sábado, 27 de dezembro de 2025

Antessala do purgatório

 Puclicado no Jornal da Manhã em 30/12/2025.

A igreja, em resposta aos dramas humanos e ao propósito de controlar, concebeu três reinos pós-morte: céu, inferno e purgatório. Este último seria um mundo transitório, entre os eternos horrores do inferno e maravilhas do paraíso. No limbo do purgatório as almas imperfeitas estagiariam, até que, corrigidas, merecessem ascender ao céu; ou, irremediavelmente perdidas, descessem de vez ao inferno.

Essa criação da igreja de três mundos depois da morte talvez represente a mais cabal expressão do dilema humano: o que é a vida? Qual sua finalidade? A dúvida existencial que nos acompanha, e que parece recrudescer a cada fim de ano, quando comemoramos o simbólico renascimento do principal líder espiritual do planeta, fazemos o balanço do ano que finda e os votos para o que vai se iniciar.

Bom momento para se refletir sobre a vida, e sobre o que virá depois: céu, inferno ou purgatório? Mas não estaríamos já vivendo essa existência equivocadamente suposta pós-morte? Ora, aqui na Terra já não vemos o paraíso, o inferno, o purgatório? O entardecer que enrubesce o céu de esperança, o borrão de estrelas da noite que nos descortina o infinito, não são vislumbres do céu? As guerras, a miséria, o sectarismo, o ódio, a ignorância não são o inferno? A dúvida, a incompreensão, o sofrimento, o remorso já não são o purgatório? O que é este mundo em que tudo isto coexiste, onde nos é dado o livre arbítrio? Estamos na antessala do purgatório pós-morte?

Os espíritas dizem – creio que muito apropriadamente – que a Terra é um “mundo de expiação e provas”; um mundo ainda num estágio de padecimentos, de aprendizado e arrependimento, que antecede estágios mais harmoniosos. Para os cristãos, “há muitas moradas na casa do Pai”, o que faz entender que a Terra seja um de muitos mundos, decerto em diferentes estágios evolutivos. Algo comparável com o que falam os espíritas.

Ao procurarmos observar de longe a humanidade que habita o planeta Terra neste Século XXI, não conseguimos deixar de nos surpreender: a bênção da inteligência e da criatividade parece capaz de nos conduzir ao paraíso; mas a insensatez da cupidez e da incúria parecem conduzir-nos de volta ao inferno. Seria a natureza humana incapaz de vencer as más inclinações que têm nos arrastado ao inferno já nesta existência, antes que a morte nos alcance?

Os céticos diriam que somos incuráveis, teremos que nos autoextinguir para darmos lugar a outra espécie, que se mostre mais lúcida e merecedora das benesses do planeta e da inteligência. Mas se procurarmos ser menos céticos, lembraremos que o tempo, a experiência, são capitais na evolução. As espécies vão sendo selecionadas pelas forçantes da natureza. Sobrevivem os mais aptos a superar os obstáculos que a vida impõe.

Vivemos um momento de aguda crise na história da humanidade: ética, religiosa, social, ambiental, política, sanitária... A natureza humana está em cheque. Momento de refletir: quais aptidões precisamos ser capazes de exercer para evoluir do impasse do purgatório para um mundo mais harmonioso?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

As crianças também choram

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 23/12/2025.

Os cães ficam desarvorados. Tivemos uma cadela inesquecível, a Bela, uma garbosa labradora negra, que enfiava-se no canto mais improvável e inacessível da casa – debaixo da cama, atrás da geladeira ou da máquina de lavar – e só saía muito tempo de agonia depois. Mesmo que a atraíssemos com gestos e palavras de carinho e confiança, ela não lograva escapar do terror e desamparo em que mergulhava. Ficávamos tentando imaginar como ela desenvolvera tal aflição. Seria um horror de outras vidas? Teria ela sido um cão-bomba, como aquele do impressionante episódio “O túnel” do filme “Sonhos” do mestre Akira Kurosawa? Teria Bela, antes dela mesma ser estraçalhada, sofrido o martírio de ver o trágico fim de seus semelhantes, vítimas da loucura dos homens em guerra? O aparente despropositado desamparo da Bela escancarava-nos a estupidez dessa forma de comemorar – os fogos de artifício explosivos.

