domingo, 12 de abril de 2026

Bets, teologia da prosperidade, modas e dívidas

 

O Brasil está vivendo um momento singular. Apesar das crises mundo afora, que só fazem escancarar que a humanidade está doente, por aqui não vamos mal. A massa salarial da população nunca foi tão alta, o desemprego nunca foi tão baixo, os programas sociais governamentais estão de vento em popa, a pobreza e a fome diminuem, a bolsa de valores bate recordes, orçamento e inflação estão sob controle, a balança comercial com o exterior tem saldo positivo. Mas, paradoxalmente, para espanto e suplício do governo federal, o país também atinge níveis recordes de inadimplência: as famílias, os cidadãos, estão mais endividados do que nunca. Como explicar isso?

A explicação não é simples. Para começar, quase três séculos de aguda exploração injusta do trabalho só poderiam mesmo conduzir a humanidade a uma patológica sensação de desespero, em que o cidadão se rende às mais insólitas promessas de ganho monetário que possam ajudar a pagar as dívidas. As apostas nas bets on-line são uma delas. Análises mostram que 99% do valor investido não retorna ao apostador. E que o 1% beneficiado é de grandes apostadores, não o cidadão comum. Ganham aqueles que têm condições de fazer apostas milionárias, os megapostadores, que já são ricos. E as bets foram concebidas para tornarem-se um vício alucinante. Não é uma simples loteria. É um engodo pensado com a ciência do que há de mais evoluído em comportamento, manipulação e condicionamento humano. As bets viram parte importante do endividamento da sociedade, e drena os recursos para o exterior.

E a chamada teologia da prosperidade? Que teologia é essa, que coloca os ganhos – o dinheiro – acima dos valores humanos tais como honestidade, ética, generosidade e solidariedade? E que coloca o deus dinheiro acima de qualquer outro? Sabe-se de casos em que o fiel adepto foi convencido a doar o valor do aluguel para a igreja, com a promessa de ganhar a casa própria. Esse fiel tornou-se um dos inadimplentes. E o pastor explica que foi falha de sua fé, o devedor não a teve com fervor suficiente.

O que as bets e a teologia da prosperidade têm em comum? Ambas são ilusões, embustes que não têm intenção de cumprir o que prometem, e que só visam tirar o dinheiro do cidadão desavisado. As malogradas ilusões de ganho são um grito de desespero diante do sistema que submete o ser humano comum. Há semelhanças com as indulgências da Idade Média, quando o despossuído era convencido a comprar um lugar no céu, diante da cruel vida na Terra.

Neste ano de copa do mundo de futebol, outro endividamento das famílias também aumenta a inadimplência, segundo dados do comércio: é a aquisição de televisores com telas gigantescas, que permitam melhorar a sensação de se estar dentro do campo de futebol. Ah, o futebol! O esporte mais popular do mundo, que antes forjava os craques nas várzeas e nas praias, e hoje cria-os nos centros de treinamento e nos estádios super equipados, financiados pelas bets. E não faltam os escândalos de craques envolvidos em falcatruas ilícitas, enredadas com apostas nas famigeradas bets.

Nem vamos falar da desnecessária troca do carro que já não é o último modelo, nem da roupa ou calçado que já não é da moda vigente neste ano. Não faltam engodos para fazer o cidadão descuidar do seu orçamento, e acabar inadimplente. O ser humano comum é vítima fácil das artimanhas que fazem perder o discernimento. Não só para as compras e gastos desnecessários, que o fazem devedor, agrilhoando-o ainda mais ao usurário sistema.

Infelizmente, não é só nos gastos que a humanidade anda desatinada. É na alimentação, na cultura, no discernir entre verdade e mentira, nos relacionamentos afetivos, nas escolhas de dirigentes...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Aos leitores do blog que desejarem postar comentários, pedimos que se identifiquem. Poderão não ser postados comentários sem identificação.