domingo, 6 de setembro de 2026

O fígado e o coração

 Publicado no Jornal da Manhã em 09/09/2026.

Diz a sabedoria popular que o fígado é o órgão da raiva e da agressividade, e o coração o órgão do amor e da paz. Esta divisão dos nossos humores entre os dois órgãos vitais traduz bem nossa natureza de seres tão ambíguos. Diz-se também que o íntimo de cada um de nós é habitado por um lobo voraz e um dócil cordeiro. Ora um, ora outro se manifesta, predomina aquele que alimentamos mais. Devemos crer que eles não se manifestem ao mesmo tempo. Se assim fosse, decerto o lobo devoraria o cordeiro. É preciso que o lobo se recolha para que o cordeiro assuma e o coração possa emanar bondade e compreensão.

Por sua vez, o cordeiro retira-se para que o lobo extravase os figadais humores de raiva, incompreensão e agressividade. Humores não necessariamente negativos. São eles, por exemplo, os responsáveis pela transgressão das normas vigentes, fazendo-nos evoluir. Quando é o cordeiro que se manifesta, pelos sentimentos do coração, ele transmite ao seu entorno a paz e a harmonia. Quando é o lobo que espicaça o fígado, ele dissemina não só o inconformismo, mas também a intolerância, a irracionalidade e o ódio. Guerra ou paz são os corolários previsíveis do predomínio do lobo ou do cordeiro, do fígado ou do coração.

Atualmente a população humana ultrapassa oito bilhões de almas, e acumulamos armas de destruição capazes de devastar o planeta várias vezes. Como nunca antes na história, é preciso cuidar de qual dos dois extremos estamos manifestando: o fígado ou o coração, o lobo ou o cordeiro. Esse dilema parece ser o desafio existencial que a natureza nos coloca, para a evolução decidir se temos chance, fazemos jus às benesses que a providência nos concedeu, ao que tudo indica em caráter provisório, experimental.

A nós, seres humanos, de comprovarmos se merecemos ou não tais benesses. Se formos merecedores, sobreviveremos, evoluiremos, daremos um passo no rumo da compreensão do sentido da vida, da dimensão do universo e de nosso papel nele. Se não formos merecedores, talvez deixemos o exemplo de fracasso para outras espécies melhor adaptadas que nos sucedam.  Nós mesmos já somos a tentativa de evolução resultante do fracasso de muitas espécies extintas que nos antecederam.

Ao refletirmos sobre as benesses da providência, que surpreendente paradoxo! O planeta Terra precisou de bilhões de anos para transformar-se e evoluir até tornar-se um lar milagroso, que nos acolhe, protege com afeto e generosidade, tudo nos provê. Já o “Homo sapiens” precisou de centenas de milhares de anos para evoluir até espalhar-se por toda a superfície do planeta, desenvolver incrível engenhosidade e capacidade de invenção, reflexão e sentimento. E é justamente essa extraordinária evolução que ameaça extinguir a espécie.

Se não soubermos balancear os humores do lobo e do cordeiro, do fígado e do coração, usaremos as bênçãos que a providência nos concedeu para nossa própria extinção. Oxalá os humores do lobo sejam bem empregados para nossa salvação, e os do cordeiro e do coração sejam nossa iluminação.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A cura da demência da humanidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/09/2026.

Sim, a humanidade está doente! Uma doença que não é só orgânica: é também mental, emocional, espiritual. O suposto Homo sapiens está dementado, substituiu a sapiência pela demência. O principal sintoma é que as pessoas perderam a capacidade de discernimento. Não conseguem mais distinguir verdade de mentira, liberdade de vassalagem, justiça social de exploração, dignidade de humilhação, esperança de engodo, estadistas de oportunistas, democratas de fascistas. As consequências são as ditaduras, guerras, exclusão social, concentração de riqueza, crescente criminalidade, insegurança, medo, mais guerras, crise ambiental, falência da ética e da honestidade, monetarização da fé...

Qual poderia ser a cura? Sucintamente, pode-se dizer que a cura seja assumir, enfim, o compromisso de discernir, e adotar postura que fortaleça a saúde, do indivíduo e da sociedade. Esse talvez seja o desafio primordial do ser humano, e da civilização: ser capaz de enxergar as diferenças e de cooperar com a harmonia do todo, com a convivência pacífica, amorosa, edificante. Entretanto, tal cura pressupõe a determinação de superar atributos inseparáveis do Homo sapiens: agressividade, concupiscência, ânsia de poder e conquistas, competitividade, narcisismo...

Claro, também somos amorosos e compreensivos; mas a luta interna dentro de nós tem sido desigual. A história da humanidade, uma sucessão de insanos conquistadores e suas nefastas conquistas, revela-nos isso. Não aprendemos com as eras de invasões, perseguições, escravidão, guerras, obscura ignorância. No século XXI continuamos a nos comportar como bárbaros, agora com tecnologias e armas sofisticadas.

Então como pensar em ser capaz de curar uma doença que parece incurável? Falar em assumir o compromisso de discernir é uma tarefa por demais racional. E o ser humano é, antes de tudo, irracional. Mas é bem possível que a cegueira da irracionalidade possa ser contornada pela subjetividade e pela intuição. Assim procuram nos ensinar os sábios místicos, desde a remota antiguidade. E ainda não aprendemos! A compreensão dos sábios parece-nos inalcançável. Talvez porque imaginemos muito distante a possibilidade da cura, que, na verdade, está muito perto; está dentro de nós.

Sou de família de orientação cristã, conheço um pouco o que dizem os cristãos: “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”. Penso que todas as verdadeiras religiões – que religam o homem mundano ao ser luminoso que o transcende, latente dentro de nós – apregoam mais ou menos o mesmo mandamento básico, com palavras diferentes. Outro grande desafio! Sabemos o que seja “amar”? Quem seja “Deus”? Qual Deus? O da Bíblia? O de Spinoza? O de Saramago? Ou o que sejam “todas as coisas”, quer dizer, o mundo? Reconhecemos o “próximo”, o nosso semelhante? Temos consciência de quem somos nós, o “si mesmo” da máxima cristã?

Dedicar-se a responder estas perguntas pode ser o passo essencial para a cura do nosso próprio ser, o “si mesmo”. Curando-nos, estaríamos contribuindo para curar a humanidade. Arte, cultura e sensibilidade poderão ajudar a alcançar as respostas.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Caminhada dominical em Ponta Grossa

 Publicado no Diário dos Campos em 21/08/2026 e no Jornal da Manhã em 25/08/2026.

Depois do evangelho no lar e do passeio com a cachorra pelo bairro, a esposa e eu resolvemos fazer uma caminhada dominical matinal, aproveitando os ares primaveris em Ponta Grossa. Embora o calendário afirme que estamos em pleno inverno, a natureza já está renascendo: as avoantes já têm ovos nos ninhos, a sibipiruna já está plena de brotos, a pitangueira carregou-se de flores visitadas por um enxame de operosas abelhas, os sabiás já estão ensaiando seus sonoros cantos madrugadores, o termômetro marca, de manhã bem cedo, temperatura quase de verão.

Nossa caminhada foi da Vila Estrela, onde moramos, até o Parque Ambiental, bem no centro da cidade. Ao longo do belvedere que é a Rua Jacob Holzmann – o mirante natural de onde se descortinam os Campos Gerais –, fomos constatando que muitos citadinos, como nós, aproveitavam a manhã primaveril: caminhantes, corredores, passeadores de cães, pais com os filhos percorriam as calçadas de onde se desfruta a paisagem do vale do Arroio Olarias e, mais adiante, dos horizontes colinosos da porção leste, onde o sol, a lua, as estrelas levantam-se para saudar a cidade.

