sábado, 27 de dezembro de 2025

Antessala do purgatório

 Puclicado no Jornal da Manhã em 30/12/2025.

A igreja, em resposta aos dramas humanos e ao propósito de controlar, concebeu três reinos pós-morte: céu, inferno e purgatório. Este último seria um mundo transitório, entre os eternos horrores do inferno e maravilhas do paraíso. No limbo do purgatório as almas imperfeitas estagiariam, até que, corrigidas, merecessem ascender ao céu; ou, irremediavelmente perdidas, descessem de vez ao inferno.

Essa criação da igreja de três mundos depois da morte talvez represente a mais cabal expressão do dilema humano: o que é a vida? Qual sua finalidade? A dúvida existencial que nos acompanha, e que parece recrudescer a cada fim de ano, quando comemoramos o simbólico renascimento do principal líder espiritual do planeta, fazemos o balanço do ano que finda e os votos para o que vai se iniciar.

Bom momento para se refletir sobre a vida, e sobre o que virá depois: céu, inferno ou purgatório? Mas não estaríamos já vivendo essa existência equivocadamente suposta pós-morte? Ora, aqui na Terra já não vemos o paraíso, o inferno, o purgatório? O entardecer que enrubesce o céu de esperança, o borrão de estrelas da noite que nos descortina o infinito, não são vislumbres do céu? As guerras, a miséria, o sectarismo, o ódio, a ignorância não são o inferno? A dúvida, a incompreensão, o sofrimento, o remorso já não são o purgatório? O que é este mundo em que tudo isto coexiste, onde nos é dado o livre arbítrio? Estamos na antessala do purgatório pós-morte?

Os espíritas dizem – creio que muito apropriadamente – que a Terra é um “mundo de expiação e provas”; um mundo ainda num estágio de padecimentos, de aprendizado e arrependimento, que antecede estágios mais harmoniosos. Para os cristãos, “há muitas moradas na casa do Pai”, o que faz entender que a Terra seja um de muitos mundos, decerto em diferentes estágios evolutivos. Algo comparável com o que falam os espíritas.

Ao procurarmos observar de longe a humanidade que habita o planeta Terra neste Século XXI, não conseguimos deixar de nos surpreender: a bênção da inteligência e da criatividade parece capaz de nos conduzir ao paraíso; mas a insensatez da cupidez e da incúria parecem conduzir-nos de volta ao inferno. Seria a natureza humana incapaz de vencer as más inclinações que têm nos arrastado ao inferno já nesta existência, antes que a morte nos alcance?

Os céticos diriam que somos incuráveis, teremos que nos autoextinguir para darmos lugar a outra espécie, que se mostre mais lúcida e merecedora das benesses do planeta e da inteligência. Mas se procurarmos ser menos céticos, lembraremos que o tempo, a experiência, são capitais na evolução. As espécies vão sendo selecionadas pelas forçantes da natureza. Sobrevivem os mais aptos a superar os obstáculos que a vida impõe.

Vivemos um momento de aguda crise na história da humanidade: ética, religiosa, social, ambiental, política, sanitária... A natureza humana está em cheque. Momento de refletir: quais aptidões precisamos ser capazes de exercer para evoluir do impasse do purgatório para um mundo mais harmonioso?

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

As crianças também choram

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 23/12/2025.

Os cães ficam desarvorados. Tivemos uma cadela inesquecível, a Bela, uma garbosa labradora negra, que enfiava-se no canto mais improvável e inacessível da casa – debaixo da cama, atrás da geladeira ou da máquina de lavar – e só saía muito tempo de agonia depois. Mesmo que a atraíssemos com gestos e palavras de carinho e confiança, ela não lograva escapar do terror e desamparo em que mergulhava. Ficávamos tentando imaginar como ela desenvolvera tal aflição. Seria um horror de outras vidas? Teria ela sido um cão-bomba, como aquele do impressionante episódio “O túnel” do filme “Sonhos” do mestre Akira Kurosawa? Teria Bela, antes dela mesma ser estraçalhada, sofrido o martírio de ver o trágico fim de seus semelhantes, vítimas da loucura dos homens em guerra? O aparente despropositado desamparo da Bela escancarava-nos a estupidez dessa forma de comemorar – os fogos de artifício explosivos.

A Bela já nos deixou há uma década, mas ensinou-nos para sempre – os estouros dos rojões provocam medos inexplicáveis. Decerto haveria formas menos barulhentas e agressivas de comemorarmos. Atualmente são a Mimosa e a Pipoca, não tão transtornadas quanto a Bela, que não nos deixam esquecer o inferno canino vivenciado durante as ruidosas comemorações humanas. Foi assim neste último domingo, na final do campeonato de futebol. A golden Mimosa não arredava de meu pé, na hora de dormir veio deitar-se ao meu lado, o que não costuma fazer. Pipoca escondeu-se no canto atrás do aparador, esqueceu sua altivez de ladina vira-lata. E tenho constatado, nos lares de amigos e familiares, reações parecidas, de cães, gatos, pássaros: os pets parecem unir-se para demonstrar a insensatez do bizarro apreço que temos pelos estampidos. Qual seria a insana razão psicológica dessa incontível necessidade de fazer barulho?

E não são só os animais. As crianças também choram nessas horas. Principalmente as menores, que não atinam com a justificativa das agressões auditivas. E não só as crianças, mas também aqueles adultos especiais, que parecem ter uma percepção mais arrazoada – ou mais refinada – do mundo que nos cerca: agitam-se, perturbam-se quando a harmonia do entorno também é perturbada.

Muitos idosos, já acometidos da louca lucidez da velhice, também reagem como os animais e os especiais: apavoram-se, ou revoltam-se. Alcançaram aquela idade em que é dado discernir e sentir a diferença entre a saudável alegria e a catártica euforia da comemoração. Mesmo que seja para celebrar conquistas ou momentos especiais, como Natal e Ano Novo. São momentos em que parecemos necessitar extravasar em explosões as nossas reprimidas frustrações. Esquecemos de quando éramos crianças.

Aprovaram-se leis que condenam as comemorações barulhentas: estas são uma afronta para a saúde pública. Mas parece que muitos ainda tratam a saúde pública com desfaçatez. Um infeliz sintoma de falta de empatia, de despreparo para vivermos com respeito ao próximo, em uma sociedade mais amorosa.

domingo, 14 de dezembro de 2025

Água mole pedra dura...

 

O ditado popular diz “água mole pedra dura, tanto bate até que fura”. Este adágio pode ter vários significados, vamos ver alguns deles.

O portal Pauta Ambiental do Curso de Jornalismo da UEPG (ver em https://www2.uepg.br/pauta-ambiental/ponta-grossa-ambiental-entra-com-novo-pedido-para-construcao-de-aterro-sanitario-em-area-da-escarpa-devoniana/) revela que a empresa Ponta Grossa Ambiental tem intenção de retomar o projeto de construção de aterro sanitário na margem direita do Rio Verde, próximo à Fazenda Escola da UEPG. É a insistência em projeto apresentado em 2009, que foi barrado por irregularidades e injustificadas agressões ambientais. Em 2016 a PGA e seu presidente chegaram a ser condenados por crime ambiental pela 1ª Vara Federal de Ponta Grossa. Impedida de fazer o aterro em Ponta Grossa, a PGA construiu e atualmente opera o CTR Vila Velha, no vizinho município de Teixeira Soares, bem próximo de Ponta Grossa.

As inadequações do pretendido aterro nas margens do Rio Verde são muitas. Começam por falhas no projeto original, que omite a presença no local de nascentes e veredas, áreas de proteção permanente protegidas por lei. Ademais, o terreno do projeto está dentro da Área de Proteção Ambiental da Escarpa Devoniana, na influência do Parque Nacional dos Campos Gerais e dos mananciais hídricos da cidade.

