Sim, a humanidade está doente! Uma doença que não é só
orgânica: é também mental, emocional, espiritual. O suposto Homo sapiens está dementado, substituiu
a sapiência pela demência. O principal sintoma é que as pessoas perderam a
capacidade de discernimento. Não conseguem mais distinguir verdade de mentira,
liberdade de vassalagem, justiça social de exploração, dignidade de humilhação,
esperança de engodo, estadistas de oportunistas, democratas de fascistas. As
consequências são as ditaduras, guerras, exclusão social, concentração de
riqueza, crescente criminalidade, insegurança, mais guerras, crise ambiental, falência
da ética e da honestidade, monetarização da fé...
Qual poderia ser a cura? Sucintamente, pode-se dizer que a
cura seja assumir, enfim, o compromisso de discernir, e adotar postura que
fortaleça a saúde, do indivíduo e da sociedade. Esse talvez seja o desafio
primordial do ser humano, e da civilização: ser capaz de enxergar as diferenças
e de cooperar com a harmonia do todo, com a convivência pacífica, amorosa,
edificante. Tal cura pressupõe a determinação de superar atributos inseparáveis
do Homo sapiens: agressividade,
concupiscência, ânsia de poder e conquistas, competitividade, narcisismo...
Claro, também somos amorosos e compreensivos; mas a luta
interna dentro de nós tem sido desigual. A história da humanidade, uma sucessão
de insanos conquistadores e suas nefastas conquistas, revela-nos isso. Não
aprendemos com as eras de invasões, perseguições, escravidão, guerras, obscura
ignorância. No século XXI continuamos a nos comportar como bárbaros, agora com
tecnologias e armas sofisticadas.
Então como pensar em ser capaz de curar uma doença que
parece incurável? Falar em assumir o compromisso de discernir é uma tarefa por
demais racional. E o ser humano é, antes de tudo, irracional. Mas é bem
possível que a cegueira da irracionalidade possa ser contornada pela
subjetividade e pela intuição. Assim procuram nos ensinar os sábios místicos,
desde a remota antiguidade. E ainda não aprendemos! A compreensão dos sábios
parece-nos inalcançável. Talvez porque imaginemos muito distante a
possibilidade da cura, que na verdade está muito perto; está dentro de nós.
Sou de família de orientação cristã, conheço um pouco o que
dizem os cristãos: “amar a Deus sobre
todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”. Penso que todas as
verdadeiras religiões – que religam o homem mundano ao ser luminoso que o
transcende – apregoam mais ou menos o mesmo mandamento básico, com palavras
diferentes. Outro grande desafio! Sabemos o que seja “amar”? Quem seja “Deus”?
Qual Deus? O da Bíblia? O de Spinoza?
O de Saramago? Ou o que sejam “todas as
coisas”, quer dizer, o mundo? Reconhecemos o “próximo”, o nosso semelhante? Temos consciência de quem somos nós,
o “si mesmo” da máxima cristã?
Dedicar-se a responder estas perguntas pode ser o passo
essencial para a cura do nosso próprio ser, o “si mesmo”. Curando-nos, estaríamos contribuindo para curar a
humanidade. Arte e cultura poderão ajudar a alcançar as respostas.