quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A cura da demência da humanidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/09/2026.

Sim, a humanidade está doente! Uma doença que não é só orgânica: é também mental, emocional, espiritual. O suposto Homo sapiens está dementado, substituiu a sapiência pela demência. O principal sintoma é que as pessoas perderam a capacidade de discernimento. Não conseguem mais distinguir verdade de mentira, liberdade de vassalagem, justiça social de exploração, dignidade de humilhação, esperança de engodo, estadistas de oportunistas, democratas de fascistas. As consequências são as ditaduras, guerras, exclusão social, concentração de riqueza, crescente criminalidade, insegurança, medo, mais guerras, crise ambiental, falência da ética e da honestidade, monetarização da fé...

Qual poderia ser a cura? Sucintamente, pode-se dizer que a cura seja assumir, enfim, o compromisso de discernir, e adotar postura que fortaleça a saúde, do indivíduo e da sociedade. Esse talvez seja o desafio primordial do ser humano, e da civilização: ser capaz de enxergar as diferenças e de cooperar com a harmonia do todo, com a convivência pacífica, amorosa, edificante. Entretanto, tal cura pressupõe a determinação de superar atributos inseparáveis do Homo sapiens: agressividade, concupiscência, ânsia de poder e conquistas, competitividade, narcisismo...

Claro, também somos amorosos e compreensivos; mas a luta interna dentro de nós tem sido desigual. A história da humanidade, uma sucessão de insanos conquistadores e suas nefastas conquistas, revela-nos isso. Não aprendemos com as eras de invasões, perseguições, escravidão, guerras, obscura ignorância. No século XXI continuamos a nos comportar como bárbaros, agora com tecnologias e armas sofisticadas.

Então como pensar em ser capaz de curar uma doença que parece incurável? Falar em assumir o compromisso de discernir é uma tarefa por demais racional. E o ser humano é, antes de tudo, irracional. Mas é bem possível que a cegueira da irracionalidade possa ser contornada pela subjetividade e pela intuição. Assim procuram nos ensinar os sábios místicos, desde a remota antiguidade. E ainda não aprendemos! A compreensão dos sábios parece-nos inalcançável. Talvez porque imaginemos muito distante a possibilidade da cura, que, na verdade, está muito perto; está dentro de nós.

Sou de família de orientação cristã, conheço um pouco o que dizem os cristãos: “amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo”. Penso que todas as verdadeiras religiões – que religam o homem mundano ao ser luminoso que o transcende, latente dentro de nós – apregoam mais ou menos o mesmo mandamento básico, com palavras diferentes. Outro grande desafio! Sabemos o que seja “amar”? Quem seja “Deus”? Qual Deus? O da Bíblia? O de Spinoza? O de Saramago? Ou o que sejam “todas as coisas”, quer dizer, o mundo? Reconhecemos o “próximo”, o nosso semelhante? Temos consciência de quem somos nós, o “si mesmo” da máxima cristã?

Dedicar-se a responder estas perguntas pode ser o passo essencial para a cura do nosso próprio ser, o “si mesmo”. Curando-nos, estaríamos contribuindo para curar a humanidade. Arte, cultura e sensibilidade poderão ajudar a alcançar as respostas.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Caminhada dominical em Ponta Grossa

 Publicado no Diário dos Campos em 21/08/2026 e no Jornal da Manhã em 25/08/2026.

Depois do evangelho no lar e do passeio com a cachorra pelo bairro, a esposa e eu resolvemos fazer uma caminhada dominical matinal, aproveitando os ares primaveris em Ponta Grossa. Embora o calendário afirme que estamos em pleno inverno, a natureza já está renascendo: as avoantes já têm ovos nos ninhos, a sibipiruna já está plena de brotos, a pitangueira carregou-se de flores visitadas por um enxame de operosas abelhas, os sabiás já estão ensaiando seus sonoros cantos madrugadores, o termômetro marca, de manhã bem cedo, temperatura quase de verão.

Nossa caminhada foi da Vila Estrela, onde moramos, até o Parque Ambiental, bem no centro da cidade. Ao longo do belvedere que é a Rua Jacob Holzmann – o mirante natural de onde se descortinam os Campos Gerais –, fomos constatando que muitos citadinos, como nós, aproveitavam a manhã primaveril: caminhantes, corredores, passeadores de cães, pais com os filhos percorriam as calçadas de onde se desfruta a paisagem do vale do Arroio Olarias e, mais adiante, dos horizontes colinosos da porção leste, onde o sol, a lua, as estrelas levantam-se para saudar a cidade.

