domingo, 23 de novembro de 2025

Matem o mensageiro

 Publicado no Jornal da Manhã em 25/11/2025.

 

Matem o mensageiro (em inglês Kill the messenger) é o nome do filme estadunidense de 2014 dirigido pelo independente Michael Cuesta, baseado no livro homônimo de Nick Schou e no livro Dark alliance, de Gary Webb. É um daqueles poucos mas essenciais filmes hollywoodianos que não cultivam a ilusão de um glamoroso e honrado EUA. Pelo contrário, denunciam as entranhas corrompidas e enfermiças do império que quer posar de paladino da liberdade, da democracia e da virtude.

Matem o mensageiro revela as conexões da CIA com o narcotráfico durante a década de 1980, denunciadas por série de artigos escritos pelo jornalista investigativo Gary Webb, publicada em influentes jornais dos EUA sob o título de Dark Alliance (Aliança sombria). Segundo os artigos, os livros e o filme, a CIA vendeu para minorias marginalizadas dentro dos EUA a cocaína obtida de narcotraficantes, e usou os recursos auferidos para financiar os Contras da Nicarágua, grupo armado empenhado na derrubada do governo popular de reconstrução nacional, de tendência socialista. Ou seja, a CIA atuou a favor de terroristas – os Contras –, em oposição a um governo de libertação nacional que livrara o país de um ditador pró-EUA (Anastasio Somoza). Os contras foram financiados pelo dinheiro da cocaína – transformada em crack – vendida para populações segregadas, indesejadas pela supremacia branca, dentro dos próprios EUA. Muito estranhamente, o jornalista Gary Webb foi encontrado morto em sua residência em 2004, com dois tiros na cabeça. A causa da morte alegada foi suicídio, uma inexplicável contradição.

Há outros episódios que ganharam notoriedade e chegaram às telas cinematográficas, revelando as relações da CIA com o narcotráfico. Um deles é o Feito na América (American made), de 2017, dirigido por Doug Liman e estrelado por Tom Cruise. O filme é baseado na vida real do piloto e traficante de drogas e armas Barry Seal, nos mesmos anos 1980, cooptado pela CIA para funcionar como agente duplo, envolvendo o Cartel de Medellin. O piloto também acabou assassinado, supostamente por membros do cartel colombiano.

Esses dois filmes baseados na realidade são só uma pequena mostra do que os EUA e suas agências de segurança são capazes de fazer, para submeter governos e oportunidades econômicas aos seus interesses. Neste caso, aliando-se a narcotraficantes e traficantes de armas. Noutros, apoiando golpes, deflagrando revoluções, arapongando e sabotando governos, promovendo guerras tarifárias, jurídicas, cognitivas, híbridas ou armadas.

As atrocidades estadunidenses para proteger seus interesses e sua ideologia sempre vêm travestidas: ou é o combate ao comunismo, ou à corrupção, ou ao terrorismo, e agora ao “narcoterrorismo”. O país mancomunado com narcotraficantes e com tiranos como Bin Laden, Saddam Hussein e o Talibã agora posa de inocente, com o objetivo de dar pretexto à intromissão armada na América do Sul. Infelizmente, parece que as artimanhas do Tio Sam conseguem iludir boa parte da população lograda: o comunismo ainda é visto como um fantasma mundial, a corrupção parece só existir fora dos EUA, narcotraficantes são os latino-americanos.

Neste caso, o rei não está nu. Mas suas luxuosas máscaras exalam forte mau cheiro.

sábado, 1 de novembro de 2025

Diálogos celestiais II *

 

O Criador notava que seu obsequioso ordenança não tirava os olhos de um pontinho luminoso no universo, perdido no meio daqueles incontáveis astros materializados no grande cenário de plasma quântico que embebia toda a sala de controle celestial:

─ Pedro, já passou da hora do expediente, e você ainda aí? O que tá te incomodando tanto, amigo?

─ Ah, Mestre! É ainda aquele planeta que é uma das joias de nossa criação.