A insistência da PGA em viabilizar o projeto que já foi condenado é a teimosia dos empreendedores que não cedem aos argumentos legais, técnicos e ambientais que interditaram seu intento. É a obstinação da ânsia de fartos lucros que quer suplantar a sensatez, mais do que a perseverança da “água mole” a desagregar o rochedo. No caso, a “pedra dura” é a lei, a cautela ambiental, que empreendedores desdenham.

Mas o principal motivo que condena a localização do pretendido projeto da PGA nas margens do Rio Verde remete a um dos principais dilemas que já começamos a viver na época da emergência climática: o abastecimento de água. Estudos de 2010 já mostravam que os poços tubulares profundos, denominados “poços artesianos”, abasteciam de água do Aquífero Furnas indústrias, hospitais, postos de serviços automotivos, supermercados, granjas, escolas e outros empreendimentos em Ponta Grossa. A área que recarrega o Aquífero Furnas é justamente a área a leste da cidade, onde a PGA quer construir seu projeto. Toda legislação ambiental e normas técnicas relacionadas à implantação de aterros preconiza que tais áreas são proibitivas.

O Aquífero Furnas é muito especial, produz água de boa qualidade e em quantidade. Nele, a água mole, perseverando ao longo de milhões de anos, dissolveu alguns minerais constituintes e criou vazios subterrâneos que, na superfície, vemos na forma de furnas, túneis e outras feições, como no Buraco do Padre. A pedra dura furou. Se por um lado este atributo qualifica o aquífero, por outro o fragiliza. Ele é mais vulnerável à contaminação, que condenaria definitivamente o manancial subterrâneo.

A emergência climática agrava os riscos de crises hídricas. A água subterrânea evita esse risco. Ela é farta, de boa qualidade, prescinde de redes de distribuição, não depende das imprevisíveis chuvas. É um manancial estratégico.

Colocar em risco o Aquífero Furnas é um crime contra uma fonte com uso crescente. É incúria com o ambiente e desfaçatez com a população da cidade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

O povo nas ruas

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/12/2025

Uma vibrante multidão de mais de trezentas mil pessoas nas ruas centrais do Rio, vestida dominantemente de vermelho, excedendo-se nas manifestações. Não, não eram progressistas, comemorando a isenção do imposto, o aumento do salário mínimo ou os bons resultados na economia, nem se revoltando contra os PL’s da devastação e da bandidagem, contra a PEC da blindagem ou contra a militarização das escolas. Eram os rubro-negros flamenguistas comemorando mais um título da Libertadores. Aliás, num jogo de dar vergonha pelo baixo nível técnico, cheio de chutões, infrações e muita falta de talento e criatividade. Admirável no jogo foi mesmo só o belíssimo gol de Danilo, que lembrou o Dadá Maravilha, apelidado “beija-flor” porque diziam que voava e pairava no ar para os cabeceios fatais para o adversário. A meu ver, Danilo também protagonizou o duelo mais relevante da finalíssima, anulando o atacante Vitor Roque do Palmeiras.

O mundo futebolístico inteiro deve ter assistido à final sul-americana. Sinceramente, deve ter ficado decepcionado. Não se viu nem sombra do que têm jogado os melhores times europeus. Apesar de tanto Flamengo quanto Palmeiras terem em seus elencos muitos estrangeiros garimpados em todo o continente. Nosso futebol carece de credibilidade para preservar por aqui os melhores, que sempre se bandeiam para a Europa ou outros destinos milionários.

Mas talvez o mais chocante seja mesmo a impressão que, no Brasil, o que mobiliza a população é o futebol. Tudo bem, se o povo não estivesse seguindo as máximas de que só lhe interessa o pão e o circo, ou, como dizem outros, religião e futebol são o ópio do povo. Por que motivo multidões não vão às ruas comemorar o pleno emprego, o aumento da massa salarial, a redução do IR para os pobres, a expansão dos programas sociais, os bons resultados da economia, a credibilidade do país nas tratativas internacionais? Ou não vão protestar contra o crime organizado enraizado nos governos, nos bancos, na administração pública e em políticos seus comparsas?

O Brasil venceu o complexo de vira-lata em 1958, na Suécia. Até então, carregava a calamidade da derrota para o Uruguai em 1950. O futebol nos resgatou. Mas desde o tricampeonato, em 1970, as coisas mudaram muito. Os adoradores do deus dinheiro perceberam a galinha dos ovos de ouro. E os brasileiros ainda não sabem lidar com virtuosismo quando o assunto é dinheiro. No “país do futebol”, fomos ficando para trás.

Mas, se tem nos faltado conseguir manter por aqui os melhores craques, mais ainda tem nos faltado mobilizar o povo para lutar pelos atributos que nos expurguem em definitivo o complexo de vira-lata. O povo não vai às ruas pela sua dignidade, identidade, direitos e liberdade com o mesmo ímpeto com o qual comemora um título obtido numa partida do nível dos jogos de segunda divisão dos campeonatos europeus. 

A desmobilização para a defesa de questões essenciais tem seus motivos: a mídia corporativa é incansável em enviesar, ocultar e mentir; a educação é concebida para criar comandados, e não críticos; a desigualdade social parece intransponível; o histórico de escravagismo, colonialismo e genocídio dos nativos ainda está impregnado na cultura...

O complexo de vira-lata vai ser superado quando o povo, lúcido, for às ruas para reivindicar e celebrar sua plena emancipação.

domingo, 23 de novembro de 2025

Matem o mensageiro

 Publicado no Jornal da Manhã em 25/11/2025.

 

Matem o mensageiro (em inglês Kill the messenger) é o nome do filme estadunidense de 2014 dirigido pelo independente Michael Cuesta, baseado no livro homônimo de Nick Schou e no livro Dark alliance, de Gary Webb. É um daqueles poucos mas essenciais filmes hollywoodianos que não cultivam a ilusão de um glamoroso e honrado EUA. Pelo contrário, denunciam as entranhas corrompidas e enfermiças do império que quer posar de paladino da liberdade, da democracia e da virtude.

Matem o mensageiro revela as conexões da CIA com o narcotráfico durante a década de 1980, denunciadas por série de artigos escritos pelo jornalista investigativo Gary Webb, publicada em influentes jornais dos EUA sob o título de Dark Alliance (Aliança sombria). Segundo os artigos, os livros e o filme, a CIA vendeu para minorias marginalizadas dentro dos EUA a cocaína obtida de narcotraficantes, e usou os recursos auferidos para financiar os Contras da Nicarágua, grupo armado empenhado na derrubada do governo popular de reconstrução nacional, de tendência socialista. Ou seja, a CIA atuou a favor de terroristas – os Contras –, em oposição a um governo de libertação nacional que livrara o país de um ditador pró-EUA (Anastasio Somoza). Os contras foram financiados pelo dinheiro da cocaína – transformada em crack – vendida para populações segregadas, indesejadas pela supremacia branca, dentro dos próprios EUA. Muito estranhamente, o jornalista Gary Webb foi encontrado morto em sua residência em 2004, com dois tiros na cabeça. A causa da morte alegada foi suicídio, uma inexplicável contradição.

Há outros episódios que ganharam notoriedade e chegaram às telas cinematográficas, revelando as relações da CIA com o narcotráfico. Um deles é o Feito na América (American made), de 2017, dirigido por Doug Liman e estrelado por Tom Cruise. O filme é baseado na vida real do piloto e traficante de drogas e armas Barry Seal, nos mesmos anos 1980, cooptado pela CIA para funcionar como agente duplo, envolvendo o Cartel de Medellin. O piloto também acabou assassinado, supostamente por membros do cartel colombiano.

Esses dois filmes baseados na realidade são só uma pequena mostra do que os EUA e suas agências de segurança são capazes de fazer, para submeter governos e oportunidades econômicas aos seus interesses. Neste caso, aliando-se a narcotraficantes e traficantes de armas. Noutros, apoiando golpes, deflagrando revoluções, arapongando e sabotando governos, promovendo guerras tarifárias, jurídicas, cognitivas, híbridas ou armadas.

