Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 23/12/2025.
Os cães ficam desarvorados. Tivemos uma cadela
inesquecível, a Bela, uma garbosa labradora negra, que enfiava-se no canto mais
improvável e inacessível da casa – debaixo da cama, atrás da geladeira ou da
máquina de lavar – e só saía muito tempo de agonia depois. Mesmo que a
atraíssemos com gestos e palavras de carinho e confiança, ela não lograva
escapar do terror e desamparo em que mergulhava. Ficávamos tentando imaginar
como ela desenvolvera tal aflição. Seria um horror de outras vidas? Teria ela
sido um cão-bomba, como aquele do impressionante episódio “O túnel” do filme “Sonhos”
do mestre Akira Kurosawa? Teria Bela, antes dela mesma ser estraçalhada,
sofrido o martírio de ver o trágico fim de seus semelhantes, vítimas da loucura
dos homens em guerra? O aparente despropositado desamparo da Bela
escancarava-nos a estupidez dessa forma de comemorar – os fogos de artifício
explosivos.
A Bela já nos deixou há uma década, mas ensinou-nos para
sempre – os estouros dos rojões provocam medos inexplicáveis. Decerto haveria
formas menos barulhentas e agressivas de comemorarmos. Atualmente são a Mimosa
e a Pipoca, não tão transtornadas quanto a Bela, que não nos deixam esquecer o
inferno canino vivenciado durante as ruidosas comemorações humanas. Foi assim
neste último domingo, na final do campeonato de futebol. A golden Mimosa não
arredava de meu pé, na hora de dormir veio deitar-se ao meu lado, o que não
costuma fazer. Pipoca escondeu-se no canto atrás do aparador, esqueceu sua
altivez de ladina vira-lata. E tenho constatado, nos lares de amigos e
familiares, reações parecidas, de cães, gatos, pássaros: os pets parecem
unir-se para demonstrar a insensatez do bizarro apreço que temos pelos estampidos.
Qual seria a insana razão psicológica dessa incontível necessidade de fazer
barulho?
E não são só os animais. As crianças também choram nessas
horas. Principalmente as menores, que não atinam com a justificativa das
agressões auditivas. E não só as crianças, mas também aqueles adultos
especiais, que parecem ter uma percepção mais arrazoada – ou mais refinada – do
mundo que nos cerca: agitam-se, perturbam-se quando a harmonia do entorno
também é perturbada.
Muitos idosos, já acometidos da louca lucidez da velhice,
também reagem como os animais e os especiais: apavoram-se, ou revoltam-se. Alcançaram
aquela idade em que é dado discernir e sentir a diferença entre a saudável
alegria e a catártica euforia da comemoração. Mesmo que seja para celebrar
conquistas ou momentos especiais, como Natal e Ano Novo. São momentos em que
parecemos necessitar extravasar em explosões as nossas reprimidas frustrações.
Esquecemos de quando éramos crianças.
Aprovaram-se leis que condenam as comemorações barulhentas:
estas são uma afronta para a saúde pública. Mas parece que muitos ainda tratam
a saúde pública com desfaçatez. Um infeliz sintoma de falta de empatia, de
despreparo para vivermos com respeito ao próximo, em uma sociedade mais amorosa.
Assino em baixo, Mário. E um ótimo Natal, sem estampidos, para você. Álvaro.
ResponderExcluirInfelizmente a falta de empatia ,
ResponderExcluirDenuncia tempos difíceis e terminais das sociedades.
Tenho muitos cães , a maioria se apavora, se desespera, para evitar acidentes os colocamos em quartos com música ou tvs ligados tbm alto.
Inexplicável tanta indiferença com a dor alheia.
Idosos, acamados ou mesmo internados sofrem igualmente.
Sem citar os autistas e crianças pequenas.
Texto para que possamos refletir sobre a dor alheia.
Que neste Natal as pessoas tenham mais solidariedade com esses seres mais sensíveis
ResponderExcluirMeu Neco, corajoso viralata resgatado das ruas, provocador de "lutinhas" amigáveis com os grandalhões do condomínio, resigna-se à humilhação do medo ante os horrores dos estampidos "festivos" dos insensatos humanos. Quando aprenderemos alguma coisa nesta vida?
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