Enquanto caminhávamos, outros belos sinais da adiantada primavera foram se revelando: entre eles, os alvos chumaços da paineira bem ao lado da marquise da feira popular, que sob a brisa se desfaziam em uma revoada de flocos brancos esvoaçantes, carregando para longe da árvore as sementes, dispersando os descendentes. Mas além dos encantos, vimos também motivos de apreensão. O piso da calçada utilizada pelos transeuntes com muitas irregularidades, lajotas deslocadas com sobressaltos ou depressões, às vezes ausentes, com buracos. Uma ameaça para os desatentos, que, em busca de saúde, podem encontrar um transtorno ortopédico, de menor ou maior gravidade.

Outro dissabor, as condições da miniarena junto ao Centro Esportivo para Pessoas com Deficiência: inúmeros cacos de vidro de garrafas quebradas, propositalmente espalhados, junto com muito lixo – garrafas pet, sacos plásticos, copos, pratos, embalagens – denotando uma intencional depredação de um espaço público que deveria ser destinado à cultura, livre, franqueado a toda a população. Talvez uma revolta de uma parte dos moradores, que preferiria naquele local um equipamento urbano diferente?

Entrando no Parque Ambiental, topamos com um grupo praticando os graciosos exercícios do Tai-Chi, a milenar arte chinesa para a saúde holística. Suaves e belos movimentos, harmonizados com o ambiente da radiosa manhã e das árvores ao redor.

Mais adiante, notamos os plátanos desfolhados, estes parece que submissos ao inverno ditado pelo calendário. Chamou atenção a quantidade de bolotas, ou glomérulos, que estão prestes a eclodir, quando liberam incontáveis sementes com pelos, para facilitar a disseminação pelo vento. Essas sementes são um potente alergênico, motivo pelo qual na Europa, de onde o plátano é nativo, as árvores são sempre podadas antes da explosão dos glomérulos. Oxalá os responsáveis pela arborização urbana estejam cientes do risco dos plátanos para a saúde pública, e façam a poda preventiva.

Já próximo ao módulo policial, perto da passarela sobre a Av. Dr. Vicente Machado, outro estranhamento: algumas árvores ressequidas, de verde só as ervas-de-passarinho, parasitas responsáveis pela morte da hospedeira. Suas pequenas bagas negras são muito apreciadas pelos pássaros, que propagam esta parasita pelas outras árvores. É preciso eliminar estas plantas logo que elas aparecem – um trabalho a ser feito por bons jardineiros –, para evitar que matem a hospedeira, e para conter a disseminação da parasita. Em compensação, poder-se-ia plantar pitangueiras para os pássaros.

A caminhada matinal dominical revela-nos maravilhas da cidade e seu povo, e também mostra que ainda há muito o que melhorar no cuidado urbano.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cidade do Silêncio – a impunidade do feminicídio

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/08/2026;

Cidade do Silêncio” (EUA, 2007, dirigido por Gregory Nava, com Jennifer Lopez e Antonio Banderas) é um daqueles filmes seminais, baseado em fatos reais. Um alerta atualíssimo, que não podemos deixar de ver. Seu título original é “Bordertown”, “cidade fronteiriça”, referindo-se à mexicana Juárez, situada na fronteira com os EUA. O filme é de 2007, mas agora, em 2026, mais do que nunca, escancara-se no mundo o tema tratado: a sanha do domínio imperialista que provoca tragédias humanas, econômicas e culturais nos países submetidos.

Em 2007 vigorava o NAFTA, o acordo de livre comércio que isentava de tarifas alfandegárias México, Canadá e EUA. Instalaram-se em Juárez as ditas “indústrias maquiladoras”, montadoras de aparelhos com componentes importados, e depois exportados para os EUA por preço barato. Graças à isenção das tarifas e ao trabalho quase escravo realizado por mulheres, a maioria jovens. Nas palavras da protagonista do filme, Lauren Adrian (interpretada por Jennifer Lopez), uma jornalista inconformada, não era um tratado de comércio; era um tratado de escravidão e abuso.

Entre os anos de 1990 e 2010, estima-se que milhares de jovens trabalhadoras exploradas nas maquiladoras tenham sido estupradas, assassinadas e “desaparecidas”, com a conivência das autoridades locais e dos países importadores, subservientes ao poder do dinheiro das empresas envolvidas. Juárez tornou-se a razão da disseminação mundial da expressão “feminicídio”, e da luta de organizações não governamentais humanitárias contra esse persistente flagelo.

O filme é uma daquelas corajosas realizações cinematográficas que denunciam as barbaridades escondidas por trás de um falso desenvolvimento. Quem lucra com as fábricas maquiladoras são os oligarcas mexicanos e os grandes comerciantes importadores estadunidenses. Às trabalhadoras de Juárez resta a criminalidade, a corrupção, a pobreza, o esgarçamento de toda a estrutura social, a perda da identidade, o estupro e a morte. Elas moram em precaríssimas favelas, conversam em três idiomas diferentes: o espanhol, o inglês e as línguas nativas da população pobre, expulsa de seus territórios tradicionais e empurrada para a escravidão nas grandes cidades industriais pela ganância das elites locais.

Não se iluda quem acredita que os EUA têm interesse de levar segurança e prosperidade a quem quer que seja, fora do seu próprio território. É o que o extinto NAFTA mostrou, e que outros “acordos” que o substituíram ainda provocam. Juárez exemplifica bem o conceito de exploração imperial e de “externalização de custos”: o baixo preço pago pelos estadunidenses pelos computadores e televisores produzidos na cidade era à custa da tragédia social e ambiental no país vizinho.

Atualmente os EUA já não ocultam sua compulsão expansionista atrás de supostos acordos de comércio. Ucrânia, Gaza, Venezuela, Irã, as ingerências nas eleições e nos governos de Argentina, Peru, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Chile, Cuba, Nicarágua, Bolívia, Brasil... são prova disso. A era da (falsa) diplomacia foi substituída pela era da desinformação e da intimidação econômica e pelas armas.

Não nos faltam alertas, vindos até da produção cinematográfica dos próprios EUA, como é o filme “Cidade do Silêncio”.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Neymar, o filho de um Brasil

 Publicado no Jornal da Manhã em 11/08/2026.

Sim, filho “de um” Brasil, e não filho “do” Brasil. Nosso país é um dos campeões mundiais de contrastes, desigualdades, segregações e injustiças. Traços funestos que são fruto da combinação de muitos fatores: a colonização extrativista, o extermínio dos nativos, a demorada escravidão, as elites oligárquicas, gananciosas e reacionárias, a extensão e diversidade territorial, a mistura de raças, religiões, culturas... O Brasil delimitado nos mapas inclui muitos brasis. Decerto cada um deles tem seu próprio filho.

Vendo-se a lista de celebridades brasileiras hoje com o maior número de seguidores nas redes sociais, uma surpresa: os três primeiros nomes são de jogadores de futebol. Começa com Neymar, seguido de Ronaldinho Gaúcho e Marcelo, estes dois últimos já afastados do profissionalismo. O número de seguidores de Neymar é maior que a população do Brasil! Ele é um ídolo não só em nosso país. Que força do futebol! Neymar tem quatro vezes mais seguidores que a cantora Anitta, a única não futebolista entre os cinco primeiros da lista de celebridades. Somos mesmo o país do futebol, esse lúdico entretenimento que galvaniza as paixões nacionais, superando até a polarização ideológica.

