Numa definição simplificada, “sustentabilidade” quer dizer
harmonia entre natureza, sociedade e economia. Uma harmonia capaz de assegurar
que a atividade humana aconteça de modo sensato, garantindo que nossa
civilização seja durável, sustente-se através dos tempos, sem crises nem
colapsos. A simplicidade da definição é só aparente. Qual a amplitude da
natureza, do meio ambiente que faculta a vida no planeta Terra? Ela vai desde
os micro-organismos que fertilizam o solo até a atmosfera que nos protege da
radiação solar. E quando falamos em sociedade, lembramos da crescente
complexidade da nossa civilização e suas relações, principalmente diante das
revolucionárias novas tecnologias? E quando tratamos de economia, qual
economia? Damo-nos conta do sistema econômico vigente, que promove o
hiperconsumismo, a insana depredação dos recursos naturais, a competição e a ambição,
concentra riqueza e dissemina pobreza?
A palavra “sustentabilidade” tem sido vulgarizada e
aviltada, de modo a acoplar uma enganosa qualidade e legitimidade a produtos,
ações e pensamentos concebidos dentro do insano sistema econômico que vivemos há
séculos, que não tem nada de sustentável. Na questão ambiental, talvez os
melhores exemplos de crise sejam o aquecimento global, a degradação de
ecossistemas, a extinção de espécies, a pandemia. Quando pensamos em sociedade,
temos de lembrar a crescente criminalidade e intolerância, resultado da
injustiça social, a vitória da mentira sobre verdade, a falência da ética e da
política, o crescente belicismo entre as nações, os temores com a
insubordinação da inteligência artificial, a educação para o emburrecimento, o
risco de novas pandemias incontroláveis... Há inúmeras evidências de que
sociedade atual não é sustentável, basta ter olhos para enxergá-las. Atualmente
o que é gasto com armamentos de ataque e defesa seria suficiente para resolver
os problemas mundiais de alimentação, saúde, emprego e moradia dignos, educação
para a emancipação, cultura, lazer... Os gastos com armas são a mais clara
evidência da insustentabilidade da sociedade atual.
Não é só a palavra “sustentabilidade” que está vulgarizada
e divorciada de seu verdadeiro significado. Outras fazem companhia a ela: “Deus”,
“Cristo”, “fé”, “família”, “pátria” são algumas delas. O aviltamento destas
palavras e de seu sentido autêntico nos direciona para uma reflexão da qual não
podemos fugir, se avaliamos o que acontece com a sociedade atual. A busca de
mais clareza para nos situarmos nesta crescente desarmonia do mundo em que estamos
vivendo implica a psicanálise do ser humano e da sociedade atual, que decide
movida por pulsões, e não pela razão e sensibilidade.
O entendimento que temos destas vulgarizadas e desonradas
palavras não é mais fruto de um sentimento legítimo, pessoal, refletido. Ele é
fruto de um condicionamento, uma massificação irrefletida, que é a principal
tática de preservação daqueles que se beneficiam da desarmonia da sociedade
atual. Os oportunistas privilegiados que se aproveitam do aviltamento do valor
do trabalho para locupletar-se investem tudo que podem para que a sociedade
continue se confundindo. O povo ignorante, desorientado e desunido é muito mais
fácil de ser tangido.
Desde que o reflexo condicionado foi reconhecido e
esmiuçado, a repetição da mentira até parecer verdade tem sido um poderoso
aliado da alienação e logro do povo. O ser humano parece preferir aceitar uma
afirmação alheia teimosamente alardeada do que ter de refletir para alcançar a
compreensão da complexa realidade que temos vivido.
Se não decidirmos refletir e escutar a própria consciência,
continuaremos sendo bucha de canhão daqueles que enriquecem com a
insustentabilidade.
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