Publicado no Jornal da Manhã em 25/11/2025.
Matem o mensageiro (em
inglês Kill the messenger) é o nome
do filme estadunidense de 2014 dirigido pelo independente Michael Cuesta,
baseado no livro homônimo de Nick Schou e no livro Dark alliance, de Gary Webb. É um daqueles poucos mas essenciais
filmes hollywoodianos que não cultivam a ilusão de um glamoroso e honrado EUA.
Pelo contrário, denunciam as entranhas corrompidas e enfermiças do império que
quer posar de paladino da liberdade, da democracia e da virtude.
Matem o mensageiro revela
as conexões da CIA com o narcotráfico durante a década de 1980, denunciadas por
série de artigos escritos pelo jornalista investigativo Gary Webb, publicada em
influentes jornais dos EUA sob o título de Dark
Alliance (Aliança sombria).
Segundo os artigos, os livros e o filme, a CIA vendeu para minorias
marginalizadas dentro dos EUA a cocaína obtida de narcotraficantes, e usou os
recursos auferidos para financiar os Contras da Nicarágua, grupo armado
empenhado na derrubada do governo popular de reconstrução nacional, de
tendência socialista. Ou seja, a CIA atuou a favor de terroristas – os Contras
–, em oposição a um governo de libertação nacional que livrara o país de um
ditador pró-EUA (Anastasio Somoza). Os contras foram financiados pelo dinheiro
da cocaína – transformada em crack – vendida para populações segregadas,
indesejadas pela supremacia branca, dentro dos próprios EUA. Muito
estranhamente, o jornalista Gary Webb foi encontrado morto em sua residência em
2004, com dois tiros na cabeça. A causa da morte alegada foi suicídio, uma
inexplicável contradição.
Há outros episódios que ganharam notoriedade e chegaram às
telas cinematográficas, revelando as relações da CIA com o narcotráfico. Um
deles é o Feito na América (American made), de 2017, dirigido por
Doug Liman e estrelado por Tom Cruise. O filme é baseado na vida real do piloto
e traficante de drogas e armas Barry Seal, nos mesmos anos 1980, cooptado pela
CIA para funcionar como agente duplo, envolvendo o Cartel de Medellin. O piloto
também acabou assassinado, supostamente por membros do cartel colombiano.
Esses dois filmes baseados na realidade são só uma pequena
mostra do que os EUA e suas agências de segurança são capazes de fazer, para
submeter governos e oportunidades econômicas aos seus interesses. Neste caso,
aliando-se a narcotraficantes e traficantes de armas. Noutros, apoiando golpes,
deflagrando revoluções, arapongando e sabotando governos, promovendo guerras
tarifárias, jurídicas, cognitivas, híbridas ou armadas.
As atrocidades estadunidenses para proteger seus interesses
e sua ideologia sempre vêm travestidas: ou é o combate ao comunismo, ou à
corrupção, ou ao terrorismo, e agora ao “narcoterrorismo”. O país mancomunado com
narcotraficantes e com tiranos como Bin Laden, Saddam Hussein e o Talibã agora
posa de inocente, com o objetivo de dar pretexto à intromissão armada na
América do Sul. Infelizmente, parece que as artimanhas do Tio Sam conseguem
iludir boa parte da população lograda: o comunismo ainda é visto como um
fantasma mundial, a corrupção parece só existir fora dos EUA, narcotraficantes
são os latino-americanos.
Neste caso, o rei não está nu. Mas suas luxuosas máscaras
exalam forte mau cheiro.
Não queremos intromissões dos EUA na América do Sul. Trump, não consegue nem cuidar de sua casa e vem querer intervir em nossas terras.
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