Enquanto caminhávamos, outros belos sinais da adiantada primavera foram se revelando: entre eles, os alvos chumaços da paineira bem ao lado da marquise da feira popular, que sob a brisa se desfaziam em uma revoada de flocos brancos esvoaçantes, carregando para longe da árvore as sementes, dispersando os descendentes. Mas além dos encantos, vimos também motivos de apreensão. O piso da calçada utilizada pelos transeuntes com muitas irregularidades, lajotas deslocadas com sobressaltos ou depressões, às vezes ausentes, com buracos. Uma ameaça para os desatentos, que, em busca de saúde, podem encontrar um transtorno ortopédico, de menor ou maior gravidade.

Outro dissabor, as condições da miniarena junto ao Centro Esportivo para Pessoas com Deficiência: inúmeros cacos de vidro de garrafas quebradas, propositalmente espalhados, junto com muito lixo – garrafas pet, sacos plásticos, copos, pratos, embalagens – denotando uma intencional depredação de um espaço público que deveria ser destinado à cultura, livre, franqueado a toda a população. Talvez uma revolta de uma parte dos moradores, que preferiria naquele local um equipamento urbano diferente?

Entrando no Parque Ambiental, topamos com um grupo praticando os graciosos exercícios do Tai-Chi, a milenar arte chinesa para a saúde holística. Suaves e belos movimentos, harmonizados com o ambiente da radiosa manhã e das árvores ao redor.

Mais adiante, notamos os plátanos desfolhados, estes parece que submissos ao inverno ditado pelo calendário. Chamou atenção a quantidade de bolotas, ou glomérulos, que estão prestes a eclodir, quando liberam incontáveis sementes com pelos, para facilitar a disseminação pelo vento. Essas sementes são um potente alergênico, motivo pelo qual na Europa, de onde o plátano é nativo, as árvores são sempre podadas antes da explosão dos glomérulos. Oxalá os responsáveis pela arborização urbana estejam cientes do risco dos plátanos para a saúde pública, e façam a poda preventiva.

Já próximo ao módulo policial, perto da passarela sobre a Av. Dr. Vicente Machado, outro estranhamento: algumas árvores ressequidas, de verde só as ervas-de-passarinho, parasitas responsáveis pela morte da hospedeira. Suas pequenas bagas negras são muito apreciadas pelos pássaros, que propagam esta parasita pelas outras árvores. É preciso eliminar estas plantas logo que elas aparecem – um trabalho a ser feito por bons jardineiros –, para evitar que matem a hospedeira, e para conter a disseminação da parasita. Em compensação, poder-se-ia plantar pitangueiras para os pássaros.

A caminhada matinal dominical revela-nos maravilhas da cidade e seu povo, e também mostra que ainda há muito o que melhorar no cuidado urbano.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cidade do Silêncio – a impunidade do feminicídio

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/08/2026;

“Cidade do Silêncio” (EUA, 2007, dirigido por Gregory Nava, com Jennifer Lopez e Antonio Banderas) é um daqueles filmes seminais, baseado em fatos reais. Um alerta atualíssimo, que não podemos deixar de ver. Seu título original é “Bordertown”, “cidade fronteiriça”, referindo-se à mexicana Juárez, situada na fronteira com os EUA. O filme é de 2007, mas agora, em 2026, mais do que nunca, escancara-se no mundo o tema tratado: a sanha do domínio imperialista que provoca tragédias humanas, econômicas e culturais nos países submetidos.

Em 2007 vigorava o NAFTA, o acordo de livre comércio que isentava de tarifas alfandegárias México, Canadá e EUA. Instalaram-se em Juárez as ditas “indústrias maquiladoras”, montadoras de aparelhos com componentes importados, e depois exportados para os EUA por preço barato. Graças à isenção das tarifas e ao trabalho quase escravo realizado por mulheres, a maioria jovens. Nas palavras da protagonista do filme, Lauren Adrian (interpretada por Jennifer Lopez), uma jornalista inconformada, não era um tratado de comércio; era um tratado de escravidão e abuso.

Entre os anos de 1990 e 2010, estima-se que milhares de jovens trabalhadoras exploradas nas maquiladoras tenham sido estupradas, assassinadas e “desaparecidas”, com a conivência das autoridades locais e dos países importadores, subservientes ao poder do dinheiro das empresas envolvidas. Juárez tornou-se a razão da disseminação mundial da expressão “feminicídio”, e da luta de organizações não governamentais humanitárias contra esse persistente flagelo.

O filme é uma daquelas corajosas realizações cinematográficas que denunciam as barbaridades escondidas por trás de um falso desenvolvimento. Quem lucra com as fábricas maquiladoras são os oligarcas mexicanos e os grandes comerciantes importadores estadunidenses. Às trabalhadoras de Juárez resta a criminalidade, a corrupção, a pobreza, o esgarçamento de toda a estrutura social, a perda da identidade, o estupro e a morte. Elas moram em precaríssimas favelas, conversam em três idiomas diferentes: o espanhol, o inglês e as línguas nativas da população pobre, expulsa de seus territórios tradicionais e empurrada para a escravidão nas grandes cidades industriais pela ganância das elites locais.

