domingo, 15 de dezembro de 2024

Distopia: ficção ou realidade?

 Publicado no Jornal da Manhã em 17/12/2024

Distopia é algo como o contrário de utopia. Utopia seria um lugar (topos) melhor que este onde estamos vivendo. Não uma quimera irrealizável, como alguns teimam em tentar estigmatizar o sentido da palavra. Utopia é um sonho alcançável, cuja primeira exigência para ser realizado é ser sonhado. Depois vêm outras exigências: planejamento, estratégia, resiliência, perseverança... Há quem diga que “um sonho bem sonhado é meio caminho andado”.

Distopia seria então um lugar ainda pior que este que estamos vivendo. Muito se argumenta e se alerta que nossa civilização atual, com seus desatinos, está celeremente caminhando para uma distopia. Um paradoxo, visto que nunca conseguimos amealhar e compartilhar tanto conhecimento e tecnologias que, em princípio, deveriam melhorar a vida. Mas parece mesmo que evoluímos muito tecnologicamente, e regredimos ética e espiritualmente. As potenciais maravilhas que inventamos parecem mais capazes de destruir-nos ou alucinar-nos – e igualmente destruir-nos – inapelavelmente.

Se considerarmos os mais ou menos 200 mil anos de existência do Homo sapiens, somos ainda muito jovens, comparados com os primeiros vertebrados, que existem há mais de 400 milhões de anos. Temos ainda o cérebro reptiliano preponderante, que é regido pelos instintos da agressividade, do poder e da sexualidade. Impulsos essenciais para a sobrevivência, ela que foi a principal preocupação de nossos ancestrais humanos a até cerca de 10 mil anos atrás. O cérebro límbico (zelo com a prole e o bando), o neocórtex (raciocínio lógico) e o suposto e incipiente cérebro hipofisário (ética, solidariedade e espiritualidade) ainda são submissos ao cérebro reptiliano e seus instintos de preservação da espécie.

É pelo fato de ainda agirmos muito como répteis - os nossos longínquos ancestrais - que parece muito factível imaginar distopias marcadas por injustiças, desigualdades extremas, guerras, miséria, pandemias, crises ambientais, segregacionismo, enlouquecimento e destruição da humanidade e até do planeta. As crises atuais que vivemos já fazem acreditar nisso. Ainda são crises, não chegamos – queremos crer – ao ponto do colapso sem retorno, sem salvação. Inúmeros livros, filmes, séries, que ainda classificamos como “ficção científica”, retratam tais distopias: Admirável mundo novo, 1984, Blade Runner, Matrix, Ensaio sobre a cegueira, Laranja mecânica, Idiocracia, Eu sou a lenda, WALL-E, Elysium, Interestelar, Mad Max são só alguns poucos de uma longa lista de títulos.

Estaria a imaginação criativa da humanidade antevendo as possibilidades do futuro distópico que estamos construindo? Arsenais nucleares, guerras de extermínio, aquecimento global, endeusamento do mercado e do dinheiro, alastramento da desinformação, rendição à inteligência artificial, pandemias, séculos de um sistema econômico que cultiva o egocentrismo, a competição, a exploração, a concentração da riqueza, a disseminação da pobreza e o hiperconsumismo não são já evidências suficientes para mostrar-nos que estamos a caminho das imaginadas – ou seria melhor denominá-las premonitórias – distopias?

A humanidade encontra-se diante de um dilema crucial, e as distopias que a ficção nos apresenta parecem querer alertar-nos: ou aprendemos com os muitos erros que temos cometido, ou logo a barbárie das distopias tornar-se-á realidade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

A extrema-direita no divã

 Publicado no Jornal da Manhã em 07/12/2024.

A extrema-direita que prospera no mundo atual, seja qual for o rótulo que lhe coloquemos – fascismo, neonazismo, totalitarismo, trumpismo, bolsonarismo –, precisa ser analisada por olhos que vão além da política e da economia. A extrema-direita é um fenômeno social complexo: cultural, ético, educacional, ideológico, religioso... Enfim, psicológico.

