domingo, 22 de agosto de 2021

O Talibã do Brasil

 Publicado no Jornal da Manhã em 24/08/2021.

Nesta última semana, após a retirada das forças ocidentais do Afeganistão e da retomada do país pelo Talibã, viralizaram na web charges compelindo os antidemocratas do Brasil a se mudarem para o país asiático. Em geral, as charges dizem assim: “Você não quer um país misógino, homofóbico, sem urnas eletrônicas, sem direitos humanos, sem STF, sem congresso, armado até os dentes e tudo em nome de Deus? Então vá para o Afeganistão do Talibã.”

Como fazem as boas charges, estas dizem com humor e picardia o que é do domínio popular. O Afeganistão dominado pelo Talibã retrata bem o que seria o Brasil dominado pelos apoiadores do desgoverno que atordoa o país com bravatas diárias sobre impedimento de ministros do STF, calúnias sobre urnas e eleições, armamento dos mais ensandecidos, desqualificação das mulheres, dos jornais, dos adversários políticos, da democracia, apologia a torturadores e à chacina de opositores, negação da gravidade da pandemia e dos protocolos de como enfrentá-la... Tudo isso em nome de Deus e da pátria.

Mas há uma despercebida diferença entre o Talibã e os radicais brasileiros. Com toda sua injustificável barbárie, os extremistas afegãos são patriotas; acreditam que lutam pela liberdade e emancipação de seu país. Nem isso temos no Brasil. Aqui, nosso dirigente máximo bateu continência para a listrada e estrelada Old Glory, lambeu as botas do ensandecido estadunidense Trump, que incitou à invasão do Capitólio e quase iniciou uma guerra civil nos EUA. E tudo que se faz hoje no Brasil de política econômica e social é voltado para perpetuar nosso país como servil colônia, exportadora de matérias primas baratas e importadora de produtos industrializados valorizados. E sempre mantendo um vasto contingente de desempregados; para desencorajar as lutas, dos que ainda têm emprego, por melhores salários e condições de trabalho.

Ou seja, nossos ultrarradicais de direita têm todos os defeitos do Talibã, mas não têm o que talvez seja sua única virtude: o sonho de liberdade, de autonomia, de pátria emancipada dos grilhões dos impérios que não hesitam em fazer a guerra, corromper governos, eleger e armar tiranos, invadir, destruir e desorganizar países e depois abandoná-los à sua própria sorte. Foi assim na Líbia, no Iraque, no Afeganistão. Foi assim na Coréia, que acabou dividida. Não foi assim no Vietnã, que escorraçou os invasores. Tem se tentado assim contra o Irã, Cuba, Venezuela, que resistem, a duras penas. Com o Brasil tem sido fácil, não foi necessário um contingente militar nem bloqueio econômico. Bastou um juiz ímprobo e um governo marionete, eleito graças às fake news e a uma duvidosa facada.

Que acerto das charges que convidam os ultrarradicais brasileiros a se mudarem para o Afeganistão do Talibã! Lá encontrariam campo fértil para extravasar seu insano fanatismo. Mas talvez tivessem que aprender algo que lhes falta: o verdadeiro apreço pela pátria, soberana, livre das garras dos impérios que nos exploram desde que viemos a ser denominados Brasil.

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Bajulação

 

Bajular seria o mesmo que puxar o saco, jogar confete, inflar o ego, lamber as botas, alisar, “cumpadrar”, sorrabar, sabujar... São muitas traduções, algumas menos prosaicas: aliciar, subornar, subjugar, fazer demagogia, fazer proselitismo, praticar clientelismo... Estas traduções, mais cheias de ocultos interesses, também são muitas.

A bajulação tem variados propósitos: adoçar um superior almejando simpatia e benesses, distrair e desarmar um rival antes de dar-lhe uma rasteira, cooptar para o famoso “toma lá dá cá”, ou o “uma mão lava a outra”, ou ainda o “é dando que se recebe”, ou simplesmente fazer o bajulado sentir-se em dívida com o bajulador, a qual será cobrada no momento oportuno. A palavra bajulação traz embutida em seu significado a falsidade. A gentileza, o favor ou o elogio feito não é uma generosidade desinteressada nem um verdadeiro reconhecimento de atributos do bajulado, mas é uma estratégia calculada para superá-lo, submetê-lo ou cooptá-lo para causas que não seriam apoiadas por meios sinceros, transparentes.

