terça-feira, 22 de setembro de 2026

Civilização e cultura

 

Civilização e cultura referem-se ao conjunto de normas, valores, organizações, expressões artísticas, crenças, religiosidade, conhecimentos, perspectivas, esperanças, hábitos, tradições, espiritualidade, subjetividade, identidade que regem as sociedades. Em alguns idiomas, como no alemão, civilização e cultura (bildung e kultur) são duas palavras com sentido com diferença capital: civilização é a transformação, o movimento, o processo que modifica o indivíduo e a sociedade enquanto ela se adapta e evolui; cultura, talvez mais próxima de erudição, é a somas dos atributos de uma civilização num dado momento; é a cristalização, o retrato instantâneo da civilização.

Os dois conceitos são excludentes? Não! Um deles move o outro, como o diagrama chinês do Yin e Yang, onde as formas circulares interpenetram-se num harmônico dinamismo. Entretanto, a harmonia só se consuma no próprio dinamismo: a civilização engendra a cultura, a cultura, a erudição, traz em si o gérmen da transformação da civilização.

O equilíbrio harmônico entre civilização e cultura é crucial. O dinamismo descontrolado da civilização pode encaminhá-la para o colapso das convulsões tresloucadas, que destroem, e não constroem. A história é um exemplo de sucessão de civilizações extintas por não terem conseguido balancear a transformação social com o patrimônio cultural acumulado até um determinado momento. A cultura empodera, seus detentores são tentados a usá-la não para o progresso, a evolução do coletivo, mas para a dominação, para satisfazer pulsões de predomínio, posse, supremacia, competitividade e agressividade, instintos que nem civilização nem cultura conseguiram ainda domar no ser humano.

Cultura e civilização trouxeram-nos para esta época globalizada, digitalizada, superinformada e superequipada, trazemos no bolso a possibilidade de resposta para a grande maioria das perguntas sensatas que possamos formular. E para onde essa fantástica acumulação e disseminação de conhecimento está conduzindo nossa civilização? Será que não conseguiremos escapar de outro colapso?

Há quem diga que foi a falência das civilizações passadas que permitiu avançássemos até esta nossa surpreendente civilização atual. O colapso é a morte do velho, que precisa morrer para ser sucedido pelo novo. É isto que está acontecendo com nossa civilização? Em que a ciência constrói armas cada vez mais destrutivas, em que tudo – até a religião – vira mercadoria, a medicina transforma a saúde num comércio que torna reféns os pacientes, a exploração predatória ameaça o meio ambiente, a digitalização, a informação e a inteligência artificial são empregadas para a manipulação e o logro, as riquezas produzidas são acumuladas por poucos enquanto a maioria da população sofre carências, o acúmulo pessoal de cultura torna-se motivo de jactância e não de insumo para a evolução social, as indignações, os inconformismos, as polarizações ideológicas e o ódio só se exacerbam, a população e os países parecem voltar ao tempo da lei do mais forte que imperava nos primórdios da humanidade?

Nunca antes tivemos um nível cultural tão evoluído. Nunca soubemos tanto. Conhecimento acessível, mas talvez nunca tão pouco assimilado. Não aprendemos nem com os erros dos colapsos de civilizações passadas. Um destino inevitável? É mesmo o colapso do velho que abre caminho para o novo? Oxalá assim seja, se formos obrigados a viver o colapso da civilização atual. Entretanto, lembrando-nos do milenar diagrama chinês do Yin e do Yang, que sejamos capazes de enxergar que no âmago do clímax de um ciclo que finda germina a semente do ciclo seguinte.

Podemos reconhecer a proximidade do colapso antes que ele se concretize, e assim bem empregar a cultura para corrigir a dinâmica da civilização. Ou, pelo menos, para fortalecer o gérmen do novo. Algo que decerto podemos fazer com algum alcance social, e algo que também podemos – e devemos – fazer dentro de nós mesmos.

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