. Isso diante da mudez das professoras presentes.
A leitura da carta foi gravada pelos alunos, e apesar de não autorizada pelos professores, a gravação logo foi postada no Youtube. Isso gerou enorme embaraço, constrangimento e pronta reação da direção da Universidade, a postagem logo foi retirada. Mas as ações que se seguiram não visaram apurar a denúncia feita pelas alunas, mas sim abafar o caso. E assim foi feito. Mediante acordos entre as alunas e a direção da Universidade, cujos conteúdos nunca foram divulgados, o caso foi esquecido.
Este episódio realça a importância da iniciativa do DCE atual de trazer à tona a delicada questão do assédio e do abuso que ocorrem dentro da Universidade. É hora de um basta, que signifique real sintonia com as questões de gênero e de igualdade de direitos que estão a mobilizar mundialmente a sociedade. Não é possível que os assediadores continuem achando que o assédio, o abuso e a truculência sejam coisas normais do dia a dia, pois em todo lugar tem sido assim. Não é possível as vítimas de assédio, abuso e truculência continuarem com medo de denunciar, pois os denunciados supostamente são o poder, e têm condições de manipular eventuais iniciativas para apurar acontecimentos. Não é possível que a direção da Universidade continue a conduzir as denúncias de assédio com o objetivo de abafá-las e ocultá-las.
Assédio é crime. A impunidade perante um crime sinaliza com o consentimento para praticar inúmeras outras infrações, éticas e administrativas, no dia a dia acadêmico. Isso é omissão. Isso é inadmissível numa Universidade que assuma sua missão de vanguarda, que se proponha a formar profissionais e cidadãos com as qualidades que necessitamos para as colossais transformações que nossa sociedade, nosso país, estão a demandar.

segunda-feira, 5 de março de 2018

Picho – desrespeito ou transgressão?

         Outro dia vi na web a imperdível entrevista de João Luiz Silva (Juca) Ferreira no programa Voz Ativa de Belo Horizonte. Uma frase marcante da entrevista: ─ “Cultura e arte não dividem entre direita e esquerda, dividem entre civilização e barbárie”.
Nessa entrevista discute-se, entre outros temas, se pichação é arte, já que o grafite sim é considerado arte, ele que tem semelhanças (e diferenças!) com o picho. Discussão polêmica. Na entrevista, na verdade também um debate, entre os entrevistadores/debatedores havia os defensores e os opositores do picho como arte. O próprio Juca Ferreira declara que é necessária uma negociação ainda não ocorrida entre os vários protagonistas da questão, pichador, pichado e o cidadão, uma vez que existem nítidos conflitos envolvidos.
Sem dúvida é uma questão delicada. Morador de São Paulo quatro décadas atrás, vi o picho pouco a pouco disseminar-se pela cidade, até transformar ruas de bairros inteiros, imputando-lhes um visual caótico, indecifrável, agressivo e degradante. As pichações agrediam o anteparo que preexistia e o senso estético. E agrediam-se entre si, competindo e devorando-se umas às outras. E parece-me que o mesmo fenômeno está a acontecer em Ponta Grossa atualmente.
Sem dúvida o picho tem alguns atributos muito singulares. Primeiro, é uma forma de expressão, possivelmente de quem tem dificuldades de encontrar outras formas de expressão. Segundo, é uma forma de transgressão. E, como diz uma respeitada e estimada amiga, ─ “Transgredir é preciso.” Sem uma saudável transgressão estagnaríamos na mesmice. Mas só transgredir não basta. Para evoluir é preciso também o diálogo, a empatia, que nos permitem discernir qual é a transgressão benéfica. Terceiro, o picho é também desrespeito. Estranha pelo seu hermetismo, degrada o que lá existia antes de ser pichado, às vezes um monumento, uma edificação histórica tombada, ou simplesmente uma parede que o proprietário zeloso acabou de pintar.
Aí surge o conflito não solucionado. Haverá solução? Ou será que o conflito, e as inevitáveis transformações que ele naturalmente gera, é preferível a uma solução, uma concertação?
Creio ser essa a ausência de entendimento a que Juca Ferreira se refere. Atrevo-me uma opinião a respeito, opinião de quem não é da área de arte nem comunicação. Constato que a ausência de entendimento, em todas as áreas, prospera no mundo atual em que atuam forças hegemônicas globalizadas que pressionam para uma uniformização de conceitos e expressões. Isto sufoca e gera consequente resistência, revolta, competição, desrespeito e agressão.
O que distingue a espécie humana das demais espécies é a suposta capacidade de refinada reflexão e comunicação. Mas parece que cada dia estamos exercitando menos esta capacidade. Não só no campo da expressão, como é o caso do picho. Mas também da cor da pele, do gênero, da classe social, do lugar de origem, do time de futebol, da ideologia, do partido político...
Quem é o intolerante e tirânico? Quem picha ou quem condena o picho?

