O Brasil está vivendo um momento singular. Apesar das
crises mundo afora, que só fazem escancarar que a humanidade está doente, por
aqui não vamos mal. A massa salarial da população nunca foi tão alta, o desemprego
nunca foi tão baixo, os programas sociais governamentais estão de vento em
popa, a pobreza e a fome diminuem, a bolsa de valores bate recordes, orçamento
e inflação estão sob controle, a balança comercial com o exterior tem saldo
positivo. Mas, paradoxalmente, para espanto e suplício do governo federal, o
país também atinge níveis recordes de inadimplência: as famílias, os cidadãos,
estão mais endividados do que nunca. Como explicar isso?
A explicação não é simples. Para começar, quase três
séculos de aguda exploração injusta do trabalho só poderiam mesmo conduzir a
humanidade a uma patológica sensação de desespero, em que o cidadão se rende às
mais insólitas promessas de ganho monetário que possam ajudar a pagar as
dívidas. As apostas nas bets on-line são uma delas. Análises mostram que 99% do
valor investido não retorna ao apostador. E que o 1% beneficiado é de grandes
apostadores, não o cidadão comum. Ganham aqueles que têm condições de fazer
apostas milionárias, os megapostadores, que já são ricos. E as bets foram
concebidas para tornarem-se um vício alucinante. Não é uma simples loteria. É
um engodo pensado com a ciência do que há de mais evoluído em comportamento,
manipulação e condicionamento humano. As bets viram parte importante do
endividamento da sociedade, e drena os recursos para o exterior.
E a chamada teologia da prosperidade? Que teologia é essa,
que coloca os ganhos – o dinheiro – acima dos valores humanos tais como
honestidade, ética, generosidade e solidariedade? E que coloca o deus dinheiro
acima de qualquer outro? Sabe-se de casos em que o fiel adepto foi convencido a
doar o valor do aluguel para a igreja, com a promessa de ganhar a casa própria.
Esse fiel tornou-se um dos inadimplentes. E o pastor explica que foi falha de
sua fé, o devedor não a teve com fervor suficiente.
O que as bets e a teologia da prosperidade têm em comum?
Ambas são ilusões, embustes que não têm intenção de cumprir o que prometem, e
que só visam tirar o dinheiro do cidadão desavisado. As malogradas ilusões de ganho
são um grito de desespero diante do sistema que submete o ser humano comum. Há
semelhanças com as indulgências da Idade Média, quando o despossuído era
convencido a comprar um lugar no céu, diante da cruel vida na Terra.
Neste ano de copa do mundo de futebol, outro endividamento
das famílias também aumenta a inadimplência, segundo dados do comércio: é a
aquisição de televisores com telas gigantescas, que permitam melhorar a
sensação de se estar dentro do campo de futebol. Ah, o futebol! O esporte mais popular
do mundo, que antes forjava os craques nas várzeas e nas praias, e hoje cria-os
nos centros de treinamento e nos estádios super equipados, financiados pelas
bets. E não faltam os escândalos de craques envolvidos em falcatruas ilícitas, enredadas
com apostas nas famigeradas bets.
Nem vamos falar da desnecessária troca do carro que já não
é o último modelo, nem da roupa ou calçado que já não é da moda vigente neste
ano. Não faltam engodos para fazer o cidadão descuidar do seu orçamento, e
acabar inadimplente. O ser humano comum é vítima fácil das artimanhas que fazem
perder o discernimento. Não só para as compras e gastos desnecessários, que o
fazem devedor, agrilhoando-o ainda mais ao usurário sistema.
Infelizmente, não é só nos gastos que a humanidade anda
desatinada. É na alimentação, na cultura, no discernir entre verdade e mentira,
nos relacionamentos afetivos, nas escolhas de dirigentes...
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