Diz a sabedoria popular que o fígado é o órgão da raiva e
da agressividade, e o coração o órgão do amor e da paz. Esta divisão dos nossos
humores entre os dois órgãos vitais traduz bem nossa natureza de seres tão
ambíguos. Diz-se também que o íntimo de cada um de nós é habitado por um lobo
voraz e um dócil cordeiro. Ora um, ora outro se manifesta, predomina aquele que
alimentamos mais. Devemos crer que eles não se manifestem ao mesmo tempo. Se
assim fosse, decerto o lobo devoraria o cordeiro. É preciso que o lobo se
recolha para que o cordeiro assuma e o coração possa emanar bondade e
compreensão.
Por sua vez, o cordeiro retira-se para que o lobo extravase
os figadais humores de raiva, incompreensão e agressividade. Humores não
necessariamente negativos. São eles, por exemplo, os responsáveis pela
transgressão das normas vigentes, fazendo-nos evoluir. Quando é o cordeiro que
se manifesta, pelos sentimentos do coração, ele transmite ao seu entorno a paz
e a harmonia. Quando é o lobo que espicaça o fígado, ele dissemina não só o
inconformismo, mas também a intolerância, a irracionalidade e o ódio. Guerra ou
paz são os corolários previsíveis do predomínio do lobo ou do cordeiro, do
fígado ou do coração.
Atualmente a população humana ultrapassa oito bilhões de
almas, e acumulamos armas de destruição capazes de devastar o planeta várias
vezes. Como nunca antes na história, é preciso cuidar de qual dos dois extremos
estamos manifestando: o fígado ou o coração, o lobo ou o cordeiro. Esse dilema
parece ser o desafio existencial que a natureza nos coloca, para a evolução
decidir se temos chance, fazemos jus às benesses que a providência nos
concedeu, ao que tudo indica em caráter provisório, experimental.
A nós, seres humanos, de comprovarmos se merecemos ou não
tais benesses. Se formos merecedores, sobreviveremos, evoluiremos, daremos um
passo no rumo da compreensão do sentido da vida, da dimensão do universo e de
nosso papel nele. Se não formos merecedores, talvez deixemos o exemplo de
fracasso para outras espécies melhor adaptadas que nos sucedam. Nós mesmos já somos a tentativa de evolução
resultante do fracasso de muitas espécies extintas que nos antecederam.
Ao refletirmos sobre as benesses da providência, que
surpreendente paradoxo! O planeta Terra precisou de bilhões de anos para
transformar-se e evoluir até tornar-se um lar milagroso, que nos acolhe com afeto
e generosidade, tudo nos provê. Já o “Homo
sapiens” precisou de centenas de milhares de anos para evoluir até
espalhar-se por toda a superfície do planeta, desenvolver incrível
engenhosidade e capacidade de invenção, reflexão e sentimento. E é justamente
essa extraordinária evolução que ameaça extinguir a espécie.
Se não soubermos balancear os humores do lobo e do
cordeiro, do fígado e do coração, usaremos as bênçãos que a providência nos
concedeu para nossa própria extinção. Oxalá os humores do lobo sejam bem
empregados para nossa salvação, e os do cordeiro e do coração sejam nossa iluminação.
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