quinta-feira, 23 de julho de 2026

Sem salvação

 

Sem salvação* é o título de minissérie com seis capítulos (criação de Julie Gearey, Reino Unido, 2026), em cartaz na Netflix. O nome não poderia ser mais acertado. A série consegue ser uma mostra dos conteúdos psicológicos que vão desde o indivíduo, às relações familiares e interpessoais, até a sociedade formada pelo conjunto de pessoas. Parece que nada escapou na construção da trama: patriarcalismo, teocracia, fanatismo, sexualidade e seus transtornos, violência e abusos de todos os tipos, ambição, egoísmo, vaidade, psicopatia, família, superstição, traumatismos, alcoolismo, hipocrisia... São tantas as mazelas do ser humano, e da sociedade que erigimos com elas, que não é fácil enumerá-las todas.

Durante o transcorrer da trama, só uns poucos personagens logram escapar da teia que aprisiona e imobiliza os adeptos de uma seita fundamentalista, que vive numa comunidade num vilarejo do norte do Reino Unido. Outros membros, que ameaçam tomar consciência da mentira que vivem, são sumariamente excluídos da seita e do convívio familiar. Não sem profundos traumas, que são escondidos em nome da preservação da falsa e frágil harmonia.

É impossível não enxergar logo o paralelo entre a seita da série e a sociedade atual. Até mesmo a ignorância dos fiéis, que faculta a manipulação e a ascensão de oportunistas enganadores. Na série, é o radicalismo da seita que proíbe os celulares, televisões, rádios, jornais, revistas. A única leitura aceita é a da bíblia. Na sociedade real que vivemos hoje, a ignorância não vem da proibição: vem da saturação de todas as formas de comunicação com a mentira e a manipulação.

Sem salvação parece ser um retrato fiel do estágio evolutivo da sociedade atual. A seita da série não encontra escapatória da sina de líderes inescrupulosos e manipuladores, e de fiéis entorpecidos, que os endeusam e os elegem. Aquela insana comunidade do norte do Reino Unido é uma metáfora certeira da sociedade do século XXI, em que, em todo o mundo, líderes psicopatas e enganadores são eleitos e mitificados por populações facilmente ludibriadas.

A fragilidade do caráter da seita da série é a mesma fragilidade de caráter do cidadão comum e da sociedade atual, vítimas fáceis de hábeis farsantes. O mundo de hoje está cheio de falsos líderes, aproveitadores deste momento de crise em que as tecnologias e estratégias de logro e dominação evoluíram muito mais que o discernimento, a compreensão e a ética humanas.

Sem salvação precisa ser vista por todos. A série representa um laivo de lucidez a tentar nos despertar da hipnose em que se encontra a sociedade atual. É possível que nos inspiremos naqueles pouco personagens da trama que têm a lucidez, a dignidade, a coragem de se libertarem. De romper com a farsa, que só faz tolher as bênçãos do potencial humano.

Ser humano; um ser tão contraditório, cheio de imperfeições e bênçãos.


* Foi a amiga Ingrid, do grupo Poesia de Segunda, quem recomendou enfaticamente que víssemos a série. Temos de agradecer a Ingrid por este presente de verdadeira e rica amizade.

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