A bajulação faz parte das difundidas estratégias do hipócrita convívio social que caracteriza a espécie humana. Animais em estado natural, crianças ou mesmo adultos que logram ser sinceros, não são dados a bajular. Emprega-se a bajulação com os superiores no trabalho, com os eleitores para conseguir votos, nas agremiações de qualquer natureza para conquistar apoiadores e alcançar posições de destaque, em qualquer grupo de pessoas para tentar ser mais aceito e evitar conflitos, perante autoridades para alcançar privilégios... Aqui também a lista seria infindável. Todos nós a conhecemos bem.

Os desdobramentos da bajulação têm consequências de muitas dimensões: podem eleger tiranos, psicopatas ou bandidos, podem perpetuar impérios colonialistas, podem cristalizar e absolver vícios sociais como a corrupção, o racismo, o machismo, todo tipo de segregação. Infelizmente, nossa sociedade é hipócrita, presta-se muito bem à bajulação. Uma frase capital, já repetida até em tirinhas de quadrinhos, diz: “A mentira desgasta relacionamentos; a verdade não, a verdade devasta”. É uma tradução de como somos falsos: sabemos conviver com a mentira, ainda que ela degenere os relacionamentos; mas a verdade, ela nos destrói.

E não somos só hipócritas, somos também ambiciosos e vaidosos. Que cena ontológica aquela do excelente thriller O advogado do diabo (EUA, 1997, direção de Taylor Hackford), quando o diabo, divinamente interpretado por Al Pacino, afirma: “Vaidade, meu pecado favorito.” E o diabo, fazendo uso da bajulação e manipulando a vaidade e a cobiça, vai fazendo diabruras ao longo do filme. As mesmas diabruras que vemos no mundo atual, quando assassinatos, massacres e genocídios passam impunes, países e povos são destroçados em nome da suposta caça a terroristas, destrói-se o delicado equilíbrio do ambiente que sustenta a vida na Terra em nome do lucro, poucos nababos locupletam-se às custas da pauperização de multidões.

Bajulação não é o mesmo que persuasão. A persuasão é veraz, transparente, um jogo de cartas abertas. Aos persuadidos de fazer suas escolhas, conscientes. A persuasão é a arma dos honestos. Na bajulação procura-se cooptar ocultando, sem declarar quais são as verdadeiras intenções. Ela é dirigida ao emocional, às sombras do ego, não à luz da razão. Mas para quem é bajulado, muitas vezes isso não faz diferença. Desde que o ego saia inflado, saciado. A bajulação é a arma dos pérfidos.

Caminhamos entre a bajulação e a persuasão. Que tenhamos siso!

sábado, 7 de agosto de 2021

Questão de fé

 

Certa vez, há muitos anos, conversava com um colega ateu sobre religião; ele me dizia que acreditar em Deus é uma questão de fé. Essa afirmação até hoje me faz refletir. No seu ceticismo, meu colega, alguém com boa formação teórica, estava tentando dizer-me que crer em Deus está no campo da irracionalidade, da crença sem evidências. Isto seria a fé. Ela não é racional. Mas desta opinião vêm as dúvidas que me fazem refletir: não há evidências de que exista algo tão excepcionalmente exato e harmonioso, além de nossa compreensão, que é o que poderíamos chamar de Deus? Ainda que nossa noção de Deus seja muito pessoal, talvez única, distante das concepções religiosas?

Estamos num frio invernal de temperaturas negativas; uma acha de lenha na lareira queima libertando o fogo que uma árvore armazenou, pacientemente, pouco a pouco acumulando a energia emanada pelo Sol. Na lareira de casa, reproduz-se um pequeno Sol, quente, luminoso, adormecido na madeira. E ele não só aquece e ilumina, também crepita vozes, o braseiro rubro e as chamas bruxuleantes arrebatam-nos o siso, hipnotizam, parecem transportar-nos para o turbilhão primordial incandescente que engendrou o existir de todas as coisas, e está imanente em tudo que se pode ver e tocar.

O fogo do Sol libertando-se na lareira parece-me um pequeno milagre, uma pequena manifestação de Deus. Mas a árvore que armazenou a energia do Sol, o planeta Terra que é povoado por árvores e animais, alimentados pela água, o ar, o solo fértil, os calculados arranjos astronômicos para que em nosso planeta sucedam-se perfeitamente a preamar e a baixa-mar que movem e renovam os oceanos, os dias e as noites, os verões e os invernos, os glaciais e os interglaciais, a atração da gravidade que nos apruma, a atmosfera que nos abraça e nos protege, todo esse emaranhado conspirando para gerar e fazer evoluir a vida, tudo isso não é um incrível milagre? De uma grandeza que escapa à compreensão e ao respeito dos humanos? Não enxergar que não é possível que tão calculados arranjos sejam casuais parece-me um negacionismo comparável a não aceitar que a Terra seja redonda. Negacionismo fruto de um desmesurado egocentrismo, ou antropocentrismo, ou androcentrismo.

