Depois do evangelho no lar e do passeio com a cachorra pelo
bairro, a esposa e eu resolvemos fazer uma caminhada dominical matinal,
aproveitando os ares primaveris em Ponta Grossa. Embora o calendário afirme que
estamos em pleno inverno, a natureza já está renascendo: as avoantes já têm
ovos nos ninhos, a sibipiruna já está plena de brotos, a pitangueira
carregou-se de flores visitadas por um enxame de operosas abelhas, os sabiás já
estão ensaiando seus sonoros cantos madrugadores, o termômetro marca, de manhã
bem cedo, temperatura quase de verão.
Nossa caminhada foi da Vila Estrela, onde moramos, até o
Parque Ambiental, bem no centro da cidade. Ao longo do belvedere que é a Rua
Jacob Holzmann – o mirante natural de onde se descortinam os Campos Gerais –,
fomos constatando que muitos citadinos, como nós, aproveitavam a manhã
primaveril: caminhantes, corredores, passeadores de cães, pais com os filhos percorriam
as calçadas de onde se desfruta a paisagem do vale do Arroio Olarias e, mais adiante,
dos horizontes colinosos da porção leste, onde o sol, a lua, as estrelas
levantam-se para saudar a cidade.
Enquanto caminhávamos, outros belos sinais da adiantada
primavera foram se revelando: entre eles, os alvos chumaços da paineira bem ao
lado da marquise da feira popular, que sob a brisa se desfaziam em uma revoada
de flocos brancos esvoaçantes, carregando para longe da árvore as sementes, dispersando
os descendentes. Mas além dos encantos, vimos também motivos de apreensão. O
piso da calçada utilizada pelos transeuntes com muitas irregularidades, lajotas
deslocadas com sobressaltos ou depressões, às vezes ausentes, com buracos. Uma
ameaça para os desatentos, que, em busca de saúde, podem encontrar um
transtorno ortopédico, de menor ou maior gravidade.
Outro dissabor, as condições da miniarena junto ao Centro
Esportivo para Pessoas com Deficiência: inúmeros cacos de vidro de garrafas
quebradas, propositalmente espalhados, junto com muito lixo – garrafas pet,
sacos plásticos, copos, pratos, embalagens – denotando uma intencional
depredação de um espaço público que deveria ser destinado à cultura, livre,
franqueado a toda a população. Talvez uma revolta de uma parte dos moradores,
que preferiria naquele local um equipamento urbano diferente?
Entrando no Parque Ambiental, topamos com um grupo
praticando os graciosos exercícios do Tai-Chi, a milenar arte chinesa para a
saúde holística. Suaves e belos movimentos, harmonizados com o ambiente da
radiosa manhã e das árvores ao redor.
Mais adiante, notamos os plátanos desfolhados, estes parece
que submissos ao inverno ditado pelo calendário. Chamou atenção a quantidade de
bolotas, ou glomérulos, que estão prestes a eclodir, quando liberam incontáveis
sementes com pelos, para facilitar a disseminação pelo vento. Essas sementes
são um potente alergênico, motivo pelo qual na Europa, de onde o plátano é
nativo, as árvores são sempre podadas antes da explosão dos glomérulos. Oxalá
os responsáveis pela arborização urbana estejam cientes do risco dos plátanos
para a saúde pública, e façam a poda preventiva.
Já próximo ao módulo policial, perto da passarela sobre a
Av. Dr. Vicente Machado, outro estranhamento: algumas árvores ressequidas, de
verde só as ervas-de-passarinho, parasitas responsáveis pela morte da hospedeira.
Suas pequenas bagas negras são muito apreciadas pelos pássaros, que propagam
esta parasita pelas outras árvores. É preciso eliminar estas plantas logo que
elas aparecem – um trabalho a ser feito por bons jardineiros –, para evitar que
matem a hospedeira, e para conter a disseminação da parasita. Em compensação,
poder-se-ia plantar pitangueiras para os pássaros.
A caminhada matinal dominical revela-nos maravilhas da
cidade e seu povo, e também mostra que ainda há muito o que melhorar no cuidado
urbano.
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