Publicado no Jornal da Manhã em 20/06/2026
O motorista apressado amiúde tem um carro bem grande, ou
seja, uma SUV de porte ou uma parruda camionete. Há também os apressados com
carros pequenos, mas são mais raros. O tamanho grande nem sempre é uma
necessidade prática. Parece mesmo ser mais uma necessidade psicológica que
funcional: além de rápido e possante, o veículo precisa intimidar os demais
motoristas, precisa poder ser utilizado como uma arma. Os apressados parecem
querer compensar com a pressa e com o tamanho do veículo um complexo de
pequenez e lerdeza que não conseguem superar em si mesmos. São criaturas guiadas
pela compulsão de ultrapassar o outro, na via, na vida.
O comportamento de muitos motoristas apressados de carros
grandes – sejamos justos, não são todos – lembra-me um desenho animado que via
na década de 1960. Era com o personagem Pateta de Walt Disney. No dia a dia ele
era uma pessoa comum, mas ao volante transformava-se num psicopata ensandecido.
Penso que já naqueles idos de mais de sessenta anos atrás o motorista que usava
o carro como uma arma já era figura notória na sociedade. Mas o Pateta de Walt
Disney, antes de virar o psicopata ao volante, era um cidadão dócil, até mesmo
demais, quase submisso. É possível que a transformação fosse justamente para
resgatá-lo de um mundo no qual, talvez até inconscientemente, fosse um frustrado,
um contrariado reprimido.
Nos dias de hoje, enxergo diferenças nos motoristas
apressados. Encontro-os com frequência, seja nas ruas da cidade mas, sobretudo,
nas rodovias. Seus veículos são verdadeiras armas de agressão. E creio que eles
sejam mesmo a causa de muitos acidentes com vítimas que presenciamos nas
estradas. Eles vêm em alta velocidade, acendendo os faróis desde muito longe
para que saiamos da frente e possam passar, mesmo quando estamos ultrapassando
outro veículo, ou estamos retardados por outro mais lento à frente. Quando os
veículos por algum motivo seguem em fila indiana, ultrapassam pela direita e
enfiam com violência seus veículos-arma no espaço de segurança que deixamos à
nossa frente. Parecem bárbaros em uma batalha, os inimigos a serem vencidos são
os outros motoristas. Não conseguem discernir quem são os verdadeiros inimigos,
responsáveis por suas frustrações.
Há quem diga que os apressados o são porque estão atrasados
na vida, e ainda têm muito o que percorrer. Tentam compensar o tempo perdido,
deveríamos ser compreensivos com eles, apoiá-los no seu esforço de remissão.
Será que é assim? Tenho minhas dúvidas. Observando-os, seja quando estão
transfigurados ao volante, seja quando estão em tratativas cotidianas fora de
seus veículos-arma, vejo personagens diferentes do simplório Pateta de Walt
Disney. Os apressados de hoje em dia só não ameaçam quando longe do volante
porque sentem-se desarmados, longe de seus veículos, e porque não estão
cobertos pelo anonimato inimputável que mascara os motoristas agressivos. O motorista
apressado crê que seus delitos vão ficar impunes.
Tenho minhas teorias sobre este traço vil da sociedade
atual: creio que os motoristas apressados, transformados em psicopatas, são só
uma das muitas manifestações patológicas de hoje. Depois de séculos de
enaltecimento do egoísmo, competitividade, ambição desmesurada e anseio de
supremacia, as pessoas já não têm controle nem consciência dos meios que usam
para extravasar suas próprias frustrações. Os veículos grandes e possantes são
só um tipo de ferramenta usada para isso. Outros são a posse de recursos, o uso
da retórica e do engodo, o falseamento da verdade... Cada vez temos mais formas
de catarse à nossa disposição.
Enquanto não fizermos a psicanálise de nossa sociedade,
cidadãos psicopatas serão cada vez mais e mais comuns.
Meus 1,15 m de pernas pedem um carro maior...
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