Mas o que acontece com o futebol, e seu símbolo nacional atual, Neymar? Ambos estão em crise, isso é evidente. Exceto o meia atacante, que parece agonizar no Santos agonizante, já não temos craques de expressão. Não ganhamos uma copa há 24 anos, nem mesmo ganhamos outros títulos internacionais relevantes. E Neymar parece um eterno ególatra ressentido, à beira de um ataque de nervos. Não dura num time, provoca a cizânia por onde passa. Frequentemente lesionado, é ausência em jogos decisivos, provoca e desacata adversários, colegas de time, árbitros e parece que até mesmo o técnico e a direção do clube. É vergonhoso vê-lo em situações como a cobrança do pênalti ao final do jogo que o Brasil perdeu para a Noruega, ou a afronta aos jogadores do Remo no jogo pela Copa do Brasil em Belém do Pará. O que acontece com Neymar e com o futebol que um dia nos salvou do complexo de vira-lata?

O craque, como tantos brasileiros, também é filho de família humilde, que teve de lutar para sobreviver, vencer preconceitos e melhorar de vida. Um início não muito diferente de outro já celebrado “filho ‘do’ Brasil”, um retirante e metalúrgico pobre que se tornou um dos estadistas mais respeitados no mundo atual. Mas que não é reconhecido em nosso país como o é no restante do mundo democrático. O que aconteceu com Neymar? O que suas centenas de milhões de seguidores esperam de um ídolo, de um líder, e do país?

Num país segregacionista e desigual como o é o Brasil, ter o talento futebolístico que inegavelmente tem Neymar é um meio de vencer a pobreza. Mas há no presente e no passado recente muitos craques brasileiros que souberam fazer de sua libertação um exemplo de superação, de apoio, de solidariedade com os mais marginalizados. Por que, ao invés de financiar megaprojetos que são uma ofensa ao zelo social e ambiental, Neymar não dedica seu estrondoso sucesso financeiro a causas que ajudem a emancipar e a incluir tantos a quem se negam oportunidades?

O talento de Neymar faz pensar nos talentos do Brasil. Que o desequilíbrio do craque nos faça refletir sobre as possibilidades, e riscos, a respeito de nosso futuro.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sem salvação

 Publicado no Diário dos Campos em 31/07/2026.

Sem salvação* é o título de minissérie com seis capítulos (criação de Julie Gearey, Reino Unido, 2026), em cartaz na Netflix. O nome não poderia ser mais acertado. A série consegue ser uma mostra dos conteúdos psicológicos que vão desde o indivíduo, às relações familiares e interpessoais, até a sociedade formada pelo conjunto de pessoas. Parece que nada escapou na construção da trama: patriarcalismo, teocracia, fanatismo, sexualidade e seus transtornos, violência e abusos de todos os tipos, ambição, egoísmo, vaidade, psicopatia, família, superstição, traumatismos, alcoolismo, hipocrisia... São tantas as mazelas do ser humano, e da sociedade que erigimos com elas, que não é fácil enumerá-las todas.

Durante o transcorrer da trama, só uns poucos personagens logram escapar da teia que aprisiona e imobiliza os adeptos de uma seita fundamentalista, que vive numa comunidade num vilarejo do norte do Reino Unido. Outros membros, que ameaçam tomar consciência da mentira que vivem, são sumariamente excluídos da seita e do convívio familiar. Não sem profundos traumas, que são escondidos em nome da preservação da falsa e frágil harmonia.

É impossível não enxergar logo o paralelo entre a seita da série e a sociedade atual. Até mesmo a ignorância dos fiéis, que faculta a manipulação e a ascensão de oportunistas enganadores. Na série, é o radicalismo da seita que proíbe os celulares, televisões, rádios, jornais, revistas. A única leitura aceita é a da bíblia. Na sociedade real que vivemos hoje, a ignorância não vem da proibição: vem da saturação de todas as formas de comunicação com a mentira e a manipulação.

Sem salvação parece ser um retrato fiel do estágio evolutivo da sociedade atual. A seita da série não encontra escapatória da sina de líderes inescrupulosos e manipuladores, e de fiéis entorpecidos, que os endeusam e os elegem. Aquela insana comunidade do norte do Reino Unido é uma metáfora certeira da sociedade do século XXI, em que, em todo o mundo, líderes psicopatas e tirânicos são eleitos e mitificados por populações facilmente ludibriadas.

A fragilidade do caráter da seita da série é a mesma fragilidade de caráter do cidadão comum e da sociedade atual, vítimas fáceis de hábeis farsantes. O mundo de hoje está cheio de falsos líderes, aproveitadores deste momento de crise em que as tecnologias e estratégias de logro e dominação evoluíram muito mais que o discernimento, a compreensão e a ética humanas.

Sem salvação precisa ser vista por todos. A série representa um laivo de lucidez a tentar nos despertar da hipnose em que se encontra a sociedade atual. É possível que nos inspiremos naqueles poucos personagens da trama que têm a lucidez, a dignidade, a coragem de se libertarem. De romper com a farsa, que só faz tolher as bênçãos do potencial humano.

Ser humano; um ser tão contraditório, cheio de imperfeições e bênçãos.


* Foi a amiga Ingrid, do grupo Poesia de Segunda, quem recomendou enfaticamente que víssemos a série. Temos de agradecer a Ingrid por este presente de verdadeira e rica amizade.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Faltou caráter

 

A seleção nacional de futebol reflete a alma do país. Um campeão é feito com garra, vontade de vencer, confiança em si, talento, arrojo, espírito de equipe, firmeza, resiliência... O que faltou ao Brasil para vencer a Noruega e credenciar-se como candidato ao hexa? Faltou tudo isso. Faltou um capitão Odegaard, o nome mais ouvido durante a narração do jogo. Ele fez lembrar o também capitão Modric, o craque croata maestro da eliminação do Brasil na copa de 2022. A canarinha não tem um articulador, o que Casemiro já foi um dia, faz tempo. Mas não é mais.

Faltou um goleador que jogasse com a alegria e a liberdade de quem não carrega nas costas o peso de redimir um país torturado pelo preconceito, intolerância, desatino, carência de discernimento e de propósito. Faltou caráter, aquela soma de qualidades que gera serenidade, solidez e determinação. O caráter é o alicerce da garra. A seleção não poderia ser aquilo que o povo do país não é. Se em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 havia alguma qualidade que galvanizava um desejo nacional de superação e reconhecimento, em 2026 estamos perdidos, desorientados. Já não sabemos distinguir oportunistas de estadistas, não sabemos diferenciar ética, honradez e escrúpulo de fisiologismo, clientelismo, demagogia e canalhice, não sabemos separar o que seja um sentimento ou uma necessidade legítima de uma compulsão irracional inculcada por condicionamentos que nos manipulam.

Tal como no conhecido poema “No caminho, com Maiakóvski”, de autoria de Eduardo Alves da Costa, tanto nos calamos diante da barbárie que arrancam-nos a voz. A vileza, o desdém e a mentira tornam-se uma doentia normalidade. Faltou caráter à seleção nacional porque está a faltar caráter a uma parcela muito grande da população do Brasil. Oxalá enxerguemos que a frouxidão, insegurança, medo, inabilidade, repetidos erros e ineficácia do time refletem o momento que passamos no país. O sentido de pátria, nacionalismo e porvir que temos confunde-se com o sentido de seleção nacional.

Não é um técnico italiano, nem um craque ególatra, narcisista e lesionado, que poderão resgatar o caráter que perdemos quando nos deixamos cooptar pela mentira, o logro e a omissão. A seleção tem atletas talentosos que brilham em seus clubes. Mas quando eles vestem a camisa que representa o caráter nacional, o que os move não é mais o talento futebolístico. Passa a ser o talento de um povo para a compreensão do que seja nação, do que seja liberdade, soberania, solidariedade, do que seja emancipação humana, do que seja lucidez, compreensão e determinação.

Nisso, a Noruega deu um baile no Brasil.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Sustentabilidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 30/06/2026.