A extrema-direita é armamentista, negacionista, segregacionista, narcisista... Muitos outros adjetivos poderiam ser-lhe atribuídos, mas estes bastam para uma reflexão inicial. O entendimento psicanalítico do narcisismo dá boa ideia do que seja a extrema-direita: o narcisista não é só apaixonado pela própria imagem no espelho, mas odeia, e precisa subjugar – ou destruir – o diferente. A extrema-direita não sabe o significado da palavra empatia, muito menos das palavras solidariedade e compaixão.

A crescente organização da extrema-direita no mundo é financiada por bilionários que já não sabem o que fazer com tanto dinheiro que amealham. Muitos de seus seguidores pensam que se trata de gênios empreendedores, meritosos do sucesso financeiro. Outros pensam que toda sua riqueza provém da falta de ética e de limites com que exploram a humanidade. Sua principal qualidade, mais do que a engenhosidade e a ambição desmesurada, é a falta de escrúpulos. São extremados narcisistas.

A extrema-direita talvez seja mesmo o fruto de séculos de capitalismo, esse sistema econômico que incentiva a competição, a concentração de riqueza, a disseminação da pobreza, o consumismo insano. Não podia resultar outra coisa que não fosse a revolta de uma grande parcela da população, aquela mais desejosa das supostas benesses do capitalismo. Sentindo-se lograda por nunca alcançar as regalias prometidas, rebela-se; não contra os astuciosos exploradores, mas contra os explorados como ela.

O equívoco no discernimento de quem seja o responsável pela crise humanitária que vivemos é fruto de um sofisticado controle da população. A grande mídia, que domina a veiculação das notícias e influencia a cultura e a educação, é toda ela uma ferramenta a serviço dos patronos da extrema-direita. Na verdade, ela é o braço hipnótico que alucina a opinião pública. Esse braço pertence à extrema direita. Ele manipula, distorce, inventa, mente, distrai, deturpa, oculta, insufla amor ou ódio. Explora a crendice e a desatenção humana para instilar os vírus da cizânia, que mantêm a maior parte da população ocupada com conflitos fratricidas. Enquanto os multimilionários prosseguem impunes, alimentando sua insaciável ânsia de riqueza e de poder.

A crendice humana talvez nunca tenha sido tão lograda quanto nestes nossos tempos atuais, dotados da sofisticação da mídia e das redes sociais. A fé nos messias que ensinaram a ética, a solidariedade, o amor, a retidão de caráter, deu lugar ao culto ao dinheiro e ao poder, a fé na prosperidade e na dominação. Que inacreditável incompreensão e distorção!

A causa fundamental do mundo em crise que vivemos – do qual a extrema-direita é só uma de muitas patologias – talvez não seja o capitalismo, a religião, a mídia, a educação. Talvez seja o traço narcisista da natureza humana. Ele é quem tem criado tudo o mais. É preciso com urgência reconhecê-lo e tratá-lo, cultivando o lado solidário que existe dentro de nós.

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Conferência Municipal do Meio Ambiente de Ponta Grossa

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/11/2024.

Ponta Grossa realiza, nos dias 21 e 22 deste mês, a 5ª Conferência Municipal do Meio Ambiente, nas dependências da UTFPR-PG. Tendo sido professor de Meio Ambiente e Sustentabilidade na UEPG por 15 anos, venho antecipar alguns temas que creio essenciais e que devem ser tratados no evento. São temas com relevância local, mas que estão estreitamente relacionados com os temas globais conectados com a emergência climática e suas consequências.