Não se iluda quem acredita que os EUA têm interesse de levar segurança e prosperidade a quem quer que seja, fora do seu próprio território. É o que o extinto NAFTA mostrou, e que outros “acordos” que o substituíram ainda provocam. Juárez exemplifica bem o conceito de exploração imperial e de “externalização de custos”: o baixo preço pago pelos estadunidenses pelos computadores e televisores produzidos na cidade era à custa da tragédia social e ambiental no país vizinho.

Atualmente os EUA já não ocultam sua compulsão expansionista atrás de supostos acordos de comércio. Ucrânia, Gaza, Venezuela, Irã, as ingerências nas eleições e nos governos de Argentina, Peru, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Chile, Cuba, Nicarágua, Bolívia, Brasil... são prova disso. A era da (falsa) diplomacia foi substituída pela era da desinformação e da intimidação econômica e pelas armas.

Não nos faltam alertas, vindos até da produção cinematográfica dos próprios EUA, como é o filme “Cidade do Silêncio”.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Neymar, o filho de um Brasil

 Publicado no Jornal da Manhã em 11/08/2026.

Sim, filho “de um” Brasil, e não filho “do” Brasil. Nosso país é um dos campeões mundiais de contrastes, desigualdades, segregações e injustiças. Traços funestos que são fruto da combinação de muitos fatores: a colonização extrativista, o extermínio dos nativos, a demorada escravidão, as elites oligárquicas, gananciosas e reacionárias, a extensão e diversidade territorial, a mistura de raças, religiões, culturas... O Brasil delimitado nos mapas inclui muitos brasis. Decerto cada um deles tem seu próprio filho.

Vendo-se a lista de celebridades brasileiras hoje com o maior número de seguidores nas redes sociais, uma surpresa: os três primeiros nomes são de jogadores de futebol. Começa com Neymar, seguido de Ronaldinho Gaúcho e Marcelo, estes dois últimos já afastados do profissionalismo. O número de seguidores de Neymar é maior que a população do Brasil! Ele é um ídolo não só em nosso país. Que força do futebol! Neymar tem quatro vezes mais seguidores que a cantora Anitta, a única não futebolista entre os cinco primeiros da lista de celebridades. Somos mesmo o país do futebol, esse lúdico entretenimento que galvaniza as paixões nacionais, superando até a polarização ideológica.

Mas o que acontece com o futebol, e seu símbolo nacional atual, Neymar? Ambos estão em crise, isso é evidente. Exceto o meia atacante, que parece agonizar no Santos agonizante, já não temos craques de expressão. Não ganhamos uma copa há 24 anos, nem mesmo ganhamos outros títulos internacionais relevantes. E Neymar parece um eterno ególatra ressentido, à beira de um ataque de nervos. Não dura num time, provoca a cizânia por onde passa. Frequentemente lesionado, é ausência em jogos decisivos, provoca e desacata adversários, colegas de time, árbitros e parece que até mesmo o técnico e a direção do clube. É vergonhoso vê-lo em situações como a cobrança do pênalti ao final do jogo que o Brasil perdeu para a Noruega, ou a afronta aos jogadores do Remo no jogo pela Copa do Brasil em Belém do Pará. O que acontece com Neymar e com o futebol que um dia nos salvou do complexo de vira-lata?

O craque, como tantos brasileiros, também é filho de família humilde, que teve de lutar para sobreviver, vencer preconceitos e melhorar de vida. Um início não muito diferente de outro já celebrado “filho ‘do’ Brasil”, um retirante e metalúrgico pobre que se tornou um dos estadistas mais respeitados no mundo atual. Mas que não é reconhecido em nosso país como o é no restante do mundo democrático. O que aconteceu com Neymar? O que suas centenas de milhões de seguidores esperam de um ídolo, de um líder, e do país?

Num país segregacionista e desigual como o é o Brasil, ter o talento futebolístico que inegavelmente tem Neymar é um meio de vencer a pobreza. Mas há no presente e no passado recente muitos craques brasileiros que souberam fazer de sua libertação um exemplo de superação, de apoio, de solidariedade com os mais marginalizados. Por que, ao invés de financiar megaprojetos que são uma ofensa ao zelo social e ambiental, Neymar não dedica seu estrondoso sucesso financeiro a causas que ajudem a emancipar e a incluir tantos a quem se negam oportunidades?

O talento de Neymar faz pensar nos talentos do Brasil. Que o desequilíbrio do craque nos faça refletir sobre as possibilidades, e riscos, a respeito de nosso futuro.