A Bela já nos deixou há uma década, mas ensinou-nos para sempre – os estouros dos rojões provocam medos inexplicáveis. Decerto haveria formas menos barulhentas e agressivas de comemorarmos. Atualmente são a Mimosa e a Pipoca, não tão transtornadas quanto a Bela, que não nos deixam esquecer o inferno canino vivenciado durante as ruidosas comemorações humanas. Foi assim neste último domingo, na final do campeonato de futebol. A golden Mimosa não arredava de meu pé, na hora de dormir veio deitar-se ao meu lado, o que não costuma fazer. Pipoca escondeu-se no canto atrás do aparador, esqueceu sua altivez de ladina vira-lata. E tenho constatado, nos lares de amigos e familiares, reações parecidas, de cães, gatos, pássaros: os pets parecem unir-se para demonstrar a insensatez do bizarro apreço que temos pelos estampidos. Qual seria a insana razão psicológica dessa incontível necessidade de fazer barulho?

E não são só os animais. As crianças também choram nessas horas. Principalmente as menores, que não atinam com a justificativa das agressões auditivas. E não só as crianças, mas também aqueles adultos especiais, que parecem ter uma percepção mais arrazoada – ou mais refinada – do mundo que nos cerca: agitam-se, perturbam-se quando a harmonia do entorno também é perturbada.

Muitos idosos, já acometidos da louca lucidez da velhice, também reagem como os animais e os especiais: apavoram-se, ou revoltam-se. Alcançaram aquela idade em que é dado discernir e sentir a diferença entre a saudável alegria e a catártica euforia da comemoração. Mesmo que seja para celebrar conquistas ou momentos especiais, como Natal e Ano Novo. São momentos em que parecemos necessitar extravasar em explosões as nossas reprimidas frustrações. Esquecemos de quando éramos crianças.

Aprovaram-se leis que condenam as comemorações barulhentas: estas são uma afronta para a saúde pública. Mas parece que muitos ainda tratam a saúde pública com desfaçatez. Um infeliz sintoma de falta de empatia, de despreparo para vivermos com respeito ao próximo, em uma sociedade mais amorosa.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Água mole pedra dura...

 

O ditado popular diz “água mole pedra dura, tanto bate até que fura”. Este adágio pode ter vários significados, vamos ver alguns deles.

O portal Pauta Ambiental do Curso de Jornalismo da UEPG (ver em https://www2.uepg.br/pauta-ambiental/ponta-grossa-ambiental-entra-com-novo-pedido-para-construcao-de-aterro-sanitario-em-area-da-escarpa-devoniana/) revela que a empresa Ponta Grossa Ambiental tem intenção de retomar o projeto de construção de aterro sanitário na margem direita do Rio Verde, próximo à Fazenda Escola da UEPG. É a insistência em projeto apresentado em 2009, que foi barrado por irregularidades e injustificadas agressões ambientais. Em 2016 a PGA e seu presidente chegaram a ser condenados por crime ambiental pela 1ª Vara Federal de Ponta Grossa. Impedida de fazer o aterro em Ponta Grossa, a PGA construiu e atualmente opera o CTR Vila Velha, no vizinho município de Teixeira Soares, bem próximo de Ponta Grossa.

As inadequações do pretendido aterro nas margens do Rio Verde são muitas. Começam por falhas no projeto original, que omite a presença no local de nascentes e veredas, áreas de proteção permanente protegidas por lei. Ademais, o terreno do projeto está dentro da Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, na influência do Parque Nacional dos Campos Gerais e dos mananciais hídricos da cidade.

A insistência da PGA em viabilizar o projeto que já foi condenado é a teimosia dos empreendedores que não cedem aos argumentos legais, técnicos e ambientais que interditaram seu intento. É a obstinação da ânsia de fartos lucros que quer suplantar a sensatez, mais do que a perseverança da “água mole” a desagregar o rochedo. No caso, a “pedra dura” é a lei, a cautela ambiental, que empreendedores desdenham.

Mas o principal motivo que condena a localização do pretendido projeto da PGA nas margens do Rio Verde remete a um dos principais dilemas que já começamos a viver na época da emergência climática: o abastecimento de água. Estudos de 2010 já mostravam que os poços tubulares profundos, denominados “poços artesianos”, abasteciam de água do Aquífero Furnas indústrias, hospitais, postos de serviços automotivos, supermercados, granjas, escolas e outros empreendimentos em Ponta Grossa. A área que recarrega o Aquífero Furnas é justamente a área a leste da cidade, onde a PGA quer construir seu projeto. Toda legislação ambiental e normas técnicas relacionadas à implantação de aterros preconiza que tais áreas são proibitivas.

