quarta-feira, 16 de setembro de 2026

STF - Boi de piranha ou bode expiatório?

 

Às vésperas de eleição decisiva para o futuro do Brasil, a população vê-se diante de um escarcéu inusitado: o STF julgando a si mesmo. Um espetáculo tão estrondoso que nos esquecemos de Ucrânia, Palestina, Venezuela, Cuba, Irã, Trump, taxações, eleições, Banco Master... Opa! Parece ser esse o principal objetivo do espetáculo: distrair a atenção dos brasileiros sobre o que acontece de verdade, e como essa verdade pode influenciar as eleições.

O julgamento no STF pode estar funcionando como o boi de piranha, sacrificado para passar a boiada que escapa da voracidade de um cardume ensandecido. Se há uma vítima nessa estória, é o boi sacrificado. Quem é a boiada que escapa? Quem é o cardume voraz? A boiada pode referir-se a todos aqueles implicados no caso Banco Master, dizem ser o maior golpe financeiro de todos os tempos, envolvendo dinheiro público de bancos e fundos de pensão estatais, verba parlamentar e dinheiro roubado de aposentadorias do INSS. Os implicados vão desde governadores em exercício, ex-presidentes, deputados, senadores, ex-ministros, banqueiros, juízes do STF e, principalmente, o candidato da extrema-direita na eleição que se aproxima. É uma boiada que escancara a metástase da corrupção na nossa jovem democracia. O cardume voraz talvez seja a lograda opinião pública, confusa com tanta desinformação e iniquidade da mídia corporativa, que manipula o senso comum.

Também podemos encarar o julgamento no STF como a malhação do Judas no Sábado de Aleluia, véspera da Páscoa. Judas, tido como o traidor de Jesus, pode ser visto também como o bode expiatório da disseminada perversão da sociedade. A população simples, não tendo forças para combater quem a submete e explora, revolta-se não contra seu real opressor, mas quem é confundido com ele. Este logro não é casual: ou é manipulado pela mídia, ou é fruto do ódio irracional cultivado não só pela mídia, mas por refinada guerra cognitiva.

A história de Judas é controvertida. Teria ele, de fato, entregado Jesus aos romanos não como um ato de traição, mas com o intuito de provocar no seu Mestre a revolta armada? Não compreendeu o apóstolo que a mensagem de Jesus era de amor, e não de guerra? Teria Judas se suicidado ao dar-se conta, tardiamente, de seu equívoco? Há alguma comparação entre Judas e o STF que está sendo malhado agora? Tanto Judas quanto o STF parecem ter tido o intento de fazer justiça. Talvez ambos tenham errado na escolha de como fazer isso, diante das circunstâncias de cada caso.

De qualquer modo, aqueles que pretendem que as próximas eleições elejam o presidente que vai entregar o Brasil para a sanha do capital internacional, devem estar bem felizes. O que era para ser a identificação e condenação dos envolvidos na roubalheira do Banco Master tornou-se o espetáculo da degradação das normas e ritos do STF, da PGR, do Congresso e da Polícia Federal.

Enquanto isso, a boiada vai passando. E, na casa de apostas, variam os índices de chance de cassação de ministros do STF.

domingo, 6 de setembro de 2026

O fígado e o coração

 Publicado no Jornal da Manhã em 09/09/2026.

Diz a sabedoria popular que o fígado é o órgão da raiva e da agressividade, e o coração o órgão do amor e da paz. Esta divisão dos nossos humores entre os dois órgãos vitais traduz bem nossa natureza de seres tão ambíguos. Diz-se também que o íntimo de cada um de nós é habitado por um lobo voraz e um dócil cordeiro. Ora um, ora outro se manifesta, predomina aquele que alimentamos mais. Devemos crer que eles não se manifestem ao mesmo tempo. Se assim fosse, decerto o lobo devoraria o cordeiro. É preciso que o lobo se recolha para que o cordeiro assuma e o coração possa emanar bondade e compreensão.

