domingo, 7 de agosto de 2022

Encruzilhada

 

A vida, a existência, parece mesmo uma sucessão de encruzilhadas. Escolhas nem sempre lúcidas ou planejadas, mas que ditam o porvir. Não só aquelas decisões que vão definindo o caminho que trilhamos ao longo de nossa presença terrestre, mas também aquelas decisões que engendraram o terceiro planeta do sistema solar da galáxia espiral, ou ocasionaram a fortuita e precisa rota do meteorito que extinguiu os grandes répteis e iniciou a era dos mamíferos.

Não canso de render homenagem ao livro/filme Contato, ficção de autoria do astrônomo Carl Sagan. Uma preciosidade! A protagonista da trama, questionada sobre o que perguntaria a um interlocutor de uma civilização extraterrestre incontáveis séculos mais evoluída que a humanidade, responde: ─ “Perguntaria como fizeram para sobreviver à adolescência de sua civilização.” Ela perguntaria quais caminhos tinham escolhido nas muitas encruzilhadas que se nos apresentam, a todos nós, sobretudo na adolescência. Adolescência de um jovem indivíduo humano, ou de uma jovem civilização. Carl Sagan expõe no livro uma atual civilização terrestre atordoada sob o peso dos dilemas diante dos quais se encontra: a cupidez, o negacionismo, o oportunismo, o consumo predatório, a incúria...

Quais escolhas temos feito diante das encruzilhadas que têm aparecido em nosso caminho, enquanto indivíduos e enquanto sociedade? Entre o amor e o ódio? Entre a verdade e a mentira? Entre a essência e a aparência? Entre a autenticidade e a hipocrisia? Entre o sonho e a desesperança? Entre a luz e as trevas? Os seres humanos parecem estar capitulando perante a obstinação e a sofreguidão dos opressores e oportunistas. Parecemos povos escravizados, que desistiram da liberdade e da dignidade. Preferimos nos submeter e, alienados e acomodados, sobreviver, a combater a boa luta. Compactuamos com os que nos dominam, e que nos prometem que algum dia talvez possamos entrar no seleto grupo de privilegiados tiranos. Ou nos rendemos aos déspotas e truculentos, ou nos aliamos a eles. Exagero? Se não é assim para todos, é pelo menos para uma boa parte da população atual do mundo.

E as nações, cuja população escolhe seus mandatários? Hoje há uma nação hegemônica, empenhada em disseminar a cizânia e a guerra pelas outras nações do mundo. O velho axioma “dividir para dominar”. E as nações dominadas deixam-se cair nas tramas engendradas pela grande ave de rapina mundial. Guerreiam internamente em lutas fratricidas, ou batem-se com nações vizinhas e antes aliadas, por discórdias fomentadas desde a capital do império, por meio de sofisticada tecnologia de desinformação e intriga. Tem sido assim em muitos lugares do planeta, destacando-se Vietnã do Sul x Vietnã do Norte, Coréia do Sul x Coréia do Norte, Irã x Iraque, Rússia x Ucrânia, China x Taiwan, China x Japão...

Nas encruzilhadas que temos encontrado, somos induzidos a escolher o caminho que nos leva à submissão, à perpetuação do papel de escravos que labutam pela riqueza e bem estar dos dissimulados senhorios. É assim quando escolhemos em quem votamos. É assim quando escolhemos em quais causas acreditar. É assim quando escolhemos calar. É assim quando escolhemos obedecer aos comandos midiáticos para consumir, para ignorar, para desrespeitar, para depredar, para amedrontar-se, para odiar, para omitir-se...

É hora de, diante da encruzilhada, enfim nos perguntarmos qual caminho queremos seguir. E por que seguir esse caminho, ainda que ele nos pareça ser o mais difícil.

7 comentários:

  1. Parece que nossa adolescência é eterna ☹️ Mas espero que façamos as escolhas certas pra logo sairmos dela.

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  2. Parabéns, Mário! Belo texto, de quem sabe bem o que está dizendo. Obrigada, por egistrar e compartilhar tuas mais intensas ideias.

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  3. Que diante da encruzilhada possamos perceber qual o caminho tomar, que ele seja sempre o amor,

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  4. Uma encruzilhada e uma única opção , que Deus nos dê sabedoria para escolhermos com a sensatez da maturidade e com a ternura da juventude.

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  5. Se almejamos tanto por uma mudança, haveremos de encontrar uma luz nessa encruzilhada q nós guiará em direção da melhor opção. Mario Sérgio, obrigada por compartilhar suas reflexões, tão bem elaboradas e instrutivas... Parabéns!

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  6. Mestre budista Sato diz que precisamos pacificar nossos pensamentos, nossos sentimentos e ficar atento as lembranças e expectativas. Sem medo e sem culpa. Isso seria o caminho para uma vida de escolhas conscientes.
    abs.

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  7. Caro Mario: - será só uma encruzilhada? A espécie humana tem chance de sobrevivencia? UMA mudança "para qual ainda titubeamos" será viavel e possivel ainda? Abraço

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