As atrocidades estadunidenses para proteger seus interesses e sua ideologia sempre vêm travestidas: ou é o combate ao comunismo, ou à corrupção, ou ao terrorismo, e agora ao “narcoterrorismo”. O país mancomunado com narcotraficantes e com tiranos como Bin Laden, Saddam Hussein e o Talibã agora posa de inocente, com o objetivo de dar pretexto à intromissão armada na América do Sul. Infelizmente, parece que as artimanhas do Tio Sam conseguem iludir boa parte da população lograda: o comunismo ainda é visto como um fantasma mundial, a corrupção parece só existir fora dos EUA, narcotraficantes são os latino-americanos.

Neste caso, o rei não está nu. Mas suas luxuosas máscaras exalam forte mau cheiro.

sábado, 1 de novembro de 2025

Diálogos celestiais II *

 

O Criador notava que seu obsequioso ordenança não tirava os olhos de um pontinho luminoso no universo, perdido no meio daqueles incontáveis astros materializados no grande cenário de plasma quântico que embebia toda a sala de controle celestial:

─ Pedro, já passou da hora do expediente, e você ainda aí? O que tá te incomodando tanto, amigo?

─ Ah, Mestre! É ainda aquele planeta que é uma das joias de nossa criação.

─ Sei! Você tá falando da Terra, né?

─ Ela mesmo! Não consigo me conformar!

─ Diga lá! Desta vez o que o aperreia, homem de Deus?

─ Como isso é possível? Tem visto o que anda acontecendo por lá? É muita insanidade!

─ Ué, mas não tínhamos previsto tudo isso?

─ Não, não! Livre arbítrio é uma coisa, mas estultícia é outra!

─ Calma, Pedro. O que é que faz você pensar que o livre arbítrio tá virando estultícia?

─ Caprichamos como nunca na feitura daquele planeta, lembra? A distância certa de um Sol benfazejo, atmosfera protetora, mares imensos cheios de vida, ventos que sopram a água e fertilizam os continentes, florestas com uma biodiversidade inigualável, dias e noites, verões e invernos, períodos glaciais e interglaciais que fazem tudo renascer e renovar... E o que fazem aquelas almas alucinadas, que pensam que são a espécie mais evoluída? São uns bárbaros, tão ameaçando colocar tudo isso a perder!

─ Ué, não era bem esse nosso intento? Conceder-lhes o paraíso pra ver se teriam juízo pra cuidar dele?

─ Pois é! Não concedemos só o paraíso. Concedemos também a engenhosidade. Têm inteligência pra criar. Mas parece que têm feito com a benesse da inteligência o mesmo desatino que têm feito com as bênçãos da natureza do planeta.

─ Você não tá sendo muito injusto e precipitado no seu julgamento, Pedro?

─ Tomara que eu esteja, Mestre! Que seja só impaciência, ansiedade minha.

─ No passado você já andou deprimido com os despautérios das almas que enviamos pra Terra. Mas lembro que superamos isso. O que acontece agora que você teve essa recaída de incredulidade?

─ Ah, Mestre. Acho que as mesmas coisas de antes, só que mais descaradas e críticas: a mentira alastrada com ajuda de ciência, tecnologia e muita malícia; aquele seu filho martirizado, enviado pra lá em missão de salvação, agora transformado em profeta da prosperidade, da dominação e do ódio; os governos sendo dominados por corporações que tudo precificam; o dinheiro sendo mais endeusado que tudo aquilo que criamos lá; a pobreza disseminada e a riqueza concentrada... É muita coisa! Até o futebol, o esporte que parava o planeta inteiro, tá dominado por apostas que compram jogadores, juízes e resultados. E um prêmio antes muito conceituado, um tal de Nobel da Paz, vem sendo concedido a promotores e promotoras da guerra, do caos e do ódio. Tudo passou a ser disputa com fim ideológico e de dominação. Esqueceram o que é ética e solidariedade.

─ Pedro, insisto! É errando que se aprende. Eles dizem lá que escrevemos certo por linhas tortas. Um jeito deles não quererem reconhecer os próprios erros. Mas, com o tempo, têm aprendido.

─ Verdade! Não tem como não ver que, digamos, de 500 anos atrás até hoje, a sociedade melhorou. Mas antes não tinham bombas atômicas, satélites armados... Mestre, sabia que nossos concorrentes lá nos quintos dos buracos negros do universo tão com uma maciça campanha publicitária? Convencem o povo da Terra que democracia quer dizer o mando do demo, e não o mando do povo. E o povo engole isso! Pode ser?

─ Calma Pedro! Muita calma! Já disse, você esqueceu. É assim mesmo que funciona a evolução. Se não souberem usar com bom senso as graças que receberam ─ o planeta Terra e a engenhosidade ─ vão acabar destruindo a natureza e a si mesmos.

─ Mestre, por isso meu desespero! Que desperdício! Um planeta e uma espécie tão promissores!

─ A evolução funciona assim, não esqueça. Se promoverem o autoextermínio, o planeta vai se recuperar. E vai aparecer outra espécie, que talvez tenha mais sensatez.


Ver neste blog as crônicas “Diálogos celestiais” (29/01/2022) e “Diálogos infernais” (19/07/2022).

quinta-feira, 23 de outubro de 2025

A nova ordem mundial

 Publicado no Jornal da Manhã em 25/10/2025.

O livro “A conspiração Lava Jato – o jogo político que comprometeu o futuro do país” (Editora Contracorrente, 2024), de autoria do jornalista Luís Nassif, esmiúça a nova realidade avassaladora, mas que ainda hesitamos enxergar: o efeito da denominada “nova ordem mundial” no Brasil.

Muito se tem debatido sobre a “nova ordem mundial”, há vários livros a respeito. Para Luís Nassif, a Operação Lava Jato foi o instrumento para submeter o Brasil – um país então com um governo independente e que acabara de descobrir o petróleo do pré-sal – aos ditames do novo arranjo, que já se iniciara mundo afora com as “revoluções coloridas”, como a “primavera árabe” e o “euromaiden” ucraniano. Países com tendências nacionalistas e com o sonho de independência e soberania não podiam escapar ao arranjo que tem a pretensão de ser um império hegemônico. Sobretudo o Brasil, um país continental, com um significado geopolítico estratégico no chamado Sul Global. Desde a arapongagem de governos e governantes, a reativação da 4ª Frota dos EUA, o roubo de computadores com dados sigilosos da Petrobras, o aliciamento dos procuradores e juízes da Lava Jato, as mentiras e demonizações da mídia corporativa, finalizando com os golpes que levaram à eleição de um governo servil, tudo foi minuciosamente planejado e executado para atingir o objetivo: subjugar o Brasil, desiludi-lo do sonho de liberdade, grandeza, soberania e justiça social.

Na “nova ordem mundial” – resultado inevitável de séculos de capitalismo e de décadas de neoliberalismo – o conceito de Estado soberano não é admitido. Ele é substituído pelo interesse das corporações mundiais, que controlam tudo o que há de essencial: alimentos, medicamentos, energia, comunicações, indústria da guerra... As corporações, e os governos já por elas completamente aparelhados, usam qualquer meio para submeter os governos que não aceitem seu domínio: desde as lawfares – as guerras jurídicas das quais a Lava Jato é um exemplo – até os bloqueios, chantagens e taxações econômicos, chegando às guerras de fato, como na Coréia, Vietnã, Somália, Iraque, Líbia, Afeganistão, Líbano, Síria, Ucrânia, Palestina e tantas outras.

Supor que o mercado e as corporações possam equilibrar a sociedade é uma ideia que os sociólogos sensatos dizem ser absurda. É como jogar uma matilha de lobos famintos no pasto de ovelhas e deixar que se virem. Os lobos vão, depois de devoradas as ovelhas, acabar por canibalizar-se a si mesmos e a destruir o pasto.

