quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sem salvação

 Publicado no Diário dos Campos em 31/07/2026.

Sem salvação* é o título de minissérie com seis capítulos (criação de Julie Gearey, Reino Unido, 2026), em cartaz na Netflix. O nome não poderia ser mais acertado. A série consegue ser uma mostra dos conteúdos psicológicos que vão desde o indivíduo, às relações familiares e interpessoais, até a sociedade formada pelo conjunto de pessoas. Parece que nada escapou na construção da trama: patriarcalismo, teocracia, fanatismo, sexualidade e seus transtornos, violência e abusos de todos os tipos, ambição, egoísmo, vaidade, psicopatia, família, superstição, traumatismos, alcoolismo, hipocrisia... São tantas as mazelas do ser humano, e da sociedade que erigimos com elas, que não é fácil enumerá-las todas.

Durante o transcorrer da trama, só uns poucos personagens logram escapar da teia que aprisiona e imobiliza os adeptos de uma seita fundamentalista, que vive numa comunidade num vilarejo do norte do Reino Unido. Outros membros, que ameaçam tomar consciência da mentira que vivem, são sumariamente excluídos da seita e do convívio familiar. Não sem profundos traumas, que são escondidos em nome da preservação da falsa e frágil harmonia.

É impossível não enxergar logo o paralelo entre a seita da série e a sociedade atual. Até mesmo a ignorância dos fiéis, que faculta a manipulação e a ascensão de oportunistas enganadores. Na série, é o radicalismo da seita que proíbe os celulares, televisões, rádios, jornais, revistas. A única leitura aceita é a da bíblia. Na sociedade real que vivemos hoje, a ignorância não vem da proibição: vem da saturação de todas as formas de comunicação com a mentira e a manipulação.

Sem salvação parece ser um retrato fiel do estágio evolutivo da sociedade atual. A seita da série não encontra escapatória da sina de líderes inescrupulosos e manipuladores, e de fiéis entorpecidos, que os endeusam e os elegem. Aquela insana comunidade do norte do Reino Unido é uma metáfora certeira da sociedade do século XXI, em que, em todo o mundo, líderes psicopatas e tirânicos são eleitos e mitificados por populações facilmente ludibriadas.

A fragilidade do caráter da seita da série é a mesma fragilidade de caráter do cidadão comum e da sociedade atual, vítimas fáceis de hábeis farsantes. O mundo de hoje está cheio de falsos líderes, aproveitadores deste momento de crise em que as tecnologias e estratégias de logro e dominação evoluíram muito mais que o discernimento, a compreensão e a ética humanas.

Sem salvação precisa ser vista por todos. A série representa um laivo de lucidez a tentar nos despertar da hipnose em que se encontra a sociedade atual. É possível que nos inspiremos naqueles poucos personagens da trama que têm a lucidez, a dignidade, a coragem de se libertarem. De romper com a farsa, que só faz tolher as bênçãos do potencial humano.

Ser humano; um ser tão contraditório, cheio de imperfeições e bênçãos.


* Foi a amiga Ingrid, do grupo Poesia de Segunda, quem recomendou enfaticamente que víssemos a série. Temos de agradecer a Ingrid por este presente de verdadeira e rica amizade.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Faltou caráter

 

A seleção nacional de futebol reflete a alma do país. Um campeão é feito com garra, vontade de vencer, confiança em si, talento, arrojo, espírito de equipe, firmeza, resiliência... O que faltou ao Brasil para vencer a Noruega e credenciar-se como candidato ao hexa? Faltou tudo isso. Faltou um capitão Odegaard, o nome mais ouvido durante a narração do jogo. Ele fez lembrar o também capitão Modric, o craque croata maestro da eliminação do Brasil na copa de 2022. A canarinha não tem um articulador, o que Casemiro já foi um dia, faz tempo. Mas não é mais.

Faltou um goleador que jogasse com a alegria e a liberdade de quem não carrega nas costas o peso de redimir um país torturado pelo preconceito, intolerância, desatino, carência de discernimento e de propósito. Faltou caráter, aquela soma de qualidades que gera serenidade, solidez e determinação. O caráter é o alicerce da garra. A seleção não poderia ser aquilo que o povo do país não é. Se em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 havia alguma qualidade que galvanizava um desejo nacional de superação e reconhecimento, em 2026 estamos perdidos, desorientados. Já não sabemos distinguir oportunistas de estadistas, não sabemos diferenciar ética, honradez e escrúpulo de fisiologismo, clientelismo, demagogia e canalhice, não sabemos separar o que seja um sentimento ou uma necessidade legítima de uma compulsão irracional inculcada por condicionamentos que nos manipulam.

Tal como no conhecido poema “No caminho, com Maiakóvski”, de autoria de Eduardo Alves da Costa, tanto nos calamos diante da barbárie que arrancam-nos a voz. A vileza, o desdém e a mentira tornam-se uma doentia normalidade. Faltou caráter à seleção nacional porque está a faltar caráter a uma parcela muito grande da população do Brasil. Oxalá enxerguemos que a frouxidão, insegurança, medo, inabilidade, repetidos erros e ineficácia do time refletem o momento que passamos no país. O sentido de pátria, nacionalismo e porvir que temos confunde-se com o sentido de seleção nacional.

Não é um técnico italiano, nem um craque ególatra, narcisista e lesionado, que poderão resgatar o caráter que perdemos quando nos deixamos cooptar pela mentira, o logro e a omissão. A seleção tem atletas talentosos que brilham em seus clubes. Mas quando eles vestem a camisa que representa o caráter nacional, o que os move não é mais o talento futebolístico. Passa a ser o talento de um povo para a compreensão do que seja nação, do que seja liberdade, soberania, solidariedade, do que seja emancipação humana, do que seja lucidez, compreensão e determinação.

Nisso, a Noruega deu um baile no Brasil.