Diante de tamanhas evidências de um poder organizador do Universo que nos acolhe, parece-me que acreditar em Deus não é uma questão de fé, mas é uma questão de humildade. É a soberba do ser humano, que engendra a cobiça, que faz que não enxerguemos o milagre da natureza e da vida. É a soberba que nos cega e nos faz devotos de igrejas que põem em guerras fratricidas seus seguidores, por discordarem de corrompidas concepções de Deus. É a soberba que faz que criaturas suponham-se superiores e degradem, explorem, escravizem outras criaturas e o ambiente que as nutre.

Vivemos um momento de alerta, com agudas crises, no meio ambiente, na ética, na política, na segurança, na saúde, na intolerância, no ódio, nas religiões, na espiritualidade, na pobreza das famílias e dos desamparados que não têm com quê se alimentar e viver com dignidade. Talvez a expressão mais contundente da crise seja a cegueira moral que acomete tantos da população mundial, que já não conseguem discernir entre verdade e embuste, necessidade e concupiscência, solidariedade e bajulação, líderes verdadeiros e tiranos ensandecidos, ilusão e esperança, seita e religião.

Tomara seja mesmo verdade a crença de que as crises são necessárias para a evolução. A crise atual que estamos vivendo estaria, assim, engendrando a humanidade evoluída, talvez liberta dos erros da cobiça, da soberba, da incredulidade, da desfaçatez.

Oxalá galguemos este degrau evolutivo; antes que a crise degenere num irreversível colapso.

domingo, 1 de agosto de 2021

Adeus à placidez da Placidina

 Postado no Portal ncg.news em 06/07/2021.


A Vila Placidina fica entre o centro de Ponta Grossa e a Vila Estrela; estão nela o Hospital da Criança, Chácara Margherita Masini, Polícia Federal, Regional de Saúde e UPA Santana. Muitas vezes ela é confundida com a Vila Estrela, que na verdade começa mais além. Ela já fez jus à placidez do nome, mas as mudanças chegaram.

Este incógnito bairro é cortado pela Rua Balduíno Taques, caminho para Curitiba, Palmeira e Vila Oficinas. Há 25 anos moramos em casa na Vila Placidina, a 30 metros da Balduíno. Quando a família aqui chegou, o silêncio reinava à noite, apesar da proximidade da via de saída da cidade. Era como se morássemos num bucólico vilarejo do interior. A calma do lugar nos animou a plantar árvores frutíferas no pequeno jardim em frente à casa. Nele, sabiás, sanhaços, bem-te-vis, guaxos, saís-azuis, às vezes até o tié-sangue, vêm bicar pitangas, acerolas e carambolas. Árvores generosas, amiúde carregadas. E pardais, canários, avoantes, chupins e rolinhas vêm também ciscar a quirera que lhes esparramamos. Tico-ticos desapareceram. Foram sumindo, ao mesmo tempo em que proliferaram os chupins. Decerto efeito das extremosas mães tico-tico, que, indulgentes, alimentam grandes filhotes de chupins. Logo os chupins não terão quem choque seus ovos. Um alerta aos humanos e seus parasitismos.

Na calçada na frente da casa, uma sibipiruna alterna épocas desfolhadas com verdes folhas jovens e floradas amarelas. Suas vagens se contorcem e rompem ao sol, arremessando as sementes. Projéteis que ricocheteiam ruidosos nas vidraças, anunciando a primavera. Outros pássaros frequentam a sibipiruna, mormente quando ela está florida: cambacicas, gaturamos, coleirinhos, beija-flores, saíras-preciosas. Isso tudo nos transporta a uma atmosfera campestre, a apenas mil metros da praça da matriz.

Mas a placidez da Vila Placidina não resistiu ao “progresso”. Carros e motos barulhentos, veículos policiais, ambulâncias e bombeiros com sirenes disparadas, vêm nos revelando que não estamos no vilarejo, mas sim na cidade que é agitado polo regional. E, nos últimos anos, uma novidade: alta madrugada, às vezes ouve-se o apito e o ronco dos motores a diesel de locomotivas. Com tanta nitidez que parece que estão correndo pela Balduíno. Por algum sobrenatural sortilégio, a diurna avenida viraria via férrea nas horas mais recônditas da noite?