O primeiro tema é a questão dos recursos hídricos. Os mananciais superficiais dependem das chuvas, estas cada vez mais imprevisíveis. A água é mundialmente considerada o “ouro azul” do século XXI, crises hídricas serão inevitáveis. É necessário que o município gestione com firmeza a proteção de  seus mananciais, tanto as bacias hidrográficas – os mananciais superficiais – quanto as áreas de recarga do Aquífero Furnas – os mananciais subterrâneos –. As áreas de recarga do aquífero são as áreas de afloramento do Arenito Furnas, na parte leste do município. No caso, o que define a extensão da área a ser protegida é a área de ocorrência da unidade geológica, que ultrapassa o limite da bacia hidrográfica.

O segundo tema, é a proteção e efetiva implantação das unidades de conservação dentro do município. Destacam-se o Parque Nacional dos Campos Gerais, a APA – Área de Proteção Ambiental – da Escarpa Devoniana e o Parque Estadual de Vila Velha. Só não defende as UC’s quem é movido pela cupidez do lucro rápido e pela desfaçatez ambiental. É a ignorância de ainda não ter compreendido os vitais serviços ambientais prestados pelas UC’s: equilíbrio da biodiversidade e controle de pragas e polinizadores; regularização do ciclo hidrológico e preservação dos mananciais hídricos; consequente preservação da qualidade e produtividade dos solos agrícolas; retenção do carbono do solo e da biomassa, redução das emissões de gases estufa e equilíbrio do clima; proteção de patrimônio natural único para pesquisas científicas, educação e lazer junto à natureza. No caso de Ponta Grossa, a proteção das UC’s tem estreita relação com a proteção dos mananciais hídricos, tanto os superficiais quanto os subterrâneos. Um cuidado capital é que não se confundam unidades de conservação com destinos turísticos desregrados. A função ambiental, científica e educacional deve ser sempre prioritária em relação à função turismo e lazer.

O terceiro tema tem a ver com os arroios urbanos. Urge saneá-los. Ponta Grossa tem um sítio urbano peculiar: o centro e os principais eixos radiais da cidade situam-se em áreas elevadas. Deles diverge uma rede hidrográfica com vários arroios: Grande, Pilão de Pedra, Cará-Cará, Olarias, Ronda, Gertrudes – afluentes dos rios Verde, Pitangui e Tibagi. Esta particularidade coloca várias questões: altos bem urbanizados distando poucas dezenas de metros de encostas e fundos de vale caóticos; várias estações de tratamento de esgotos, uma para cada arroio. Ademais, a cidade é antiga: a captação de esgotos amiúde é feita indevidamente na rede pluvial, que os despeja diretamente na rede de drenagem. Por esse motivo os arroios da cidade ainda são poluídos, embora se alegue que ela seja uma das mais bem saneadas do país. É necessário um minucioso trabalho de verificação da destinação correta dos esgotos.

Que a 5ª Conferência Municipal do Meio Ambiente logre lançar as sementes de um futuro ambiental sadio para a cidade.

domingo, 10 de novembro de 2024

Envelhecimento: madurez ou azedume?

 

Dizem que o vinho quanto mais velho melhor. Será? Não é bem assim. O vinho de boa qualidade pode ser. O de má qualidade, azeda, vira vinagre. Mesmo o de boa qualidade, o envelhecimento tem que ser acertado: sem mudanças de temperatura, sem luz, sem sacolejos, sem trocas de fluidos através da rolha. E ainda, na hora de degustar, depois de desarrolhar, aguardar o tempo certo necessário para uma decantação ideal.

Dizem também que a amizade é como o vinho. Então valem para a amizade as mesmas ressalvas que valem para o vinho. E dizem também que o envelhecimento das pessoas é como o do vinho: traz a maturidade, a emancipação do ser humano, que com o passar dos anos livra-se de muitas das opressoras e hipócritas convenções de nossa sociedade. Ah, aqui não se têm dúvidas: se a velhice humana é comparável ao envelhecimento do vinho, pelos resultados – velhos ora sábios, ora amargurados ranzinzas, ora soberbos, ora alienados – deduzimos que por certo há os de boa e os de má cepa, há os que não tiveram o envelhecer – o decorrer da vida – que propiciasse um amadurecimento adequado.