O livro de Luís Nassif dedica um capítulo inteiro a discutir a psicologia de massas de Freud: é ela, agora com os recursos das tecnologias de comunicação, desinformação e manipulação, que mantém as ovelhas submissas, conformadas com o destino de serem pasto para os lobos. Ou pior, aliando-as aos lobos, na crença que serão poupadas, ou até que poderão virar lobos.

Na “nova ordem mundial” destaca-se a China, e seu espantoso crescimento. Seria ela o símbolo do sucesso do novo arranjo? Ou, ao contrário, mostra que o caminho da independência e soberania alcança sucesso? Pela sua grandeza, história e opções políticas, a China é um caso ainda a ser compreendido. Curiosamente, a mídia ocidental diz que o governo da China é ditatorial. Mas então é uma ditadura que funciona! Pois a qualidade de vida de toda aquela imensa população só melhora! Ou, na China, um Estado forte e soberano está sabendo controlar a sanha insaciável da ambição que é alimentada pelo neoliberalismo e suas corporações? Os chineses aprenderam como fazer os lobos e ovelhas conviverem com respeito e em paz?

O Brasil, um país que reúne predicados para ser uma grande nação, é uma das maiores vítimas da “nova ordem mundial”. Estamos sob ataque.

terça-feira, 7 de outubro de 2025

Lago de Olarias - desassorear é enxugar gelo

 

A Prefeitura de Ponta Grossa anuncia o desassoreamento do Lago de Olarias, e o faz como se fosse um trabalho de prevenção, e não o conserto de um erro. Que disparate! O assoreamento visto no lago é prova de um erro, cometido quando da inauguração do Parque do Lago de Olarias sem a adequação da bacia de captação. E este erro não é só quanto à erosão de solos expostos, fonte dos sedimentos que assoreiam o lago. É também quanto à indevida captação de esgotos na rede pluvial, destinada a recolher as águas das chuvas, erroneamente descarregadas no lago.

Inaugurar com estardalhaço um parque municipal que toda a população vê é uma coisa. Planejar corretamente o uso da bacia de captação, evitando a erosão do solo e o desvio de esgotos, medidas que os olhos não veem, é outra coisa. Os olhos não veem o erro de planejamento, mas enxergam suas consequências: no assoreamento do lago e na poluição das águas dos arroios que o alimentam.

Desassorear é um serviço caro para os cofres públicos. E, acabado o serviço, já está em curso o processo de voltar a assorear, se não se evitar a erosão dos solos na bacia de captação. E se não for feita a varrição das ruas e a eficiente coleta de lixo. Desassorear sem cuidar da bacia de captação é como enxugar gelo. Mas as empresas contratadas para o serviço devem agradecer muito que os arranjos sejam feitos assim. Já o munícipe contribuinte, continua pagando seus crescentes impostos.

Como evitar o assoreamento? Os sedimentos depositados no lago provêm da erosão de solos expostos na bacia de captação. Nas áreas urbanas, a exposição de solos resulta das muitas obras: edificações, vias, dutos, loteamentos, etc. Há várias razões para evitar a erosão: descontrole de feições erosivas, entupimento de dutos pluviais, assoreamento de canais fluviais e lagos a jusante. Por esse motivo, os municípios precisam ter legislação eficaz que evite a exposição dos solos à erosão. E fiscalização/sanções igualmente eficazes. Caso contrário, após um trabalho de desassoreamento logo o lago voltará a ficar assoreado.

A questão da poluição por esgotos é outra que não tem sido seriamente abordada. As cabeceiras da bacia de captação do Lago de Olarias alcançam a região central da cidade. Bicentenária como é Ponta Grossa, por mais que serviços recentes tenham implantado ampla rede de captação de esgotos, muitas vezes ligações antigas, até desconhecidas, continuam despejando nas redes de captação de águas das chuvas, que vão parar no lago. Seria necessário um minucioso, longo e complicado trabalho de verificação e correção. Um serviço demorado, importuno, invisível para o público em geral. Mas um serviço que significaria entender o que seja de fato sustentabilidade.

Melhor seria que os recursos públicos fossem empenhados na adequação da bacia de captação, da legislação municipal e na formação de equipes capazes de aplicar a lei. O desassoreamento agora é sim necessário. Mas é o conserto de um erro, cometido antes. Que ele sirva para se aprender a não mais cometê-lo.

domingo, 5 de outubro de 2025

O prazo de validade da Terra

 

“Prazo de validade” e “vida útil” são conceitos que se complementam e se confundem. Costumamos ver o prazo de validade mostrado, muito acertadamente, para itens como alimentos, bebidas, remédios... Já vida útil é menos óbvio e mostrado. Está embutido em tudo, na escova de dentes, na lâmpada, no pneu e amortecedor do veículo, no celular...

Visto que tudo se transforma e acaba por distanciar-se da adequação à função inicialmente prevista, estes conceitos têm lá sua justificativa. Mas precisamos ter cuidado com eles, já que podem nos enganar. Se o prazo de validade de um medicamento for subestimado, podemos acabar descartando um remédio ainda ativo. Por outro lado, se for superestimado podemos acabar confiando num remédio que já não funciona. Há que ter muito critério e honestidade para determinar o prazo que mais dê segurança e economia ao usuário. Negligência ou desonestidade podem desperdiçar o remédio ou agravar a doença.

Quanto à vida útil, mais fatores influenciam. O sistema econômico que vivemos impõe que a vida útil dos bens, sejam escovas de dentes, lâmpadas, automóveis ou celulares, seja curta. “Senão ─ dizem ─ o consumo cai, a fábrica vai à falência, o desemprego provocaria agudas crises sociais”. O que é uma inverdade, há vários setores carentes da sociedade ─ tais como saúde, educação, cultura, lazer, justiça... ─ que poderiam absorver trabalhadores. Bens que poderiam durar anos são feitos para durar meses. Ou, como na moda, que muda todo ano, poderosas campanhas midiáticas induzem o consumidor a comprar um bem para substituir um outro ainda em ótimas condições de uso, mas transformado em “ultrapassado”.

Ampliando mais a ideia, os conceitos de prazo de validade e vida útil aplicam-se também ao ser humano. A “expectativa de vida”, variável usada, por exemplo, para definir a idade mínima para a aposentadoria, parece corresponder ao prazo de validade dos bens materiais. A saúde do organismo e dos órgãos que o mantêm funcionando parece corresponder à vida útil das coisas. Há alguma correspondência entre os bens que consumimos e o nosso próprio ser. Para o ser humano, entretanto, as implicações são outras, muito mais complexas. É de se esperar que não se descartem pessoas que já não funcionam como quando eram jovens. Nem que se as obrigue a terem bom desempenho por tempo indeterminado. Mas estes são princípios éticos, muitas vezes esquecidos.

A manipulação do prazo de validade e da vida útil visando o aumento do consumo tem muitas vítimas. Uma delas é o planeta Terra. Neste ano de 2025, o “dia da sobrecarta da Terra” ─ ou “dia da pegada ecológica” ─ está sendo calculado para 24 de julho. Ou seja, tudo o que o planeta pode produzir de recursos naturais ao longo de todo este ano, até o dia 31 de dezembro, já foi consumido pela humanidade até o dia 24 de julho. Desde então, ultrapassamos o prazo de validade, ou a vida útil do planeta.

A vida útil do planeta encurta a cada ano, resultado da insana sociedade consumista e desperdiçadora que vivemos. É bom lembrar: a falência dos sistemas naturais vai afetar toda a humanidade, independente de país, raça, credo ou classe social.

Refletir sobre o consumismo que vivemos é como administrar o orçamento para não criarmos um débito impagável. A humanidade está trazendo para o presente o prazo de validade do planeta Terra, que deveria estar milênios no futuro.

domingo, 28 de setembro de 2025

O gérmen da criminalidade

 Publicado no Jornal da Manhã em 30/09/2025.

