Publicado no Diário dos Campos em 20/03/2026.
Conversando com amigos que trabalham na formação de
jornalistas, eles compartilharam percepções marcantes: para os estudantes, o
jornalismo da grande mídia perdeu a credibilidade. Daí a pergunta inevitável:
qual a perspectiva desses jovens com seu futuro profissional? A resposta
desencadeia uma torrente de reflexões. Os jovens são hoje muito diferentes
daqueles de 50 anos atrás. Antes, a sociedade, as famílias, ditavam limites e
princípios rigorosos, que eram, em geral, acatados. Hoje, talvez como
consequência da revolta das gerações antes controladas, há um exagero de
liberdade. Com ela vêm as contestações, as muitas pautas identitárias, a
relativização da verdade e, finalmente, a dificuldade de encontrar um rumo num
mundo tornado por demais complexo. E, para complicar, a euforia com novas tecnologias dispersivas e manipuladoras só faz confundir ainda mais liberdade
com libertinagem sem limites.
Esta situação conduz ao excelente livro “O tao da libertação” (M. Hathaway e L.
Boff, Editora Vozes, 2012), que discute três estágios para as dinâmicas
evolutivas, sejam elas da dimensão do cosmo – desde o Big Bang até os sistemas
planetários organizados –, ou da dimensão de uma civilização ou de um indivíduo
– por exemplo a trajetória de uma pessoa ao longo da vida, desde a adolescência
até a maturidade.
O livro fala nos estágios de “diferenciação”, “autopoiesis”
e “comunhão”. A diferenciação é a transformação do que era disforme – o
universo antes do Big Bang, ou o indivíduo antes de distinguir-se da multidão –
em algo que passa a ter identidade. É a conquista da liberdade. Não é mudança
fácil. O universo há bilhões de anos diferencia-se para formar as galáxias e
sistemas solares. O Homo sapiens
precisou de centenas de milhares de anos para aprender a cultivar alimentos, a
organizar-se em cidades e a desenvolver a linguagem. Uma pessoa leva a maior
parte da vida até enxergar seus erros, rir deles, corrigir-se, emancipar-se. A
diferenciação é a libertação, cujo fruto é a diversidade de realidades.
Alcançar a diferenciação é livrar-se dos grilhões de consensos preexistentes,
de dogmas, que são então transgredidos. Diferenciar-se é deixar o conforto do
conhecido para mergulhar no mar profundo da dúvida, do imprevisível e do novo.
Sucede então o estágio da autopoiesis – a construção do
caráter, a poesia, a arte, o belo, a riqueza e firmeza de si mesmo, dos
atributos próprios. O planeta Terra, fruto de uma improvável conjunção de
raríssimas condições que acabam por propiciar o milagre da vida, é um bom
exemplo de autopoiesis. Bilhões de anos de transformações deram origem ao poema
vivo que é nosso planeta e sua biodiversidade. Entre os humanos, temos ao longo
da história exemplos reais ou idealizados de indivíduos, homens e mulheres, que
mostraram ter alcançado a graça da iluminação, do belo, seja nas artes, nas
ciências ou noutros legados. Autopoiesis conduz à lucidez, à compreensão do
mundo e da vida, e, por fim, à amorosidade.
É chegado então o estágio da comunhão. O emancipado
reconhece a alteridade, sintoniza-se com ela. Como o instrumento na sinfônica,
enxerga que sua singularidade, bem como a dos demais instrumentos, são
essenciais para a harmonia do arranjo orquestral. A comunhão é o clímax da
amorosidade, a realização de si mesmo, e de si com o outro. Na comunhão a
diferença completa, coopera, constrói.
De volta à conversa com os amigos, e ao impasse dos jovens
que conquistaram a liberdade mas atrapalham-se com qual rumo seguir agora,
parece ser o caso de lembrar da diferenciação, autopoiesis e comunhão. Os
jovens, ou toda a humanidade, parecem estar num emaranhando limbo de diferenciação
e autopoiesis.
É hora então de saber discernir para escolher o rumo certo
e construir a poesia interior, com o que de mais luminoso nos oferece a vida.