domingo, 1 de maio de 2022

Profetizada em 1956 “A obsolescência do homem”

Foi em 1956 que o filósofo judeu alemão Günther Anders (pseudônimo de Günther Siegmund Stern, 1902-1992) escreveu esta reflexão, contida no livro “A obsolescência do homem”. Compartilhamos abaixo trecho do livro, encontrado na web e recebido de um caro amigo. Surpreende a incrível atualidade do texto de quase sete décadas:

′′Para sufocar antecipadamente qualquer revolta, não deve ser feito nada de forma violenta. Métodos arcaicos como os de Hitler estão claramente ultrapassados. Basta criar um condicionamento coletivo tão poderoso que a própria ideia de revolta já nem virá à mente dos homens. O ideal seria formatar os indivíduos desde o nascimento, limitando suas habilidades biológicas inatas...

Em seguida, o condicionamento continuará reduzindo drasticamente o nível e a qualidade da educação, reduzindo-a para uma forma de inserção profissional. Um indivíduo inculto tem apenas um horizonte de pensamento limitado e quanto mais seu pensamento está limitado a preocupações materiais, medíocres, menos ele pode se revoltar. É necessário que o acesso ao conhecimento se torne cada vez mais difícil e elitista... que o fosso se cave entre o povo e a ciência, que a informação dirigida ao público em geral seja anestesiada de conteúdo subversivo.

Especialmente sem filosofia. Mais uma vez, há que usar persuasão e não violência direta: transmitir-se-á maciçamente, através da televisão, entretenimento imbecil, bajulando sempre o emocional, o instintivo. Vamos ocupar as mentes com o que é fútil e lúdico. É bom com conversa fiada e música incessante, evitar que a mente se interrogue, pense, reflita.

Vamos colocar a sexualidade na primeira fila dos interesses humanos. Como anestesia social, não há nada melhor. Geralmente, vamos banir a seriedade da existência, virar escárnio tudo o que tem um valor elevado, manter uma constante apologia à leveza; de modo que a euforia da publicidade, do consumo, se tornem o padrão da felicidade humana e o modelo da liberdade.

Assim, o condicionamento produzirá tal integração, que o único medo (que será necessário manter) será o de ser excluído do sistema e, portanto, de não poder mais acessar as condições materiais necessárias para a felicidade. O homem em massa, assim produzido, deve ser tratado como o que é: um produto, um bezerro, e deve ser vigiado como deve ser um rebanho. Tudo o que permite despertar sua lucidez ─ sua mente crítica é socialmente boa, o que arriscaria despertá-la ─ deve ser combatido, ridicularizado, sufocado...

Qualquer doutrina que ponha em causa o sistema deve ser designada como subversiva e terrorista e, em seguida, aqueles que a apoiam devem ser tratados como tal.′′

(Anders, Günther. "A obsolescência do homem′′, 1956.)

 

domingo, 24 de abril de 2022

“A arapuca estadunidense – uma Lava Jato mundial”

“A arapuca estadunidense – uma Lava Jato mundial” é o título da tradução brasileira (Kotter Editorial, 2021) do livro no original em francês “Le piège américain” (A armadilha americana, 2019), de Frédéric Pierucci e Matthieu Aron. A tradução do título é muito apropriada: “arapuca” traduz melhor que “armadilha” o esquema da lawfare estadunidense que visa angariar bilhões de dólares em multas e absorver ou destruir grandes empresas pelo mundo afora, aquelas que ameacem a hegemonia das empresas do Tio Sam. E o subtítulo no Brasil também é muito oportuno: embora o livro pouco mencione nosso país, o esquema que vitimou o autor Frédéric e a multinacional francesa na qual trabalhava, a Alstom, é o mesmo que vitimou Lula e outros políticos progressistas no Brasil, bem como a Petrobras, a Odebrecht, a Embraer e outras grandes empresas brasileiras, que estavam vencendo concorrências internacionais.

A Alstom era uma multinacional francesa ─ hoje absorvida pela General Electric estadunidense ─ que atuava nas áreas de energia e transportes, fabricando, instalando e mantendo centrais elétricas (desde termelétricas até nucleares) e modernas redes de trens rápidos. Frédéric ─ ou Fred ─ em 2002 era alto funcionário executivo da Alstom, instalando uma central elétrica na Indonésia. Em 2013, quando fazia viagem entre Singapura e Paris, Fred desembarcou no aeroporto JFK em Nova Iorque, para conexão. Foi preso pelo FBI, acusado de participar de esquema de corrupção da Alstom em 2002, que subornou autoridades indonésias para ganhar aquela concorrência. Começava então o périplo cuja sordidez só mesmo a leitura do livro pode descrever a contento.

Fred ficou preso por dois anos em prisões de segurança máxima nos EUA, depois de um longo e tortuoso julgamento orquestrado pelo Departamento de Justiça com base na legislação extraterritorial ─ aplicável fora dos EUA ─ Lei de Práticas de Corrupção no Exterior (FCPA na sigla em inglês). A lei, em teoria, destina-se a coibir a corrupção internacional, sempre que ela seja considerada danosa aos interesses dos EUA e suas empresas. São os tribunais estadunidenses que julgam os casos de corrupção, os considerados culpados são condenados à prisão e a pagar custosas multas.