Os crimes, organizados em quadrilhas especializadas ou mesmo os ditos “crimes comuns”, parecem estar aumentando descontrolados, engolindo as instituições e os cidadãos. De quantos golpes e armadilhas precisamos escapar todo dia? Quanto o Governo gasta tentando desbaratar quadrilhas sofisticadas entranhadas no comércio, nas igrejas, no poder público? Com o auxílio das novas tecnologias, os crimes estão cada vez mais engenhosos e ousados: rouba-se dos aposentados, dos consumidores, dos internautas, dos correntistas, dos viajantes, dos distraídos...

Por que acontece este surto de criminalidade e logro? Estará a humanidade sob efeito de alguma energia maligna universal, de fonte desconhecida? Por algum motivo os preceitos éticos estão falhando, e deixando escapar impulsos primitivos que conduzem à desfaçatez, à violência, ao ódio, à ambição e ao crime. O contrato social já não está funcionando. Há transgressores demais, a sociedade não dá conta de controlar a crescente criminalidade.

Qual seria esse motivo que está subvertendo a moral e esgarçando o tecido social? É frequente escutarmos: “tem a ver com a educação”. De fato, a educação formal parece estar regredindo. O Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025 aponta que a proporção de estudantes com aprendizagem adequada em Língua Portuguesa e Matemática caiu de 8,3% em 2013 para 7,7% em 2023. Só estas duas disciplinas não traduzem o que seja a formação de um cidadão, mas podemos refletir a partir delas. Vale lembrar que são estas disciplinas que têm sido privilegiadas nos sistemas educacionais neoliberais atuais, que priorizam a formação de um trabalhador acrítico, em detrimento de um cidadão crítico.

Os dados do Anuário são trágicos: até nas duas disciplinas enfatizadas pelo ensino neoliberal estamos regredindo! E as porcentagens de estudantes “adequados” são desastrosas. Estes dados confirmam aqueles divulgados em maio passado, de que só 35% dos adultos no Brasil são considerados alfabetizados plenos (dados do Indicador de Alfabetismo Funcional da UNICEF). Em resumo, na educação estamos retrocedendo.

Enquanto a educação no Brasil anda para trás, os cérebros brilhantes são exportados: não tivemos, nos últimos anos, programas sólidos de apoio à pesquisa científica, tanto nas áreas tecnológicas quanto nas humanas, estas incluindo a educação. Os cérebros brilhantes vão buscar colocação no exterior, onde programas consolidados garantem pesquisas consequentes.

Só a crise educacional, e o resultante afrouxamento da formação do cidadão, não explicam o surto de criminalidade. O que acontece hoje com a sociedade, a religião, a família, no desenvolvimento dos valores que distinguem o criminoso do homem de bem?

A sociedade vive a era do neoliberalismo, que pode ser assim sintetizado: dinheiro, individualismo, competitividade, lucro, amoralidade. Consequência: disseminação da pobreza, concentração da riqueza, crises sociais, injustiça, revolta e ... criminalidade. Ela significa desforra, sobrevivência, crença na impunidade. A religião e a família não resistem à pressão do bordão neoliberal: elas acabam repetindo e reforçando os mantras para vencer a qualquer custo.

Todos nós somos portadores de um lado sagrado e de outro diabólico. Estamos vivendo a era em que incentivamos o diabólico. Onde vai nos levar isso?

domingo, 14 de setembro de 2025

Pandemia de irracionalidade

 

Trata-se de uma doença que aflige todo o mundo, uma verdadeira pandemia. Parece que não há ninguém imune, ela contamina todos, com maior ou menor gravidade. É a disseminação do vírus da irracionalidade. Os sintomas são a incapacidade de discernir, a falta de concentração para poder refletir, a impulsividade que leva a um surto de intolerância, ódio e violência. Um verdadeiro distúrbio psicótico. O infectado torna-se um perigoso desmiolado.

O vírus parece ser universal, acomete todo tipo de gente: pobres, ricos, homens, mulheres, brancos, negros, evangélicos, católicos, heteros, homos, europeus, gringos, analfabetos, doutores, bandidos, juízes, psicopatas, seus filhos... Ninguém escapa. Parece existir uma correlação entre o local de moradia e a contaminação. Quem está mais exposto ao sol do Nordeste é menos vulnerável. Ainda se discute se é mesmo o sol ou algum outro motivo, como a fibra de caráter forjada na luta constante contra adversidades ambientais.

Há gente da saúde dizendo que o vírus é oportunista. Ele se aproveita da debilitação do hospedeiro contaminado, antes já enfraquecido por outros fatores. Há uma grande procura de quais sejam estes outros fatores, mas as opiniões são ainda muito contraditórias. Alguns dizem que está no DNA do infectado. Outros falam dos hábitos de higiene, até do número de idas ao sanitário a cada semana. Parece que a retenção de excrementos acabaria subindo à cabeça. Há quem diga ainda que tudo depende da educação do contaminado. Suposição pouco crível, pois vê-se muitos doutores da saúde e juízes togados acometidos com muito mais gravidade que gente muito simples. O que tem feito que se suspeite que a alimentação também influencie: quanto mais fartamente alimentado o cidadão, mais ele é vulnerável ao contágio e a sintomas mais agudos.

Médicos mais antigos, aqueles dos tempos do médico da família, dizem que se trata de uma doença dos tempos modernos. Não que não existisse antes, mas seus sintomas eram relativamente muito mais brandos, compensados por uma ética que preponderava. Perguntados, estes velhos clínicos afirmam que antes as cabeças das pessoas não eram tão conspurcadas por fatores predisponentes: Coca Cola, celular, fake news, Hollywood, Steve Bannon, inteligência artificial, mercado de capitais, depressão profunda, ansiolíticos... Esses velhos médicos dizem que os sintomas se agravaram porque a civilização atual é um caos ruidoso que atordoa o juízo das pessoas, que já não sabem o que seja justiça, liberdade, solidariedade.

Outros ainda lembram as experiências de Ivan Pavlov, do final do século XIX, que mostraram como, num cão, é possível condicionar uma reação orgânica e mental através da repetida associação de um estímulo com um fato, mesmo que depois de um tempo o fato deixe de existir; não é mais um fato, é uma farsa. Pavlov associou o som de uma sineta com a oferta de alimento para o cão. Depois dessas experiências, associou-se nazismo com vitória, judeus com bandidos, bomba atômica com justiça, EUA com democracia, comunista com comedor de criança, palestino com terrorista, consumo com felicidade...

O vírus da irracionalidade encontrou campo fértil para propagar-se.

domingo, 31 de agosto de 2025

O Brasil está sob ataque

 Publicado no Jornal da Manhã em 03/09/2025.

O tarifaço de Trump, a investida contra o Pix, a desregulamentação das bigtechs, as medidas coercitivas contra autoridades e instituições brasileiras, a instalação de bases militares estadunidenses em países limítrofes, a cizânia fomentada pelo Tio Sam contra vizinhos com quem temos antigas parcerias comerciais e diplomáticas (Argentina, Paraguai, Venezuela) revelam que somos atacados. Por quais motivos? É o momento de refletir sobre isso, e de fazer um balanço de nossas forças e fraquezas, nossas riquezas e pobrezas.

O Brasil tem predicados que o credenciam a aspirar ser uma grande nação: território continental, abundância de água potável, minérios, petróleo, energia solar, biodiversidade, mares piscosos, solos agricultáveis, clima amigável na maior parte do país, abundante população que afiança estável mercado interno, boa infraestrutura já instalada, conflitos raciais, sociais e religiosos menores que em outros países, idioma único de Norte a Sul, uma produção de riqueza relevante, rica e diversificada cultura popular. Esses predicados são nossa riqueza. Mas temos também nossas fragilidades: uma das mais desiguais distribuições de renda no planeta, educação precária, conflitos ideológicos que se acirram, corrupção enraizada, falta de um sentido de nacionalismo e de autoestima – o “complexo de vira-lata” – que faz deslumbrar-se com o estrangeiro e desvalorizar o nacional. Estas são nossas pobrezas.

