domingo, 25 de janeiro de 2026

A pandemia final

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 27/01/2026.

Alguns especialistas afirmam tê-la identificado, mas são desacreditados por muitos outros, os quais, aliás, parecem já infectados por ela. Seus sintomas são vários, e intricados: esquecimento, falta de discernimento, um certo alheamento, dificuldade de enxergar a realidade e de distinguir engodo de veracidade. Estes sintomas desencadeiam algumas distorções de comportamento, tais como um alucinante conflito entre, de um lado, ceticismo e incredulidade, e, de outro, fé cega em supostos vaticínios religiosos, inventados por outros já infectados.

Outros sintomas são a intolerância com o diferente, o apego ao dinheiro, posses, status e poder, perda do senso crítico e da ética, irritabilidade, violência, hipocrisia, desonestidade, pornografia e violência sexual. Os contaminados são identificados em todos os países, raças, classes sociais e econômicas, religiões, gêneros, vieses ideológicos e ocupações. Médicos, militares, políticos, agricultores, religiosos, professores, estudantes, cientistas, esposas do lar, parece que ninguém escapa. Um idoso encanecido e engelhado, aparentemente pacífico e lúcido, encontrado casualmente na rua, no shopping ou na repartição, pode subitamente irromper em uma cruzada verbal odienta. Qualquer um que mostre um laivo de reflexão e dúvida parece-lhe uma ameaça, o infectado transforma-se num Dom Quixote arremetendo contra os moinhos de vento.

Instituições de pesquisa têm buscado, sem sucesso, identificar o vírus e as causas da propagação dessa nova pandemia. Os próprios pesquisadores ainda debatem entre si, alguns dizem que ela é inexistente, fruto de ilusões da inteligência artificial, que já atua para subverter a humanidade que quer dominar. Àqueles que acreditam que tal robusta gama de sintomas só possa mesmo estar evidenciando uma inegável, mas desconhecida, pandemia, resta a hipótese de que se trate de um novíssimo tipo de vírus, que não tem materialidade. Manifesta-se como energia pura, no campo das ideias e do psiquismo humano. Não faltam os que retomam as suposições de origem extraterrestre de tais vírus. Embora imateriais, sua ação cria manifestações no mundo material, com uma capacidade aguda de provocar comportamentos de rebanho, em que a lucidez individual é substituída pela vontade da massa enlouquecida.

Parece agora a alguns pesquisadores que já em 1921, com seu livro “Psicologia das massas e análise do eu”, Sigmund Freud já tinha identificado a moléstia e previsto a pandemia, mas não foi acreditado. Ou, pior, foi compreendido por alguns poucos inescrupulosos, que usaram as descobertas do psicanalista para manipular e aproveitar-se das massas. Por outro lado, para aqueles que acreditam tratar-se de fato de uma patologia, com possíveis trágicas consequências na saúde humana, na sociedade como um todo e na natureza, o desafio está colocado: quais são as causas mais severas, como combatê-las?

Tal como toda busca da prevenção e cura de uma nova e avassaladora doença, a procura está angustiante, ainda sem um caminho que pareça apontar a solução. Alguns falam que seria a educação, mas ela parece também já contaminada. Outros dizem seja a religião, ela também infectada e suspeita. Outros dizem ser doença incurável, da qual estamos só começando a ver os sintomas e seus calamitosos efeitos. Para estes últimos, a pandemia vai alastrar-se de forma inexorável, vai extinguir todos os contaminados.

Só vai sobrar uma minoria, a dos naturalmente imunes. Algumas pesquisas, ainda preliminares, parecem indicar um certo grau de correlação entre imunidade e empatia, amizade, humildade, despojamento, solidariedade, amorosidade, afeto sincero e desinteressado...

2 comentários:

  1. Que beleza de abordagem !!!
    Às vezes desanimo ao ver ou ouvir certas pessoas se orgulhando desses posicionamentos desumanos.

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  2. Isso, sem dúvida é a mais perigosa pandemia que vivemos. As consequências são imprevisíveis. Só uma nova consciência pode nos salvar. Texto arrebatador.

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