Civilização e cultura referem-se ao conjunto de normas,
valores, organizações, expressões artísticas, crenças, religiosidade,
conhecimentos, perspectivas, esperanças, hábitos, tradições, espiritualidade,
subjetividade, identidade que regem as sociedades. Em alguns idiomas, como no
alemão, civilização e cultura (bildung
e kultur) são duas palavras com
sentido com diferença capital: civilização é a transformação, o movimento, o
processo que modifica o indivíduo e a sociedade enquanto ela se adapta e
evolui; cultura, talvez mais próxima de erudição, é a somas dos atributos de
uma civilização num dado momento; é a cristalização, o retrato instantâneo da
civilização.
Os dois conceitos são excludentes? Não! Um deles move o
outro, como o diagrama chinês do Yin e Yang, onde as formas circulares
interpenetram-se num harmônico dinamismo. Entretanto, a harmonia só se consuma
no próprio dinamismo: a civilização engendra a cultura, a cultura, a erudição,
traz em si o gérmen da transformação da civilização.
O equilíbrio harmônico entre civilização e cultura é
crucial. O dinamismo descontrolado da civilização pode encaminhá-la para o
colapso das convulsões tresloucadas, que destroem, e não constroem. A história
é um exemplo de sucessão de civilizações extintas por não terem conseguido
balancear a transformação social com o patrimônio cultural acumulado até um
determinado momento. A cultura empodera, seus detentores são tentados a usá-la
não para o progresso, a evolução do coletivo, mas para a dominação, para
satisfazer pulsões de predomínio, posse, supremacia, competitividade e
agressividade, instintos que nem civilização nem cultura conseguiram ainda
domar no ser humano.
Cultura e civilização trouxeram-nos para esta época
globalizada, digitalizada, superinformada e superequipada, trazemos no bolso a
possibilidade de resposta para a grande maioria das perguntas sensatas que
possamos formular. E para onde essa fantástica acumulação e disseminação de
conhecimento está conduzindo nossa civilização? Será que não conseguiremos
escapar de outro colapso?
Há quem diga que foi a falência das civilizações passadas
que permitiu avançássemos até esta nossa surpreendente civilização atual. O
colapso é a morte do velho, que precisa morrer para ser sucedido pelo novo. É
isto que está acontecendo com nossa civilização? Em que a ciência constrói
armas cada vez mais destrutivas, em que tudo – até a religião – vira
mercadoria, a medicina transforma a saúde num comércio que torna reféns os
pacientes, a exploração predatória ameaça o meio ambiente, a digitalização, a
informação e a inteligência artificial são empregadas para a manipulação e o
logro, as riquezas produzidas são acumuladas por poucos enquanto a maioria da
população sofre carências, o acúmulo pessoal de cultura torna-se motivo de
jactância e não de insumo para a evolução social, as indignações, os
inconformismos, as polarizações ideológicas e o ódio só se exacerbam, a
população e os países parecem voltar ao tempo da lei do mais forte que imperava
nos primórdios da humanidade?
Nunca antes tivemos um nível cultural tão evoluído. Nunca
soubemos tanto. Conhecimento acessível, mas talvez nunca tão pouco assimilado.
Não aprendemos nem com os erros dos colapsos de civilizações passadas. Um
destino inevitável? É mesmo o colapso do velho que abre caminho para o novo?
Oxalá assim seja, se formos obrigados a viver o colapso da civilização atual.
Entretanto, lembrando-nos do milenar diagrama chinês do Yin e do Yang, que
sejamos capazes de enxergar que no âmago do clímax de um ciclo que finda germina
a semente do ciclo seguinte.
Podemos reconhecer a proximidade do colapso antes que ele
se concretize, e assim bem empregar a cultura para corrigir a dinâmica da
civilização. Ou, pelo menos, para fortalecer o gérmen do novo. Algo que decerto
podemos fazer com algum alcance social, e algo que também podemos – e devemos –
fazer dentro de nós mesmos.