Gosto de compartilhar um exemplo marcante da Geologia para exemplificar a velhice tão cheia de ranços e presunções, que nada se pode atribuir-lhe de sábia. A teoria geológica mais aceita até meados do século XX era a “teoria geossinclinal”, que vinha sendo aperfeiçoada há mais de cem anos. Ela explicava a ocorrência de fósseis marinhos no alto das grandes cadeias montanhosas admitindo movimentos verticais da superfície terrestre: ora depressões invadidas por mares, seguidas de soerguimentos formando as cadeias de montanhas. Essa teoria prevaleceu até depois da segunda guerra mundial. Cursei a graduação em Geologia na USP de 1971 a 1975, e boa parte de meus professores ainda era adepta da teoria geossinclinal.

Mas desde 1915, um jovem geocientista alemão, Alfred Wegener, então com 35 anos de idade, já publicava artigos e defendia em encontros científicos uma hipótese alternativa à teoria geossinclinal: a “teoria da deriva continental”. Baseado em vários argumentos – nítido ajuste de continentes, tal como entre África e América do Sul, semelhanças dos fósseis, rochas, estruturas geológicas e evidências paleoclimáticas em continentes hoje afastados – Wegener advogou que no passado as terras emersas estavam unidas num único grande continente, a Pangeia. Assim, ao contrário da teoria geossinclinal, a deriva continental falava em movimentos horizontais da crosta terrestre. Mas o jovem geocientista não soube explicar o mecanismo que causaria a desagregação da Pangeia e a deriva de seus fragmentos, as placas tectônicas. Os velhos e catedráticos doutores, que se presumiam os donos da verdade sobre a dinâmica terrestre, condenaram a brilhante teoria de Wegener à ridicularização. Mas, passadas algumas décadas, com as evoluções tecnológicas devidas às duas guerras mundiais, o mapeamento do fundo dos mares e o desenvolvimento das técnicas de datação radiométrica das rochas, as ideias do jovem cientista foram finalmente sendo aceitas.

Atualmente é graças à tectônica de placas que se orientam as prospecções de recursos minerais e energéticos, e se faz a gestão de desastres naturais de natureza geológica. As modelagens apoiadas na teoria são fundamentais. Entretanto, talvez mais que a evolução da ciência, a deriva continental e a moderna tectônica de placas tenham tido que aguardar a morte de uma presunçosa e velha geração de geocientistas, que se considerou ofendida com a revolucionária teoria de Wegener.

Aqueles velhos geocientistas não tinham amadurecido como um bom vinho. Retardaram por meio século a evolução das Geociências.

sábado, 2 de novembro de 2024

O chupim do nosso jardim

 

Nosso jardim da casa na Vila Placidina, em Ponta Grossa, embora pequeno, é um santuário de pássaros. Uma pitangueira, uma caramboleira, uma aceroleira, um pote com água fresca, duas garrafinhas com água adocicada, um prato com alpiste e painço, um comedouro com mamão e bananas, quirera esparramada no chão, os insetos e vermes da terra, vasculhada pelas aves, dão conta de fazer aquele reduzido espaço, perto do centro da cidade, sempre muito cheio de vida. São sanhaços, sanhaços-papa-laranja, sabiás-laranjeira, sabiás-do-campo, sabiás-poca, bem-te-vis, cambacicas, saís-azuis, colibris, avoantes, canários-da-terra, rolinhas, chupins, joões-de-barro, corruíras. Mais raramente guaxos, tiés-sangue, saíras-preciosas e, estranhamente, pardais e tico-ticos; estes dois últimos antes eram comuns, mas passaram a quase não mais serem vistos. Nestes últimos dias, para nossa surpresa, apareceram pela primeira vez um jacuguaçu e uma saracura-do-mato. Pareceu-nos que a natureza anda mesmo desorientada.