Numa definição simplificada, “sustentabilidade” quer dizer harmonia entre natureza, sociedade e economia. Uma harmonia capaz de assegurar que a atividade humana aconteça de modo sensato, garantindo que nossa civilização seja durável, sustente-se através dos tempos, sem crises nem colapsos. A simplicidade da definição é só aparente. Qual a amplitude da natureza, do meio ambiente que faculta a vida no planeta Terra? Ela vai desde os micro-organismos que fertilizam o solo até a atmosfera que nos protege da radiação solar. E quando falamos em sociedade, lembramos da crescente complexidade da nossa civilização e suas relações, principalmente diante das revolucionárias novas tecnologias? E quando tratamos de economia, qual economia? Damo-nos conta do sistema econômico vigente, que promove o hiperconsumismo, a insana depredação dos recursos naturais, a competição e a ambição, concentra riqueza e dissemina pobreza?

A palavra “sustentabilidade” tem sido vulgarizada e aviltada, de modo a acoplar uma enganosa qualidade e legitimidade a produtos, ações e pensamentos concebidos dentro do insano sistema econômico que vivemos há séculos, que não tem nada de sustentável. Na questão ambiental, talvez os melhores exemplos de crise sejam o aquecimento global, a degradação de ecossistemas, a extinção de espécies, a pandemia. Quando pensamos em sociedade, temos de lembrar a crescente criminalidade e intolerância, resultado da injustiça social, a vitória da mentira sobre verdade, a falência da ética e da política, o crescente belicismo entre as nações, os temores com a insubordinação da inteligência artificial, a educação para o emburrecimento, o risco de novas pandemias incontroláveis... Há inúmeras evidências de que a sociedade atual não é sustentável, basta ter olhos para enxergá-las. Atualmente o que é gasto com armamentos de ataque e defesa seria suficiente para resolver os problemas mundiais de alimentação, saúde, emprego e moradia dignos, educação para a emancipação, cultura, lazer... Os gastos com armas são a mais clara evidência da insustentabilidade da sociedade atual.

Não é só a palavra “sustentabilidade” que está vulgarizada e divorciada de seu verdadeiro significado. Outras fazem companhia a ela: “Deus”, “Cristo”, “fé”, “família”, “pátria” são algumas delas. O aviltamento destas palavras e de seu sentido autêntico nos direciona para uma reflexão da qual não podemos fugir, se avaliamos o que acontece com a sociedade atual. A busca de mais clareza para nos situarmos nesta crescente desarmonia do mundo em que estamos vivendo implica a psicanálise do ser humano e da sociedade atual, que decide movida por pulsões, e não pela razão e sensibilidade.

O entendimento que temos destas vulgarizadas e desonradas palavras não é mais fruto de um sentimento legítimo, pessoal, refletido. Ele é fruto de um condicionamento, uma massificação irrefletida, que é a principal tática de preservação daqueles que se beneficiam da desarmonia da sociedade atual. Os oportunistas privilegiados que se aproveitam do aviltamento do valor do trabalho para locupletar-se investem tudo que podem para que a sociedade continue se confundindo. O povo ignorante, desorientado e desunido é muito mais fácil de ser tangido.

Desde que o reflexo condicionado foi reconhecido e esmiuçado, a repetição da mentira até parecer verdade tem sido um poderoso aliado da alienação e logro do povo. O ser humano parece preferir aceitar uma afirmação alheia teimosamente alardeada do que ter de refletir para alcançar a compreensão da complexa realidade que temos vivido.

Se não decidirmos refletir e escutar a própria consciência, continuaremos sendo bucha de canhão daqueles que enriquecem com a insustentabilidade.

sábado, 20 de junho de 2026

Motorista apressado

 Publicado no Jornal da Manhã em 20/06/2026

O motorista apressado amiúde tem um carro bem grande, ou seja, uma SUV de porte ou uma parruda camionete. Há também os apressados com carros pequenos, mas são mais raros. O tamanho grande nem sempre é uma necessidade prática. Parece mesmo ser mais uma necessidade psicológica que funcional: além de rápido e possante, o veículo precisa intimidar os demais motoristas, precisa poder ser utilizado como uma arma. Os apressados parecem querer compensar com a pressa e com o tamanho do veículo um complexo de pequenez e lerdeza que não conseguem superar em si mesmos. São criaturas guiadas pela compulsão de ultrapassar o outro, na via, na vida.

O comportamento de muitos motoristas apressados de carros grandes – sejamos justos, não são todos – lembra-me um desenho animado que via na década de 1960. Era com o personagem Pateta de Walt Disney. No dia a dia ele era uma pessoa comum, mas ao volante transformava-se num psicopata ensandecido. Penso que já naqueles idos de mais de sessenta anos atrás o motorista que usava o carro como uma arma já era figura notória na sociedade. Mas o Pateta de Walt Disney, antes de virar o psicopata ao volante, era um cidadão dócil, até mesmo demais, quase submisso. É possível que a transformação fosse justamente para resgatá-lo de um mundo no qual, talvez até inconscientemente, fosse um frustrado, um contrariado reprimido.

Nos dias de hoje, enxergo diferenças nos motoristas apressados. Encontro-os com frequência, seja nas ruas da cidade mas, sobretudo, nas rodovias. Seus veículos são verdadeiras armas de agressão. E creio que eles sejam mesmo a causa de muitos acidentes com vítimas que presenciamos nas estradas. Eles vêm em alta velocidade, acendendo os faróis desde muito longe para que saiamos da frente e possam passar, mesmo quando estamos ultrapassando outro veículo, ou estamos retardados por outro mais lento à frente. Quando os veículos por algum motivo seguem em fila indiana, ultrapassam pela direita e enfiam com violência seus veículos-arma no espaço de segurança que deixamos à nossa frente. Parecem bárbaros em uma batalha, os inimigos a serem vencidos são os outros motoristas. Não conseguem discernir quem são os verdadeiros inimigos, responsáveis por suas frustrações.

Há quem diga que os apressados o são porque estão atrasados na vida, e ainda têm muito o que percorrer. Tentam compensar o tempo perdido, deveríamos ser compreensivos com eles, apoiá-los no seu esforço de remissão. Será que é assim? Tenho minhas dúvidas. Observando-os, seja quando estão transfigurados ao volante, seja quando estão em tratativas cotidianas fora de seus veículos-arma, vejo personagens diferentes do simplório Pateta de Walt Disney. Os apressados de hoje em dia só não ameaçam quando longe do volante porque sentem-se desarmados, longe de seus veículos, e porque não estão cobertos pelo anonimato inimputável que mascara os motoristas agressivos. O motorista apressado crê que seus delitos vão ficar impunes.

Tenho minhas teorias sobre este traço vil da sociedade atual: creio que os motoristas apressados, transformados em psicopatas, são só uma das muitas manifestações patológicas de hoje. Depois de séculos de enaltecimento do egoísmo, competitividade, ambição desmesurada e anseio de supremacia, as pessoas já não têm controle nem consciência dos meios que usam para extravasar suas próprias frustrações. Os veículos grandes e possantes são só um tipo de ferramenta usada para isso. Outros são a posse de recursos, o uso da retórica e do engodo, o falseamento da verdade... Cada vez temos mais formas de catarse à nossa disposição.

Enquanto não fizermos a psicanálise de nossa sociedade, cidadãos psicopatas serão cada vez mais e mais comuns.

domingo, 24 de maio de 2026

O caminho da vida e da virtude

 Publicado no Jornal da Manhã em 26/05/2026.

O livro chinês “Tao Teh King” (ou “Tao Te Ching”), escrito 500 anos antes de Cristo, resume em 81 concisos e belos poemas a base filosófica, espiritual e ética do Taoísmo. Ele teria inspirado práticas como o Tai-Chi Chuan e, muito tempo depois, o Estoicismo, este surgido no Ocidente.

