Publicado no Jornal da Manhã em 09/10/2026.
Dona Maricota era uma pacífica senhorinha aposentada, de
uma pacata cidadezinha do interior do país. Viúva e com os filhos morando na
cidade grande, a bondosa mãe de família e mulher do lar tinha em seu gato
Norberto sua única e fiel companhia. Apesar de septuagenária, gabava-se de
estar sempre antenada nas redes sociais: frequentava aplicativos de mensagens, de
conversas e gostava de bisbilhotar nos perfis de conhecidos e desconhecidos. Com
as amigas, trocava receitas, novos pontos de tricô e crochê, chás caseiros para
os males da idade, intrigas e fofocas sobre as celebridades do momento e as
novelas da televisão.
Ela percebeu o desusado frisson digital com a proximidade
das eleições, mas não se importou. A política nunca lhe interessara muito, e agora,
para completar, já não era obrigada a votar. Dava graças a Deus por isso.
Entender o que diziam e prometiam os candidatos, discernir entre verdade e
mentira, honestidade e engodo, parecia-lhe um quebra-cabeças sem solução. Preferia
dedicar sua atenção aos cuidados com o gato Norberto, às novelas, à horta de
ervas medicinais no fundo do quintal.
Mas eis que, às vésperas da eleição, recebe no celular uma
surpreendente mensagem, de remetente desconhecido, letras garrafais: - “DONA
MARICOTA, SE A SENHORA NÃO QUER QUE SEU GATO NORBERTO VIRE MORTADELA, ENTÃO NO
PRÓXIMO DOMINGO VOTE SEM FALTA NO CANDIDATO MOEDOR DE CARNE”.
Surpresa, assustada, no começo estranhou a mensagem: justo
um Moedor de Carne para salvar seu estimado Norberto? Aquilo lhe pareceu um
desconexo disparate. Mas depois ponderou que, fosse quem fosse, tão bem
informado que se apresentava, que conhecia seu endereço digital, seu nome, o
nome de seu gato e o apreço que tinha por ele, só poderia ser alguém que
merecesse sua credibilidade. Decidiu atender a recomendação daquela inesperada
mensagem. E até afeiçoou-se ao tal Moedor de Carne, alguém que parecia
preocupar-se com ela e com Norberto.
Teve de revirar várias gavetas até afinal encontrar o
esquecido título eleitoral. Não lhe ocorreu que ele já nem era mais necessário,
bastaria a identidade. Por anos ela não dera nenhuma atenção às eleições, já
nem sabia ao certo como funcionavam.
No domingo, bem cedo apresentou-se para, crédula e convicta,
votar no Moedor de Carne. Não sem antes convocar as amigas para fazerem o
mesmo. Apesar de amorosa, quando formava opinião sobre algo, defendia-a com
fervor.
Para sua grande surpresa e decepção, na hora de votar
descobriu que já tinha votado. Ou alguém votara por ela? Chegou a perguntar-se
se quem lhe enviara aquela misteriosa mensagem era assim tão eficiente, capaz
de até votar por ela.
Convencida pelos mesários de que se tratava de alguma
confusão irrelevante – talvez até uma falha de sua memória –, embora um tanto
frustrada e desconfiada, tranquila voltou para casa. Aproveitou o restante do
domingo para cuidar da horta e das manhas de Norberto.
Na manhã seguinte viu a notícia: Moedor de Carne surpreende
e vence as eleições.