Por que não somos nem sombra de EUA, China, Rússia, Índia, países que não têm todos os mesmos predicados que o Brasil? Fala-se nos motivos históricos, que fomos território para exploração e não para verdadeira colonização, como talvez tivessem feito os expulsos holandeses e franceses. Ter sido o destino de degredados do império português, a mais longeva escravatura e monarquia nas Américas, a pátria de sucessivos golpes que derrubaram governos legítimos, são outras razões da peculiaridade do Brasil.

Diante da irrefreável avidez humana pela posse e usufruto de bens, os recursos que o planeta disponibiliza estão se mostrando escassos. Como resultado, a civilização atual está deixando cair a máscara da diplomacia e da convivência pacífica. Os países armam-se para defender-se do ataque estrangeiro, ou para subjugar os vizinhos menos armados. Nessa realidade, o Brasil, rico em recursos e pobre em defesa militar, passa a ser alvo predileto da rapinagem internacional.

Estamos na época das guerras cognitiva, jurídica, comercial e tecnológica. Antes de invadir um país com militares, é mais barato sangrá-lo e enfraquecê-lo, até subjugá-lo; os exércitos de especialistas não precisam sair da sede do invasor, de lá manipulam suas novas armas: desinformação, leis extraterritoriais, sanções econômicas, espionagem, chantagem. Crucial nesta nova modalidade de invasão é criar no país invadido as milícias de infiltrados, que vão trabalhar a favor do invasor.

Contra as armas do invasor nesta nova ordem mundial, a resistência do invadido depende de um atributo: discernimento. Que só pode ser cultivado com uma educação ampla e livre, que ensine a refletir e compreender. Sem isso, a população será presa fácil da guerra cognitiva, que cria fantasmas, ódios, discórdia, subserviência e elege farsantes vendilhões. A população lograda não é capaz de discernir quem é o real inimigo, confunde verdade com mentira, alia-se ao invasor.  Ou, desesperada, cai na depressão e no alheamento.

Há muitas frentes a lutar na resistência à guerra atual pela conquista de territórios ricos e de povos servis. Um requisito capital é a capacidade da população compreender, e assim colocar-se do lado certo na batalha.

domingo, 17 de agosto de 2025

Lei Magnitsky, o tiro no pé do imperialismo

 Publicado no Jornal da Manhã em 19/08/2025

Há ainda brasileiros que acreditam que a Lei Magnitsky dos EUA seja a favor da democracia e liberdade no mundo. Abra os olhos, patriota! Vamos usar discernimento e bom senso. Essa lei é outra legislação extraterritorial do império estadunidense, que visa submeter outros países a seus interesses. Leis que são usadas fora dos EUA, contra qualquer um, cidadão ou nação. O livro “A arapuca estadunidense: uma Lava Jato mundial” (F. Pierucci e M. Aron, Kotter Editorial, 2019) conta como uma dessas leis foi usada para que a General Electric engolisse a francesa Alstom, concorrente mundial na área de construção de usinas nucleares. Com suas leis desleais, os EUA distorcem, manipulam, ameaçam, chantageiam, espionam, torturam para favorecer seus interesses, econômicos ou geopolíticos, pelo mundo todo.

Não nos enganemos, os EUA não são a nação guardiã da democracia e da liberdade no mundo, que se arrogam ser. O “destino manifesto” faz os estadunidenses acreditarem que são predestinados a dominar o mundo, e azar daqueles que discordarem. As bombas de Hiroshima e Nagasaki – maior ato terrorista e genocida da História –, a imposição do dólar como moeda mundial, os golpes, as guerras, sanções e bloqueios impostos contra todos os governos insubmissos ao domínio do Tio Sam, o desvario atual de Trump, taxando inclusive países tidos como alinhados, mostram quem é a águia do Norte. Acuados ao perceber a decadência de seu império e a incontível tendência de multilateralismo no mundo, o antes hegemônico EUA desfaz-se da máscara de paladino da justiça, assume a nação guerreira e opressiva que sempre tentou disfarçar ser.

As punições via Lei Magnitsky de autoridades brasileiras – estas empenhadas em amenizar os efeitos do desgoverno que tentou desviar o Brasil para o autoritarismo, a submissão, o entreguismo e o negacionismo, desgoverno agora julgado pelos seus crimes contra a Constituição –, é outra mostra do desespero do império em decadência. Para tentar convencer que estão agindo em nome da democracia e da liberdade, os EUA contam com aliados de peso: a desinformação via mídias estadunidenses que eles impedem que sejam regulamentadas; os aliados entreguistas locais, cúmplices da rapinagem internacional; a ignorância negacionista imposta à população; o complexo de vira-lata de muitos brasileiros, que não conseguem enxergar o que significam as leis extraterritoriais como a Magnitsky. Traduzindo-as, elas querem dizer o seguinte: “Eu tenho poder militar, econômico e tecnológico, você não. Se você não me obedecer, eu tenho direito de usar meu poder contra você, da maneira que eu bem entender”.

As ações desesperadas do agonizante império hegemônico – não só as leis extraterritoriais, mas também as taxações, as guerras genocidas que patrocinam, os bloqueios e chantagens econômicas, o negacionismo com o aquecimento global e a emergência climática, a desfaçatez com as organizações, acordos e a diplomacia internacional – revelam, afinal, quem são os EUA. Caiu a máscara do império.

A população brasileira – e a mundial – está acordando para discernir quem é quem, e aprendendo a valorizar a soberania nacional, a verdadeira democracia e liberdade.

sábado, 9 de agosto de 2025

Caiu a máscara da hipocrisia

 Publicado no Jornal da Manhã em 12/08/2025.

Os EUA se arrogam ser a nação guardiã da democracia e da liberdade no mundo. Será? Vamos ver. Os EUA nasceram uma nação invasora. Foi assim que construiu seu território de oceano a oceano, tomando as terras do México. Isto depois de exterminar as nações indígenas, sob inspiração do “destino manifesto”, que faz o estadunidense acreditar que esteja predestinado a dominar o mundo. Foi assim durante a Segunda Guerra Mundial, quando esperou anos para engajar-se, agigantando suas indústrias de armas, enquanto Alemanha, Rússia, França, Itália e Inglaterra devastavam-se na Europa. Foi assim quando perpetrou o mais nefasto ato terrorista e genocida da História, as bombas de Hiroshima e Nagasaki. Foi assim quando, terminada a guerra, único grande país que saiu com seu território ileso do conflito, submeteu todas as nações do mundo ao jugo do dólar. Foi assim quando invadiu Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Líbia, Síria e conspirou golpes no Irã, Chile, Argentina, Brasil, Venezuela, Guatemala, Ucrânia e tantos outros, a pretexto de deter o fantasma do comunismo. Foi assim quando, impedido de invadir, embargou Cuba, Venezuela, Irã, Coréia do Norte, Rússia. Está sendo assim quando patrocina o genocídio na Palestina, a guerra na Ucrânia, o ataque ao Irã.

Agora, com o crescimento da China e a ameaça à cambaleante hegemonia estadunidense, o enlouquecido Trump já não inventa subterfúgios para extravasar a ânsia de dominação do destino manifesto: quer submeter todas as nações do mundo, alinhadas ou não, ao que resta de poderio econômico dos EUA. Organizações internacionais, acordos, alianças já não têm nenhum préstimo. Antes, tinham o préstimo de ludibriar, de mascarar. Já não é necessário ludibriar: as garras da águia são expostas com o indisfarçável intuito de ameaçar e subjugar. É o caos mundial, a desordem intencional, que visa a dominação.

