Sem salvação* é o título de minissérie com seis capítulos
(criação de Julie Gearey, Reino Unido, 2026), em cartaz na Netflix. O nome não
poderia ser mais acertado. A série consegue ser uma mostra dos conteúdos
psicológicos que vão desde o indivíduo, às relações familiares e interpessoais,
até a sociedade formada pelo conjunto de pessoas. Parece que nada escapou na
construção da trama: patriarcalismo, teocracia, fanatismo, sexualidade e seus
transtornos, violência e abusos de todos os tipos, ambição, egoísmo, vaidade,
psicopatia, família, superstição, traumatismos, alcoolismo, hipocrisia... São
tantas as mazelas do ser humano, e da sociedade que erigimos com elas, que não
é fácil enumerá-las todas.
Durante o transcorrer da trama, só uns poucos personagens
logram escapar da teia que aprisiona e imobiliza os adeptos de uma seita fundamentalista,
que vive numa comunidade num vilarejo do norte do Reino Unido. Outros membros,
que ameaçam tomar consciência da mentira que vivem, são sumariamente excluídos
da seita e do convívio familiar. Não sem profundos traumas, que são escondidos
em nome da preservação da falsa e frágil harmonia.
É impossível não enxergar logo o paralelo entre a seita da
série e a sociedade atual. Até mesmo a ignorância dos fiéis, que faculta a
manipulação e a ascensão de oportunistas enganadores. Na série, é o radicalismo
da seita que proíbe os celulares, televisões, rádios, jornais, revistas. A
única leitura aceita é a da bíblia. Na sociedade real que vivemos hoje, a ignorância
não vem da proibição: vem da saturação de todas as formas de comunicação com a
mentira e a manipulação.
Sem salvação parece
ser um retrato fiel do estágio evolutivo da sociedade atual. A seita da série
não encontra escapatória da sina de líderes inescrupulosos e manipuladores, e
de fiéis entorpecidos, que os endeusam e os elegem. Aquela insana comunidade do
norte do Reino Unido é uma metáfora certeira da sociedade do século XXI, em que,
em todo o mundo, líderes psicopatas e enganadores são eleitos e mitificados por
populações facilmente ludibriadas.
A fragilidade do caráter da seita da série é a mesma
fragilidade de caráter do cidadão comum e da sociedade atual, vítimas fáceis de
hábeis farsantes. O mundo de hoje está cheio de falsos líderes, aproveitadores
deste momento de crise em que as tecnologias e estratégias de logro e dominação
evoluíram muito mais que o discernimento, a compreensão e a ética humanas.
Sem salvação precisa ser vista por todos. A série representa um laivo de lucidez a tentar
nos despertar da hipnose em que se encontra a sociedade atual. É possível que
nos inspiremos naqueles pouco personagens da trama que têm a lucidez, a
dignidade, a coragem de se libertarem. De romper com a farsa, que só faz tolher
as bênçãos do potencial humano.
Ser humano; um ser tão contraditório, cheio de imperfeições
e bênçãos.
*
Foi a amiga Ingrid, do grupo Poesia de Segunda, quem recomendou enfaticamente
que víssemos a série. Temos de agradecer a Ingrid por este presente de
verdadeira e rica amizade.
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