domingo, 18 de janeiro de 2026

O ponto de mutação da civilização

 Publicado no Jornal da Manhã em 20/01/2026.

Trump ordena o sequestro do presidente Maduro, diz que quer “comprar” a Groenlândia, ameaça com tarifas os países europeus que são contra essa “compra”, diz que o Canadá vai se tornar o 51º estado dos EUA, ameaça o México de invasões contra o “narcoterrorismo”, afirma que todo o hemisfério ocidental – a Europa Ocidental e as Américas – são seu território – quer dizer, seu quintal. Mantém centenas de bases militares em todo o mundo, promove e participa de guerras, dobra o orçamento de guerra dos EUA, alimentado pelas tarifas que impõe. Ameaça a América Latina para além da Venezuela, escarnece dos órgãos e acordos internacionais que procuravam manter alguma harmonia no mundo. Abusa das bravatas e mentiras, interessa-lhe instaurar o caos. E, lembremos, Trump foi eleito, e reeleito.

Talvez o último marcante ponto de mutação da humanidade tenha sido o desenvolvimento da agricultura, há cerca de dez mil anos. Com ela surgiram as cidades, os estoques de alimentos para o inverno e as crises climáticas, os ofícios urbanos e as guerras de pilhagem e dominação. Desde então, a história da humanidade tem sido uma sucessão de ascensão e queda de impérios à custa de guerras. O que nos revela que o Homo sapiens ainda é mais Homo demens que sapiens. Ainda não aprendemos a fazer jus às benesses deste generoso planeta que nos acolhe, e tudo nos provê. Os sucessivos conflitos dentro da humanidade parecem ter um papel evolutivo: aprendemos com eles, procuramos evitá-los, a civilização aperfeiçoa-se. Os últimos grandes conflitos foram há menos de um século, as grandes guerras do Século XX.

Seria o desvario atual no mundo, do qual Trump talvez seja o arauto mais espalhafatoso, só mais uma das muitas crises civilizacionais? Na segunda guerra mundial não foram usadas armas químicas, um aprendizado da primeira guerra. Mas foram usadas bombas nucleares, não havia nenhuma experiência, e nenhum acordo que as limitasse. As duas bombas, que destruíram duas cidades com toda sua população civil, foram o maior ato terrorista da história. Ele até hoje amedronta todo o mundo. Os arsenais nucleares atuais são capazes de arrasar o planeta diversas vezes. Além de outras armas cibernéticas impensáveis pelo homem comum.

Ademais das armas de guerra campal, há uma também inimaginável tecnologia de desinformação, para as guerras cognitivas que subvertem as populações a serem dominadas. É o que se vê em todo o mundo, agora especialmente no Irã. As guerras cognitivas trazem à tona o que há de pior na natureza humana. Forja-se uma psicosfera global doentia e contagiosa. O embrutecimento açula ainda mais embrutecimento. A guerra cognitiva tem sabotado a frágil democracia do Brasil há décadas, especialmente nos últimos quinze anos.

Arsenais nucleares, armas cibernéticas, guerra cognitiva e aviltamento da psicosfera fazem a crise atual da civilização inusitada. Da crise arriscamos chegar a um colapso sem volta. Uma consequência previsível de uma sociedade que há pelo menos dois séculos e meio aprimorou-se na injustiça e exclusão, disseminando pobreza e concentrando riqueza. Ela só poderia dar no que vemos hoje.

Este ponto de mutação civilizacional pode nos conduzir a um salto evolutivo grandioso: mais lucidez, compreensão e amorosidade, enfim aprendemos a conviver em paz. Ou pode significar o autoextermínio do Homo sapiens.

4 comentários:

  1. Me emocionou, com Amorosidade nos coloca entre a cruz e a espada.
    Que tristeza pertencer a essa espécie 😢

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  2. É , se a humanidade não praticar o que Cristo nos ensinou: amarmos uns aos outros, a humanidade estará com seus dias contados. Oxalá nos ilumine.

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  3. Fui eu que mandei a mensagem

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  4. Me preocupa e entristece ver que mundo deixamos para as próximas gerações.

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