É o livro chinês mais traduzido em todo o mundo. Atribui-se sua lavra a Lao Tzé (ou Lao Tzu), um erudito bibliotecário da corte. Mas há quem diga que o livro é uma inspirada compilação de ensinamentos muito mais antigos. “O caminho da vida e da virtude” é como é traduzido o nome do livro. A vida talvez seja a oportunidade de percorrermos o caminho da virtude, para compreendermos o que seja o Tao. O livro diz: “O Tao é inominável, um mistério, e nesse mistério está a porta para toda a maravilha”.

Em vários poemas o livro trata da virtude. Afirma que, se estiver bem plantada, nada será capaz de arrancá-la ou degradá-la. E os versos vão revelando como a virtude vai se acumulando e se transmitindo ao longo do tempo, um legado de geração em geração. Por quem quer que seja que a pratique: uma pessoa, uma família, uma comunidade, um estado, uma civilização... Talvez por esse motivo o Ocidente tenha tanto a aprender com o Oriente e com a China. Não só por seu aparente sucesso atual, mas pelo que podem nos ensinar sua rica cultura e filosofia, que em muito antecedem o florescer ocidental.

As virtudes preconizadas no livro começam pela simplicidade, o despojamento, a humildade, a lealdade, a paz... O livro diz que o homem rico é aquele que tem o que lhe basta. Aquele que tem um prato de alimento para aplacar-lhe a fome pode ser grato e feliz; aquele que conquista impérios pode estar sempre insatisfeito e ansioso.

Se os valores que constituem a virtude vão sendo acumulados e transmitidos ao longo do tempo, convém que tenhamos consciência de como estamos cultivando a virtude em nossa vida: em nós mesmos, na família, na comunidade em que vivemos, enfim, nesta geração a que pertencemos, neste momento da história da humanidade. Um momento singular, que nos desafia a ser capazes de discernir entre virtude e as muitas ilusões que estão a nos testar. E qual a herança que vamos deixar.

Atualmente vivemos um momento fantástico, talvez comparável ao momento da borboleta romper a crisálida, ou da ave a termo romper a casca do ovo. O invólucro rígido que aprisiona a emancipação da humanidade tem muitas caras: é o sistema que estimula a ambição, o individualismo, a competitividade, os abismos e a exclusão social; o enaltecimento da soberba e do luxo; a confusão entre verdade e mentira; enfim, a perda do entendimento do que signifique virtude, e o desvirtuamento do legado que deixaremos para o porvir.

Mas é justamente o desafio deste momento que vivemos que o torna mais precioso. É chegada a hora de romper o invólucro de inconsciência que aprisiona o ser humano lúcido, virtuoso, que estamos destinados a ser. Se soubermos fazê-lo, brindaremos este planeta milagroso que nos acolhe com encantos como as cores, o voo livre e os sonidos que nos presenteiam as borboletas e os pássaros.

domingo, 17 de maio de 2026

O orc e o elfo

 

O líder do país dos elfos foi informado que o imperador dos orcs queria visitá-lo. Surpreso, e mesmo sem entender bem qual a razão daquilo, prontamente consentiu com a inesperada visita. Elfos e orcs tinham muitas divergências, quem sabe poderiam tentar apaziguar algumas delas.

Emissários logo acertaram os detalhes do encontro. Um evento importante, parecia ao mundo que orcs e elfos estariam a discutir um mando que ultrapassava suas fronteiras. As notícias, alvoroçadas, apregoavam que eram os dois lados que estariam prestes a dominar e a engolir todas as raças e culturas do mundo. Os orcs mentiam que os elfos eram ávidos demônios, que comiam cães; o que diziam os elfos não era do conhecimento dos orcs, mantidos numa precavida ignorância.

O imperador orc apresentou-se ao líder elfo arrotando sua habitual truculência e arrogância. Lembrou que vinha do império que tinha os maiores porretes, e os guerreiros com mais sede de sangue. O elfo lembrou que seu país era de uma cultura milenar e plural, pacificado com muito sacrifício, que valorizava a arte, a filosofia, a alteridade e o bem-estar de cada elfo, de cada vizinho de outro país, desde que fosse de paz. Não disse palavras para dizer, mas o elfo esperava que o imperador orc visse que eram diferenças agudas. O país dos orcs tinha só uns poucos séculos de existência, era povoado por guerreiros que tinham nos seus porretes e em invasões seu principal meio de vida.

Com o andamento das conversações, logo as razões da visita foram se revelando: o imperador orc vinha interpelar a nação elfo sobre sua interferência na recente malsucedida empreitada dos orcs contra a nação dos anões do Norte, esta vizinha do país dos elfos. O orc alegava que os anões estariam construindo porretes e lanças que ameaçavam o mundo. Tinham que ser detidos. Um segundo motivo para a visita era o pedido para que os elfos apoiassem a liberação de rotas usadas pelos orcs e seus vassalos para o transporte de mercadorias que eram a principal fonte de poder dos orcs. E que serviam também aos elfos, daí a esperança numa união de ocasião para alcançar a um interesse comum.

As tratativas logo deixaram o verniz da etiqueta diplomática, e passaram à contundência do pragmatismo realista. O imperador orc questionou, embora com alguma cautela, a informação de que os elfos tinham emprestado seus falcões adestrados aos anões. Dos céus, os anões localizavam as fortificações dos orcs, e só por isso tinham conseguido vantagens inesperadas. Firme mas sereno, o líder elfo lembrou que os orcs emprestaram não só suas águias predadoras, mas também cedeu seus porretes mais poderosos a seus aliados mediterrâneos na guerra contra os anões.

O encontro parecia destinado ao fracasso, mas ainda havia pendências pungentes. Veio à tona a questão da ilha do país dos elfos que se tornara o refúgio de dissidentes. O país dos elfos tolerava-os e negociava. Mas os orcs queriam armá-los para disseminar a guerra, enquanto condenavam à asfixia um país insular vizinho do seu. Pelo motivo dele resistir render-se à intenção de se fazer ali cassinos e resorts para diversão de magnatas orcs.

O encontro acabou com o imperador orc com a impressão que o país elfo seria um empecilho à sua insaciável ânsia de dominar o mundo.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

De quanta terra precisa um homem?

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 1º/05/2026.

Este é o título de um dos mais conhecidos contos do imortal escritor russo Liev Tolstói. Ele trata da crescente e insaciável cobiça de um camponês instigado pelo diabo, que no afã de conquistar mais e mais terras acaba, por fim, descobrindo que sete palmos bastam para acolher seu cadáver, depois do homem exaurido pela frenética busca.

Talvez o mais impressionante do conto de Tolstói seja a data: 1886. Decerto o autor já constatava a multiplicação das possibilidades da ambição, concentração de riquezas e poder advinda da industrialização, iniciada no século XVIII. Não que antes a ânsia de poder e ganho já não alucinasse os seres humanos em suas conquistas. Mas sem dúvida a indústria potencializou o alcance dessa pulsão.

Que imaginaria Tolstói diante das sofisticadas artimanhas de poder e posse do século XXI? As tecnologias de ponta e os algoritmos manipuladores, as comunicações massificadas, a vigilância eletrônica universalizada, a inteligência artificial sob suspeita de revoltar-se contra a humanidade, a superexploração e a incúria com a natureza que sustenta a vida? O diabo que implantou a louca sofreguidão no camponês de Tolstói hoje dispõe de instrumentos muito mais sedutores e dominadores. O camponês exauriu-se antes de compreender quanta terra lhe caberia ao final. A ganância e o desvario da humanidade no século XXI chegarão ao mesmo fim? Ou seja, à extinção da espécie?