─ Sei! Você tá falando da Terra, né?

─ Ela mesmo! Não consigo me conformar!

─ Diga lá! Desta vez o que o aperreia, homem de Deus?

─ Como isso é possível? Tem visto o que anda acontecendo por lá? É muita insanidade!

─ Ué, mas não tínhamos previsto tudo isso?

─ Não, não! Livre arbítrio é uma coisa, mas estultícia é outra!

─ Calma, Pedro. O que é que faz você pensar que o livre arbítrio tá virando estultícia?

─ Caprichamos como nunca na feitura daquele planeta, lembra? A distância certa de um Sol benfazejo, atmosfera protetora, mares imensos cheios de vida, ventos que sopram a água e fertilizam os continentes, florestas com uma biodiversidade inigualável, dias e noites, verões e invernos, períodos glaciais e interglaciais que fazem tudo renascer e renovar... E o que fazem aquelas almas alucinadas, que pensam que são a espécie mais evoluída? São uns bárbaros, tão ameaçando colocar tudo isso a perder!

─ Ué, não era bem esse nosso intento? Conceder-lhes o paraíso pra ver se teriam juízo pra cuidar dele?

─ Pois é! Não concedemos só o paraíso. Concedemos também a engenhosidade. Têm inteligência pra criar. Mas parece que têm feito com a benesse da inteligência o mesmo desatino que têm feito com as bênçãos da natureza do planeta.

─ Você não tá sendo muito injusto e precipitado no seu julgamento, Pedro?

─ Tomara que eu esteja, Mestre! Que seja só impaciência, ansiedade minha.

─ No passado você já andou deprimido com os despautérios das almas que enviamos pra Terra. Mas lembro que superamos isso. O que acontece agora que você teve essa recaída de incredulidade?

─ Ah, Mestre. Acho que as mesmas coisas de antes, só que mais descaradas e críticas: a mentira alastrada com ajuda de ciência, tecnologia e muita malícia; aquele seu filho martirizado, enviado pra lá em missão de salvação, agora transformado em profeta da prosperidade, da dominação e do ódio; os governos sendo dominados por corporações que tudo precificam; o dinheiro sendo mais endeusado que tudo aquilo que criamos lá; a pobreza disseminada e a riqueza concentrada... É muita coisa! Até o futebol, o esporte que parava o planeta inteiro, tá dominado por apostas que compram jogadores, juízes e resultados. E um prêmio antes muito conceituado, um tal de Nobel da Paz, vem sendo concedido a promotores e promotoras da guerra, do caos e do ódio. Tudo passou a ser disputa com fim ideológico e de dominação. Esqueceram o que é ética e solidariedade.

─ Pedro, insisto! É errando que se aprende. Eles dizem lá que escrevemos certo por linhas tortas. Um jeito deles não quererem reconhecer os próprios erros. Mas, com o tempo, têm aprendido.

─ Verdade! Não tem como não ver que, digamos, de 500 anos atrás até hoje, a sociedade melhorou. Mas antes não tinham bombas atômicas, satélites armados... Mestre, sabia que nossos concorrentes lá nos quintos dos buracos negros do universo tão com uma maciça campanha publicitária? Convencem o povo da Terra que democracia quer dizer o mando do demo, e não o mando do povo. E o povo engole isso! Pode ser?

─ Calma Pedro! Muita calma! Já disse, você esqueceu. É assim mesmo que funciona a evolução. Se não souberem usar com bom senso as graças que receberam ─ o planeta Terra e a engenhosidade ─ vão acabar destruindo a natureza e a si mesmos.

─ Mestre, por isso meu desespero! Que desperdício! Um planeta e uma espécie tão promissores!

─ A evolução funciona assim, não esqueça. Se promoverem o autoextermínio, o planeta vai se recuperar. E vai aparecer outra espécie, que talvez tenha mais sensatez.


Ver neste blog as crônicas “Diálogos celestiais” (29/01/2022) e “Diálogos infernais” (19/07/2022).