Publicado no Jornal da Manhã em 31/10/2026.
Impressiona e assusta constatar quantas pessoas, no Brasil
e no mundo, parecem orgulhar-se e mesmo jactanciar-se da própria flatulência:
são malcheirosos, negacionistas, odeiam a ciência, não leem livros, só
acreditam na própria verdade, não questionam nada, desprezam a crítica alheia,
são violentos, não dão bola para a tolerância, a alteridade, o diferente. São
pessoas facciosas, que só têm alguma empatia com outros iguais a elas.
Desdenham também da cultura popular, aquela que revigora e dissemina a
sensibilidade, o lúdico, a arte que é da lide dos simples. Mas amam sim o
dinheiro, o BBB, as fofocas e mentiras nos celulares, as novelas, as lutas
livres, as bets... São os ressentidos – ou os medrosos – de um arranjo social
perverso, que dissemina a exploração, o engodo e a frustração. Acreditam que a
salvação seja ainda mais flatulência.
Reconhecer a própria flatulência seria catastrófico para a
autoestima. Um desastre emocional e psicológico. O mundo que vivemos não perdoa
os flatulentos. Ou não perdoava. Agora eles querem ter o poder de controlar o
mundo. Unem-se, mobilizam-se, dedicam-se a isso. Talvez ainda não tenham
percebido que sua flatulência os faz presa fácil de poderosos, nada flatulentos,
que os manipulam para que nada mude: o mundo continue sendo o mesmo de sempre,
os poderosos sempre poderosos, os flatulentos sempre flatulentos, empobrecida
massa de manobra a produzir com o trabalho explorado a riqueza do milionário ardiloso
cada vez mais rico, cada vez mais explorador do flatulento e cada vez mais
controlador de quem vai ou não ser um flatulento na vida.
Analistas já dizem faz tempo que essa massa ignara é fruto
desta civilização que muito prosperou em conhecimento e tecnologia, e retrocedeu
em ética, equidade, justiça, solidariedade e espiritualidade. Apesar de todo o
saber que acumulamos, a injustiça social nunca foi tão evidente, o mundo nunca
esteve tão em risco de colapso climático, de guerras de aniquilação, de
chantagens econômicas e militares, de lavagens cerebrais e doutrinações
promovidas por sofisticadas tecnologias de lawfares
e guerras cognitivas. Este avanço do conhecimento e da tecnologia sem
correspondente avanço da ética e da lucidez tem sido apontado como um traço
comum ao colapso de todas as civilizações ao longo da história. Estaremos nós à
beira da falência de nossa própria civilização, a ascensão da flatulência e da
jactância seriam só um dos muitos sinais?
O Homo sapiens
parece ter mudado pouco desde que reconhecemos seu surgimento: ainda
continuamos movidos mais por instintos de agressividade e reprodução,
indispensáveis para a preservação da espécie, do que por sentimentos de
compreensão e amorosidade, indispensáveis para a sobrevivência civilizada em
uma sociedade com mais de oito bilhões de almas. Apesar de todo o conhecimento,
ainda reagimos como feras. O inusitado é que o conhecimento nos deu o poder de
destruir o planeta. Antes de destruí-lo, decerto convulsionaremos o clima,
dizimaremos florestas e a biodiversidade, poluiremos águas e ar, queimaremos
livros, enclausuraremos ou crucificaremos verdadeiros sábios e líderes, e
sabe-se lá o que mais.
Reconhecer a própria flatulência não é coisa fácil. Até
mesmo aqueles que, afortunados, tiveram oportunidades de emancipar-se da massa
ignara, precisam exercitar sempre o olhar para dentro de si mesmos, para
enxergar suas próprias limitações. Talvez assim adiemos o colapso desta
civilização.
Flatulência: equivale a mau cheiro, violência, prepotência,
arrogância, insolência, ignorância...
O Sapiens surgiu a maís ou menos 300 mil anos. Usando essa métrica, sim, estamos à beira da extinção de nossa espécie. Não somos a "cereja do bolo" nem a "perfeição" e a evolução continua. Assim como aconteceu com os neandertais, daqui a uns 1000 anos (logo , logo) provavelmente teremos sido substituídos por uma nova espécie. Talvez uma composição da IA e o humano. Naquela espécie, talvez os instintos animais tenham desaparecidos. Nessa nossa espécie atual não há esperança. Temos que aprender a conviver.
ResponderExcluirProvavelmente bem menos que 1000 anos, talvez pouco mais de um século.
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