De novo, Risonho Sensalva súbito viu-se diante daquele
portal, que agora ele já sabia ser a entrada de um outro mundo (ver as crônicas
Pesquisa celestial, de 1º/01/2018, e Juízo final, de 13/07/2017, neste blog). Sabedor de que se tratava de algo
efêmero, que iria passar sem deixar lembrança, como uma ilusão que parecia uma
realidade mas não passava de um sonho, pôs-se a aguardar seu interlocutor. Como
acontecera das outras vezes.
E logo apareceu, do nada, Rufinus Mercadante, engravatado,
rabinho de cavalo, com aquele mesmo ar de recepcionista de hotel, ou melhor, de
entrevistador de pesquisa de mercado, a serviço de um novo e fantástico
produto. Sorriso no rosto, gestual amigável e descontraído, tablet nas mãos, sem rodeios dirigiu-se
ao desconfiado visitante:
─ Salve meu caro Risonho Sensalva! Que alegria recebê-lo de
novo por aqui!
─ Salve, salve... É, de novo! O que é desta vez, senhor...
senhor...
─ Rufinus Mercadante, a seu dispor. Não se preocupe, é como
das outras vezes. Pode dizer que é uma pesquisa de opinião. A humanidade
cresceu muito, já não é possível gerenciá-la sem saber como está evoluindo o
pensamento do cidadão mediano.
─ Opa! Sou cidadão mediano? Vocês estão entrevistando os
cidadãos medianos?
─ Exato! Três bilhões de criaturas que ainda não decidiram
de que lado estão na divisão radical em que se encontra a humanidade.
─ Três bilhões! Quanta gente! Vão entrevistar todo esse
povo?
─ Não, não! Só uma pequena amostra. Uns trinta milhões. E
você foi um dos contemplados. Sinta-se lisonjeado, homem! Mas vamos ao que
interessa. Primeira pergunta: a seu ver, como anda a humanidade? Bem ou mal?
─ A humanidade? Olhe, não sou muito de pensar na
humanidade. Tenho de trabalhar e lutar por meu emprego, cuidar da família, das
dívidas, ver se os filhos estão com saúde e não se desencaminhando... É muita
coisa! A humanidade, o mundo? Sei lá como estão.
─ Mas já escutou falar da emergência climática, das
guerras, do preço do combustível?
─ Já, claro! Não só escutei. Paguei mais caro pra
reabastecer o carro.
─ Sabe qual a relação entre o clima, a guerra e o aumento
do preço?
─ Olhe, sei sim que tem relação. A Terra está esquentando
porque usamos demais o petróleo, a guerra é por causa do petróleo e o
combustível que encarece vem do petróleo.
─ E é você que paga o preço encarecido. O que acha disso
tudo?
─ Pensando bem, que doideira, né? Vocês aqui na gerência
devem mesmo estar numa sinuca de bico com a humanidade. Mas o que a minha
opinião de cidadão mediano pode fazer por vocês?
─ Ela pode ajudar muito na escolha do caminho diante da
encruzilhada em que a humanidade se encontra.
─ Encruzilhada?
─ Não vê que são dois caminhos? Um para a extinção de uma
raça desatinada, outro para a ascensão a um mundo mais harmonioso e evoluído?
─ Verdade! Como pode? A humanidade tem o dom da
inteligência, e a bênção de um planeta que tudo oferece. Parece que só falta
mesmo juízo! Mas inspirar juízo na humanidade, não é justamente a tarefa desta
gerência aqui...
Nem acabou de falar, num instante Risonho Sensalva de novo
acordou sobressaltado, ao lado da companheira, no seu quarto de dormir. Já de
nada se lembrava, mas tinha aquela mesma sensação de sair de um sonho realista
e importante demais.
Lá no seu mundo, Rufinus Mercadante revisava os dados em
seu tablet. A palavra “juízo”, com seus
incontáveis sinônimos, deflagrara o final de mais aquela entrevista.