Publicado no Jornal da Manhã em 26/05/2026.
O livro chinês “Tao
Teh King” (ou “Tao Te Ching”),
escrito 500 anos antes de Cristo, resume em 81 concisos e belos poemas a base
filosófica, espiritual e ética do Taoísmo. Ele teria inspirado práticas como o
Tai-Chi Chuan e, muito tempo depois, o Estoicismo, este surgido no Ocidente.
É o livro chinês mais traduzido em todo o mundo. Atribui-se
sua lavra a Lao Tzé (ou Lao Tzu), um erudito bibliotecário da corte. Mas há
quem diga que o livro é uma inspirada compilação de ensinamentos muito mais
antigos. “O caminho da vida e da virtude”
é como é traduzido o nome do livro. A vida talvez seja a oportunidade de
percorrermos o caminho da virtude, para compreendermos o que seja o Tao. O
livro diz: “O Tao é inominável, um
mistério, e nesse mistério está a porta para toda a maravilha”.
Em vários poemas o livro trata da virtude. Afirma que, se
estiver bem plantada, nada será capaz de arrancá-la ou degradá-la. E os versos
vão revelando como a virtude vai se acumulando e se transmitindo ao longo do
tempo, um legado de geração em geração. Por quem quer que seja que a pratique:
uma pessoa, uma família, uma comunidade, um estado, uma civilização... Talvez
por esse motivo o Ocidente tenha tanto a aprender com o Oriente e com a China.
Não só por seu aparente sucesso atual, mas pelo que podem nos ensinar sua rica
cultura e filosofia, que em muito antecedem o florescer ocidental.
As virtudes preconizadas no livro começam pela
simplicidade, o despojamento, a humildade, a lealdade, a paz... O livro diz que
o homem rico é aquele que tem o que lhe basta. Aquele que tem um prato de
alimento para aplacar-lhe a fome pode ser grato e feliz; aquele que conquista
impérios pode estar sempre insatisfeito e ansioso.
Se os valores que constituem a virtude vão sendo acumulados
e transmitidos ao longo do tempo, convém que tenhamos consciência de como
estamos cultivando a virtude em nossa vida: em nós mesmos, na família, na
comunidade em que vivemos, enfim, nesta geração a que pertencemos, neste
momento da história da humanidade. Um momento singular, que nos desafia a ser
capazes de discernir entre virtude e as muitas ilusões que estão a nos testar. E
qual a herança que vamos deixar.
Atualmente vivemos um momento fantástico, talvez comparável
ao momento da borboleta romper a crisálida, ou da ave a termo romper a casca
do ovo. O invólucro rígido que aprisiona a emancipação da humanidade tem muitas
caras: é o sistema que estimula a ambição, o individualismo, a competitividade,
os abismos e a exclusão social; o enaltecimento da soberba e do luxo; a
confusão entre verdade e mentira; enfim, a perda do entendimento do que
signifique virtude, e o desvirtuamento do legado que deixaremos para o porvir.
Mas é justamente o desafio deste momento que vivemos que o
torna mais precioso. É chegada a hora de romper o invólucro de inconsciência
que aprisiona o ser humano lúcido, virtuoso, que estamos destinados a ser. Se
soubermos fazê-lo, brindaremos este planeta milagroso que nos acolhe com
encantos como as cores, o voo livre e os sonidos que nos presenteiam as
borboletas e os pássaros.
Pois é, não está sendo fácil romper esse invólucro. A casca do ovo: requer esforço exato para quebra- la: baixa energia não quebra, e se for excessiva, esmaga-se o ovo.
ResponderExcluirAcho que demanda no mínimo umas três a quatro décadas, tempo necessário para uma geração iniciar e desenvolver a educação devidamente planejada.
Excelente texto.
ResponderExcluirPena que a tarefa, a virtude tenha sido deixada no passado longínquo.
Espero que as crianças e os jovens de hoje possam viver num mundo virtuoso.
Virtude, atitude etérea nos dias de hoje, muito esquecida, pouco lembranda, raramente praticada, esmagada pela avalanche de postagens apócrifas com distorções da realidade e da verdade que buscam esconder sua falta.
ResponderExcluirSou cética quanto à capacidade humana de romper qualquer coisa que dependa de reflexão, envolvimento. Embora o verdadeiro Saber não dependa de Universidades, duvido que as gerações futuras, que aí adiante nem saberão ler, possam absorver virtudes ao ponto de transformar o Planeta...
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