Por sua vez, o cordeiro retira-se para que o lobo extravase os figadais humores de raiva, incompreensão e agressividade. Humores não necessariamente negativos. São eles, por exemplo, os responsáveis pela transgressão das normas vigentes, fazendo-nos evoluir. Quando é o cordeiro que se manifesta, pelos sentimentos do coração, ele transmite ao seu entorno a paz e a harmonia. Quando é o lobo que espicaça o fígado, ele dissemina não só o inconformismo, mas também a intolerância, a irracionalidade e o ódio. Guerra ou paz são os corolários previsíveis do predomínio do lobo ou do cordeiro, do fígado ou do coração.

Atualmente a população humana ultrapassa oito bilhões de almas, e acumulamos armas de destruição capazes de devastar o planeta várias vezes. Como nunca antes na história, é preciso cuidar de qual dos dois extremos estamos manifestando: o fígado ou o coração, o lobo ou o cordeiro. Esse dilema parece ser o desafio existencial que a natureza nos coloca, para a evolução decidir se temos chance, fazemos jus às benesses que a providência nos concedeu, ao que tudo indica em caráter provisório, experimental.

A nós, seres humanos, de comprovarmos se merecemos ou não tais benesses. Se formos merecedores, sobreviveremos, evoluiremos, daremos um passo no rumo da compreensão do sentido da vida, da dimensão do universo e de nosso papel nele. Se não formos merecedores, talvez deixemos o exemplo de fracasso para outras espécies melhor adaptadas que nos sucedam.  Nós mesmos já somos a tentativa de evolução resultante do fracasso de muitas espécies extintas que nos antecederam.

Ao refletirmos sobre as benesses da providência, que surpreendente paradoxo! O planeta Terra precisou de bilhões de anos para transformar-se e evoluir até tornar-se um lar milagroso, que nos acolhe, protege com afeto e generosidade, tudo nos provê. Já o “Homo sapiens” precisou de centenas de milhares de anos para evoluir até espalhar-se por toda a superfície do planeta, desenvolver incrível engenhosidade e capacidade de invenção, reflexão e sentimento. E é justamente essa extraordinária evolução que ameaça extinguir a espécie.

Se não soubermos balancear os humores do lobo e do cordeiro, do fígado e do coração, usaremos as bênçãos que a providência nos concedeu para nossa própria extinção. Oxalá os humores do lobo sejam bem empregados para nossa salvação, e os do cordeiro e do coração sejam nossa iluminação.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A cura da demência da humanidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/09/2026.

Sim, a humanidade está doente! Uma doença que não é só orgânica: é também mental, emocional, espiritual. O suposto Homo sapiens está dementado, substituiu a sapiência pela demência. O principal sintoma é que as pessoas perderam a capacidade de discernimento. Não conseguem mais distinguir verdade de mentira, liberdade de vassalagem, justiça social de exploração, dignidade de humilhação, esperança de engodo, estadistas de oportunistas, democratas de fascistas. As consequências são as ditaduras, guerras, exclusão social, concentração de riqueza, crescente criminalidade, insegurança, medo, mais guerras, crise ambiental, falência da ética e da honestidade, monetarização da fé...

Qual poderia ser a cura? Sucintamente, pode-se dizer que a cura seja assumir, enfim, o compromisso de discernir, e adotar postura que fortaleça a saúde, do indivíduo e da sociedade. Esse talvez seja o desafio primordial do ser humano, e da civilização: ser capaz de enxergar as diferenças e de cooperar com a harmonia do todo, com a convivência pacífica, amorosa, edificante. Entretanto, tal cura pressupõe a determinação de superar atributos inseparáveis do Homo sapiens: agressividade, concupiscência, ânsia de poder e conquistas, competitividade, narcisismo...

Claro, também somos amorosos e compreensivos; mas a luta interna dentro de nós tem sido desigual. A história da humanidade, uma sucessão de insanos conquistadores e suas nefastas conquistas, revela-nos isso. Não aprendemos com as eras de invasões, perseguições, escravidão, guerras, obscura ignorância. No século XXI continuamos a nos comportar como bárbaros, agora com tecnologias e armas sofisticadas.

