sábado, 21 de março de 2026

O preço da liberdade

 Publicado no Diário dos Campos em 20/03/2026.

Conversando com amigos que trabalham na formação de jornalistas, eles compartilharam percepções marcantes: para os estudantes, o jornalismo da grande mídia perdeu a credibilidade. Daí a pergunta inevitável: qual a perspectiva desses jovens com seu futuro profissional? A resposta desencadeia uma torrente de reflexões. Os jovens são hoje muito diferentes daqueles de 50 anos atrás. Antes, a sociedade, as famílias, ditavam limites e princípios rigorosos, que eram, em geral, acatados. Hoje, talvez como consequência da revolta das gerações antes controladas, há um exagero de liberdade. Com ela vêm as contestações, as muitas pautas identitárias, a relativização da verdade e, finalmente, a dificuldade de encontrar um rumo num mundo tornado por demais complexo. E, para complicar, a euforia com novas tecnologias dispersivas e manipuladoras só faz confundir ainda mais liberdade com libertinagem sem limites.

Esta situação conduz ao excelente livro “O tao da libertação” (M. Hathaway e L. Boff, Editora Vozes, 2012), que discute três estágios para as dinâmicas evolutivas, sejam elas da dimensão do cosmo – desde o Big Bang até os sistemas planetários organizados –, ou da dimensão de uma civilização ou de um indivíduo – por exemplo a trajetória de uma pessoa ao longo da vida, desde a adolescência até a maturidade.

O livro fala nos estágios de “diferenciação”, “autopoiesis” e “comunhão”. A diferenciação é a transformação do que era disforme – o universo antes do Big Bang, ou o indivíduo antes de distinguir-se da multidão – em algo que passa a ter identidade. É a conquista da liberdade. Não é mudança fácil. O universo há bilhões de anos diferencia-se para formar as galáxias e sistemas solares. O Homo sapiens precisou de centenas de milhares de anos para aprender a cultivar alimentos, a organizar-se em cidades e a desenvolver a linguagem. Uma pessoa leva a maior parte da vida até enxergar seus erros, rir deles, corrigir-se, emancipar-se. A diferenciação é a libertação, cujo fruto é a diversidade de realidades. Alcançar a diferenciação é livrar-se dos grilhões de consensos preexistentes, de dogmas, que são então transgredidos. Diferenciar-se é deixar o conforto do conhecido para mergulhar no mar profundo da dúvida, do imprevisível e do novo.

Sucede então o estágio da autopoiesis – a construção do caráter, a poesia, a arte, o belo, a riqueza e firmeza de si mesmo, dos atributos próprios. O planeta Terra, fruto de uma improvável conjunção de raríssimas condições que acabam por propiciar o milagre da vida, é um bom exemplo de autopoiesis. Bilhões de anos de transformações deram origem ao poema vivo que é nosso planeta e sua biodiversidade. Entre os humanos, temos ao longo da história exemplos reais ou idealizados de indivíduos, homens e mulheres, que mostraram ter alcançado a graça da iluminação, do belo, seja nas artes, nas ciências ou noutros legados. Autopoiesis conduz à lucidez, à compreensão do mundo e da vida, e, por fim, à amorosidade.

É chegado então o estágio da comunhão. O emancipado reconhece a alteridade, sintoniza-se com ela. Como o instrumento na sinfônica, enxerga que sua singularidade, bem como a dos demais instrumentos, são essenciais para a harmonia do arranjo orquestral. A comunhão é o clímax da amorosidade, a realização de si mesmo, e de si com o outro. Na comunhão a diferença completa, coopera, constrói.

De volta à conversa com os amigos, e ao impasse dos jovens que conquistaram a liberdade mas atrapalham-se com qual rumo seguir agora, parece ser o caso de lembrar da diferenciação, autopoiesis e comunhão. Os jovens, ou toda a humanidade, parecem estar num emaranhando limbo de diferenciação e autopoiesis.

É hora então de saber discernir para escolher o rumo certo e construir a poesia interior, com o que de mais luminoso nos oferece a vida.

Um comentário:

  1. Ando meio impressionado com parte considerável de nossa espécie. Uma anti autopoiesis.

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