terça-feira, 20 de outubro de 2020

O rio que subiu para o alto da colina

 

O compadre Lurdinha e eu fazíamos o mapeamento geológico do baixo Ribeira de Iguape, proximidades de Registro, o sul florestal do Estado de São Paulo. Uma região rebaixada colinosa, cercada por montanhas da Serra de Paranapiacaba. Fruto do trabalho erosivo do grande rio ao longo do tempo geológico. Tempo que é impensável para o homem comum. Este causo que o diga.

Estávamos justamente mapeando os remanescentes de depósitos fluviais, principalmente cascalhos, encontradiços em diversos níveis da paisagem regional. Os níveis testemunham fases de evolução do rio, há muito tempo, milhões de anos. Naquelas épocas o rio ainda não tinha escavado seu leito de hoje, corria num fundo de vale à altura do alto das colinas atuais, onde são encontrados os cascalhos que evidenciam que um dia o rio andou por ali.

Certa manhã estávamos analisando um barranco cavoucado bem no alto de uma dessas colinas, situada algumas poucas dezenas de metros acima do leito atual do rio e a uns dois quilômetros de distância do belo caudal, que tem suas nascentes nos distantes planaltos paranaenses e paulistas. No barranco apareciam os típicos cascalhos fluviais: os seixos arredondados, alongados e imbricados, indicando o sentido da corrente d’água que os depositara.

Concentrados nas observações e anotações, nem percebemos a aproximação do morador local, um roceiro já entrado pela velhice, pele acobreada, magro, baixo, barbas brancas por fazer, roupas, botina e chapéu muito surrados, palheiro de fumo picado no canto da boca. Vinha com semblante que denotava contrariedade e descrença, o mesmo de muitos moradores quando nos viam naquelas inexplicáveis bisbilhotices. Obviamente dois estranhos vindos da cidade, remexendo os barrancos perto de sua propriedade. Cumprimentou-nos:

─ Diiiaaa...

Subitamente arrancados de nosso aparente deslumbramento com aqueles ordinários cascalhos, respondemos de modo que o homem deve ter ficado ainda mais desconfiado:

─ Bom diiaaa...

Tentamos dar prosseguimento ao que fazíamos. Ficamos um tanto constrangidos com ele, acocorado enquanto tragava o palheiro, fixamente a observar nosso indiscutível interesse naqueles cascalhos, que para ele serviam para remediar os barreiros dos caminhos mais usados. Depois de alguma mudez, resolvi puxar conversa, o que fiz com muita presunção:

─ O senhor sabe de onde vêm estes cascalhos?

Ele ainda pensou por uns instantes, olhou para os lados como se a confirmar que tudo estava como ele sempre vira até a véspera:

─ Ói moço, tô aqui tem mais de cinquenta anos com minha família, e meu pai e avô mais que isso antes de mim. Essas pedra sempre tiveram aí. Não vieram de lugar nenhum, não.

─ Mas são pedras de rio. Um dia o rio passou por aqui onde estamos.

O semblante do roceiro encheu-se de confiança, sabedoria, certeza, galhofa e malícia. Ele riu para dentro, em respeito, creio, ao fato de sermos desconhecidos e de estarmos fazendo anotações escritas em cadernetas, tirando fotos e colhendo amostras. Tudo aquilo deve ter-lhe parecido que se tratava de um trabalho sério, e não de um desatino qualquer. Após refletir por algum tempo, respondeu:

─ Um dia um rio passou por aqui! ─ Cuspiu de lado. ─ Lhe digo, moço, nunca ninguém viu isso. E se tivesse visto, nem diria, avexado. Decerto iam dizer que tava maluco. Aí vem ôceis da cidade, escrevem isso, ôtros vão lê, nunca vieram aqui. Vão pensá que é verdade. Num é mais fácil dizê que tão percurando oro? Ói, já passaram por aqui os homi da companhia, carregaram amostra, analisaram. Mas não acharam nada não, viu?

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A vaca olhando a lua

 

Já viram uma vaca olhando a lua? Não? Acho que também não vi! Ou, se vi, não percebi. Melhor assim. Podemos então divagar com mais liberdade idealizando esta bela imagem. Mas imagino a cena: durante a noite, a vaca com as patas dobradas e o peso do corpanzil placidamente apoiado no relvado macio, o pescoção elegantemente contorcido para trás, ela encantada com o enorme disco de prata alteando-se no horizonte, pulverizando a paisagem campestre com aquele luminoso polvilho argento.

Uma cena cheia de significados. O início de noite enluarado no campo já é algo a inspirar armistício e devaneio. A vaca, um bicho pacífico, herbívoro, sereno, símbolo sagrado de paz e fertilidade no Oriente. Um dia, num futuro imprevisível, ainda nos penitenciaremos por incluirmos em nossa dieta alimentos que não sejam os vegetais e grãos que a natureza tão generosamente nos oferece. Ainda haveremos de compreender que a mesma superfície de terreno que usamos para apascentar umas poucas reses poderia nos conceder uma quantidade imensamente maior de alimento vegetal, mais saudável e com menor corrosão do solo e da alma.

