terça-feira, 30 de junho de 2026

Sustentabilidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 30/06/2026.

Numa definição simplificada, “sustentabilidade” quer dizer harmonia entre natureza, sociedade e economia. Uma harmonia capaz de assegurar que a atividade humana aconteça de modo sensato, garantindo que nossa civilização seja durável, sustente-se através dos tempos, sem crises nem colapsos. A simplicidade da definição é só aparente. Qual a amplitude da natureza, do meio ambiente que faculta a vida no planeta Terra? Ela vai desde os micro-organismos que fertilizam o solo até a atmosfera que nos protege da radiação solar. E quando falamos em sociedade, lembramos da crescente complexidade da nossa civilização e suas relações, principalmente diante das revolucionárias novas tecnologias? E quando tratamos de economia, qual economia? Damo-nos conta do sistema econômico vigente, que promove o hiperconsumismo, a insana depredação dos recursos naturais, a competição e a ambição, concentra riqueza e dissemina pobreza?

A palavra “sustentabilidade” tem sido vulgarizada e aviltada, de modo a acoplar uma enganosa qualidade e legitimidade a produtos, ações e pensamentos concebidos dentro do insano sistema econômico que vivemos há séculos, que não tem nada de sustentável. Na questão ambiental, talvez os melhores exemplos de crise sejam o aquecimento global, a degradação de ecossistemas, a extinção de espécies, a pandemia. Quando pensamos em sociedade, temos de lembrar a crescente criminalidade e intolerância, resultado da injustiça social, a vitória da mentira sobre verdade, a falência da ética e da política, o crescente belicismo entre as nações, os temores com a insubordinação da inteligência artificial, a educação para o emburrecimento, o risco de novas pandemias incontroláveis... Há inúmeras evidências de que a sociedade atual não é sustentável, basta ter olhos para enxergá-las. Atualmente o que é gasto com armamentos de ataque e defesa seria suficiente para resolver os problemas mundiais de alimentação, saúde, emprego e moradia dignos, educação para a emancipação, cultura, lazer... Os gastos com armas são a mais clara evidência da insustentabilidade da sociedade atual.

Não é só a palavra “sustentabilidade” que está vulgarizada e divorciada de seu verdadeiro significado. Outras fazem companhia a ela: “Deus”, “Cristo”, “fé”, “família”, “pátria” são algumas delas. O aviltamento destas palavras e de seu sentido autêntico nos direciona para uma reflexão da qual não podemos fugir, se avaliamos o que acontece com a sociedade atual. A busca de mais clareza para nos situarmos nesta crescente desarmonia do mundo em que estamos vivendo implica a psicanálise do ser humano e da sociedade atual, que decide movida por pulsões, e não pela razão e sensibilidade.

O entendimento que temos destas vulgarizadas e desonradas palavras não é mais fruto de um sentimento legítimo, pessoal, refletido. Ele é fruto de um condicionamento, uma massificação irrefletida, que é a principal tática de preservação daqueles que se beneficiam da desarmonia da sociedade atual. Os oportunistas privilegiados que se aproveitam do aviltamento do valor do trabalho para locupletar-se investem tudo que podem para que a sociedade continue se confundindo. O povo ignorante, desorientado e desunido é muito mais fácil de ser tangido.

Desde que o reflexo condicionado foi reconhecido e esmiuçado, a repetição da mentira até parecer verdade tem sido um poderoso aliado da alienação e logro do povo. O ser humano parece preferir aceitar uma afirmação alheia teimosamente alardeada do que ter de refletir para alcançar a compreensão da complexa realidade que temos vivido.

Se não decidirmos refletir e escutar a própria consciência, continuaremos sendo bucha de canhão daqueles que enriquecem com a insustentabilidade.

sábado, 20 de junho de 2026

Motorista apressado

 Publicado no Jornal da Manhã em 20/06/2026

O motorista apressado amiúde tem um carro bem grande, ou seja, uma SUV de porte ou uma parruda camionete. Há também os apressados com carros pequenos, mas são mais raros. O tamanho grande nem sempre é uma necessidade prática. Parece mesmo ser mais uma necessidade psicológica que funcional: além de rápido e possante, o veículo precisa intimidar os demais motoristas, precisa poder ser utilizado como uma arma. Os apressados parecem querer compensar com a pressa e com o tamanho do veículo um complexo de pequenez e lerdeza que não conseguem superar em si mesmos. São criaturas guiadas pela compulsão de ultrapassar o outro, na via, na vida.

O comportamento de muitos motoristas apressados de carros grandes – sejamos justos, não são todos – lembra-me um desenho animado que via na década de 1960. Era com o personagem Pateta de Walt Disney. No dia a dia ele era uma pessoa comum, mas ao volante transformava-se num psicopata ensandecido. Penso que já naqueles idos de mais de sessenta anos atrás o motorista que usava o carro como uma arma já era figura notória na sociedade. Mas o Pateta de Walt Disney, antes de virar o psicopata ao volante, era um cidadão dócil, até mesmo demais, quase submisso. É possível que a transformação fosse justamente para resgatá-lo de um mundo no qual, talvez até inconscientemente, fosse um frustrado, um contrariado reprimido.

Nos dias de hoje, enxergo diferenças nos motoristas apressados. Encontro-os com frequência, seja nas ruas da cidade mas, sobretudo, nas rodovias. Seus veículos são verdadeiras armas de agressão. E creio que eles sejam mesmo a causa de muitos acidentes com vítimas que presenciamos nas estradas. Eles vêm em alta velocidade, acendendo os faróis desde muito longe para que saiamos da frente e possam passar, mesmo quando estamos ultrapassando outro veículo, ou estamos retardados por outro mais lento à frente. Quando os veículos por algum motivo seguem em fila indiana, ultrapassam pela direita e enfiam com violência seus veículos-arma no espaço de segurança que deixamos à nossa frente. Parecem bárbaros em uma batalha, os inimigos a serem vencidos são os outros motoristas. Não conseguem discernir quem são os verdadeiros inimigos, responsáveis por suas frustrações.

Há quem diga que os apressados o são porque estão atrasados na vida, e ainda têm muito o que percorrer. Tentam compensar o tempo perdido, deveríamos ser compreensivos com eles, apoiá-los no seu esforço de remissão. Será que é assim? Tenho minhas dúvidas. Observando-os, seja quando estão transfigurados ao volante, seja quando estão em tratativas cotidianas fora de seus veículos-arma, vejo personagens diferentes do simplório Pateta de Walt Disney. Os apressados de hoje em dia só não ameaçam quando longe do volante porque sentem-se desarmados, longe de seus veículos, e porque não estão cobertos pelo anonimato inimputável que mascara os motoristas agressivos. O motorista apressado crê que seus delitos vão ficar impunes.

Tenho minhas teorias sobre este traço vil da sociedade atual: creio que os motoristas apressados, transformados em psicopatas, são só uma das muitas manifestações patológicas de hoje. Depois de séculos de enaltecimento do egoísmo, competitividade, ambição desmesurada e anseio de supremacia, as pessoas já não têm controle nem consciência dos meios que usam para extravasar suas próprias frustrações. Os veículos grandes e possantes são só um tipo de ferramenta usada para isso. Outros são a posse de recursos, o uso da retórica e do engodo, o falseamento da verdade... Cada vez temos mais formas de catarse à nossa disposição.

Enquanto não fizermos a psicanálise de nossa sociedade, cidadãos psicopatas serão cada vez mais e mais comuns.