Instigado pelo artigo de um amigo, fui ver o que a inteligência artificial fala sobre os riscos de extinção da humanidade. Surpresa: o principal risco é o descontrole e a revolta da IA! A própria IA nos alerta dos riscos da IA. Ela está nos avisando! Outros riscos são guerra nuclear, superpandemia, colapso climático e ecológico, ciberterrorismo, impacto de corpos celestes, supererupção vulcânica, erupções solares...

Mas o que me chocou mesmo foi ver, entre os riscos de extinção, a possibilidade de que o planeta Terra, com seus atributos miraculosos, venha a ser “descoberto” por uma distante civilização alienígena superevoluída, que resolva vir livrar este planeta prodigioso de uma espécie parasita que está a destruí-lo. Nós a chamamos de Homo sapiens. Ainda que a IA considere esta uma possibilidade remota, ela não foi esquecida. Se lembrarmos que o universo tem mais de quatorze bilhões de anos, a Terra tem menos de cinco bilhões, o Homo sapiens algumas poucas centenas de milhares de anos, não é difícil supor que o infinito firmamento esteja povoado por muitas civilizações impensavelmente mais antigas e evoluídas que nós.

O astrônomo e astrofísico Carl Sagan transformou esta hipótese num romance de ficção científica maravilhoso, convertido também em filme: “Contato”, o livro lançado em 1984, o filme, dirigido por Robert Zemeckis, lançado em 1997. Num dado momento da trama, a protagonista humana pergunta ao interlocutor alienígena, capaz de viajar no tempo e no espaço e de ler pensamentos e memórias, como atingiram tal sapiência. Ao que ele responde que aprenderam bilhões de anos antes, com uma raça que já os ensinava naqueles tempos distantes. Há outra ótima história que trata de tema conexo: “O dia em que a Terra parou”, já transformado em filme em duas ocasiões (1951 e 2008).

Oxalá as raças evoluídas existentes no universo nos considerem uma espécie por hora seduzida pelo diabo, sim, mas promissora, com alguma chance de arrependimento e evolução. E que não resolvam elas nos exterminar. Deixem para nós mesmos a decisão de nos autoextinguirmos, ou não.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

O animal que pensa

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 24/04/2026.

O homem é um animal que pensa, e pensa que não é um animal”. Esta debochada e sábia frase, que me foi apresentada há anos por um estimado amigo de infância, cada vez me cativa mais. Ela contrapõe dois sentidos do que quer dizer “pensar”: de um lado, raciocinar com sensatez, refletir; de outro, supor, conjeturar, amiúde equivocadamente. “Quem você pensa que é?”. “Ele pensa que é o imperador do mundo?”. “Ele pensa que é um democrata e patriota!”. “Ele pensa que o povo é otário e vai continuar acreditando em tantas mentiras?”. “Ele pensa que é o deus do futebol?”. Ou, como diria minha avó, “De pensar morreu o burro!”. Este “pensar” é sinônimo de presunção ignorante.

“Pensar”, no sentido de refletir e raciocinar, sem dúvida é uma das maiores bênçãos concedidas ao ser humano. A outra bênção é este generoso planeta Terra que nos acolhe, nos encanta, e tudo nos concede para que possamos existir e evoluir. Mas a bênção de “pensar” pode ser também nossa desgraça. Se nos esquecermos e “pensarmos” – agora no sentido de pressupormos – que já não somos animais. Nestes, preponderam os instintos de sobrevivência, e portanto de agressividade e domínio. Animais que ainda somos, estes instintos perduram em nosso ser. Diante dos desafios de situações críticas, reagimos primeiro como animais, depois é que refletimos.

Mas já somos também este ser pensante e sensato, que constrói regras para um convívio harmonioso, que concebe e evoca guias espirituais e celestiais a servir de exemplo e de inspiração de como é o ser iluminado no qual almejamos nos tornar um dia. É aquele que alguns chamam de nosso “Eu Superior”, que é lúcido, compreensivo, amoroso e firme. Ele convive com o animal selvagem. Já temos dentro de nós este ser divino iluminado. Este é o maior milagre da evolução: já vislumbramos que existe dentro de nós a semente de um ser celestial, que nos faz emergir da barbárie animal para a civilidade humana.

Vivemos hoje o momento da transição. O animal dentro de nós parece sentir-se ameaçado pelo celestial que germina. E reage como a fera acuada, extravasa os instintos de agressividade e dominação, agora aparelhados com sofisticadíssimas armas e tecnologias que o raciocínio criativo, mas sem reflexão, empenha-se em aprimorar cada vez mais. Chegamos ao absurdo de dedicar as maiores bênçãos, o pensar criativo e a generosidade do planeta, para agredir, dominar e guerrear. Investe-se mais na guerra e no petróleo que a move do que em saneamento, saúde, alimentos, educação, cultura... É o animal acuado defendendo-se, em desespero.

É hora de compreendermos melhor este animal enfurecido, e de darmos mais atenção ao celestial que já vislumbramos, que também existe dentro de nós. Vai preponderar aquele que soubermos cultivar melhor. Se descuidarmos, se pensarmos presunçosa e equivocadamente, o animal vai escapar do contrato social e vai acabar por devorar toda a humanidade.

O Homo sapiens não está fazendo jus às bênçãos do pensamento lúcido e do acolhimento no planeta Terra.

domingo, 19 de abril de 2026

Revendo o juízo final

 

De novo, Risonho Sensalva súbito viu-se diante daquele portal, que agora ele já sabia ser a entrada de um outro mundo (ver as crônicas Pesquisa celestial, de 1º/01/2018, e Juízo final, de 13/07/2017, neste blog). Sabedor de que se tratava de algo efêmero, que iria passar sem deixar lembrança, como uma ilusão que parecia uma realidade mas não passava de um sonho, pôs-se a aguardar seu interlocutor. Como acontecera das outras vezes.

E logo apareceu, do nada, Rufinus Mercadante, engravatado, rabinho de cavalo, com aquele mesmo ar de recepcionista de hotel, ou melhor, de entrevistador de pesquisa de mercado, a serviço de um novo e fantástico produto. Sorriso no rosto, gestual amigável e descontraído, tablet nas mãos, sem rodeios dirigiu-se ao desconfiado visitante:

─ Salve meu caro Risonho Sensalva! Que alegria recebê-lo de novo por aqui!

─ Salve, salve... É, de novo! O que é desta vez, senhor... senhor...

─ Rufinus Mercadante, a seu dispor. Não se preocupe, é como das outras vezes. Pode dizer que é uma pesquisa de opinião. A humanidade cresceu muito, já não é possível gerenciá-la sem saber como está evoluindo o pensamento do cidadão mediano.

─ Opa! Sou cidadão mediano? Vocês estão entrevistando os cidadãos medianos?

─ Exato! Três bilhões de criaturas que ainda não decidiram de que lado estão na divisão radical em que se encontra a humanidade.

─ Três bilhões! Quanta gente! Vão entrevistar todo esse povo?

─ Não, não! Só uma pequena amostra. Uns trinta milhões. E você foi um dos contemplados. Sinta-se lisonjeado, homem! Mas vamos ao que interessa. Primeira pergunta: a seu ver, como anda a humanidade? Bem ou mal?

─ A humanidade? Olhe, não sou muito de pensar na humanidade. Tenho de trabalhar e lutar por meu emprego, cuidar da família, das dívidas, ver se os filhos estão com saúde e não se desencaminhando... É muita coisa! A humanidade, o mundo? Sei lá como estão.

─ Mas já escutou falar da emergência climática, das guerras, do preço do combustível?

─ Já, claro! Não só escutei. Paguei mais caro pra reabastecer o carro.

─ Sabe qual a relação entre o clima, a guerra e o aumento do preço?

