sexta-feira, 24 de abril de 2026

O animal que pensa

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 24/04/2026.

O homem é um animal que pensa, e pensa que não é um animal”. Esta debochada e sábia frase, que me foi apresentada há anos por um estimado amigo de infância, cada vez me cativa mais. Ela contrapõe dois sentidos do que quer dizer “pensar”: de um lado, raciocinar com sensatez, refletir; de outro, supor, conjeturar, amiúde equivocadamente. “Quem você pensa que é?”. “Ele pensa que é o imperador do mundo?”. “Ele pensa que é um democrata e patriota!”. “Ele pensa que o povo é otário e vai continuar acreditando em tantas mentiras?”. “Ele pensa que é o deus do futebol?”. Ou, como diria minha avó, “De pensar morreu o burro!”. Este “pensar” é sinônimo de presunção ignorante.

“Pensar”, no sentido de refletir e raciocinar, sem dúvida é uma das maiores bênçãos concedidas ao ser humano. A outra bênção é este generoso planeta Terra que nos acolhe, nos encanta, e tudo nos concede para que possamos existir e evoluir. Mas a bênção de “pensar” pode ser também nossa desgraça. Se nos esquecermos e “pensarmos” – agora no sentido de pressupormos – que já não somos animais. Nestes, preponderam os instintos de sobrevivência, e portanto de agressividade e domínio. Animais que ainda somos, estes instintos perduram em nosso ser. Diante dos desafios de situações críticas, reagimos primeiro como animais, depois é que refletimos.

Mas já somos também este ser pensante e sensato, que constrói regras para um convívio harmonioso, que concebe e evoca guias espirituais e celestiais a servir de exemplo e de inspiração de como é o ser iluminado no qual almejamos nos tornar um dia. É aquele que alguns chamam de nosso “Eu Superior”, que é lúcido, compreensivo, amoroso e firme. Ele convive com o animal selvagem. Já temos dentro de nós este ser divino iluminado. Este é o maior milagre da evolução: já vislumbramos que existe dentro de nós a semente de um ser celestial, que nos faz emergir da barbárie animal para a civilidade humana.

Vivemos hoje o momento da transição. O animal dentro de nós parece sentir-se ameaçado pelo celestial que germina. E reage como a fera acuada, extravasa os instintos de agressividade e dominação, agora aparelhados com sofisticadíssimas armas e tecnologias que o raciocínio criativo, mas sem reflexão, empenha-se em aprimorar cada vez mais. Chegamos ao absurdo de dedicar as maiores bênçãos, o pensar criativo e a generosidade do planeta, para agredir, dominar e guerrear. Investe-se mais na guerra e no petróleo que a move do que em saneamento, saúde, alimentos, educação, cultura... É o animal acuado defendendo-se, em desespero.

É hora de compreendermos melhor este animal enfurecido, e de darmos mais atenção ao celestial que já vislumbramos, que também existe dentro de nós. Vai preponderar aquele que soubermos cultivar melhor. Se descuidarmos, se pensarmos presunçosa e equivocadamente, o animal vai escapar do contrato social e vai acabar por devorar toda a humanidade.

O Homo sapiens não está fazendo jus às bênçãos do pensamento lúcido e do acolhimento no planeta Terra.

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