sexta-feira, 6 de março de 2026

Ave Maria! – o filme “O quarto ao lado”

 Publicado no Diário dos Campos em 06/03/2026.

A oração católica diz “... rogai por nós, pecadores, agora e na hora da nossa morte, amém!”. A palavra “pecadores” seria melhor substituída por “imperfeitos”. Somos imperfeitos, parte de uma humanidade imperfeita, oramos para que o espírito de luz da mãe de Cristo rogue por nós, mesmo na hora da morte.

Vendo o filme “O quarto ao lado” (2024, escrito e dirigido por Pedro Almodóvar, com Tilda Swinton, Julianne Moore e John Turturro nos papeis principais), ele nos remete à oração católica. O filme faz corajosa abordagem do espinhoso tema “eutanásia”. Não só a da personagem principal. Num dado momento, um surpreendente diálogo entre os dois personagens secundários faz uma conexão entre a morte do indivíduo – no caso pela eutanásia –, e o fim da civilização atual, este pela pela incúria. Seria, então, mais um suicídio não assumido, como o de um alcoólatra, um drogado, ou a sociedade fascinada e inebriada pelo dinheiro, poder e posse.

O filme é uma mensagem que o fim pode ser belo. Alerta-nos que deveríamos saber reconhecer a riqueza e a beleza da vida, e deveríamos aceitar o fim inevitável, e saber fazê-lo sereno, elegante, amoroso. A personagem principal escolhe para o fim uma casa num lugar encantador, junto à natureza, longe da feiura e crueldades da vida real. O filme é de uma estética impecável, tudo é belo, ao contrário dos horrores da vida de correspondente de guerra da personagem. Ela escolheu ter um fim cercado de beleza, não só a do ambiente, mas também compartilhando seus melhores sentimentos e memórias com a antiga e quase esquecida amizade, que ela recuperava.

No diálogo com o intelectual pessimista que prevê o fim da humanidade, surge a questão: não deveríamos fazer deste possível fim também um momento belo e amistoso, resgatando o que há de melhor, e absolvendo as imperfeições que conduzem ao fim? No caso da personagem, o fim inevitável, a doença terminal. No caso da humanidade, o fim talvez ainda evitável, o apocalipse fruto do desvario com os desejos e criações que se tornam incontroláveis.

Há ainda no filme outro personagem essencial: o policial fanático religioso, para quem abreviar a vida, ainda que seja a própria, é crime imperdoável. E quem dele participa é cúmplice. Só vendo o filme para sentir a contradição entre as naturezas dos personagens, compreender a grandiosidade das imperfeições e pecados humanos.

Resta invocar Maria, mãe de Jesus, para que rogue por nós. Talvez ela nos resgate, como a personagem do filme, tudo aquilo que há de belo e amoroso na humanidade, que nos trouxe até esta encruzilhada que vivemos hoje. Na visão do intelectual do filme – ou seria um lúcido realista? – estamos a caminho de um final inevitável. Pode ser que sim, pode não ser. A doença da humanidade pode não ser terminal, pode não ser irreversível. Então, “... rogai por nós, imperfeitos, agora e na hora da nossa morte...”.

Que esta hora ainda esteja distante, oxalá até lá saibamos resgatar a beleza e a amorosidade que a vida e a consciência nos concedem.