Não se trata só de tentar salvar a decadente supremacia econômica e militar estadunidense, através do comércio privilegiado, da usurpação de recursos naturais, dos embargos, chantagens e tramas comerciais. Também está em jogo a supremacia ideológica do neoliberalismo concentrador de riquezas, contra o socialismo distributivo. Com as tecnologias atuais de informação e desinformação, aprofundou-se a crença do fantasma comunismo ameaçando o planeta. Este tem sido o falso pretexto, agora desmascarado, para invadir o mundo. A guerra cognitiva imbeciliza o senso comum: transforma estadistas em ladrões; milicianos em mitos messiânicos; sistemas econômicos que protegem super-ricos e multiplicam a pobreza em ilusão de liberdade e prosperidade; sistemas que visam a equidade zelada por Estados fortalecidos em mordaças à livre iniciativa...

Adentramos a era da desinformação e da ignorância. A educação, com tantos recursos tecnológicos que poderiam estar nutrindo uma nova civilização, está sendo manipulada para fomentar a intolerância, o medo, o ódio, a idiotice, a violência, a subserviência, a desesperança. A força da renovação e transcendência parece bloqueada pela força do reacionarismo e do obscurantismo.

Talvez essa reação ao progresso da humanidade seja algo natural: toda grande mudança encontra rejeição por parte de muitos. Mas a sina é evoluir. Tem sido assim ao longo da evolução das espécies no planeta. A barbárie que ora prospera é o que vai separar o joio do trigo, e fazer nascer o ser humano lúcido, consciente das fragilidades de si mesmo, de seu próximo e da pródiga natureza.

A superação da hipocrisia, ainda que seja pela indisfarçada assunção da prepotência, pode ser o ponto de inflexão da evolução da humanidade.


sábado, 19 de julho de 2025

Elevador de Vila Velha, o retrocesso do bom senso

  

Em 2003 o Parque Estadual de Vila Velha – PEVV – passou por um minucioso processo de revitalização: a unidade de conservação foi então reconhecida na sua função de proteção integral da natureza, e muitos dos despautérios que antes lá eram cometidos foram corrigidos. Entre eles, o funcionamento do elevador na Furna 1, a maior do parque. O elevador só não foi retirado porque se alegou incapacidade técnica de fazê-lo sem provocar riscos ambientais ainda maiores do que manter o passivo ambiental. Um monstro a recordar uma época de total incompreensão da razão de ser do parque, a proteção ambiental, um local de singular patrimônio natural: os arenitos, as furnas, a Lagoa Dourada, a vegetação de campos e floresta com araucária, plantas e animais, alguns ameaçados ou endêmicos, como o cacto bola, a suçuarana, o lobo guará, os peixes nas águas do fundo das furnas e na lagoa.

Em 2003 compreendeu-se que, antes de ser uma atração para lazer e turismo, o PEVV é, pela sua excepcionalidade, um local de preservação, onde é possível aprender o funcionamento dos processos naturais na região, e compreender os serviços que a natureza nos presta, facultando o milagre da vida saudável. Vila Velha é para ser protegida, é lugar que deve ser tratado como santuário, laboratório de estudos e de Educação Ambiental, não como fonte de renda.

Em 2003 reconheceu-se o impacto do elevador: óleos lubrificantes derramados nas águas da furna, ruído, vibrações, dejetos. Tudo isso impacta os andorinhões, os peixes, as águas, a estabilidade do maciço rochoso. Reativar o elevador é o clímax do retrocesso desde 2003. O PEVV não é lugar para festivais, feiras, eventos esportivos, espetáculos. Lá é lugar para preservar, estudar, aprender, respeitar, reverenciar. Como vivem os andorinhões, qual seu papel ambiental? Como funciona a diferenciação dos peixes endêmicos isolados nas furnas? Como são as águas do Aquífero Furnas? Como são os arenitos, que em profundidade, longe dos olhos, podem ser reservatórios de água ou hidrocarbonetos? Quais são e como vivem os peixes da Lagoa Dourada e do Rio Guabiroba? Como funcionam os campos nativos e a floresta com araucária? Como os sistemas naturais da região ajudam a equilibrar o ciclo hidrológico, o controle de pragas, a polinização, a retenção de carbono, o clima? Como os processos intempéricos modificam e moldam os arenitos e sua função como aquífero?

Em 2003 compreendeu-se a razão de ser do PEVV: disciplinou-se a visitação, desativou-se o elevador. O erro foi não removê-lo definitivamente quando daquele laivo de bom senso. Desde então, os gestores do parque pouco a pouco vêm substituindo a função ambiental por uma predatória função de atrativo turístico. O PEVV não tem tido uma gestão ambiental; tem tido uma gestão financeira. A reativação do elevador é uma decisão que ignora o que seja uma unidade de conservação de proteção integral, quais suas funções. Falta o PEVV ter um comitê gestor adequado.

Lamentável! Com as singularidades naturais do PEVV poderíamos estar aprendendo com a natureza, que nos concede a vida. Entretanto, transformando-o num produto turístico, estamos violentando quem poderia nos ensinar.

terça-feira, 8 de julho de 2025

O deus dinheiro e seu vassalo, o mercado

 Publicado no Jornal da Manhã em 08/07/2025.

Muitos dizem que o capitalismo, que prioriza o lucro e desdenha a qualidade de vida humana, é o grande vilão do momento de crise que vive a humanidade. Lucro, qualidade de vida, crise: três conceitos que merecem reflexão.

Consideremos aqui “lucro” não a viabilização econômica de um empreendimento; este lucro é necessário. O lucro que vemos hoje é a incalculável concentração de renda por uns poucos, nunca saciados, que se locupletam explorando o trabalho de uma grande maioria que, à beira da pobreza, luta para suprir suas necessidades básicas. Este lucro deveria ser mais adequadamente chamado de esbulho: o roubo do fruto da força do trabalho.

“Qualidade de vida” é o bem-estar social e pessoal, com as necessidades básicas supridas – alimentação, saúde, moradia, ensino, trabalho, cultura, lazer, segurança... –, e não o luxo e a ostentação daqueles que precisam parecer vencedores perante seus próximos. E que têm que viver em moradias que parecem bunkers, andam em carros blindados, com guarda-costas, acumulam suas fortunas em contas secretas nos paraísos fiscais. Verdadeira qualidade de vida implica paz de espírito e paz no mundo, ética, solidariedade, esperança no porvir, alegria de viver.

“Crise” é a disfunção de algum sistema, seja ele orgânico ou não. A crise antecede o colapso; ela alerta para o mal funcionamento, antes que o sistema sofra falência total. Colapso é o caos resultante desta falência. Um desarranjo muitas vezes com características e alcance imprevisíveis. Atualmente vivemos muitas crises: ambiental, social, política, sanitária, bélica, econômica, educacional, de segurança, ética, religiosa... Os sinais são evidentes. Porém, entre enxergar um sintoma da crise e ser capaz de fazer algo para evitar o colapso adiante, há uma barreira inexplicável. Por que a humanidade não é capaz de reverter a crise climática que ameaça exterminar-nos? Por que não é capaz de distribuir a renda produzida pelo trabalho para acabar com a fome, a pobreza, a humilhação, a criminalidade, a descrença? Por que não é capaz de implementar um ensino que privilegie a tolerância, a solidariedade, o discernimento, o bom senso? Por que não é capaz de findar com as guerras? Por que não é capaz de usar a bênção das tecnologias para o diálogo honesto, a compreensão, o bem-estar, e não a desinformação e a manipulação? Por que os verdadeiros religiosos não conseguem mais transmitir os ensinamentos dos profetas, e as igrejas transformam-se em heréticos templos de devoção à prosperidade, ao domínio e ao logro?

Será o capitalismo o responsável por tantas crises, e pelo colapso vislumbrado à frente? Ou o capitalismo, com todas as crises que ele engloba, é ele mesmo só mais um resultado de arraigados instintos humanos? Desde sempre o ser humano tem sido agressivo e dominador. Muito antes do capitalismo. Mas antes não contávamos com as espetaculares fontes de energia, nem o conhecimento e as tecnologias que temos hoje. Elas só multiplicam o alcance da ambição, da agressividade, da dominação e do cego deslumbramento humanos. O capitalismo é mais um fruto desses infelizes atributos do “Homo sapiens”, que parece mais “demens” que “sapiens”. Fecha-se um ciclo vicioso: os instintos criam o capitalismo, o capitalismo acirra os instintos.