É um rico divertimento ficar observando os pássaros, aprendendo seus hábitos e comportamentos. Constata-se que há os que são pacíficos, há os briguentos, há os tímidos. Todos têm preferências alimentares bem definidas. No comedouro de frutas, uma rígida hierarquia: os sabiás-do-campo têm prioridade, e costumam comer em família, até quatro indivíduos; depois vêm, na ordem, os sabiás-laranjeira, os sanhaços e, no final, o tranquilo bem-te-vi, que costuma tolerar os sanhaços enquanto bica as bananas. Sabiás-laranjeira e bem-te-vis sempre vêm sozinhos – salvo quando vem junto um filhote –. Os sanhaços aparecem em até sete indivíduos ao mesmo tempo, quando ruidosas balbúrdias chegam a jogar no chão as frutas do prato. As avoantes e os chupins chegam aos bandos para ciscar a quirera no chão, os canários-da-terra vêm quase sempre aos casais, no prato de alpiste e painço, e também na quirera.

Não sei por qual razão destes tempos desarrazoados, os antes predominantes pardais e tico-ticos têm desaparecido. Uma pardaloca às vezes vem bicar as frutas do comedouro, junto com os sanhaços. Mas o que nos chamou a atenção no início deste ano foi uma extremosa mãe tico-tico, alimentando um filhote de chupim já bem maior que ela. Aparentemente embaraçada em sua transvertida tarefa, ela ora conduzia o filhotão às frutas, ora à quirera no chão, ora ao prato com alpiste e painço. E ele, chiando de protesto, seguia-a obsessivo, abrindo um bico enorme, onde cabia toda a cabeça da mãe adotiva. Uma visão bizarra, às vezes até revoltante. A natureza não se cansa de nos surpreender com suas traquinagens.

Talvez por ser a preferência alimentar dos tico-ticos, era mais comum ver mãe e filhotão no prato de alpiste e painço. Mas, justamente para evitar que os pássaros maiores, tais como as avoantes, rolinhas e os chupins, acabassem com os grãos destinados prioritariamente aos pequenos canários-da-terra, protegi o prato com uma tela de arame com duas aberturas pequenas, que só deixam passar os pássaros menores: não só os canários, mas também os pardais e os tico-ticos. Um graveto fora da tela, junto às aberturas, serve de poleiro para os pássaros. Então, a mãe tico-tico entrava pela abertura, enquanto o filhotão aguardava chiando, protestando, abaixado, tremulando as asas, bico aberto, empoleirado no graveto. A mãe pacientemente entrava e saía pela abertura, levava os grãos do prato para o bico do birrento chupim.

Passados meses, os chupins continuam frequentando a quirera esparramada no chão. No início, só um chupim adulto – que creio ser uma fêmea, por não exibir o brilho azulado típico dos machos – frequenta o prato com alpiste e painço. Ela vem sozinha, pousa no poleiro fora do prato, não consegue passar pela abertura pequena, então enfia a cabeça e alcança alguns grãos mais próximos. De quando em quando, saltita no poleiro, como a sacudir o prato para fazer que mais grãos cheguem ao alcance do seu bico. Engenhosa, parece ter aprendido o método com uma extremosa mãe granívora.

Deduzimos que é o filhotão – então seria filhotona – que víamos meses atrás, agora já um chupim adulto. Resolvemos dar-lhe o nome de Macuna, sincopado de Macunaíma. Apesar da implicância pelo fato de a considerarmos fruto de um cruel parasitismo, ela acabou conquistando nossa simpatia; pela criatividade, pela confiança e assiduidade com que frequenta o prato de grãos e nos diverte com seu engenho.

Mas eis que ela continua nos surpreendendo. Agora, tem vindo acompanhada de um chupim com o característico brilho azulado dos machos. Ela está compartilhando seu aprendizado com um companheiro recente. E dentro em pouco, possivelmente veremos de novo uma extremosa mãe tico-tico visitando o prato de grãos com um filhotão chupim. Nos perguntaremos então se ele será um filho-neto adotivo, fruto das artimanhas da natureza.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Frei Betto e a mosca azul

 

A mosca azul – reflexão sobre o poder” (Editora Rocco, 2006) é um imperdível livro de Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo). Apesar de escrito há quase duas décadas, é oportuníssimo para se pensar em como agem nossos dirigentes e o que anda acontecendo em nossa sociedade.

