Publicado no Jornal da Manhã em 03/10/2020.
Não faz muito que uso celular. Não gosto do
exagero com que se abusa das ditas mídias sociais, procuro usá-las o menos
possível. Ainda assim, recebo muita coisa que me faz pensar que estamos
regredindo na capacidade de nos comunicarmos, de forma inversa ao prodigioso avanço
na tecnologia de comunicação. Ou seria tecnologia de doutrinação?
Recebi um vídeo no qual uma encanecida
senhorinha, com ares de uma bondosa avozinha, junto com o senhorinho queimavam
livros de Paulo Coelho na churrasqueira. Ela não estava para as ternuras das
vovós. Estava enraivecida. Com palavrões indizíveis diante de netos ofendia o
autor dos livros, acusando-o de canalha, comunista, petista que fala mal do
Brasil e pede para boicotarem os produtos do país. A furiosa avozinha dizia ter
lido já dez livros do Bruxo, enquanto, arrancando as páginas de um deles, ia
jogando-as sobre as labaredas e desfiando seu rosário de imprecações. E
finaliza esconjurando o autor para o inferno.
Nunca curti Paulo Coelho. Li o primeiro
livro, para não encompridar motivos, digo que não gostei do estilo, não gosto
do gênero. Como diria uma estimada e saudosa amiga ─ Gosto não se discute; se lamenta! ─ Não vi o que ele andou falando
para enfurecer tanto a senhorinha, mas suspeito que se o Capiroto tiver que
escolher entre o autor e o casal de incendiários avós para ter a seu lado lá
nas profundezas, não vai ter dúvida. Pobres avós, parece que chegaram à velhice
sem que a vida tenha-lhes acrescentado sabedoria e bondade. E suspeito que na
verdade o Bruxo não falou mal do Brasil, nem dos brasileiros. Deve, sim, ter
dito diabruras do irresponsável desgoverno que anda arruinando o país.
Mas que vídeo intrigante, incita à reflexão!
O que teria feito o casal de velhinhos passar a odiar tanto o antes apreciado
escritor? Paulo Coelho não é a primeira celebridade brasileira fustigada pela
ira de antes supostos pacíficos cidadãos. Junto com ele estão Chico Buarque, Paulo
Freire, Marilena Chauí e tantos outros. O que anda acontecendo? A senhorinha do
vídeo incendiário diz ter lido dez livros do Bruxo. Por certo viu algo de
proveitoso. O que a teria feito mudar de opinião tão radicalmente?
É possível que nossa opinião nunca antes
tenha estado tão à mercê da tecnologia de informação que sabidamente nos
manipula, nos doutrina. Se alguém ainda duvida disso, veja o documentário “O
dilema das redes” (2020, direção de Jeff Orlowski), que revela como nossas
escolhas têm sido governadas pelos onipresentes sistemas de controle da
informação. Deixamos de ser usuários ou consumidores, passamos a ser o produto
que é oferecido aos verdadeiros consumidores: os fazedores de opinião.
O casal incendiário gostava do Paulo Coelho,
leu dez livros dele. Mas o autor passou a receber deles os qualificativos de
canalha, f.d.p. e outras baixarias. E, no dizer dos idosos, é um comunista,
petista, que deveria mudar-se para Cuba, Venezuela ou a China, e não viver no
bem-bom da Suíça.
Trata-se de uma revisão de entendimentos, que
vem com a acrescentada sabedoria da velhice? Não me parece. O que tem mudado
nas últimas décadas é o poder de manipulação das tecnologias midiáticas. Até
idosos com gostos consolidados mudam suas convicções, e queimam na fogueira as
referências anteriores. Talvez não tenham aprendido nada com elas? Queimar
livros é um histórico símbolo de incompreensão e retrocesso obscurantista.
O que mais preocupa é constatar como somos
vulneráveis à manipulação. Não soubemos controlar as tecnologias de informação.
Então estamos sendo controlados por elas.