segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Neymar, o filho de um Brasil

 

Sim, filho “de um” Brasil, e não filho “do” Brasil. Nosso país é um dos campeões mundiais de contrastes, desigualdades, segregações e injustiças. Traços funestos que são fruto da combinação de muitos fatores: a colonização extrativista, o extermínio dos nativos, a demorada escravidão, as elites oligárquicas, gananciosas e reacionárias, a extensão e diversidade territorial, a mistura de raças, religiões, culturas... O Brasil delimitado nos mapas inclui muitos brasis. Decerto cada um deles tem seu próprio filho.

Vendo-se a lista de celebridades brasileiras hoje com o maior número de seguidores nas redes sociais, uma surpresa: os três primeiros nomes são de jogadores de futebol. Começa com Neymar, seguido de Ronaldinho Gaúcho e Marcelo, estes dois últimos já afastados do profissionalismo. O número de seguidores de Neymar é maior que a população do Brasil! Ele é um ídolo não só em nosso país. Que força do futebol! Neymar tem quatro vezes mais seguidores que a cantora Anitta, a única não futebolista entre os cinco primeiros da lista de celebridades. Somos mesmo o país do futebol, esse lúdico entretenimento que galvaniza as paixões nacionais, superando até a polarização ideológica.

Mas o que acontece com o futebol, e seu símbolo nacional atual, Neymar? Ambos estão em crise, isso é evidente. Exceto o meia atacante, que parece agonizar no Santos agonizante, já não temos craques de expressão. Não ganhamos uma copa há 24 anos, nem mesmo ganhamos outros títulos internacionais relevantes. E Neymar parece um eterno ególatra ressentido, à beira de um ataque de nervos. Não dura num time, provoca a cizânia por onde passa. Frequentemente lesionado, é ausência em jogos decisivos, provoca e desacata adversários, colegas de time, árbitros e parece que até mesmo o técnico e a direção do clube. É vergonhoso vê-lo em situações como a cobrança do pênalti ao final do jogo que o Brasil perdeu para a Noruega, ou a afronta aos jogadores do Remo no jogo pela Copa do Brasil em Belém do Pará. O que acontece com Neymar e com o futebol que um dia nos salvou do complexo de vira-lata?

O craque, como tantos brasileiros, também é filho de família humilde, que teve de lutar para sobreviver, vencer preconceitos e melhorar de vida. Um início não muito diferente de outro já celebrado “filho ‘do’ Brasil”, um retirante e metalúrgico pobre que se tornou um dos estadistas mais respeitados no mundo atual. Mas que não é reconhecido em nosso país como o é no restante do mundo democrático. O que aconteceu com Neymar? O que suas centenas de milhões de seguidores esperam de um ídolo, de um líder, e do país?

Num país segregacionista e desigual como o é o Brasil, ter o talento futebolístico que inegavelmente tem Neymar é um meio de vencer a pobreza. Mas há no presente e no passado recente muitos craques brasileiros que souberam fazer de sua libertação um exemplo de superação, de apoio, de solidariedade com os mais marginalizados. Por que, ao invés de financiar megaprojetos que são uma ofensa ao zelo social e ambiental, Neymar não dedica seu estrondoso sucesso financeiro a causas que ajudem a emancipar e a incluir tantos a quem se negam oportunidades?

O talento de Neymar faz pensar nos talentos do Brasil. Que o desequilíbrio do craque nos faça refletir sobre as possibilidades, e riscos, a respeito de nosso futuro.

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