Frei Betto é frade dominicano, jornalista e escritor laureado, ganhador do Prêmio Juca Pato (1985) e do Jabuti, este duas vezes (1982 e 2005). O frei revela no livro que, embora tenha participado do primeiro governo Lula (2003-2004), sua formação religiosa e política foi nas Comunidades Eclesiais de Base e na Pastoral Operária. Ele nunca foi filiado a nenhum partido, mas declara-se um religioso que enxerga que fé e política caminham juntas, e a fé cristã é aquela que Cristo ensinou, repartindo o pão com os pobres.

O livro narra a trajetória dos movimentos populares no Brasil, até a criação do Partido dos Trabalhadores (1980) e a eleição de Lula para o governo federal (2002). Analisa como o sonho de uma sociedade livre e justa no início catalisou expressiva parcela da população brasileira, e como, após a chegada ao poder, a força do sonho inicial foi sendo dissipada pela reação conservadora e por erros ou impossibilidades do governo e do PT: enfoque mais econômico que de ideias e princípios, lideranças desvinculadas da base, divisão entre tendências conflitantes, oportunismo de carreiristas... Frei Betto alerta que o alimento da mudança é a quimera, mas que amiúde o logro prevalece, o ideal dos pobres passa a ser a ilusão burguesa. Diferencia três tipos de militantes: os pelegos (visam benefícios pessoais), os ideológicos (teóricos dogmáticos distantes das bases) e os orgânicos (os identificados com os pobres e o sonho legítimo de liberdade e justiça).

A formação e prática religiosa de Frei Betto capacitou-o a uma acurada percepção das múltiplas faces que tem o ser humano, a exemplo de um cristal facetado. Temos faces angelicais e diabólicas. Por esse motivo é essencial cultivar a face solidária e a aspiração de um projeto de nação livre, justa, inclusiva. A face diabólica a ser superada é narcisista, mentirosa, que faz caixa dois e falsas promessas, é clientelista e fisiológica, despreza os que não lhe servem de degrau ascendente.

Frei Betto adverte para o erro da mera disputa de cargos eleitorais, a inexistência de um projeto de nação, a política de resultados superando a de princípios, o descolamento das bases, a míngua da formação política, o desparecimento dos núcleos de base: “O partido deixa de ser ferramenta de transformação da sociedade para tornar-se quase que somente a via de acesso de seus quadros ao poder”.

O autor ressalta que as elites manipulam o falso e camuflado paradoxo entre justiça e liberdade: um terço da humanidade goza os privilégios da suposta liberdade do mercado, que penaliza outros dois terços, vítimas da ausência de justiça, que concentra renda e dissemina pobreza. A questão da sonhada harmonia entre justiça e liberdade não é ideológica, mas é ética: é preciso despertar para o crime de lesa-humanidade que é o arranjo que beneficia uma minoria às custas da exploração e exclusão da maioria.

O livro indica alguns caminhos para a saída dos impasses da esquerda e superação da indiferença e desesperança, que acometem sobretudo os jovens: retomar o trabalho de base, reinventar a estrutura sindical, reativar o movimento estudantil, abordar questões indígenas, étnicas, sexuais, femininas, ambientais... Se fosse escrito hoje, possivelmente Frei Betto também recomendaria perícia no uso dos modernos meios de comunicação, como ferramenta de contato com as bases e de combate à desinformação e à mentira.

No último capítulo, Frei Betto dedica-se a declarar sua convicção de que fé cristã e política são inseparáveis. Ele relembra que a vida de Cristo foi uma vida de militância, de pregação, de convício com os pobres e do sonho de justiça e liberdade. A mística cristã é o amor. É ele o caminho para o mundo de justiça e liberdade que almejamos.

sábado, 12 de outubro de 2024

Dilema civilizacional - a mosca e a janela de vidro

 Publicado no Jornal da Manhã em 15/10/2024.