─ Olhe, sei sim que tem relação. A Terra está esquentando porque usamos demais o petróleo, a guerra é por causa do petróleo e o combustível que encarece vem do petróleo.

─ E é você que paga o preço encarecido. O que acha disso tudo?

─ Pensando bem, que doideira, né? Vocês aqui na gerência devem mesmo estar numa sinuca de bico com a humanidade. Mas o que a minha opinião de cidadão mediano pode fazer por vocês?

─ Ela pode ajudar muito na escolha do caminho diante da encruzilhada em que a humanidade se encontra.

─ Encruzilhada?

─ Não vê que são dois caminhos? Um para a extinção de uma raça desatinada, outro para a ascensão a um mundo mais harmonioso e evoluído?

─ Verdade! Como pode? A humanidade tem o dom da inteligência, e a bênção de um planeta que tudo oferece. Parece que só falta mesmo juízo! Mas inspirar juízo na humanidade, não é justamente a tarefa desta gerência aqui...

Nem acabou de falar, num instante Risonho Sensalva de novo acordou sobressaltado, ao lado da companheira, no seu quarto de dormir. Já de nada se lembrava, mas tinha aquela mesma sensação de sair de um sonho realista e importante demais.

Lá no seu mundo, Rufinus Mercadante revisava os dados em seu tablet. A palavra “juízo”, com seus incontáveis sinônimos, deflagrara o final de mais aquela entrevista.

domingo, 12 de abril de 2026

Bets, teologia da prosperidade, modas e dívidas

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/04/2026.

O Brasil está vivendo um momento singular. Apesar das crises mundo afora, que só fazem escancarar que a humanidade está doente, por aqui não vamos mal. A massa salarial da população nunca foi tão alta, o desemprego nunca foi tão baixo, os programas sociais governamentais estão de vento em popa, a pobreza e a fome diminuem, a bolsa de valores bate recordes, orçamento e inflação estão sob controle, a balança comercial com o exterior tem saldo positivo. Mas, paradoxalmente, para espanto e suplício do governo federal, o país também atinge níveis recordes de inadimplência: as famílias, os cidadãos, estão mais endividados do que nunca. Como explicar isso?

A explicação não é simples. Para começar, quase três séculos de aguda exploração injusta do trabalho só poderiam mesmo conduzir a humanidade a uma patológica sensação de desespero, em que o cidadão se rende às mais insólitas promessas de ganho monetário que possam ajudar a pagar as dívidas. As apostas nas bets on-line são uma delas. Análises mostram que 99% do valor investido não retorna ao apostador. E que o 1% beneficiado é de grandes apostadores, não o cidadão comum. Ganham aqueles que têm condições de fazer apostas milionárias, os megapostadores, que já são ricos. E as bets foram concebidas para tornarem-se um vício alucinante. Não é uma simples loteria. É um engodo pensado com a ciência do que há de mais evoluído em comportamento, manipulação e condicionamento humano. As bets viram parte importante do endividamento da sociedade, e drena os recursos para o exterior.

E a chamada teologia da prosperidade? Que teologia é essa, que coloca os ganhos – o dinheiro – acima dos valores humanos tais como honestidade, ética, generosidade e solidariedade? E que coloca o deus dinheiro acima de qualquer outro? Sabe-se de casos em que o fiel adepto foi convencido a doar o valor do aluguel para a igreja, com a promessa de ganhar a casa própria. Esse fiel tornou-se um dos inadimplentes. E o pastor explica que foi falha de sua fé, o devedor não a teve com fervor suficiente.

O que as bets e a teologia da prosperidade têm em comum? Ambas são ilusões, embustes que não têm intenção de cumprir o que prometem, e que só visam tirar o dinheiro do cidadão desavisado. As malogradas ilusões de ganho são um grito de desespero diante do sistema que submete o ser humano comum. Há semelhanças com as indulgências da Idade Média, quando o despossuído era convencido a comprar um lugar no céu, diante da cruel vida na Terra.

Neste ano de copa do mundo de futebol, outro endividamento das famílias também aumenta a inadimplência, segundo dados do comércio: é a aquisição de televisores com telas gigantescas, que permitam melhorar a sensação de se estar dentro do campo de futebol. Ah, o futebol! O esporte mais popular do mundo, que antes forjava os craques nas várzeas e nas praias, e hoje cria-os nos centros de treinamento e nos estádios super equipados, financiados pelas bets. E não faltam os escândalos de craques envolvidos em falcatruas ilícitas, enredadas com apostas nas famigeradas bets.

Nem vamos falar da desnecessária troca do carro que já não é o último modelo, nem da roupa ou calçado que já não é da moda vigente neste ano. Não faltam engodos para fazer o cidadão descuidar do seu orçamento, e acabar inadimplente. O ser humano comum é vítima fácil das artimanhas que fazem perder o discernimento. Não só para as compras e gastos desnecessários, que o fazem devedor, agrilhoando-o ainda mais ao usurário sistema.

Infelizmente, não é só nos gastos que a humanidade anda desatinada. É na alimentação, na cultura, no discernir entre verdade e mentira, nos relacionamentos afetivos, nas escolhas de dirigentes...

quarta-feira, 25 de março de 2026

O cancelamento da copa do mundo de futebol

 Publicado no Jornal da Manhã em 25/03/2026.

O futebol é o único esporte universal, ele para todo o mundo quando da realização da copa de seleções. No livro “Veneno remédio – o futebol e o Brasil” (Cia. das Letras, 2008) o professor, escritor e músico José Miguel Wisnik discute as qualidades do esporte que ajudou a livrar-nos do “complexo de vira-lata” e projetou nosso país no mundo: é praticado nas várzeas e praias por moleques pobres desde muito cedo, assim forjam-se craques admirados em todo o planeta.

Há quem tente estigmatizar o futebol, acusando-o de ser a distração das periferias irrelevantes. Esforçam-se por disseminar outros esportes, que usam armaduras, bastões e bolas que não são bolas. Um esforço vão. A origem humilde nos terrenos baldios, o desafio de unir destreza pessoal, disciplina tática, espírito de equipe e vontade de vencer, a imprevisibilidade, quando nem sempre vence o mais forte e o mais rico, parecem ainda ser capazes de superar os determinismos e artificialismos e de arrebatar multidões de torcedores. Não sem o risco de degenerações, daí o acerto da antítese “veneno remédio”.

Neste turbulento 2026 realiza-se o evento máximo, a copa do mundo. Vamos ver adiante um roteiro em parte real, já acontecido, em parte possível, mas improvável. Os EUA, um dos países sede – visto que serão três – invade militarmente o Irã, cuja seleção conquistou no campo o direito de estar na copa. O invadido Irã, sem segurança de enviar sua seleção ao invasor EUA, solicita à entidade máxima do futebol, a FIFA, que mude o calendário de jogos, evitando que a seleção persa seja obrigada a realizar partidas dentro dos EUA. A FIFA alega que não pode imiscuir-se em questões geopolíticas, o calendário já foi firmado, há muitos interesses financeiros comprometidos, não tem como mudar o calendário. Lembremos, antes a Rússia já foi excluída de participar do certame, sob alegação de pretextos no mínimo hipócritas. O poder do dinheiro, do mando e das ameaças dos EUA tem mais peso que qualquer argumento legítimo, humanitário ou futebolístico.

Diante do impasse, o Irã decide não arriscar a vida de seus craques, anuncia que não participará do torneio. Antes que a FIFA decida como substituir a seleção desistente, um país europeu, que já foi campeão do mundo e sede da copa e é um dos expoentes do futebol mundial, em solidariedade ao agredido Irã, resolve ele também anunciar sua desistência de participar da competição. De novo, antes da FIFA conseguir reagir, países africanos, asiáticos, latino-americanos seguem o exemplo do país europeu, e também anunciam a desistência.

