segunda-feira, 6 de julho de 2026

Faltou caráter

 

A seleção nacional de futebol reflete a alma do país. Um campeão é feito com garra, vontade de vencer, confiança em si, talento, arrojo, espírito de equipe, firmeza, resiliência... O que faltou ao Brasil para vencer a Noruega e credenciar-se como candidato ao hexa? Faltou tudo isso. Faltou um capitão Odegaard, o nome mais ouvido durante a narração do jogo. Ele fez lembrar o também capitão Modric, o craque croata maestro da eliminação do Brasil na copa de 2022. A canarinha não tem um articulador, o que Casemiro já foi um dia, faz tempo. Mas não é mais.

Faltou um goleador que jogasse com a alegria e a liberdade de quem não carrega nas costas o peso de redimir um país torturado pelo preconceito, intolerância, desatino, carência de discernimento e de propósito. Faltou caráter, aquela soma de qualidades que gera serenidade, solidez e determinação. A seleção não poderia ser aquilo que o povo do país não é. Se em 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002 havia alguma qualidade que galvanizava um desejo nacional de superação e reconhecimento, em 2026 estamos perdidos, desorientados. Já não sabemos distinguir oportunistas de estadistas, não sabemos diferenciar ética, honradez e escrúpulo de fisiologismo, clientelismo e canalhice, não sabemos separar o que seja um sentimento ou uma necessidade legítima de uma compulsão irracional inculcada por condicionamentos que nos manipulam.

Tal como no conhecido poema “No caminho, com Maiakóvski”, de autoria de Eduardo Alves da Costa, tanto nos calamos diante da barbárie que arrancam-nos a voz. A vileza, o desdém e a mentira tornam-se uma doentia normalidade. Faltou caráter à seleção nacional porque está a faltar caráter a uma parcela muito grande da população do Brasil. Oxalá enxerguemos que a frouxidão, insegurança, medo, inabilidade, repetidos erros e ineficácia do time refletem o momento que passamos no país. O sentido de pátria, nacionalismo e porvir que temos confunde-se com o sentido de seleção nacional.

Não é um técnico italiano, nem um craque ególatra e lesionado, que poderão resgatar o caráter que perdemos quando nos deixamos cooptar pela mentira, o logro e a omissão. A seleção tem atletas talentosos que brilham em seus clubes. Mas quando eles vestem a camisa que representa o caráter nacional, o que os move não é mais o talento futebolístico. Passa a ser o talento de um povo para a compreensão do que seja nação, do que seja liberdade, soberania, solidariedade, do que seja emancipação humana, do que seja lucidez, compreensão e determinação.

Nisso, a Noruega deu um baile no Brasil.

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