Na sala de uma moradia há, de um lado, uma ampla janela de vidro, fechada, que dá para um iluminado jardim, com apetitosas flores e frutos. Do outro lado da sala, uma porta dá para o interior da casa, mais escuro que o luminoso jardim. Duas moscas tentam chegar ao jardim. Malogradas, batem-se repetidamente contra o para elas invisível vidro. Já estão extenuadas, quase mortas. Uma delas repousa um instante de recuperação, e volta a bater-se contra o vidro. Até tombar sem vida. A segunda, resolve usar outra forma de percepção que não seja só a visão, que lhe mostra o ambicionado jardim, mas não o vidro. Olha em volta, vê a porta, não tão atraente, mas uma possível saída. Voa para ela, consegue chegar a outro aposento da casa, depois a outro, até encontrar uma janela aberta, e assim sai para a liberdade do ar livre. Se procurar, ainda vai poder encontrar o jardim. A outra mosca, jaz no vão da janela.

Os seres humanos parecem comportar-se como estas moscas. A janela de vidro intransponível, contra a qual nos batemos, ignorando-a ou negando-a, é o cuidado que deveríamos ter para com a natureza, que nos provê a vida, e a solidariedade para com o próximo, que nos provê a justiça e a paz. A natureza já não consegue se recuperar no planeta finito que está superpovoado e superexplorado. A teimosia em bater-se contra o vidro é a cobiça, a compulsão de ter, de poder, de competir, de sobressair-se. O jardim luminoso que nos seduz talvez seja o sonho de emancipação, de paz, de fraternidade. O caminho alternativo – a menos fascinante e mais longa porta de saída para a sobrevivência, a liberdade e o devir esperançoso – é o controle de nossas pulsões, o discernimento, a sobriedade para com a natureza, a compreensão dos inevitáveis limites, a amorosidade para com o próximo. Tarefa que nos parece assaz penosa.

Se teimarmos fazer como a mosca que se debate impulsiva contra o vidro, vamos acabar como ela. É bem provável que não só venhamos a perecer, mas também causemos uma extinção em massa no planeta. Apesar do colapso, a Terra há de se recuperar, como já fez outras vezes após cataclismos naturais: novas espécies, mais evoluídas, povoarão o planeta após a infausta experiência humana. Temos imitado esta mosca negligentemente suicida: na ânsia de dominar, de enriquecer, de se sobressair. As crises que a humanidade vivencia hoje – climática, hídrica, sanitária, política, social, educacional, cultural, religiosa, de segurança, de guerras, de foragidos, de desinformação, ética, moral – e a impotência para resolvê-las, escancaram o quanto estamos agarrados ao papel da mosca suicida.

A humanidade há de ter um lado mais evoluído, algo que a distinga da mosca que não é cega da visão, mas é cega de capacidade de reflexão e de cooperação. As crises que vivenciamos hoje não resultam de um sistema econômico cruel, de uma nação imperialista guerreira, de um arranjo político e social falido. Todos estes desatinos é que são resultantes do lado ainda primitivo da índole humana, da teimosia de continuar batendo-se contra o vidro da janela, ao invés de refletir para encontrar uma saída viável. Infelizmente, esta cegueira de bom senso é alimentada por um avançado sistema de manipulação da opinião, que tange multidões, dissemina mentiras e semeia desesperança, reduzindo o gênio humano ao mesmo comportamento da mosca suicida.

Vê-se logo que a estória das duas moscas é muito simplista. Há também aquelas que têm empatia com a congênere que se debate cega, e mostra a ela o caminho da saída. Há aquelas que, chegando ao cobiçado jardim, vão tentar tirar egoístico proveito dele. Talvez até construam anteparos de vidro para isso.

Mas, com certeza, o ser humano é mais que a mosca cega de discernimento. Só é preciso lembrá-lo disso.