Subitamente, o mundo dá-se conta que o futebol é capaz de despertar uma lucidez, compreensão e solidariedade mais fortes que o poder do dinheiro e das armas. A copa do mundo de 2026 é provisoriamente cancelada, o mundo fica sem um de seus maiores espetáculos pacíficos, capaz de parar até guerras.

Desta vez, a guerra é que parou o espetáculo. Como já aconteceu, na Segunda Guerra Mundial. Hora da humanidade se perguntar: este é o caminho acertado da civilização?

sábado, 21 de março de 2026

O preço da liberdade

 Publicado no Diário dos Campos em 20/03/2026.

Conversando com amigos que trabalham na formação de jornalistas, eles compartilharam percepções marcantes: para os estudantes, o jornalismo da grande mídia perdeu a credibilidade. Daí a pergunta inevitável: qual a perspectiva desses jovens com seu futuro profissional? A resposta desencadeia uma torrente de reflexões. Os jovens são hoje muito diferentes daqueles de 50 anos atrás. Antes, a sociedade, as famílias, ditavam limites e princípios rigorosos, que eram, em geral, acatados. Hoje, talvez como consequência da revolta das gerações antes controladas, há um exagero de liberdade. Com ela vêm as contestações, as muitas pautas identitárias, a relativização da verdade e, finalmente, a dificuldade de encontrar um rumo num mundo tornado por demais complexo. E, para complicar, a euforia com novas tecnologias dispersivas e manipuladoras só faz confundir ainda mais liberdade com libertinagem sem limites.

Esta situação conduz ao excelente livro “O tao da libertação” (M. Hathaway e L. Boff, Editora Vozes, 2012), que discute três estágios para as dinâmicas evolutivas, sejam elas da dimensão do cosmo – desde o Big Bang até os sistemas planetários organizados –, ou da dimensão de uma civilização ou de um indivíduo – por exemplo a trajetória de uma pessoa ao longo da vida, desde a adolescência até a maturidade.

O livro fala nos estágios de “diferenciação”, “autopoiesis” e “comunhão”. A diferenciação é a transformação do que era disforme – o universo antes do Big Bang, ou o indivíduo antes de distinguir-se da multidão – em algo que passa a ter identidade. É a conquista da liberdade. Não é mudança fácil. O universo há bilhões de anos diferencia-se para formar as galáxias e sistemas solares. O Homo sapiens precisou de centenas de milhares de anos para aprender a cultivar alimentos, a organizar-se em cidades e a desenvolver a linguagem. Uma pessoa leva a maior parte da vida até enxergar seus erros, rir deles, corrigir-se, emancipar-se. A diferenciação é a libertação, cujo fruto é a diversidade de realidades. Alcançar a diferenciação é livrar-se dos grilhões de consensos preexistentes, de dogmas, que são então transgredidos. Diferenciar-se é deixar o conforto do conhecido para mergulhar no mar profundo da dúvida, do imprevisível e do novo.

Sucede então o estágio da autopoiesis – a construção do caráter, a poesia, a arte, o belo, a riqueza e firmeza de si mesmo, dos atributos próprios. O planeta Terra, fruto de uma improvável conjunção de raríssimas condições que acabam por propiciar o milagre da vida, é um bom exemplo de autopoiesis. Bilhões de anos de transformações deram origem ao poema vivo que é nosso planeta e sua biodiversidade. Entre os humanos, temos ao longo da história exemplos reais ou idealizados de indivíduos, homens e mulheres, que mostraram ter alcançado a graça da iluminação, do belo, seja nas artes, nas ciências ou noutros legados. Autopoiesis conduz à lucidez, à compreensão do mundo e da vida, e, por fim, à amorosidade.

É chegado então o estágio da comunhão. O emancipado reconhece a alteridade, sintoniza-se com ela. Como o instrumento na sinfônica, enxerga que sua singularidade, bem como a dos demais instrumentos, são essenciais para a harmonia do arranjo orquestral. A comunhão é o clímax da amorosidade, a realização de si mesmo, e de si com o outro. Na comunhão a diferença completa, coopera, constrói.

De volta à conversa com os amigos, e ao impasse dos jovens que conquistaram a liberdade mas atrapalham-se com qual rumo seguir agora, parece ser o caso de lembrar da diferenciação, autopoiesis e comunhão. Os jovens, ou toda a humanidade, parecem estar num emaranhando limbo de diferenciação e autopoiesis.

É hora então de saber discernir para escolher o rumo certo e construir a poesia interior, com o que de mais luminoso nos oferece a vida.

sexta-feira, 6 de março de 2026

Ave Maria! – o filme “O quarto ao lado”

 Publicado no Diário dos Campos em 06/03/2026 e no Jornal da Manhã em 07/03/2026.

A oração católica diz “... rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém!”. A palavra “pecadores” seria melhor substituída por “imperfeitos”. Somos imperfeitos, parte de uma humanidade imperfeita, oramos para que o espírito de luz da mãe de Cristo rogue por nós, mesmo na hora da morte.

Vendo o filme “O quarto ao lado” (2024, escrito e dirigido por Pedro Almodóvar, com Tilda Swinton, Julianne Moore e John Turturro nos papeis principais), ele nos remete à oração católica. O filme faz corajosa abordagem do espinhoso tema “eutanásia”. Não só a da personagem principal. Num dado momento, um surpreendente diálogo entre os dois personagens secundários faz uma conexão entre a morte do indivíduo – no caso pela eutanásia –, e o fim da civilização atual, este pela pela incúria. Seria, então, mais um suicídio não assumido, como o de um alcoólatra, um drogado, ou a sociedade fascinada e inebriada pelo dinheiro, poder e posse.

O filme é uma mensagem que o fim pode ser belo. Alerta-nos que deveríamos saber reconhecer a riqueza e a beleza da vida, e deveríamos aceitar o fim inevitável, e saber fazê-lo sereno, elegante, amoroso. A personagem principal escolhe para o fim uma casa num lugar encantador, junto à natureza, longe da feiura e crueldades da vida real. O filme é de uma estética impecável, tudo é belo, ao contrário dos horrores da vida de correspondente de guerra da personagem. Ela escolheu ter um fim cercado de beleza, não só a do ambiente, mas também compartilhando seus melhores sentimentos e memórias com a antiga e quase esquecida amizade, que ela recuperava.

No diálogo com o intelectual pessimista que prevê o fim da humanidade, surge a questão: não deveríamos fazer deste possível fim também um momento belo e amistoso, resgatando o que há de melhor, e absolvendo as imperfeições que conduzem ao fim? No caso da personagem, o fim inevitável, a doença terminal. No caso da humanidade, o fim talvez ainda evitável, o apocalipse fruto do desvario com os desejos e criações que se tornam incontroláveis.

Há ainda no filme outro personagem essencial: o policial fanático religioso, para quem abreviar a vida, ainda que seja a própria, é crime imperdoável. E quem dele participa é cúmplice. Só vendo o filme para sentir a contradição entre as naturezas dos personagens, compreender a grandiosidade das imperfeições e pecados humanos.

Resta invocar Maria, mãe de Jesus, para que rogue por nós. Talvez ela nos resgate, como a personagem do filme, tudo aquilo que há de belo e amoroso na humanidade, que nos trouxe até esta encruzilhada que vivemos hoje. Na visão do intelectual do filme – ou seria um lúcido realista? – estamos a caminho de um final inevitável. Pode ser que sim, pode não ser. A doença da humanidade pode não ser terminal, pode não ser irreversível. Então, “... rogai por nós, imperfeitos, agora e na hora da nossa morte...”.

Que esta hora ainda esteja distante, oxalá até lá saibamos resgatar a beleza e a amorosidade que a vida e a consciência nos concedem.