Às vésperas de eleição decisiva para o futuro do Brasil, a
população vê-se diante de um escarcéu inusitado: o STF julgando a si mesmo. Um
espetáculo tão estrondoso que nos esquecemos de Ucrânia, Palestina, Venezuela, Cuba,
Irã, Trump, taxações, eleições, Banco Master... Opa! Parece ser esse o
principal objetivo do espetáculo: distrair a atenção dos brasileiros sobre o
que acontece de verdade, e como essa verdade pode influenciar as eleições.
O julgamento no STF pode estar funcionando como o boi de
piranha, sacrificado para passar a boiada que escapa da voracidade de um
cardume ensandecido. Se há uma vítima nessa estória, é o boi sacrificado. Quem
é a boiada que escapa? Quem é o cardume voraz? A boiada pode referir-se a todos
aqueles implicados no caso Banco Master, dizem ser o maior golpe financeiro de
todos os tempos, envolvendo dinheiro público de bancos e fundos de pensão estatais,
verba parlamentar e dinheiro roubado de aposentadorias do INSS. Os implicados
vão desde governadores em exercício, ex-presidentes, deputados, senadores,
ex-ministros, banqueiros, juízes do STF e, principalmente, o candidato da
extrema-direita na eleição que se aproxima. É uma boiada que escancara a
metástase da corrupção na nossa jovem democracia. O cardume voraz talvez seja a
lograda opinião pública, confusa com tanta desinformação e iniquidade da mídia
corporativa, que manipula o senso comum.
Também podemos encarar o julgamento no STF como a malhação
do Judas no Sábado de Aleluia, véspera da Páscoa. Judas, tido como o traidor de
Jesus, pode ser visto também como o bode expiatório da disseminada perversão da
sociedade. A população simples, não tendo forças para combater quem a submete e
explora, revolta-se não contra seu real opressor, mas quem é confundido com ele. Este logro não é casual: ou é manipulado pela mídia, ou é fruto do
ódio irracional cultivado não só pela mídia, mas por refinada guerra cognitiva.
A história de Judas é controvertida. Teria ele, de fato,
entregado Jesus aos romanos não como um ato de traição, mas com o intuito de
provocar no seu Mestre a revolta armada? Não compreendeu o apóstolo que a
mensagem de Jesus era de amor, e não de guerra? Teria Judas se suicidado ao dar-se
conta, tardiamente, de seu equívoco? Há alguma comparação entre Judas e o STF
que está sendo malhado agora? Tanto Judas quanto o STF parecem ter tido o
intento de fazer justiça. Talvez ambos tenham errado na escolha de como fazer
isso, diante das circunstâncias de cada caso.
De qualquer modo, aqueles que pretendem que as próximas
eleições elejam o presidente que vai entregar o Brasil para a sanha do capital
internacional, devem estar bem felizes. O que era para ser a identificação e
condenação dos envolvidos na roubalheira do Banco Master tornou-se o espetáculo
da degradação das normas e ritos do STF, da PGR, do Congresso e da Polícia
Federal.
Enquanto isso, a boiada vai passando. E, na casa de apostas,
variam os índices de chance de cassação de ministros do STF.