domingo, 24 de maio de 2026

O caminho da vida e da virtude

 

O livro chinês “Tao Teh King” (ou “Tao Te Ching”), escrito 500 anos antes de Cristo, resume em 81 concisos e belo poemas a base filosófica, espiritual e ética do Taoísmo. Ele parece ter sido o inspirador do Estoicismo, surgido no Ocidente muito tempo depois.

É o livro chinês mais traduzido em todo o mundo. Atribui-se sua lavra a Lao Tzé (ou Lao Tzu), um erudito bibliotecário da corte. Mas há quem diga que o livro é uma inspirada compilação de ensinamentos muito mais antigos. “O caminho da vida e da virtude” é como é traduzido o nome do livro. A vida talvez seja a oportunidade de percorrermos o caminho da virtude, para compreendermos o que seja o Tao. O livro diz: “O Tao é inominável, um mistério, e nesse mistério está a porta para toda a maravilha”.

Em vários poemas o livro trata da virtude. Afirma que, se estiver bem plantada, nada será capaz de arrancá-la ou degradá-la. E os versos vão revelando como a virtude vai se acumulando e se transmitindo ao longo do tempo, um legado de geração em geração. Por quem quer que seja que a pratique: uma pessoa, uma família, uma comunidade, um estado, uma civilização... Talvez por esse motivo o Ocidente tenha tanto a aprender com o Oriente e com a China. Não só por seu aparente sucesso atual, mas pelo que podem nos ensinar sua rica cultura e filosofia, que em muito antecedem o florescer ocidental.

As virtudes preconizadas no livro começam pela simplicidade, o despojamento, a humildade, a lealdade, a paz... O livro diz que o homem rico é aquele que tem o que lhe basta. Aquele que tem um prato de alimento para aplacar-lhe a fome pode ser grato e feliz; aquele que conquista impérios pode estar sempre insatisfeito e ansioso.

Se os valores que constituem a virtude vão sendo acumulados e transmitidos ao longo do tempo, convém que tenhamos consciência de como estamos cultivando a virtude em nossa vida: em nós mesmos, na família, na comunidade em que vivemos, enfim, nesta geração a que pertencemos, neste momento da história da humanidade. Um momento singular, que nos desafia a ser capazes de discernir entre virtude e as muitas ilusões que estão a nos testar. E qual a herança que vamos deixar.

Atualmente vivemos um momento fantástico, talvez comparável ao momento da borboleta romper a crisálida, ou da ave a termo ao romper a casca do ovo. O invólucro rígido que aprisiona a emancipação da humanidade tem muitas caras: é o sistema que estimula a ambição, o individualismo, a competitividade, os abismos e a exclusão social; o enaltecimento da soberba e do luxo; a confusão entre verdade e mentira; enfim, a perda do entendimento do que signifique virtude, e o desvirtuamento do legado que deixaremos para o porvir.

Mas é justamente o desafio deste momento que vivemos que o torna mais precioso. É chegada a hora de romper o invólucro de inconsciência que aprisiona o ser humano lúcido, virtuoso, que estamos destinados a ser. Se soubermos fazê-lo, brindaremos este planeta milagroso que nos acolhe com encantos como as cores, o voo livre e os sonidos que nos presenteiam as borboletas e os pássaros.

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