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Lula preso é justiça ou consumação do golpe?



Este texto é réplica ao texto Lula pode e deve ser preso publicado nos jornais Diário dos Campos e Jornal da Manhã de 10/02/18. Foi enviado aos jornais e não foi publicado no Diário dos Campos.
Semana passada jornais de Ponta Grossa estamparam opinião de advogado da cidade afirmando que Lula pode e deve ser preso. Opinião divergente tem um dos juristas de maior reconhecimento no mundo, o italiano Luigi Ferrajoli, que tem se manifestado sobre o julgamento de Lula. Ironicamente, o jurista italiano é um teórico renomado citado com frequência pelos procuradores acusadores de Lula na Lava Jato.
Segundo Ferrajoli o julgamento deu-se com impressionante parcialidade, só explicável pela finalidade de por fim aos governos democráticos de base popular de Lula e Dilma. O processo deu-se de forma inquisitorial, com o juiz, que deveria ser imparcial, assumindo nítido papel de acusador, destruindo o princípio básico da justiça. As evidências dessa parcialidade são: a espetacularização midiática e demonização de Lula alimentada por sucessivos pronunciamentos seletivos dos juízes, demonstrando hostilidade e pré-julgamento que justificariam rejeição dos magistrados; tendenciosa avaliação das delações premiadas, assumidas como verdadeiras ou falsas em função das hipóteses acusatórias; a simultaneidade com o juridicamente frágil impedimento de Dilma, os dois procedimentos com significado político de uma orquestrada operação de retrocesso democrático; a aceleração do processo de modo a impedir a participação de Lula nas eleições presidenciais.
Não bastasse a ilegitimidade dos juízes da Lava Jato que agem como tendenciosos acusadores, é bom lembrar que existem denúncias de que o juiz Sérgio Moro e outros tenham participado de treinamentos patrocinados pelos EUA  para que a justiça no Brasil viesse a funcionar de acordo com interesses do Tio Sam, principalmente no que diz respeito à política e aos recursos naturais do país, como o petróleo do pré-sal. A farda substituída pela toga. Formulam estas denúncias cientistas políticos respeitados no Brasil e no mundo, como Marilena Chauí e Jessé Souza.
Há analistas políticos que comparam o julgamento de Lula com os tribunais do Santo Ofício durante a inquisição na idade média: espetáculos em praça pública eram realizados para queimar o herege condenado de antemão, em nome do férreo poder da igreja. Hoje a mídia tem um alcance muito maior que a praça pública. Ela, com o judiciário, o legislativo e o executivo, estão conluiados para manter o poder no Brasil na mão de ambiciosos entreguistas, que estão rifando as riquezas do país e explorando e imbecilizando a população, matando nossos sonhos de soberania e democracia.
O verdadeiro golpe de estado no Brasil foi realizado pelos interesses de oligopólios e rentistas que não se conformaram com os governos populares que procuraram distribuir renda, promover justiça e inclusão social e tornar o Brasil um país soberano frente à hegemonia dos interesses internacionais controlados por EUA e União Europeia. O golpe destituiu a presidenta legitimamente eleita pela maioria da população e colocou em seu lugar um fantoche político que traiu o programa de governo com o qual se elegeu e atua desavergonhadamente em favor dos interesses da elite do dinheiro.
A mídia sim executou exemplarmente as táticas de condicionamento reflexo da população semelhantes àquelas utilizadas durante o nazismo, a ponto de grande parte da classe média passar a apoiar o golpe prejudicial a si mesma, que significa um retrocesso enorme nas possibilidades do país firmar-se como nação democrática, independente e com crescente justiça social. A demonização do Partido dos Trabalhadores, único partido popular que chegou ao poder no país, mostra isso. Como se os descalabros cometidos pelo PT e seus quadros não fossem cometidos também pelos outros partidos, por empresários, advogados, médicos, militares, e, infelizmente, por tanta gente neste nosso país.
Lula tem afirmado que vai ser candidato, independente do rumo de seu julgamento. Isso porque ele ainda aparece em primeiro nas pesquisas eleitorais. Ou seja, boa parte dos brasileiros não se deixou lograr pelas obstinadas táticas de imbecilização empregadas pelo conluio da elite do dinheiro.
Nem todos somos otários.