sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cidade do Silêncio – a impunidade do feminicídio

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/08/2026;

Cidade do Silêncio” (EUA, 2007, dirigido por Gregory Nava, com Jennifer Lopez e Antonio Banderas) é um daqueles filmes seminais, baseado em fatos reais. Um alerta atualíssimo, que não podemos deixar de ver. Seu título original é “Bordertown”, “cidade fronteiriça”, referindo-se à mexicana Juárez, situada na fronteira com os EUA. O filme é de 2007, mas agora, em 2026, mais do que nunca, escancara-se no mundo o tema tratado: a sanha do domínio imperialista que provoca tragédias humanas, econômicas e culturais nos países submetidos.

Em 2007 vigorava o NAFTA, o acordo de livre comércio que isentava de tarifas alfandegárias México, Canadá e EUA. Instalaram-se em Juárez as ditas “indústrias maquiladoras”, montadoras de aparelhos com componentes importados, e depois exportados para os EUA por preço barato. Graças à isenção das tarifas e ao trabalho quase escravo realizado por mulheres, a maioria jovens. Nas palavras da protagonista do filme, Lauren Adrian (interpretada por Jennifer Lopez), uma jornalista inconformada, não era um tratado de comércio; era um tratado de escravidão e abuso.

Entre os anos de 1990 e 2010, estima-se que milhares de jovens trabalhadoras exploradas nas maquiladoras tenham sido estupradas, assassinadas e “desaparecidas”, com a conivência das autoridades locais e dos países importadores, subservientes ao poder do dinheiro das empresas envolvidas. Juárez tornou-se a razão da disseminação mundial da expressão “feminicídio”, e da luta de organizações não governamentais humanitárias contra esse persistente flagelo.

O filme é uma daquelas corajosas realizações cinematográficas que denunciam as barbaridades escondidas por trás de um falso desenvolvimento. Quem lucra com as fábricas maquiladoras são os oligarcas mexicanos e os grandes comerciantes importadores estadunidenses. Às trabalhadoras de Juárez resta a criminalidade, a corrupção, a pobreza, o esgarçamento de toda a estrutura social, a perda da identidade, o estupro e a morte. Elas moram em precaríssimas favelas, conversam em três idiomas diferentes: o espanhol, o inglês e as línguas nativas da população pobre, expulsa de seus territórios tradicionais e empurrada para a escravidão nas grandes cidades industriais pela ganância das elites locais.

Não se iluda quem acredita que os EUA têm interesse de levar segurança e prosperidade a quem quer que seja, fora do seu próprio território. É o que o extinto NAFTA mostrou, e que outros “acordos” que o substituíram ainda provocam. Juárez exemplifica bem o conceito de exploração imperial e de “externalização de custos”: o baixo preço pago pelos estadunidenses pelos computadores e televisores produzidos na cidade era à custa da tragédia social e ambiental no país vizinho.

Atualmente os EUA já não ocultam sua compulsão expansionista atrás de supostos acordos de comércio. Ucrânia, Gaza, Venezuela, Irã, as ingerências nas eleições e nos governos de Argentina, Peru, Colômbia, Equador, Honduras, Paraguai, Chile, Cuba, Nicarágua, Bolívia, Brasil... são prova disso. A era da (falsa) diplomacia foi substituída pela era da desinformação e da intimidação econômica e pelas armas.

Não nos faltam alertas, vindos até da produção cinematográfica dos próprios EUA, como é o filme “Cidade do Silêncio”.

Um comentário:

  1. Um imprescindível alerta. Eu desconhecia essa situação e também nunca vi esse filme, vou procurar.

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