Vivemos a era em que o deus dinheiro e seu vassalo mercado conduzem a espécie humana para a autoextinção. Enxergaremos e mudaremos antes do colapso?

domingo, 29 de junho de 2025

Aterro Botuquara, o câncer de Ponta Grossa

 Publicado no Jornal da Manhã em 01/07/2025.

Os jornais de Ponta Grossa têm noticiado o imbróglio que envolve o encerramento do Aterro Botuquara, que recebeu o lixo da cidade por mais de meio século, e foi desativado em 2019. Quando o Botuquara foi instalado, no final dos anos 1960, as normas ambientais e os atributos naturais da região eram desconhecidos. Hoje se sabe, o local do aterro não poderia ter sido pior, do ponto de vista ambiental.

O Botuquara – agora uma montanha de lixo, um incômodo passivo ambiental – situa-se sobre os arenitos da Formação Furnas, um generoso aquífero, cada vez mais utilizado por indústrias, postos de serviços, hospitais, supermercados, granjas e outros empreendimentos de Ponta Grossa e região. O Aquífero Furnas tem potencial para amenizar as crises hídricas previstas para os tempos de emergência climática que adentramos. As normas atuais preconizam que as áreas de recarga dos aquíferos não sejam utilizadas para os aterros, pelo risco de contaminação dos mananciais subterrâneos. Por esse motivo, recentemente foi impedida a localização de novo aterro da empresa Ponta Grossa Ambiental, na região do Rio Verde, ela também situada sobre a área de recarga do aquífero.

Muito se discute a destinação da área do desativado Aterro Botuquara. Fala-se de plano de recuperação de área degradada, de termo de ajuste de conduta, em área de lazer, em um sistema de energia solar, em produção de bioenergia, em Ministério Público, em Secretaria Municipal de Meio Ambiente, em poluição das águas superficiais e subterrâneas pelo chorume do antigo aterro. Um imbróglio, aparentemente sem solução, ou com prováveis soluções para daqui décadas.

O Aterro Botuquara é como um câncer já diagnosticado, mas para o qual se rejeita tratamento. Ele pode tornar-se incurável e alastrar-se, se as águas do Aquífero Furnas forem contaminadas. Os aquíferos são fonte abundante de água de boa qualidade, e têm outras vantagens: dispensam tratamento e redes de distribuição, não dependem das desastrosas variações das chuvas, previstas para se acirrarem com as mudanças do clima que estamos provocando. Mas têm uma vulnerabilidade: não podem ser poluídos. Se o forem, sua recuperação é inviável. Por todos esses motivos, crescem em todo o mundo os cuidados para a proteção dos aquíferos.

Além de negligenciar o câncer diagnosticado, o poder público parece também querer impedir que se façam novos exames, para compreender o alcance das possíveis metástases: não é feito adequado monitoramento das lagoas de chorume, não são realizadas nem divulgadas análises da qualidade da água nos arroios próximos, nem de poços de monitoramento das águas subterrâneas.

Dadas as características locais, a melhor solução para o câncer Aterro Botuquara parece ser mesmo extirpá-lo. Transferir a montanha de lixo para um local sobre solos e rochas naturalmente impermeáveis, sem risco de contaminação de mananciais subterrâneos nem superficiais.

No município de Ponta Grossa há muitas áreas assim, onde afloram no terreno rochas argilosas impermeáveis da Formação Ponta Grossa.

sábado, 14 de junho de 2025

Analfabetismo funcional e cancelamento

 Publicado no Jornal da Manhã em 27/06/2025.

Surpreendi-me com a notícia divulgada em maio passado: 29% dos adultos no Brasil são analfabetos funcionais; 36% estão no nível elementar, são capazes de compreender textos simples e de tamanho médio; só 35% são considerados alfabetizados plenos. O estudo foi realizado por uma parceria de instituições, incluindo Unesco e Unicef. É sério e isento, e não uma peça de desinformação. Esses resultados são alarmantes. A realidade atual, com a comunicação digital, a inteligência artificial, a manipulação do comportamento usando a neurociência e recursos milionários, é muito complexa. Só a plena alfabetização tem chance de lançar alguma luz sobre tal complexa realidade. E não estamos preparados para tanto. Talvez esses dados expliquem por que se elegem tantos parlamentares vendilhões da pátria, entreguistas e a serviço de lobbies fisiológicos, e não estadistas de verdade.

Nestes tempos que vivemos, discernir é vital. A desinformação e o logro foram potencializados com o advento do mundo digital, das redes sociais e dos algoritmos da inteligência artificial. Eles, mais que libertar e emancipar o gênio humano, empenham-se em condicionar-nos para objetivos escusos: comprar, temer, alienar, imitar, mentir, fraudar, segregar, odiar... Os muitos apelos que nos chegam são perturbadores: se não soubermos triá-los, endoidamos. Ou, confusos, não conseguimos entender: consuma-se o analfabeto funcional.

Talvez o principal objetivo da manipulação da informação seja mesmo preservar a tirânica injustiça social, que divide em classes: a produção de riquezas pela força de trabalho seria suficiente para toda a população mundial ter vida digna e saudável. Entretanto, a maior parcela da humanidade vive em luta constante contra a fome, a pobreza e a humilhação, enquanto uns poucos locupletam-se, acumulam fortunas impensáveis.

Qual a relação entre analfabetismo funcional, cultura, cancelamento, injustiça social e colonialismo? Cultura vem com a alfabetização, vem com uma educação – formal ou informal – que seja inclusiva, crítica, que ensine a pensar e a criar, e não só a repetir, conformar e conservar. Sem ela, estaríamos ainda nas cavernas. Cultura é o cultivo do discernimento, da compreensão, da sensibilidade, da tolerância, da solidariedade. Sem diálogo lúcido e respeitoso, não há cultura. O cancelamento é a negação da cultura. A injustiça social, filha do narcisismo que quer destruir o diferente, é irmã do analfabetismo. Se a humanidade não for capaz de, com a cultura, superar a ignorância, está condenada à extinção. O colonialismo é só um resultado de todo desatino humano: países subjugando países, povos explorando povos, ricos explorando pobres, exércitos de pobres guerreando pelos ricos, alfabetizados iludindo analfabetos.

Escrevo regulamente crônicas, artigos e ensaios críticos. Textos que procuro fazer um apelo mais à razão que à emoção e aos preconceitos. Claro, sou humano. Apesar de tentar, não quer dizer que consiga dominar meus próprios arroubos emocionais e preconceituosos. Ademais, há muito compreendi o sentido do aforismo “A mentira desgasta relacionamentos; a verdade não, a verdade devasta!”. Procurar enxergar e dizer a verdade rompe relacionamentos. Afasta, inimiza, e, atualmente, cancela. Preferiria ser mais afeito a escrever textos que tocassem só os sentimentos. Eles não polemizam, parecem mais capazes de revelar e transformar que os pensamentos. Entretanto, o espontâneo e sincero impulso de refletir é parte da minha identidade. Negá-lo seria traí-la.

Recentemente, fui cancelado num grupo que se diz de cultura em Ponta Grossa. Motivo: postei um trecho do discurso do Presidente Lula agradecendo a homenagem da Academia Francesa. Ele lembrava os acadêmicos que só tem o primário e um curso técnico, mas tornou-se sindicalista, criou um partido e é presidente. O reconhecimento da Academia Francesa significa que é um ser humano singular, merecedor da rara homenagem. O discurso de Lula sugeria que a principal qualidade humana, a solidariedade, não depende da erudição: depende da escola da vida, e decerto também da índole de cada um.

A postagem do vídeo motivou minha exclusão do grupo de cultura. Ele não admite conteúdo político. Sinto que esta ideia de cultura também pode conduzir-nos à extinção.