Quando notamos os sons da ferrovia ao lado de casa no silêncio da madrugada, primeiro pensamos que fosse sonho ou ilusão. Não, não era! Seria assombração? Cheguei a sair para o quintal para perceber melhor de onde vinham aqueles desarrazoados ruídos. Eles eram bem reais, vinham mesmo da Balduíno. Mas por lá não passava nenhuma locomotiva a marcar com seus berros e sacolejos o trajeto percorrido. De onde vinham então aqueles estranhos sons?

Fantasiei que aparições de antigos trens deveriam estar assombrando o que antes fora a estrada de ferro que atravessava Ponta Grossa. Trens fantasmas! Teria sido esse o motivo do nome da torcida do time de futebol da cidade? Para compensar a fantasia, fui procurar nos mapas a ferrovia mais próxima. Ela está muito longe, lá para os lados do bairro da Nova Rússia. Viriam de lá os sons que ouvíamos no silêncio da noite?

Enfim reconhecemos que não eram só os sons da fantasmagórica ferrovia que tínhamos passado a escutar. Os raros veículos ruidosos que percorriam a Balduíno durante a noite também nos chegavam com uma intensidade que não conhecíamos. Será que antes eles não aconteciam? Ou algo na cidade estava fazendo que eles chegassem a nós com mais força?

Numa manhã de dia útil, ao sair de carro da garagem de casa, notamos mais um sinal das mudanças no bairro: a rua estava tão cheia de carros estacionados, que um descuidado motorista parou obstruindo parte da guia rebaixada em frente ao portão. Não chegava a impedir a saída, mas a dificultava muito. Distraidamente, pensei que era mais um efeito dos gigantes prédios de mais de 20 andares, recém-construídos bem no quarteirão do outro lado da Balduíno. Os carros eram de moradores ou de trabalhadores nos muitos apartamentos da urbe que cresce para o alto, enquanto o espaço no chão parece encolher.

De repente caiu a ficha: os prédios! Eram eles os responsáveis pelos sons noturnos! Não eram trens fantasmas! Decerto sobretudo em noites com ventos favoráveis, os sons da ferrovia, bem audíveis lá na distante Nova Rússia, são trazidos pelo ar até os enormes anteparos de concreto e vidro, e refletem-se na vizinhança como se de fato os trens estivessem ali.

E os colossais blocos de concreto não só nos trouxeram as locomotivas à Balduíno. Eles são imensos tapumes. Retalham o que antes era o nosso vasto azul do dia ou o borrão de estrelas das noites sem névoa. Roubam-nos o horizonte, o sol, o céu onde passeávamos nosso senso de vastidão. Um fenômeno de propagação e reflexão do som nos monólitos que brotam incontíveis e, ao mesmo tempo, de invasão da janela do firmamento por onde divagávamos nossas cismas.

O “progresso” vem confinando às lembranças o tempo da plácida Vila Placidina.

terça-feira, 13 de julho de 2021

Cuba resiste!

Texto de autoria de Frei Betto, extraído de https://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Pelo-Mundo/Cuba-resiste-/6/51055, onde foi publicado em 13/07/2021. Ocasionalmente postamos no Perrengas Princesinas textos considerados fundamentais, por seu conteúdo e pela pertinência frente à conjuntura.

Poucos ignoram minha solidariedade à Revolução Cubana. Há 40 anos visito com frequência a Ilha, em função de compromissos de trabalho e convites a eventos. Por longo período intermediei a retomada do diálogo entre bispos católicos e o governo de Cuba, conforme descrito em meus livros "Fidel e a religião" (Fontanar/Companhia das Letras) e "Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista" (Rocco). Atualmente, contratado pela FAO, assessoro o governo cubano na implementação do Plano de Soberania Alimentar e Educação Nutricional.


Conheço em detalhes o cotidiano cubano, inclusive as dificuldades enfrentadas pela população, os questionamentos à Revolução, as críticas de intelectuais e artistas do país. Visitei cárceres, conversei com opositores da Revolução, convivi com sacerdotes e leigos cubanos avessos ao socialismo.