Então como pensar em ser capaz de curar uma doença que parece incurável? Falar em assumir o compromisso de discernir é uma tarefa por demais racional. E o ser humano é, antes de tudo, irracional. Mas é bem possível que a cegueira da irracionalidade possa ser contornada pela subjetividade e pela intuição. Assim procuram nos ensinar os sábios místicos, desde a remota antiguidade. E ainda não aprendemos! A compreensão dos sábios parece-nos inalcançável. Talvez porque imaginemos muito distante a possibilidade da cura, que, na verdade, está muito perto; está dentro de nós.

Sou de família de orientação cristã, conheço um pouco o que dizem os cristãos: “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”. Penso que todas as verdadeiras religiões – que religam o homem mundano ao ser luminoso que o transcende, latente dentro de nós – apregoam mais ou menos o mesmo mandamento básico, com palavras diferentes. Outro grande desafio! Sabemos o que seja “amar”? Quem seja “Deus”? Qual Deus? O da Bíblia? O de Spinoza? O de Saramago? Ou o que sejam “todas as coisas”, quer dizer, o mundo? Reconhecemos o “próximo”, o nosso semelhante? Temos consciência de quem somos nós, o “si mesmo” da máxima cristã?

Dedicar-se a responder estas perguntas pode ser o passo essencial para a cura do nosso próprio ser, o “si mesmo”. Curando-nos, estaríamos contribuindo para curar a humanidade. Arte, cultura e sensibilidade poderão ajudar a alcançar as respostas.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Caminhada dominical em Ponta Grossa

 Publicado no Diário dos Campos em 21/08/2026 e no Jornal da Manhã em 25/08/2026.

Depois do evangelho no lar e do passeio com a cachorra pelo bairro, a esposa e eu resolvemos fazer uma caminhada dominical matinal, aproveitando os ares primaveris em Ponta Grossa. Embora o calendário afirme que estamos em pleno inverno, a natureza já está renascendo: as avoantes já têm ovos nos ninhos, a sibipiruna já está plena de brotos, a pitangueira carregou-se de flores visitadas por um enxame de operosas abelhas, os sabiás já estão ensaiando seus sonoros cantos madrugadores, o termômetro marca, de manhã bem cedo, temperatura quase de verão.

Nossa caminhada foi da Vila Estrela, onde moramos, até o Parque Ambiental, bem no centro da cidade. Ao longo do belvedere que é a Rua Jacob Holzmann – o mirante natural de onde se descortinam os Campos Gerais –, fomos constatando que muitos citadinos, como nós, aproveitavam a manhã primaveril: caminhantes, corredores, passeadores de cães, pais com os filhos percorriam as calçadas de onde se desfruta a paisagem do vale do Arroio Olarias e, mais adiante, dos horizontes colinosos da porção leste, onde o sol, a lua, as estrelas levantam-se para saudar a cidade.

Enquanto caminhávamos, outros belos sinais da adiantada primavera foram se revelando: entre eles, os alvos chumaços da paineira bem ao lado da marquise da feira popular, que sob a brisa se desfaziam em uma revoada de flocos brancos esvoaçantes, carregando para longe da árvore as sementes, dispersando os descendentes. Mas além dos encantos, vimos também motivos de apreensão. O piso da calçada utilizada pelos transeuntes com muitas irregularidades, lajotas deslocadas com sobressaltos ou depressões, às vezes ausentes, com buracos. Uma ameaça para os desatentos, que, em busca de saúde, podem encontrar um transtorno ortopédico, de menor ou maior gravidade.

Outro dissabor, as condições da miniarena junto ao Centro Esportivo para Pessoas com Deficiência: inúmeros cacos de vidro de garrafas quebradas, propositalmente espalhados, junto com muito lixo – garrafas pet, sacos plásticos, copos, pratos, embalagens – denotando uma intencional depredação de um espaço público que deveria ser destinado à cultura, livre, franqueado a toda a população. Talvez uma revolta de uma parte dos moradores, que preferiria naquele local um equipamento urbano diferente?

