O livro chinês “Tao
Teh King” (ou “Tao Te Ching”),
escrito 500 anos antes de Cristo, resume em 81 concisos e belo poemas a base
filosófica, espiritual e ética do Taoísmo. Ele parece ter sido o inspirador do
Estoicismo, surgido no Ocidente muito tempo depois.
É o livro chinês mais traduzido em todo o mundo. Atribui-se
sua lavra a Lao Tzé (ou Lao Tzu), um erudito bibliotecário da corte. Mas há
quem diga que o livro é uma inspirada compilação de ensinamentos muito mais
antigos. “O caminho da vida e da virtude”
é como é traduzido o nome do livro. A vida talvez seja a oportunidade de
percorrermos o caminho da virtude, para compreendermos o que seja o Tao. O
livro diz: “O Tao é inominável, um
mistério, e nesse mistério está a porta para toda a maravilha”.
Em vários poemas o livro trata da virtude. Afirma que, se estiver
bem plantada, nada será capaz de arrancá-la ou degradá-la. E os versos vão
revelando como a virtude vai se acumulando e se transmitindo ao longo do tempo,
um legado de geração em geração. Por quem quer que seja que a pratique: uma
pessoa, uma família, uma comunidade, um estado, uma civilização... Talvez por
esse motivo o Ocidente tenha tanto a aprender com o Oriente e com a China. Não
só por seu aparente sucesso atual, mas pelo que podem nos ensinar sua rica
cultura e filosofia, que em muito antecedem o florescer ocidental.
As virtudes preconizadas no livro começam pela
simplicidade, o despojamento, a humildade, a lealdade, a paz... O livro diz que
o homem rico é aquele que tem o que lhe basta. Aquele que tem um prato de
alimento para aplacar-lhe a fome pode ser grato e feliz; aquele que conquista
impérios pode estar sempre insatisfeito e ansioso.
Se os valores que constituem a virtude vão sendo acumulados
e transmitidos ao longo do tempo, convém que tenhamos consciência de como
estamos cultivando a virtude em nossa vida: em nós mesmos, na família, na
comunidade em que vivemos, enfim, nesta geração a que pertencemos, neste
momento da história da humanidade. Um momento singular, que nos desafia a ser
capazes de discernir entre virtude e as muitas ilusões que estão a nos testar. E
qual a herança que vamos deixar.
Atualmente vivemos um momento fantástico, talvez comparável
ao momento da borboleta romper a crisálida, ou da ave a termo ao romper a casca
do ovo. O invólucro rígido que aprisiona a emancipação da humanidade tem muitas
caras: é o sistema que estimula a ambição, o individualismo, a competitividade,
os abismos e a exclusão social; o enaltecimento da soberba e do luxo; a
confusão entre verdade e mentira; enfim, a perda do entendimento do que
signifique virtude, e o desvirtuamento do legado que deixaremos para o porvir.
Mas é justamente o desafio deste momento que vivemos que o
torna mais precioso. É chegada a hora de romper o invólucro de inconsciência
que aprisiona o ser humano lúcido, virtuoso, que estamos destinados a ser. Se
soubermos fazê-lo, brindaremos este planeta milagroso que nos acolhe com
encantos como as cores, o voo livre e os sonidos que nos presenteiam as
borboletas e os pássaros.