Quando dizem a mim, um brasileiro, que em Cuba não há democracia, desço da abstração das palavras à realidade. Quantas fotos ou notícias foram ou são vistos sobre cubanos na miséria, mendigos espalhados nas calçadas, crianças abandonadas nas ruas, famílias debaixo de viadutos? Algo semelhante à cracolândia, às milícias, às longas filas de enfermos aguardando anos para serem atendidos num hospital?


Advirto os amigos: se você é rico no Brasil e for viver em Cuba conhecerá o inferno. Ficará impossibilitado de trocar de carro todo ano, comprar roupas de grife, viajar com frequência para férias no exterior. E, sobretudo, não poderá explorar o trabalho alheio, manter seus empregados na ignorância, "orgulhar-se" da Maria, sua cozinheira há 20 anos, e a quem você nega acesso à casa própria, à escolaridade e ao plano de saúde.


Se você é classe média, prepare-se para conhecer o purgatório. Embora Cuba já não seja uma sociedade estatizada, a burocracia perdura, há que ter paciência nas filas dos mercados, muitos produtos disponíveis neste mês podem não ser encontrados no próximo devido às inconstâncias das importações.


Se você, porém, é assalariado, pobre, sem-teto ou sem-terra, prepare-se para conhecer o paraíso. A Revolução assegurará seus três direitos humanos fundamentais: alimentação, saúde e educação, além de moradia e trabalho. Pode ser que você tenha muito apetite por não comer o que gosta, mas jamais terá fome. Sua família terá escolaridade e assistência de saúde, incluindo cirurgias complexas, totalmente gratuitas, como dever do Estado e direito do cidadão.


Nada é mais prostituído do que a linguagem. A celebrada democracia nascida na Grécia tem seus méritos, mas é bom lembrar que, na época, Atenas tinha 20 mil habitantes que viviam do trabalho de 400 mil escravos... O que responderia um desses milhares de servos se indagado sobre as virtudes da democracia?


Não desejo ao futuro de Cuba o presente do Brasil, da Guatemala, de Honduras e ou mesmo de Porto Rico, colônia estadunidense, à qual é negada independência. Nem desejo que Cuba invada os EUA e ocupe uma área litorânea da Califórnia, como ocorre com Guantánamo, transformada em centro de torturas e cárcere ilegal de supostos terroristas.


Democracia, no meu conceito, significa o "Pai nosso" - a autoridade legitimada pela vontade popular -, e o "pão nosso" - a partilha dos frutos da natureza e do trabalho humano. A rotatividade eleitoral não faz, nem assegura uma democracia. O Brasil e a Índia, tidas como democracias, são exemplos gritantes de miséria, pobreza, exclusão, opressão e sofrimento.


Só quem conhece a realidade de Cuba anterior a 1959 sabe por que Fidel contou com tanto apoio popular para levar a Revolução à vitória. O país era conhecido pela alcunha de "prostíbulo do Caribe". A máfia dominava os bancos e o turismo (há vários filmes sobre isso). O principal bairro de Havana, ainda hoje chamado de Vedado, tem esse nome porque, ali, os negros não podiam circular...


Os EUA nunca se conformaram por ter perdido Cuba sujeita às suas ambições. Por isso, logo após a vitória dos guerrilheiros de Sierra Maestra, tentaram invadir a Ilha com tropas mercenárias. Foram derrotados em abril de 1961. No ano seguinte, o presidente Kennedy decretou o bloqueio a Cuba, que perdura até hoje.


Cuba é uma ilha com poucos recursos. É obrigada a importar mais de 60% dos produtos essenciais ao país. Com o arrocho do bloqueio promovido por Trump (243 novas medidas e, até agora, não removidas por Biden), e a pandemia, que zerou uma das principais fontes de recursos do país, o turismo, a situação interna se agravou. Os cubanos tiveram que apertar os cintos. Então, os insatisfeitos com a Revolução, que gravitam na órbita do "sonho americano", promoveram os protestos do domingo, 11 de julho – com a "solidária" ajuda da CIA, cujo chefe acaba de fazer um giro pelo Continente, preocupado com o resultado das eleições no Peru e no Chile.


Quem melhor pode explicar a atual conjuntura de Cuba é seu presidente, Diaz-Canel: "Começou a perseguição financeira, econômica, comercial e energética. Eles (a Casa Branca) querem que se provoque um surto social interno em Cuba para convocar "missões humanitárias" que se traduzem em invasões e interferências militares."