Entrando no Parque Ambiental, topamos com um grupo praticando os graciosos exercícios do Tai-Chi, a milenar arte chinesa para a saúde holística. Suaves e belos movimentos, harmonizados com o ambiente da radiosa manhã e das árvores ao redor.

Mais adiante, notamos os plátanos desfolhados, estes parece que submissos ao inverno ditado pelo calendário. Chamou atenção a quantidade de bolotas, ou glomérulos, que estão prestes a eclodir, quando liberam incontáveis sementes com pelos, para facilitar a disseminação pelo vento. Essas sementes são um potente alergênico, motivo pelo qual na Europa, de onde o plátano é nativo, as árvores são sempre podadas antes da explosão dos glomérulos. Oxalá os responsáveis pela arborização urbana estejam cientes do risco dos plátanos para a saúde pública, e façam a poda preventiva.

Já próximo ao módulo policial, perto da passarela sobre a Av. Dr. Vicente Machado, outro estranhamento: algumas árvores ressequidas, de verde só as ervas-de-passarinho, parasitas responsáveis pela morte da hospedeira. Suas pequenas bagas negras são muito apreciadas pelos pássaros, que propagam esta parasita pelas outras árvores. É preciso eliminar estas plantas logo que elas aparecem – um trabalho a ser feito por bons jardineiros –, para evitar que matem a hospedeira, e para conter a disseminação da parasita. Em compensação, poder-se-ia plantar pitangueiras para os pássaros.

A caminhada matinal dominical revela-nos maravilhas da cidade e seu povo, e também mostra que ainda há muito o que melhorar no cuidado urbano.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cidade do Silêncio – a impunidade do feminicídio

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/08/2026;

Cidade do Silêncio” (EUA, 2007, dirigido por Gregory Nava, com Jennifer Lopez e Antonio Banderas) é um daqueles filmes seminais, baseado em fatos reais. Um alerta atualíssimo, que não podemos deixar de ver. Seu título original é “Bordertown”, “cidade fronteiriça”, referindo-se à mexicana Juárez, situada na fronteira com os EUA. O filme é de 2007, mas agora, em 2026, mais do que nunca, escancara-se no mundo o tema tratado: a sanha do domínio imperialista que provoca tragédias humanas, econômicas e culturais nos países submetidos.

Em 2007 vigorava o NAFTA, o acordo de livre comércio que isentava de tarifas alfandegárias México, Canadá e EUA. Instalaram-se em Juárez as ditas “indústrias maquiladoras”, montadoras de aparelhos com componentes importados, e depois exportados para os EUA por preço barato. Graças à isenção das tarifas e ao trabalho quase escravo realizado por mulheres, a maioria jovens. Nas palavras da protagonista do filme, Lauren Adrian (interpretada por Jennifer Lopez), uma jornalista inconformada, não era um tratado de comércio; era um tratado de escravidão e abuso.

Entre os anos de 1990 e 2010, estima-se que milhares de jovens trabalhadoras exploradas nas maquiladoras tenham sido estupradas, assassinadas e “desaparecidas”, com a conivência das autoridades locais e dos países importadores, subservientes ao poder do dinheiro das empresas envolvidas. Juárez tornou-se a razão da disseminação mundial da expressão “feminicídio”, e da luta de organizações não governamentais humanitárias contra esse persistente flagelo.

O filme é uma daquelas corajosas realizações cinematográficas que denunciam as barbaridades escondidas por trás de um falso desenvolvimento. Quem lucra com as fábricas maquiladoras são os oligarcas mexicanos e os grandes comerciantes importadores estadunidenses. Às trabalhadoras de Juárez resta a criminalidade, a corrupção, a pobreza, o esgarçamento de toda a estrutura social, a perda da identidade, o estupro e a morte. Elas moram em precaríssimas favelas, conversam em três idiomas diferentes: o espanhol, o inglês e as línguas nativas da população pobre, expulsa de seus territórios tradicionais e empurrada para a escravidão nas grandes cidades industriais pela ganância das elites locais.

