sábado, 1 de novembro de 2025

Diálogos celestiais II *

 

O Criador notava que seu obsequioso ordenança não tirava os olhos de um pontinho luminoso no universo, perdido no meio daqueles incontáveis astros materializados no grande cenário de plasma quântico que embebia toda a sala de controle celestial:

─ Pedro, já passou da hora do expediente, e você ainda aí? O que tá te incomodando tanto, amigo?

─ Ah, Mestre! É ainda aquele planeta que é uma das joias de nossa criação.

─ Sei! Você tá falando da Terra, né?

─ Ela mesmo! Não consigo me conformar!

─ Diga lá! Desta vez o que o aperreia, homem de Deus?

─ Como isso é possível? Tem visto o que anda acontecendo por lá? É muita insanidade!

─ Ué, mas não tínhamos previsto tudo isso?

─ Não, não! Livre arbítrio é uma coisa, mas estultícia é outra!

─ Calma, Pedro. O que é que faz você pensar que o livre arbítrio tá virando estultícia?

─ Caprichamos como nunca na feitura daquele planeta, lembra? A distância certa de um Sol benfazejo, atmosfera protetora, mares imensos cheios de vida, ventos que sopram a água e fertilizam os continentes, florestas com uma biodiversidade inigualável, dias e noites, verões e invernos, períodos glaciais e interglaciais que fazem tudo renascer e renovar... E o que fazem aquelas almas alucinadas, que pensam que são a espécie mais evoluída? São uns bárbaros, tão ameaçando colocar tudo isso a perder!

─ Ué, não era bem esse nosso intento? Conceder-lhes o paraíso pra ver se teriam juízo pra cuidar dele?

─ Pois é! Não concedemos só o paraíso. Concedemos também a engenhosidade. Têm inteligência pra criar. Mas parece que têm feito com a benesse da inteligência o mesmo desatino que têm feito com as bênçãos da natureza do planeta.

─ Você não tá sendo muito injusto e precipitado no seu julgamento, Pedro?

─ Tomara que eu esteja, Mestre! Que seja só impaciência, ansiedade minha.

─ No passado você já andou deprimido com os despautérios das almas que enviamos pra Terra. Mas lembro que superamos isso. O que acontece agora que você teve essa recaída de incredulidade?

─ Ah, Mestre. Acho que as mesmas coisas de antes, só que mais descaradas e críticas: a mentira alastrada com ajuda de ciência, tecnologia e muita malícia; aquele seu filho martirizado, enviado pra lá em missão de salvação, agora transformado em profeta da prosperidade, da dominação e do ódio; os governos sendo dominados por corporações que tudo precificam; o dinheiro sendo mais endeusado que tudo aquilo que criamos lá; a pobreza disseminada e a riqueza concentrada... É muita coisa! Até o futebol, o esporte que parava o planeta inteiro, tá dominado por apostas que compram jogadores, juízes e resultados. E um prêmio antes muito conceituado, um tal de Nobel da Paz, vem sendo concedido a promotores e promotoras da guerra, do caos e do ódio. Tudo passou a ser disputa com fim ideológico e de dominação. Esqueceram o que é ética e solidariedade.

─ Pedro, insisto! É errando que se aprende. Eles dizem lá que escrevemos certo por linhas tortas. Um jeito deles não quererem reconhecer os próprios erros. Mas, com o tempo, têm aprendido.

─ Verdade! Não tem como não ver que, digamos, de 500 anos atrás até hoje, a sociedade melhorou. Mas antes não tinham bombas atômicas, satélites armados... Mestre, sabia que nossos concorrentes lá nos quintos dos buracos negros do universo tão com uma maciça campanha publicitária? Convencem o povo da Terra que democracia quer dizer o mando do demo, e não o mando do povo. E o povo engole isso! Pode ser?

─ Calma Pedro! Muita calma! Já disse, você esqueceu. É assim mesmo que funciona a evolução. Se não souberem usar com bom senso as graças que receberam ─ o planeta Terra e a engenhosidade ─ vão acabar destruindo a natureza e a si mesmos.

─ Mestre, por isso meu desespero! Que desperdício! Um planeta e uma espécie tão promissores!

─ A evolução funciona assim, não esqueça. Se promoverem o autoextermínio, o planeta vai se recuperar. E vai aparecer outra espécie, que talvez tenha mais sensatez.


Ver neste blog as crônicas “Diálogos celestiais” (29/01/2022) e “Diálogos infernais” (19/07/2022).

3 comentários:

  1. Excelente! "Deus escreve direito por linhas tortas" eu vivo falando, rsrs. E que Democracia é o mando do Demo, não está muito longe de ser verdade... Infelizmente. Basta fazermos contas dos mandatos no Congresso.

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  2. A terra não precisa de inimigo extraterrestre, a gente mesmo vai acabar com ela. E eles, os extraterrestre, estão rindo da burrice da gente. Oxente. Eita povo burro

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  3. Também gostei muito!
    Simples, delicado e cirúrgico.
    Outra espécie virá, a terra se regenera.

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