Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 27/01/2026.
Alguns especialistas afirmam tê-la identificado, mas são
desacreditados por muitos outros, os quais, aliás, parecem já infectados por
ela. Seus sintomas são vários, e intricados: esquecimento, falta de
discernimento, um certo alheamento, dificuldade de enxergar a realidade e de
distinguir engodo de veracidade. Estes sintomas desencadeiam algumas distorções
de comportamento, tais como um alucinante conflito entre, de um lado, ceticismo
e incredulidade, e, de outro, fé cega em supostos vaticínios religiosos,
inventados por outros já infectados.
Outros sintomas são a intolerância com o diferente, o apego
ao dinheiro, posses, status e poder, perda do senso crítico e da ética,
irritabilidade, violência, hipocrisia, desonestidade, pornografia e violência
sexual. Os contaminados são identificados em todos os países, raças, classes
sociais e econômicas, religiões, gêneros, vieses ideológicos e ocupações.
Médicos, militares, políticos, agricultores, religiosos, professores, estudantes,
cientistas, esposas do lar, parece que ninguém escapa. Um idoso encanecido e
engelhado, aparentemente pacífico e lúcido, encontrado casualmente na rua, no
shopping ou na repartição, pode subitamente irromper em uma cruzada verbal
odienta. Qualquer um que mostre um laivo de reflexão e dúvida parece-lhe uma
ameaça, o infectado transforma-se num Dom Quixote arremetendo contra os moinhos
de vento.
Instituições de pesquisa têm buscado, sem sucesso,
identificar o vírus e as causas da propagação dessa nova pandemia. Os próprios
pesquisadores ainda debatem entre si, alguns dizem que ela é inexistente, fruto
de ilusões da inteligência artificial, que já atua para subverter a humanidade
que quer dominar. Àqueles que acreditam que tal robusta gama de sintomas só
possa mesmo estar evidenciando uma inegável, mas desconhecida, pandemia, resta
a hipótese de que se trate de um novíssimo tipo de vírus, que não tem
materialidade. Manifesta-se como energia pura, no campo das ideias e do
psiquismo humano. Não faltam os que retomam as suposições de origem
extraterrestre de tais vírus. Embora imateriais, sua ação cria manifestações no
mundo material, com uma capacidade aguda de provocar comportamentos de rebanho,
em que a lucidez individual é substituída pela vontade da massa enlouquecida.
Parece agora a alguns pesquisadores que já em 1921, com seu
livro “Psicologia das massas e análise do
eu”, Sigmund Freud já tinha identificado a moléstia e previsto a pandemia,
mas não foi acreditado. Ou, pior, foi compreendido por alguns poucos
inescrupulosos, que usaram as descobertas do psicanalista para manipular e
aproveitar-se das massas. Por outro lado, para aqueles que acreditam tratar-se de
fato de uma patologia, com possíveis trágicas consequências na saúde
humana, na sociedade como um todo e na natureza, o desafio está
colocado: quais são as causas mais severas, como combatê-las?
Tal como toda busca da prevenção e cura de uma nova e
avassaladora doença, a procura está angustiante, ainda sem um caminho que
pareça apontar a solução. Alguns falam que seria a educação, mas ela parece
também já contaminada. Outros dizem seja a religião, ela também infectada e
suspeita. Outros dizem ser doença incurável, da qual estamos só começando a ver
os sintomas e seus calamitosos efeitos. Para estes últimos, a pandemia vai
alastrar-se de forma inexorável, vai extinguir todos os contaminados.
Só vai sobrar uma minoria, a dos naturalmente imunes.
Algumas pesquisas, ainda preliminares, parecem indicar um certo grau de
correlação entre imunidade e empatia, amizade, humildade, despojamento,
solidariedade, amorosidade, afeto sincero e desinteressado...
Que beleza de abordagem !!!
ResponderExcluirÀs vezes desanimo ao ver ou ouvir certas pessoas se orgulhando desses posicionamentos desumanos.
Isso, sem dúvida é a mais perigosa pandemia que vivemos. As consequências são imprevisíveis. Só uma nova consciência pode nos salvar. Texto arrebatador.
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