"Temos sido honestos, temos sido transparentes, temos sido claros e, a cada momento, explicamos ao nosso povo as complexidades dos dias atuais. Lembro que há mais de um ano e meio, quando começou o segundo semestre de 2019, tivemos que explicar que estávamos em situação difícil. Os EUA começaram a intensificar uma série de medidas restritivas, endurecimento do bloqueio, perseguições financeiras contra o setor energético, com o objetivo de sufocar nossa economia. Isso provocaria a desejada eclosão social massiva, para poder apelar à intervenção "humanitária", que terminaria em intervenções militares".


"Essa situação continuou, depois vieram as 243 medidas (de Trump, para arrochar o bloqueio) que todos conhecemos e, finalmente, decidiu-se incluir Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo. Todas essas restrições levaram o país a cortar imediatamente várias fontes de receita em divisas, como o turismo, as viagens de cubano-americanos ao nosso país e as remessas de dinheiro. Formou-se um plano para desacreditar as brigadas médicas cubanas e as colaborações solidárias de Cuba, que recebeu uma parte importante de divisas por essa colaboração."


"Toda essa situação gerou uma situação de escassez no país, principalmente de alimentos, medicamentos, matérias-primas e insumos para podermos desenvolver nossos processos econômicos e produtivos que, ao mesmo tempo, contribuam para as exportações. Dois elementos importantes são eliminados: a capacidade de exportar e a capacidade de investir recursos."


"Também temos limitações de combustíveis e peças sobressalentes, e tudo isso tem causado um nível de insatisfação, somado a problemas acumulados que temos sido capazes de resolver e que vieram do Período Especial (1990-1995, quando desabou a União Soviética, com grave reflexo na economia cubana). Juntamente com uma feroz campanha mediática de descrédito, como parte da guerra não convencional, que tenta fraturar a unidade entre o partido, o Estado e o povo; e pretende qualificar o governo como insuficiente e incapaz de proporcionar bem-estar ao povo cubano."


"O exemplo da Revolução Cubana incomodou muito os EUA durante 60 anos. Eles aplicaram um bloqueio injusto, criminoso e cruel, agora intensificado na pandemia. Bloqueio e ações restritivas que nunca realizaram contra nenhum outro país, nem contra aqueles que consideram seus principais inimigos. Portanto, tem sido uma política perversa contra uma pequena ilha que apenas aspira a defender sua independência, sua soberania e construir a sua sociedade com autodeterminação, segundo princípios que mais de 86% da população têm apoiado."


"Em meio a essas condições, surge a pandemia, uma pandemia que afetou não apenas Cuba, mas o mundo inteiro, inclusive os Estados Unidos. Afetou países ricos, e é preciso dizer que diante dessa pandemia nem os Estados Unidos, nem esses países ricos tiveram toda a capacidade de enfrentar seus efeitos. Os pobres foram prejudicados, porque não existem políticas públicas dirigidas ao povo, e há indicadores em relação ao enfrentamento da pandemia com resultados piores que os de Cuba em muitos casos. As taxas de infecção e mortalidade por milhão de habitantes são notavelmente mais altas nos EUA que em Cuba (os EUA registraram 1.724 mortes por milhão, enquanto Cuba está em 47 mortes por milhão). Enquanto os EUA se entrincheiravam no nacionalismo vacinal, a Brigada Henry Reeve, de médicos cubanos, continuou seu trabalho entre os povos mais pobres do mundo (por isso, é claro, merece o Prêmio Nobel da Paz)."


"Sem a possibilidade de invadir Cuba com êxito, os EUA persistem com um bloqueio rígido. Após a queda da URSS, que proporcionou à ilha meios de contornar o bloqueio, os EUA tentaram aumentar seu controle sobre o país caribenho. De 1992 em diante, a Assembleia Geral da ONU votou esmagadoramente pelo fim desse bloqueio. O governo cubano informou que entre abril de 2019 e março de 2020 Cuba perdeu 5 bilhões de dólares em comércio potencial devido ao bloqueio; nas últimas quase seis décadas, perdeu o equivalente a 144 bilhões de dólares. Agora, o governo estadunidense aprofundou as sanções contra as companhias de navegação que trazem petróleo para a ilha."


É essa fragilidade que abre um flanco para as manifestações de descontentamento, sem que o governo tenha colocado tanques e tropas nas ruas. A resiliência do povo cubano, nutrida por exemplos como Martí, Che Guevara e Fidel, tem se demonstrado invencível. E a ela devemos, todos nós, que lutamos por um mundo mais justo, prestar solidariedade.