Não se iluda quem acredita que os EUA têm interesse de levar segurança e prosperidade a quem quer que seja, fora do seu próprio território. É o que o extinto NAFTA mostrou, e que outros “acordos” que o substituíram ainda provocam. Juárez exemplifica bem o conceito de exploração imperial e de “externalização de custos”: o baixo preço pago pelos estadunidenses pelos computadores e televisores produzidos na cidade era à custa da tragédia social e ambiental no país vizinho.

Atualmente os EUA já não ocultam sua compulsão expansionista atrás de supostos acordos de comércio. Ucrânia, Gaza, Venezuela, Irã, as ingerências nas eleições e nos governos de Argentina, Peru, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Chile, Cuba, Nicarágua, Bolívia, Brasil... são prova disso. A era da (falsa) diplomacia foi substituída pela era da desinformação e da intimidação econômica e pelas armas.

Não nos faltam alertas, vindos até da produção cinematográfica dos próprios EUA, como é o filme “Cidade do Silêncio”.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Neymar, o filho de um Brasil

 Publicado no Jornal da Manhã em 11/08/2026.

Sim, filho “de um” Brasil, e não filho “do” Brasil. Nosso país é um dos campeões mundiais de contrastes, desigualdades, segregações e injustiças. Traços funestos que são fruto da combinação de muitos fatores: a colonização extrativista, o extermínio dos nativos, a demorada escravidão, as elites oligárquicas, gananciosas e reacionárias, a extensão e diversidade territorial, a mistura de raças, religiões, culturas... O Brasil delimitado nos mapas inclui muitos brasis. Decerto cada um deles tem seu próprio filho.

Vendo-se a lista de celebridades brasileiras hoje com o maior número de seguidores nas redes sociais, uma surpresa: os três primeiros nomes são de jogadores de futebol. Começa com Neymar, seguido de Ronaldinho Gaúcho e Marcelo, estes dois últimos já afastados do profissionalismo. O número de seguidores de Neymar é maior que a população do Brasil! Ele é um ídolo não só em nosso país. Que força do futebol! Neymar tem quatro vezes mais seguidores que a cantora Anitta, a única não futebolista entre os cinco primeiros da lista de celebridades. Somos mesmo o país do futebol, esse lúdico entretenimento que galvaniza as paixões nacionais, superando até a polarização ideológica.

Mas o que acontece com o futebol, e seu símbolo nacional atual, Neymar? Ambos estão em crise, isso é evidente. Exceto o meia atacante, que parece agonizar no Santos agonizante, já não temos craques de expressão. Não ganhamos uma copa há 24 anos, nem mesmo ganhamos outros títulos internacionais relevantes. E Neymar parece um eterno ególatra ressentido, à beira de um ataque de nervos. Não dura num time, provoca a cizânia por onde passa. Frequentemente lesionado, é ausência em jogos decisivos, provoca e desacata adversários, colegas de time, árbitros e parece que até mesmo o técnico e a direção do clube. É vergonhoso vê-lo em situações como a cobrança do pênalti ao final do jogo que o Brasil perdeu para a Noruega, ou a afronta aos jogadores do Remo no jogo pela Copa do Brasil em Belém do Pará. O que acontece com Neymar e com o futebol que um dia nos salvou do complexo de vira-lata?

O craque, como tantos brasileiros, também é filho de família humilde, que teve de lutar para sobreviver, vencer preconceitos e melhorar de vida. Um início não muito diferente de outro já celebrado “filho ‘do’ Brasil”, um retirante e metalúrgico pobre que se tornou um dos estadistas mais respeitados no mundo atual. Mas que não é reconhecido em nosso país como o é no restante do mundo democrático. O que aconteceu com Neymar? O que suas centenas de milhões de seguidores esperam de um ídolo, de um líder, e do país?

