sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Vila Velha e o analfabetismo ambiental

 

Não confundir ecochato – o ambientalista fanático que é contra tudo – com analfabeto ambiental – aquele que ainda não compreendeu que a sobrevivência da humanidade depende de conhecer e respeitar a natureza. Colocar os negócios – o dinheiro – como prioridade antes da consciência ambiental é, nos dias de hoje, decretar o colapso da civilização atual, pela degradação das condições ambientais que sustentam a vida.

Vila Velha é uma unidade de conservação de proteção integral. Destina-se à proteção da natureza, deveria ter um conselho gestor atuante, que participasse da escolha de quais atividades são compatíveis com a missão e a singularidade do parque. Uma de suas funções é sim a educação ambiental, a pesquisa responsável de quais processos, orgânicos ou não, influenciam a natureza na região: os campos, as matas, a formação do relevo, o ciclo hidrológico – incluindo a dinâmica dos aquíferos –, a fauna – incluindo as espécies ameaçadas de extinção. Vila Velha é também um registro das condições ambientais vigentes na região nos últimos milhões de anos.

A preservação e o estudo destes atributos de Vila Velha são de extrema relevância para a compreensão dos processos naturais do passado recente, do presente e do futuro próximo. Preservação das espécies e biomas, compreensão dos ciclos climáticos e sua previsão, manejo adequado frente ao impacto antrópico, qualidade, fluxo e preservação das águas subterrâneas, previsão do comportamento de aquíferos e reservatórios de hidrocarbonetos em profundidade na Bacia do Paraná, estudo de pragas e seus inimigos naturais, preservação de polinizadores essenciais para a agricultura, retenção do carbono no solo e na biomassa são só alguns dos temas que deveriam estar sendo estudados em Vila Velha.

Transformar Vila Velha num “museu a céu aberto” demonstra agudo analfabetismo ambiental. Ou, simplesmente a desfaçatez com o ambiente e a indiscriminada monetarização. Surpreende que a louvável iniciativa do MON – Museu Oscar Niemeyer – de levar a arte a espaços públicos tenha conduzido, com a interferência do IAT – Instituto Água e Terra – e a empresa Soul Parques, à escolha de Vila Velha. Isto contradiz a finalidade do parque e as razões de sua criação. A iniciativa de popularizar a arte e facilitar o acesso à população é louvável. Melhor para isso seria usar locais com ampla visitação, onde não fosse necessário pagar ingresso caro, que elitiza o acesso. Em Ponta Grossa poder-se-ia pensar no Lago de Olarias, no Parque Linear, no Parque Margherita Masini, na Estação Saudade, no Parque Monteiro Lobato... A escolha de Vila Velha parece ter mais privilegiado o critério venda de ingresso do que o critério democratização da arte ou preservação ambiental.

É vital que a sociedade supere a desfaçatez, a ignorância e a ânsia de lucro, e passe a zelar pela natureza que supre as condições que suportam a vida. O planeta já não suporta a incúria e a cupidez humana. As muitas crises ambientais que temos vivido – como as chuvas torrenciais desastrosas no Sudeste nestes dias – são já sinais dos eventos extremos que nossa ignorância tem provocado.

A iniciativa do MON de democratizar o acesso à arte e à cultura é elogiável. Arte e cultura são tão essenciais para a saúde e prosperidade da civilização quanto a natureza também o é. Mas a escolha de Vila Velha é um erro imperdoável. Os responsáveis por este erro ainda têm muito a aprender o que significa ecologia, conservação ambiental e diálogo com a natureza.

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