Frei Betto é escritor (freibetto.org). Assine e receba todos os artigos e livros do autor: mhgpal@gmail.com

quarta-feira, 7 de julho de 2021

A árvore insurgente

 

Tarde de sábado de início de inverno. Faz frio! O país mergulhado numa torrente de denúncias afrontosas, a pandemia ainda nos confinando e nos assustando. Do balanço destas circunstâncias, a complicada convocação: participar de uma manifestação pública, de repúdio a tudo que tem sido apontado como causa de sermos os campeões mundiais de ignorância, de humilhação e de premeditada negligência com a pandemia. Um calculado genocídio, regado a assíduas bravatas.

Ponderados prós e contras, apesar de Ponta Grossa ser sabidamente a cidade da oligarquia provinciana, conservadora, herdeira das sesmarias e saudosa da escravatura e da monarquia, lá fui eu para o ato público. Ciente da dificuldade de por aqui se conseguir reunir vozes progressistas à altura do que o momento clama. Talvez mais desejoso de saber que, embora poucos, ainda existem camaradas, do que de engrossar com minha presença o protesto. Como se esperava, mal compareceu o número de inconformados suficiente para conseguir preencher, com o devido distanciamento dos protocolos de saúde, dois quarteirões da avenida que é o centro nervoso da cidade, a Vicente Machado. Esses resistentes, após falas de incentivo e de desagravo dos representantes de entidades e de alguns demagogos que sempre comparecem às multidões, partiram em marcha, desde a Igreja dos Polacos e ao longo da Vicente Machado, rumo ao Terminal Central. O inconformismo tinha que ser exibido, a população da cidade tinha que saber que, embora minoria, em Ponta Grossa também existe gente que pensa como os milhões que, no mesmo instante, manifestavam-se em outras cidades do país.

A marcha pela Vicente Machado foi de uma surpreendente organização. Ciclistas e militantes pedestres, estes sustentando largas faixas contestadoras, interrompiam o tráfego das transversais enquanto a pequena multidão, umas poucas centenas de abnegados, avançava lentamente, em quatro filas indianas, espaçadas de dois metros. Em cada fila também se mantinha o afastamento preconizado pelos protocolos de saúde. Todos, sem exceção, com máscaras, as mãos higienizadas com o álcool que era oferecido por voluntários e voluntárias que circulavam entre os caminhantes. Alto-falantes instalados em dois veículos, um à frente e outro ao final da marcha, iam entoando orientações e palavras de ordem que ecoavam nos gritos dos entusiasmados manifestantes. Nas calçadas e nas janelas, funcionários das lojas e moradores vinham curiosos observar aquele barulhento bando de rebeldes que ousavam atrapalhar o trânsito e subverter o que era para ser uma distraída tarde de sábado.

De repente percebi que caminhava pelo asfalto da Vicente Machado! Um percurso usualmente interditado aos pedestres, facultado somente aos veículos. Foi preciso um desgoverno para permitir-me vivenciar uma experiência não autorizada a um ser humano, num território da cidade destinado somente às máquinas. Debaixo de meus pés via o asfalto negro, faixas de tinta da sinalização de tráfego e, ocasionalmente, grades metálicas, lustrosas pelo atrito com os pneus, colocadas sobre trincheiras de acesso ao labirinto de dutos e cabos, oculto nos subterrâneos da cidade que está ao alcance de nossos olhos.

Numa dessas grades metálicas, uma surpresa: entre as prateadas barras de ferro, brilhosas do atrito da borracha galvanizada, enxerguei o verde das folhas de galhos de uma árvore. Sim, uma árvore, viva! Que pude identificar a custo, crescida no fundo da trincheira pelo milagre da perseverança de uma semente que engendrou onde germinar e prosperar, num lugar supostamente destinado apenas ao concreto e ao asfalto. Uma árvore lutadora. Sim, pois se ela não logrou alcançar seu lugar ao sol, batalha sem cessar para isso, e contagia com seu exemplo de resiliência e perseverança os privilegiados que chegam a percebê-la, como eu. Ela logrou crescer os dois metros de altura da trincheira onde vingou. A grade no alto de sua sufocada fronde e o rolar dos pneus amputam-lhe as tentativas de crescimento para acima do subsolo. O dossel daquela prisioneira é diuturnamente aparado por uma superfície plana, que é a superfície onde rolam os carros e ônibus. Ela vê o sol e cresce alguns milímetros, para logo ser de novo esmagada e ceifada pelo trânsito, que sequer sabe de sua confinada e reprimida existência.