Num país segregacionista e desigual como o é o Brasil, ter o talento futebolístico que inegavelmente tem Neymar é um meio de vencer a pobreza. Mas há no presente e no passado recente muitos craques brasileiros que souberam fazer de sua libertação um exemplo de superação, de apoio, de solidariedade com os mais marginalizados. Por que, ao invés de financiar megaprojetos que são uma ofensa ao zelo social e ambiental, Neymar não dedica seu estrondoso sucesso financeiro a causas que ajudem a emancipar e a incluir tantos a quem se negam oportunidades?

O talento de Neymar faz pensar nos talentos do Brasil. Que o desequilíbrio do craque nos faça refletir sobre as possibilidades, e riscos, a respeito de nosso futuro.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sem salvação

 Publicado no Diário dos Campos em 31/07/2026.

Sem salvação* é o título de minissérie com seis capítulos (criação de Julie Gearey, Reino Unido, 2026), em cartaz na Netflix. O nome não poderia ser mais acertado. A série consegue ser uma mostra dos conteúdos psicológicos que vão desde o indivíduo, às relações familiares e interpessoais, até a sociedade formada pelo conjunto de pessoas. Parece que nada escapou na construção da trama: patriarcalismo, teocracia, fanatismo, sexualidade e seus transtornos, violência e abusos de todos os tipos, ambição, egoísmo, vaidade, psicopatia, família, superstição, traumatismos, alcoolismo, hipocrisia... São tantas as mazelas do ser humano, e da sociedade que erigimos com elas, que não é fácil enumerá-las todas.

Durante o transcorrer da trama, só uns poucos personagens logram escapar da teia que aprisiona e imobiliza os adeptos de uma seita fundamentalista, que vive numa comunidade num vilarejo do norte do Reino Unido. Outros membros, que ameaçam tomar consciência da mentira que vivem, são sumariamente excluídos da seita e do convívio familiar. Não sem profundos traumas, que são escondidos em nome da preservação da falsa e frágil harmonia.

É impossível não enxergar logo o paralelo entre a seita da série e a sociedade atual. Até mesmo a ignorância dos fiéis, que faculta a manipulação e a ascensão de oportunistas enganadores. Na série, é o radicalismo da seita que proíbe os celulares, televisões, rádios, jornais, revistas. A única leitura aceita é a da bíblia. Na sociedade real que vivemos hoje, a ignorância não vem da proibição: vem da saturação de todas as formas de comunicação com a mentira e a manipulação.

Sem salvação parece ser um retrato fiel do estágio evolutivo da sociedade atual. A seita da série não encontra escapatória da sina de líderes inescrupulosos e manipuladores, e de fiéis entorpecidos, que os endeusam e os elegem. Aquela insana comunidade do norte do Reino Unido é uma metáfora certeira da sociedade do século XXI, em que, em todo o mundo, líderes psicopatas e tirânicos são eleitos e mitificados por populações facilmente ludibriadas.

A fragilidade do caráter da seita da série é a mesma fragilidade de caráter do cidadão comum e da sociedade atual, vítimas fáceis de hábeis farsantes. O mundo de hoje está cheio de falsos líderes, aproveitadores deste momento de crise em que as tecnologias e estratégias de logro e dominação evoluíram muito mais que o discernimento, a compreensão e a ética humanas.

Sem salvação precisa ser vista por todos. A série representa um laivo de lucidez a tentar nos despertar da hipnose em que se encontra a sociedade atual. É possível que nos inspiremos naqueles poucos personagens da trama que têm a lucidez, a dignidade, a coragem de se libertarem. De romper com a farsa, que só faz tolher as bênçãos do potencial humano.

Ser humano; um ser tão contraditório, cheio de imperfeições e bênçãos.


* Foi a amiga Ingrid, do grupo Poesia de Segunda, quem recomendou enfaticamente que víssemos a série. Temos de agradecer a Ingrid por este presente de verdadeira e rica amizade.