Não confundir ecochato – o ambientalista fanático que é
contra tudo – com analfabeto ambiental – aquele que ainda não compreendeu que a
sobrevivência da humanidade depende de conhecer e respeitar a natureza. Colocar
os negócios – o dinheiro – como prioridade antes da consciência ambiental é,
nos dias de hoje, decretar o colapso da civilização atual, pela degradação das
condições ambientais que sustentam a vida.
Vila Velha é uma unidade de conservação de proteção
integral. Destina-se à proteção da natureza, deveria ter um conselho gestor
atuante, que participasse da escolha de quais atividades são compatíveis com a
missão e a singularidade do parque. Uma de suas funções é sim a educação
ambiental, a pesquisa responsável de quais processos, orgânicos ou não,
influenciam a natureza na região: os campos, as matas, a formação do relevo, o
ciclo hidrológico – incluindo a dinâmica dos aquíferos –, a fauna – incluindo
as espécies ameaçadas de extinção. Vila Velha é também um registro das condições
ambientais vigentes na região nos últimos milhões de anos.
A preservação e o estudo destes atributos de Vila Velha são
de extrema relevância para a compreensão dos processos naturais do passado
recente, do presente e do futuro próximo. Preservação das espécies e biomas,
compreensão dos ciclos climáticos e sua previsão, manejo adequado frente ao
impacto antrópico, qualidade, fluxo e preservação das águas subterrâneas,
previsão do comportamento de aquíferos e reservatórios de hidrocarbonetos em
profundidade na Bacia do Paraná, estudo de pragas e seus inimigos naturais, preservação
de polinizadores essenciais para a agricultura, retenção do carbono no solo e
na biomassa são só alguns dos temas que deveriam estar sendo estudados em Vila
Velha.
Transformar Vila Velha num “museu a céu aberto” demonstra
agudo analfabetismo ambiental. Ou, simplesmente a desfaçatez com o ambiente e a
indiscriminada monetarização. Surpreende que a louvável iniciativa do MON –
Museu Oscar Niemeyer – de levar a arte a espaços públicos tenha conduzido, com
a interferência do IAT – Instituto Água e Terra – e a empresa Soul Parques, à escolha
de Vila Velha. Isto contradiz a finalidade do parque e as razões de sua
criação. A iniciativa de popularizar a arte e facilitar o acesso à população é
louvável. Melhor para isso seria usar locais com ampla visitação, onde não
fosse necessário pagar ingresso caro, que elitiza o acesso. Em Ponta Grossa poder-se-ia
pensar no Lago de Olarias, no Parque Linear, no Parque Margherita Masini, na
Estação Saudade, no Parque Monteiro Lobato... A escolha de Vila Velha parece
ter mais privilegiado o critério venda de ingresso do que o critério democratização
da arte ou preservação ambiental.
É vital que a sociedade supere a desfaçatez, a ignorância e
a ânsia de lucro, e passe a zelar pela natureza que supre as condições que
suportam a vida. O planeta já não suporta a incúria e a cupidez humana. As
muitas crises ambientais que temos vivido – como as chuvas torrenciais
desastrosas no Sudeste nestes dias – são já sinais dos eventos extremos que
nossa ignorância tem provocado.
A iniciativa do MON de democratizar o acesso à arte e à
cultura é elogiável. Arte e cultura são tão essenciais para a saúde e prosperidade
da civilização quanto a natureza também o é. Mas a escolha de Vila Velha é um erro
imperdoável. Os responsáveis por este erro ainda têm muito a aprender o que
significa ecologia, conservação ambiental e diálogo com a natureza.
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