quarta-feira, 25 de março de 2026

O cancelamento da copa do mundo de futebol

 

O futebol é o único esporte universal, ele para todo o mundo quando da realização da copa de seleções. No livro “Veneno remédio – o futebol e o Brasil” (Cia. das Letras, 2008) o professor, escritor e músico José Miguel Wisnik discute as qualidades do esporte que ajudou a livrar-nos do “complexo de vira-lata” e projetou nosso país no mundo: é praticado nas várzeas e praias por moleques pobres desde muito cedo, assim forjam-se craques admirados em todo o planeta.

Há quem tente estigmatizar o futebol, acusando-o de ser a distração das periferias irrelevantes. Esforçam-se por disseminar outros esportes, que usam armaduras, bastões e bolas que não são bolas. Um esforço vão. A origem humilde nos terrenos baldios, o desafio de unir destreza pessoal, disciplina tática, espírito de equipe e vontade de vencer, a imprevisibilidade, quando nem sempre vence o mais forte e o mais rico, parecem ainda ser capazes de superar os determinismos e artificialismos e de arrebatar multidões de torcedores. Não sem o risco de degenerações, daí o acerto da antítese “veneno remédio”.

Neste turbulento 2026 realiza-se o evento máximo, a copa do mundo. Vamos ver adiante um roteiro em parte real, já acontecido, em parte possível, mas improvável. Os EUA, um dos países sede – visto que serão três – invade militarmente o Irã, cuja seleção conquistou no campo o direito de estar na copa. O invadido Irã, sem segurança de enviar sua seleção ao invasor EUA, solicita à entidade máxima do futebol, a FIFA, que mude o calendário de jogos, evitando que a seleção persa seja obrigada a realizar partidas dentro dos EUA. A FIFA alega que não pode imiscuir-se em questões geopolíticas, o calendário já foi firmado, há muitos interesses financeiros comprometidos, não tem como mudar o calendário. Lembremos, antes a Rússia já foi excluída de participar do certame, sob alegação de pretextos no mínimo hipócritas. O poder do dinheiro, do mando e das ameaças dos EUA tem mais peso que qualquer argumento legítimo, humanitário ou futebolístico.

Diante do impasse, o Irã decide não arriscar a vida de seus craques, anuncia que não participará do torneio. Antes que a FIFA decida como substituir a seleção desistente, um país europeu, que já foi campeão do mundo e sede da copa e é um dos expoentes do futebol mundial, em solidariedade ao agredido Irã, resolve ele também anunciar sua desistência de participar da competição. De novo, antes da FIFA conseguir reagir, países africanos, asiáticos, latino-americanos seguem o exemplo do país europeu, e também anunciam a desistência.

Subitamente, o mundo dá-se conta que o futebol é capaz de despertar uma lucidez, compreensão e solidariedade mais fortes que o poder do dinheiro e das armas. A copa do mundo de 2026 é provisoriamente cancelada, o mundo fica sem um de seus maiores espetáculos pacíficos, capaz de parar até guerras.

Desta vez, a guerra é que parou o espetáculo. Como já aconteceu, na Segunda Guerra Mundial. Hora da humanidade se perguntar: este é o caminho acertado da civilização?

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