A seleção nacional de futebol reflete a alma do país. Um
campeão é feito com garra, vontade de vencer, confiança em si, talento, arrojo,
espírito de equipe, firmeza, resiliência... O que faltou ao Brasil para vencer
a Noruega e credenciar-se como candidato ao hexa? Faltou tudo isso. Faltou um
capitão Odegaard, o nome mais ouvido durante a narração do jogo. Ele fez
lembrar o também capitão Modric, o craque croata maestro da eliminação do
Brasil na copa de 2022. A canarinha não tem um articulador, o que Casemiro já
foi um dia, faz tempo. Mas não é mais.
Faltou um goleador que jogasse com a alegria e a liberdade
de quem não carrega nas costas o peso de redimir um país torturado pelo
preconceito, intolerância, desatino, carência de discernimento e de propósito.
Faltou caráter, aquela soma de qualidades que gera serenidade, solidez e
determinação. A seleção não poderia ser aquilo que o povo do país não é. Se em
1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 havia alguma qualidade que galvanizava um desejo
nacional de superação e reconhecimento, em 2026 estamos perdidos,
desorientados. Já não sabemos distinguir oportunistas de estadistas, não
sabemos diferenciar ética, honradez e escrúpulo de fisiologismo, clientelismo e
canalhice, não sabemos separar o que seja um sentimento ou uma necessidade
legítima de uma compulsão irracional inculcada por condicionamentos que nos
manipulam.
Tal como no conhecido poema “No caminho, com Maiakóvski”, de autoria de Eduardo Alves da Costa,
tanto nos calamos diante da barbárie que arrancam-nos a voz. A vileza, o desdém
e a mentira tornam-se uma doentia normalidade. Faltou caráter à seleção
nacional porque está a faltar caráter a uma parcela muito grande da população
do Brasil. Oxalá enxerguemos que a frouxidão, insegurança, medo, inabilidade, repetidos
erros e ineficácia do time refletem o momento que passamos no país. O sentido
de pátria, nacionalismo e porvir que temos confunde-se com o sentido de seleção
nacional.
Não é um técnico italiano, nem um craque ególatra e
lesionado, que poderão resgatar o caráter que perdemos quando nos deixamos
cooptar pela mentira, o logro e a omissão. A seleção tem atletas talentosos que
brilham em seus clubes. Mas quando eles vestem a camisa que representa o
caráter nacional, o que os move não é mais o talento futebolístico. Passa a ser
o talento de um povo para a compreensão do que seja nação, do que seja
liberdade, soberania, solidariedade, do que seja emancipação humana, do que
seja lucidez, compreensão e determinação.
Nisso, a Noruega deu um baile no Brasil.