Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 1º/05/2026.
Este é o título de um dos mais conhecidos contos do imortal
escritor russo Liev Tolstói. Ele trata da crescente e insaciável cobiça de um
camponês instigado pelo diabo, que no afã de conquistar mais e mais terras
acaba, por fim, descobrindo que sete palmos bastam para acolher seu cadáver,
exaurido pela insana busca.
Talvez o mais impressionante do conto de Tolstói seja a
data: 1886. Decerto o autor já constatava a multiplicação das possibilidades da
ambição, concentração de riquezas e poder advinda da industrialização, iniciada
no século XVIII. Não que antes a ânsia de poder e ganho já não alucinasse os
seres humanos em suas conquistas. Mas sem dúvida a indústria potencializou o
alcance dessa pulsão.
Que imaginaria Tolstói diante das sofisticadas artimanhas
de poder e posse do século XXI? As tecnologias de ponta e os algoritmos
manipuladores, as comunicações massificadas, a vigilância eletrônica
universalizada, a inteligência artificial sob suspeita de revoltar-se contra a
humanidade, a superexploração e a incúria com a natureza que sustenta a vida? O
diabo que implantou a louca sofreguidão no camponês de Tolstói hoje dispõe de
instrumentos muito mais sedutores e dominadores. O camponês exauriu-se antes de
compreender quanta terra lhe caberia ao final. A ganância e o desvario da
humanidade no século XXI chegarão ao mesmo fim? Ou seja, à extinção da espécie?
Instigado pelo artigo de um amigo, fui ver o que a
inteligência artificial fala sobre os riscos de extinção da humanidade.
Surpresa: o principal risco é o descontrole e a revolta da IA! A própria IA nos
alerta dos riscos da IA. Ela está nos avisando! Outros riscos são guerra
nuclear, superpandemia, colapso climático e ecológico, ciberterrorismo, impacto
de corpos celestes, supererupção vulcânica, erupções solares...
Mas o que me chocou mesmo foi ver, entre os riscos de
extinção, a possibilidade de que o planeta Terra, com seus atributos
miraculosos, venha a ser “descoberto” por uma distante civilização alienígena
superevoluída, que resolva vir livrar este planeta prodigioso de uma espécie
parasita que está a destruí-lo. Nós a chamamos de Homo sapiens. Ainda que a IA considere esta uma possibilidade
remota, ela não foi esquecida. Se lembrarmos que o universo tem mais de quatorze
bilhões de anos, a Terra tem menos de cinco bilhões, o Homo sapiens algumas poucas centenas de milhares de anos, não é
difícil supor que o infinito firmamento esteja povoado por muitas civilizações
impensavelmente mais antigas e evoluídas que nós.
O astrônomo e astrofísico Carl Sagan transformou esta hipótese
num romance de ficção científica maravilhoso, convertido também em filme: “Contato”, o livro lançado em 1984, o
filme, dirigido por Robert Zemeckis, lançado em 1997. Num dado momento da
trama, a protagonista humana pergunta ao interlocutor alienígena, capaz de
viajar no tempo e no espaço e de ler pensamentos e memórias, como atingiram tal
sapiência. Ao que ele responde que aprenderam bilhões de anos antes, com uma
raça que já os ensinava naqueles tempos distantes. Há outra ótima história que
trata de tema conexo, “O dia em que a
Terra parou”, já transformado em filme em duas ocasiões (1951 e 2008).
Oxalá as raças evoluídas existentes no universo nos
considerem uma espécie promissora, seduzida pelo diabo mas com alguma chance de
arrependimento. E que não resolvam elas nos exterminar. Deixem para nós mesmos
a possibilidade de nos autoextinguirmos.