Publicado no Jornal da Manhã em 02/12/2025
Uma vibrante multidão de mais de trezentas mil pessoas nas
ruas centrais do Rio, vestida dominantemente de vermelho, excedendo-se nas
manifestações. Não, não eram progressistas, comemorando a isenção do imposto, o
aumento do salário mínimo ou os bons resultados na economia, nem se revoltando
contra os PL’s da devastação e da bandidagem, contra a PEC da blindagem ou
contra a militarização das escolas. Eram os rubro-negros flamenguistas
comemorando mais um título da Libertadores. Aliás, num jogo de dar vergonha pelo baixo nível técnico, cheio de chutões, infrações e muita falta de talento
e criatividade. Admirável no jogo foi mesmo só o belíssimo gol de Danilo, que
lembrou o Dadá Maravilha, apelidado “beija-flor” porque diziam que voava e pairava
no ar para os cabeceios fatais para o adversário. A meu ver, Danilo também
protagonizou o duelo mais relevante da finalíssima, anulando o atacante Vitor
Roque do Palmeiras.
O mundo futebolístico inteiro deve ter assistido à final
sul-americana. Sinceramente, deve ter ficado decepcionado. Não se viu nem
sombra do que têm jogado os melhores times europeus. Apesar de tanto Flamengo
quanto Palmeiras terem em seus elencos muitos estrangeiros garimpados em todo o
continente. Nosso futebol carece de credibilidade para preservar por aqui os
melhores, que sempre se bandeiam para a Europa ou outros destinos milionários.
Mas talvez o mais chocante seja mesmo a impressão que, no
Brasil, o que mobiliza a população é o futebol. Tudo bem, se o povo não
estivesse seguindo as máximas de que só lhe interessa o pão e o circo, ou, como
dizem outros, religião e futebol são o ópio do povo. Por que motivo multidões
não vão às ruas comemorar o pleno emprego, o aumento da massa salarial, a
redução do IR para os pobres, a expansão dos programas sociais, os bons
resultados da economia, a credibilidade do país nas tratativas internacionais?
Ou não vão protestar contra o crime organizado enraizado nos governos, nos
bancos, na administração pública e em políticos seus comparsas?
O Brasil venceu o complexo de vira-lata em 1958, na Suécia.
Até então, carregava a calamidade da derrota para o Uruguai em 1950. O futebol
nos resgatou. Mas desde o tricampeonato, em 1970, as coisas mudaram muito. Os
adoradores do deus dinheiro perceberam a galinha dos ovos de ouro. E os
brasileiros ainda não sabem lidar com virtuosismo quando o assunto é dinheiro.
No “país do futebol”, fomos ficando para trás.
Mas, se tem nos faltado conseguir manter por aqui os
melhores craques, mais ainda tem nos faltado mobilizar o povo para lutar pelos
atributos que nos expurguem em definitivo o complexo de vira-lata. O povo não
vai às ruas pela sua dignidade, identidade, direitos e liberdade com o mesmo
ímpeto com o qual comemora um título obtido numa partida do nível dos jogos de
segunda divisão dos campeonatos europeus.
A desmobilização para a defesa de questões essenciais tem
seus motivos: a mídia corporativa é incansável em enviesar, ocultar e mentir; a
educação é concebida para criar comandados, e não críticos; a desigualdade
social parece intransponível; o histórico de escravagismo, colonialismo e
genocídio dos nativos ainda está impregnado na cultura...
O complexo de vira-lata vai ser superado quando o povo,
lúcido, for às ruas para reivindicar e celebrar sua plena emancipação.
Vendo esta manifestação tresloucada por futebol, sem um mínimo de noção de cidadania, é de lamentar como O FASCISMO FASCINA A MASSA!
ResponderExcluirBem, falando de futebol: 1) ainda bem que não foi o parmera quem ganhou esse título, poderia ter sido qualquer outro time (neste caso só poderia ser o mengão); 2) depois do advento do neymala, futebol virou um jogo de maricas (vixe, padrão bolsonarista), é só cai-cai, ridículo, asqueroso, ou seja: é melhor só ver os "melhores"(?) momentos dos jogos, pois essas cenas são cortadas, isto é, não exibidas; 3) este país deixou de ser o "país do futebol" já há muito tempo, graças aos técnicos(?) retranqueiros; veja o exemplo do jogo vasco-sãopaulo - disseram que foi um placar anormal, de 6x0 - se os jogos terminassem com o placar de 7x8, 8x1, 5x4, 6x6 e não os magros 1x0, 0x0, os torcedores iriam assistir os jogos decentes, significaria que os técnicos estariam fazendo os seus times jogarem para a frente, isto é, fazerem gols, que é (ou deveria ser) o objetivo precípuo dos jogos - mas, não: eles jogam 90 minutos (é, tem os minutos de paralisação devido ao cai-cai dos jogadores, das suas encenações para punirem os jogadores do time adversário, etc.) mais a prorrogação, pensando bem, é muito tempo, em que poderiam ser feitos muitos gols, caso não ficassem trocando a bola indefinidamente no campo de defesa, mostrando que os técnicos não têm arsenal algum de tática ofensiva, apenas garantindo primeiro não perder para depois tentar aquele golzinho solitário, daí os placares tipo 6x0 serem considerados escandalosos!
ResponderExcluirAgora, falando de política, ou, de comemoração de conquistas sociais: com um povo que vota em bolsonaro, zema, gayer, zé trovão, bia kicis, damares, ratinho jr., tarcísio, bilinski, zambelli, é pedir muito que o país seja emancipado politicamente, pois, para essa corja os adversários políticos são inimigos figadais, que devem ser metralhados e, se se vc dispuser a discutir com essa corja, o resultado é com certeza levar tiros reais...
Mas, com tudo isso, admiro quem ainda consiga levar adiante debates de ideias políticas, de civilidade, de honestidade, pois, mesmo o maior líder deles preso, eles ainda continuam com as ameaças às liberdades políticas. Para eles, democracia não é aceitar o resultado negativo de uma eleição direta, para eles democracia é eles mentirem o tempo todo e manterem o poder a qualquer custo, beneficiando larápios .... o pior é o povo ser enganado e acreditar em inverdades, com base inclusive na religião(?) comandada por pastores do mesmo jeito trambiqueiros...
Gostaria de rever um ato como aquele de 19 de abril de 1984, sob grande expectativa dos brasileiros, a emenda das eleições diretas foi votada, obtendo 298 votos a favor, 65 contra e 3 abstenções.
ResponderExcluirExcelente reflexão. Lembrando que a Copa do Mundo coincidindo com ano de eleições prejudica o foco no que interessa à nação.
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