O relato de Frédéric Pierucci revela que a realidade é bem diferente da teoria. Ele alegou em sua defesa que, embora soubesse do pagamento das propinas ─ uma prática quase obrigatória nas concorrências internacionais de grande monta ─, não tinha nenhum conhecimento de detalhes das transações feitas com os “consultores” indonésios, nem nunca recebera nenhum benefício adicional pessoal pela concorrência ganha. Ademais, o alegado delito já estaria prescrito. Mas seus argumentos eram criminosamente ignorados pela justiça estadunidense.

Aos poucos, Fred foi entendendo o esquema em que tinha sido enredado. Ele era um refém escolhido para pressionar a Alstom a reconhecer culpa perante a lei estadunidense, e assim pagar pesadas multas, que chegaram a 772 milhões de dólares. Muito mais que isso, Fred foi o bode expiatório para ameaçar os dirigentes maiores da Alstom ─ verdadeiros culpados pelos subornos praticados pela multinacional francesa ─ e assim obrigá-los a facilitarem sua venda para a concorrente estadunidense General Electric. Na descrição dos julgamentos e negociações, Fred revela como os EUA anulam a possibilidade de defesa dos acusados, que, chantageados, acabam capitulando e assumindo as culpas que lhes são imputadas. Fred foi multado, mantido condenado e preso, enquanto o dirigente sênior da Alstom foi preservado impune para que, sob a ameaça de penas ainda maiores, atuasse em prol da transferência da Alstom para a GE, objetivo final de toda a trama. A lei estadunidense na verdade quer as empresas estrangeiras, e não a justiça e o combate à corrupção.

Outras revelações são feitas no livro: se o esquema lawfare não der resultado, as empresas, os governos e os funcionários são pressionados via punições econômicas: embargos, multas, discriminações, etc. E os estadunidenses detêm o domínio da espionagem eletrônica internacional de dados, sempre têm vantagem sobre suas vítimas. A supremacia estadunidense torna os EUA capazes de qualquer extorsão.

A tradução brasileira do livro tem o mérito de adicionar notas de rodapé que procuram fazer a relação entre o caso da Alstom e a Lava Jato no Brasil. O livro apresenta dados que mostram que só Odebrecht, Embraer e Petrobras pagaram aos cofres estadunidenses mais de 667 milhões de dólares em multas entre 2016 e 2018. Anos da Lava Jato, que utilizou os mesmos expedientes das delações premiadas, em que os denunciados são pressionados a fazer afirmações sem prova que são consideradas verdadeiras, para incriminar inimigos no lawfare.

Um trecho do posfácio do livro, de autoria de Allain Juillet, ex-presidente da Academia de Inteligência Econômica da França: “─ Diante dessa lógica imperial baseada no poderio militar, no sistema judicial e na capacidade digital, o oponente não tem escolha: deve se submeter, colaborar ou desaparecer”.

 

sábado, 2 de abril de 2022

A falácia da excelência do saneamento em Ponta Grossa

Publicado no Jornal da Manhã em 10/05/2022.

Ponta Grossa tem sido insistentemente alardeada, pela Sanepar e pela mídia, como uma das cidades melhor saneadas do país. Nos últimos anos os jornais da cidade não se cansam de repetir essa notícia. Mas um breve exame revela o quanto essa afirmação falta com a verdade.

Em 2015 a Câmara Técnica do Comitê de Bacia do Tibagi, da qual faz parte a Sanepar, propôs a reclassificação de vários rios com base nos critérios de qualidade das águas de resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente, o Conama. As reclassificações propostas foram todas no sentido de reconhecer que os rios estavam mais poluídos que na classificação anterior. Entre os rios rebaixados estavam o Pitangui, os arroios Gertrudes e Olarias, todos rios urbanos de Ponta Grossa. Para eles foi então proposta a classe 4 do Conama, aquela que qualifica os rios mais poluídos. Esta proposta de reclassificação de 2015 era um reconhecimento de que a poluição dos rios urbanos de Ponta Grossa estava fora de controle.

Em 2017, durante os trabalhos de implantação do Lago de Olarias, parque urbano de Ponta Grossa, análises da qualidade da água realizadas pela UEPG a pedido da prefeitura, mostraram poluição elevada. Os dados foram considerados sigilosos, e não foram divulgados.

Hoje não é necessário realizar análises: basta visitar as cabeceiras dos arroios urbanos que divergem dos espigões centrais da cidade para constatar que todos estão muito poluídos. São esgotos a céu aberto.

Então, como é possível que a Sanepar alardeie que Ponta Grossa é uma das cidades melhor saneadas do país? As outras estão afogadas em esgoto? A explicação é outra. É possível que Ponta Grossa seja sim uma das cidades com maior cobertura das redes de água potável e esgoto. Mas só isso não garante que o saneamento esteja funcionando. E quem sofre são os rios, que na verdade recebem uma carga de esgotos não contabilizada.