Não pude deixar de enxergar no verde das folhas daquela árvore o verde da bandeira do Brasil. Aquela marcha de protesto que me revelava a existência daquela sobrevivente enclausurada sob a grade, ofertava-me também a metáfora de nosso país: germinado na aridez do colonialismo extrativista, do massacre dos nativos e da escravidão, e amputado no seu sonho de liberdade, soberania e prosperidade pelo perverso jugo das potências do norte, que se sucedem na voraz exploração do planeta.

Fiquei com a impressão que ali, fincada imóvel abaixo da grade de ferro e da superfície do asfalto, no subterrâneo da Vicente Machado, a marcha de contestação tinha uma adepta cativa, que nunca pudéramos antes suspeitar.

sábado, 3 de julho de 2021

Negacionismo e negacionistas

 

Negacionismo seria a negação daquilo que já é aceito como verdade pela maioria das pessoas, sejam cientistas ou não. Exemplos: a Terra é plana, o aquecimento global não existe ou é natural e não causado pelos humanos, as vacinas não servem para nada, o coronavírus não existe, o “kit-Covid” é eficaz contra o vírus. Há outros negacionismos menos evidentes. Um exemplo: a escandalosa acumulação desigual de riqueza e exploração do ser humano pelo ser humano não traz sequelas igualmente escandalosas, para o planeta e para toda a humanidade, inclusive os que aparentemente são os beneficiados primeiros deste escândalo.

O negacionismo muitas vezes tem uma razão bem objetiva: uma estratégia para confundir oponentes, para negar a própria irresponsabilidade ou incapacidade de lidar com crises, desastres climáticos e sanitários, para ter privilégios num conflito de interesses, são alguns exemplos. Nestes casos, a suposta vantagem individual concreta ─ a projeção política, o ganho monetário, a isenção de culpa ─, move o negacionismo. Mas talvez a maioria dos negacionistas abrace negacionismos sem uma razão objetiva.

Quantas pessoas tiram proveito real da obstinada crença do terraplanismo? Algumas tiram sim! O documentário A Terra é plana (direção de Daniel J. Clark, 2019) mostra quem são os líderes do movimento Terra Plana nos EUA (Flat Earth Society). São egocêntricos narcisistas que encontraram no tema um mote que os mantém em histriônica evidência perante um exército de seguidores, justifica concorridos eventos e a comercialização de muitos produtos pelos embevecidos aficionados. Esta é a banda venal dos grupos de negacionistas: são os oportunistas que tiram proveito financeiro e midiático das negações e de seus deslumbrados admiradores, os quais parecem procurar preencher existências vazias com o enganador propósito da militância a favor de crenças que contam com aguerridos defensores e opositores.

O negacionista só escuta a si mesmo. Suas conversas não são diálogos: são grotescos e agressivos monólogos. São pessoas tão herméticas que se tornam incapazes de aprender algo novo. E assim revoltam-se com o conhecimento, a ciência, a educação, as artes, os cientistas, os educadores, os artistas.

O mais lamentável do negacionismo e do negacionista é que talvez todos nós sejamos pelo menos um pouco negacionistas, praticantes em algum nível de algum tipo de negacionismo. Como tantos distúrbios que afetam o comportamento do ser humano, ser considerado negacionista ou não é uma questão de grau; e separar graus para dizer quem é ou não de fato um negacionista é de uma artificialidade que não se pode disfarçar. Mas, como em toda patologia, há os casos recuperáveis e os incuráveis.

O negacionismo e o negacionista representam bem certos atributos marcantes sempre presentes no ser humano: dominado pelo ego, vaidoso, teimoso, acomodado, desconhecedor da realidade, ambicioso, truculento. Todos temos estas qualidades em nós, em intensidades variáveis. Se quisermos fazer jus à autodenominação de animais racionais, temos que, em alguma medida, confrontar estas qualidades primitivas com outras mais evoluídas. Conhecer nossa própria natureza e imperfeições, compreender o mundo que nos cerca, ter humildade e honestidade para reconhecer erros e desconhecimentos, ter desprendimento para aprender e mudar, interagir com o outro e com a natureza, trocando aprendizados. Enfim, prosperar em humanidade.

O negacionista não passa de um egocêntrico doentio. Será que conseguiremos transformar tal egocêntrico num indivíduo capaz de aceitar, e eventualmente de mudar?