O Aquífero Furnas é muito especial, produz água de boa qualidade e em quantidade. Nele, a água mole, perseverando ao longo de milhões de anos, dissolveu alguns minerais constituintes e criou vazios subterrâneos que, na superfície, vemos na forma de furnas, túneis e outras feições, como no Buraco do Padre. A pedra dura furou. Se por um lado este atributo qualifica o aquífero, por outro o fragiliza. Ele é mais vulnerável à contaminação, que condenaria definitivamente o manancial subterrâneo.

A emergência climática agrava os riscos de crises hídricas. A água subterrânea evita esse risco. Ela é farta, de boa qualidade, prescinde de redes de distribuição, não depende das imprevisíveis chuvas. É um manancial estratégico.

Colocar em risco o Aquífero Furnas é um crime contra uma fonte com uso crescente. É incúria com o ambiente e desfaçatez com a população da cidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O povo nas ruas

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/12/2025

Uma vibrante multidão de mais de trezentas mil pessoas nas ruas centrais do Rio, vestida dominantemente de vermelho, excedendo-se nas manifestações. Não, não eram progressistas, comemorando a isenção do imposto, o aumento do salário mínimo ou os bons resultados na economia, nem se revoltando contra os PL’s da devastação e da bandidagem, contra a PEC da blindagem ou contra a militarização das escolas. Eram os rubro-negros flamenguistas comemorando mais um título da Libertadores. Aliás, num jogo de dar vergonha pelo baixo nível técnico, cheio de chutões, infrações e muita falta de talento e criatividade. Admirável no jogo foi mesmo só o belíssimo gol de Danilo, que lembrou o Dadá Maravilha, apelidado “beija-flor” porque diziam que voava e pairava no ar para os cabeceios fatais para o adversário. A meu ver, Danilo também protagonizou o duelo mais relevante da finalíssima, anulando o atacante Vitor Roque do Palmeiras.

O mundo futebolístico inteiro deve ter assistido à final sul-americana. Sinceramente, deve ter ficado decepcionado. Não se viu nem sombra do que têm jogado os melhores times europeus. Apesar de tanto Flamengo quanto Palmeiras terem em seus elencos muitos estrangeiros garimpados em todo o continente. Nosso futebol carece de credibilidade para preservar por aqui os melhores, que sempre se bandeiam para a Europa ou outros destinos milionários.

Mas talvez o mais chocante seja mesmo a impressão que, no Brasil, o que mobiliza a população é o futebol. Tudo bem, se o povo não estivesse seguindo as máximas de que só lhe interessa o pão e o circo, ou, como dizem outros, religião e futebol são o ópio do povo. Por que motivo multidões não vão às ruas comemorar o pleno emprego, o aumento da massa salarial, a redução do IR para os pobres, a expansão dos programas sociais, os bons resultados da economia, a credibilidade do país nas tratativas internacionais? Ou não vão protestar contra o crime organizado enraizado nos governos, nos bancos, na administração pública e em políticos seus comparsas?

O Brasil venceu o complexo de vira-lata em 1958, na Suécia. Até então, carregava a calamidade da derrota para o Uruguai em 1950. O futebol nos resgatou. Mas desde o tricampeonato, em 1970, as coisas mudaram muito. Os adoradores do deus dinheiro perceberam a galinha dos ovos de ouro. E os brasileiros ainda não sabem lidar com virtuosismo quando o assunto é dinheiro. No “país do futebol”, fomos ficando para trás.

Mas, se tem nos faltado conseguir manter por aqui os melhores craques, mais ainda tem nos faltado mobilizar o povo para lutar pelos atributos que nos expurguem em definitivo o complexo de vira-lata. O povo não vai às ruas pela sua dignidade, identidade, direitos e liberdade com o mesmo ímpeto com o qual comemora um título obtido numa partida do nível dos jogos de segunda divisão dos campeonatos europeus. 

A desmobilização para a defesa de questões essenciais tem seus motivos: a mídia corporativa é incansável em enviesar, ocultar e mentir; a educação é concebida para criar comandados, e não críticos; a desigualdade social parece intransponível; o histórico de escravagismo, colonialismo e genocídio dos nativos ainda está impregnado na cultura...

O complexo de vira-lata vai ser superado quando o povo, lúcido, for às ruas para reivindicar e celebrar sua plena emancipação.