Ponta Grossa é uma cidade muito antiga, principalmente nas edificações ao longo dos espigões centrais. Trata-se de um sítio urbano singular: o centro e as principais radiais situam-se em altos topográficos, deles divergem as cabeceiras dos rios da região, todos da bacia do Tibagi. Antigamente, com a população muito menor, os esgotos eram ligados diretamente à rede pluvial, que se destina a captar a água das chuvas, que vai para os rios. E não à rede própria para os efluentes, que é direcionada para as estações de tratamento de esgotos. Mesmo que a rede de esgoto passe na porta da edificação antiga, a descarga continua sendo feita na rede pluvial. Assim, quem acaba recebendo os esgotos dessas instalações antigas e inadequadas são os arroios urbanos, e não as estações de tratamento. Por esse motivo todos os rios urbanos da cidade continuam poluídos, apesar do crescimento da rede de esgotos.

A remediação do problema é viável, mas demandaria um detalhado e paciente trabalho de verificação, edificação por edificação, do correto despejo dos esgotos produzidos na rede apropriada, e não na rede pluvial que leva aos arroios. Um trabalho demorado, custoso, impopular, que por certo não traria votos nem prestígio. Mas deveria, ao final, alcançar a limpeza dos rios de Ponta Grossa e de toda a bacia do Rio Tibagi, devolvendo à população águas limpas, permitindo aos moradores reintegrá-las ao seu salutar dia a dia e à sua identidade.

 

domingo, 20 de março de 2022

Elucubrações cosmogenéticas

Um trecho da Bíblia, do Evangelho de João, diz: “Na casa de meu Pai há muitas moradas”. Os espíritas interpretam esse trecho como a revelação de que não estamos sós no mundo, há outros planetas habitados além do nosso. Os discípulos de Allan Kardec vão ainda mais longe, acreditam que a população da Terra é composta de seres oriundos de muitos planetas diferentes, que aqui reencarnam esquecidos de seu passado, com a missão de evoluir e contribuir para a evolução da humanidade. A vida na Terra, um planeta no atrasado estágio de “expiação e provas”, seria uma escola implacável, para aprendermos a reconhecer e superar nossos defeitos mais arraigados.

A coexistência entre nós de paradoxos tão absurdos parece confirmar que realmente estejamos vivendo uma expiação e prova numa escola severa, mas ao mesmo tempo generosa. Ela deixa que nossa selvageria faça a guerra e cometa atrocidades, mas ao mesmo tempo nos enternece com laivos de amizade, solidariedade, amor, beleza e poesia. Parece que estamos sujeitos à escolha, o livre arbítrio manifesta-se. O plantio é livre, a colheita dos resultados é obrigatória.

Mas, voltando às muitas moradas da casa do Pai, o imaginário humano é pleno de manifestações de que acreditamos ter companhia neste imenso universo. Gosto particularmente das ficções O dia em que a Terra parou (livro de Harry Bates, depois transformado em filme) e Contato (livro de Carl Sagan, depois também levado para as telas). Há inúmeras outras ficções, assim classificadas visto que até agora supomos que nunca tivemos uma prova indubitável da existência de alienígenas.

O exame da imensidão do universo conduz às conclusões que os astrônomos não cansam de anunciar: não é sensato que só a Terra tenha propiciado a origem e evolução da vida. Tal conclusão ganha força quando lembramos que o big-bang iniciou o universo que conhecemos há mais de quatorze bilhões de anos, enquanto a Terra tem somente pouco mais de quatro bilhões. Uma diferença de dez bilhões, mais que o dobro da idade de nosso planeta. Quantas civilizações não poderiam ter evoluído antes mesmo da Terra existir?

Elucubrando sobre o trecho da Bíblia e as interpretações dos espíritas, pode-se especular que os nossos messias tenham sido seres enviados de mundos mais evoluídos, com a missão de fazer prosperar a humanidade. E a população da Terra seja uma mistura de seres vindos de mundos em diversos estágios evolutivos: podemos ter por aqui desde bárbaros de planetas “primitivos” até os virtuosos dos planetas regenerados. Assim, Jesus Cristo poderia ter sido um ser vindo de um “planeta de regeneração” dos espíritas. A mando de um Pai, este talvez um ser iluminado de um mundo celestial inimaginavelmente evoluído. Nós humanos temos dificuldade de compreender racionalmente quem seja este Pai. Menos difícil é enxergar sua criação, o planeta em que vivemos e os incontáveis milagres que aqui testemunhamos, principalmente o milagre da vida. E ainda nem bem conhecemos nosso planeta e o potencial humano, mal suspeitamos dos milagres celestiais do universo, que ainda estão além da nossa ciência.

Quem seria o Espírito Santo dos católicos? Talvez auxiliares de Jesus, vindos do mesmo mundo que ele, seres que ainda não extinguiram de vez a vaidade e seus desdobramentos, mas que já a reconhecem e enfrentam-na com galhardia.

Que utilidade poderiam ter estas elucubrações? Talvez refletindo sobre nosso lugar no universo, ainda que sem nenhuma certeza, nos seja revelada a infantilidade dos desígnios desta nossa desorientada civilização, aficionada do consumismo, das fraudes e da guerra.