Puclicado no Jornal da Manhã em 30/12/2025.
A igreja, em resposta aos dramas humanos e ao propósito de controlar,
concebeu três reinos pós-morte: céu, inferno e purgatório. Este último seria um
mundo transitório, entre os eternos horrores do inferno e maravilhas do paraíso.
No limbo do purgatório as almas imperfeitas estagiariam, até que, corrigidas,
merecessem ascender ao céu; ou, irremediavelmente perdidas, descessem de vez ao
inferno.
Essa criação da igreja de três mundos depois da morte
talvez represente a mais cabal expressão do dilema humano: o que é a vida? Qual
sua finalidade? A dúvida existencial que nos acompanha, e que parece
recrudescer a cada fim de ano, quando comemoramos o simbólico renascimento do
principal líder espiritual do planeta, fazemos o balanço do ano que finda e os
votos para o que vai se iniciar.
Bom momento para se refletir sobre a vida, e sobre o que
virá depois: céu, inferno ou purgatório? Mas não estaríamos já vivendo essa
existência equivocadamente suposta pós-morte? Ora, aqui na Terra já não vemos o
paraíso, o inferno, o purgatório? O entardecer que enrubesce o céu de
esperança, o borrão de estrelas da noite que nos descortina o infinito, não são
vislumbres do céu? As guerras, a miséria, o sectarismo, o ódio, a ignorância
não são o inferno? A dúvida, a incompreensão, o sofrimento, o remorso já não
são o purgatório? O que é este mundo em que tudo isto coexiste, onde nos é dado
o livre arbítrio? Estamos na antessala do purgatório pós-morte?
Os espíritas dizem – creio que muito apropriadamente – que
a Terra é um “mundo de expiação e provas”; um mundo ainda num estágio de
padecimentos, de aprendizado e arrependimento, que antecede estágios mais
harmoniosos. Para os cristãos, “há muitas moradas na casa do Pai”, o que faz
entender que a Terra seja um de muitos mundos, decerto em diferentes estágios
evolutivos. Algo comparável com o que falam os espíritas.
Ao procurarmos observar de longe a humanidade que habita o
planeta Terra neste Século XXI, não conseguimos deixar de nos surpreender: a
bênção da inteligência e da criatividade parece capaz de nos conduzir ao
paraíso; mas a insensatez da cupidez e da incúria parecem conduzir-nos de volta
ao inferno. Seria a natureza humana incapaz de vencer as más inclinações que
têm nos arrastado ao inferno já nesta existência, antes que a morte nos
alcance?
Os céticos diriam que somos incuráveis, teremos que nos
autoextinguir para darmos lugar a outra espécie, que se mostre mais lúcida e
merecedora das benesses do planeta e da inteligência. Mas se procurarmos ser
menos céticos, lembraremos que o tempo, a experiência, são capitais na
evolução. As espécies vão sendo selecionadas pelas forçantes da natureza.
Sobrevivem os mais aptos a superar os obstáculos que a vida impõe.
Vivemos um momento de aguda crise na história da
humanidade: ética, religiosa, social, ambiental, política, sanitária... A
natureza humana está em cheque. Momento de refletir: quais aptidões precisamos
ser capazes de exercer para evoluir do impasse do purgatório para um mundo mais
harmonioso?