A vaca repousada sobre o terreno, mansa na sua animalidade, com o pescoção sem nenhum excesso vigorosamente contorcido e o olhar embevecido observando nosso indecifrável satélite, deve inspirar-nos poesia e desafetação. Mesmo a rês, tida por nós como ignara, enleva-se fitando a grandeza e a beleza do firmamento. A lua está além de nosso planeta, de nossa realidade terrena, de nossa tacanha avareza mundana. A lua é parte do céu, o início do infindável. Como fica a natureza bovina perante tal grandeza? E quem somos nós, pretensiosos seres humanos, perante a grandeza da lua, do universo, o despojamento da vaca?

Um dos exercícios da prática chinesa do Tai-Chi Chuan tem justamente o nome de “a vaca olhando a lua”. Outro nome para o mesmo exercício é “olhando para trás e deixando para trás”. Deixando o quê para trás? Dizem que as preocupações, as angústias, os rancores, a tristeza, os arrependimentos, a ansiedade, a inveja, a raiva... Tudo aquilo que não nos ajuda em nossa caminhada, ao contrário, só faz sobrecarregar-nos de pesos, totalmente inúteis, desnecessários.

A vaca olhando a lua parece estar encarnando bem isso: a leveza da despreocupação, da confiança, a temperança da humildade e da bondade, o firme pé no chão que para os chineses é representado pelo elemento terra, aliás, o mesmo que, no horóscopo ocidental, corresponde ao signo de Touro. Alguém já viu uma vaca disputando com outra uma touceira de capim? Nunca vi. Mas já vi muitos homens brigando por alguma inutilidade, ou por algo cujo valor só existe nas fantasias e ilusões das artificiais convenções que nos deleitamos em inventar.

Tão humano que sou, invejo a vaca olhando a lua. Ela se basta, e, no entanto, sonha com o universo.


sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Livros na fogueira

  Publicado no Jornal da Manhã em 03/10/2020.

Não faz muito que uso celular. Não gosto do exagero com que se abusa das ditas mídias sociais, procuro usá-las o menos possível. Ainda assim, recebo muita coisa que me faz pensar que estamos regredindo na capacidade de nos comunicarmos, de forma inversa ao prodigioso avanço na tecnologia de comunicação. Ou seria tecnologia de doutrinação?

Recebi um vídeo no qual uma encanecida senhorinha, com ares de uma bondosa avozinha, junto com o senhorinho queimavam livros de Paulo Coelho na churrasqueira. Ela não estava para as ternuras das vovós. Estava enraivecida. Com palavrões indizíveis diante de netos ofendia o autor dos livros, acusando-o de canalha, comunista, petista que fala mal do Brasil e pede para boicotarem os produtos do país. A furiosa avozinha dizia ter lido já dez livros do Bruxo, enquanto, arrancando as páginas de um deles, ia jogando-as sobre as labaredas e desfiando seu rosário de imprecações. E finaliza esconjurando o autor para o inferno.

Nunca curti Paulo Coelho. Li o primeiro livro, para não encompridar motivos, digo que não gostei do estilo, não gosto do gênero. Como diria uma estimada e saudosa amiga ─ Gosto não se discute; se lamenta! ─ Não vi o que ele andou falando para enfurecer tanto a senhorinha, mas suspeito que se o Capiroto tiver que escolher entre o autor e o casal de incendiários avós para ter a seu lado lá nas profundezas, não vai ter dúvida. Pobres avós, parece que chegaram à velhice sem que a vida tenha-lhes acrescentado sabedoria e bondade. E suspeito que na verdade o Bruxo não falou mal do Brasil, nem dos brasileiros. Deve, sim, ter dito diabruras do irresponsável desgoverno que anda arruinando o país.

Mas que vídeo intrigante, incita à reflexão! O que teria feito o casal de velhinhos passar a odiar tanto o antes apreciado escritor? Paulo Coelho não é a primeira celebridade brasileira fustigada pela ira de antes supostos pacíficos cidadãos. Junto com ele estão Chico Buarque, Paulo Freire, Marilena Chauí e tantos outros. O que anda acontecendo? A senhorinha do vídeo incendiário diz ter lido dez livros do Bruxo. Por certo viu algo de proveitoso. O que a teria feito mudar de opinião tão radicalmente?

É possível que nossa opinião nunca antes tenha estado tão à mercê da tecnologia de informação que sabidamente nos manipula, nos doutrina. Se alguém ainda duvida disso, veja o documentário “O dilema das redes” (2020, direção de Jeff Orlowski), que revela como nossas escolhas têm sido governadas pelos onipresentes sistemas de controle da informação. Deixamos de ser usuários ou consumidores, passamos a ser o produto que é oferecido aos verdadeiros consumidores: os fazedores de opinião.

O casal incendiário gostava do Paulo Coelho, leu dez livros dele. Mas o autor passou a receber deles os qualificativos de canalha, f.d.p. e outras baixarias. E, no dizer dos idosos, é um comunista, petista, que deveria mudar-se para Cuba, Venezuela ou a China, e não viver no bem-bom da Suíça.

Trata-se de uma revisão de entendimentos, que vem com a acrescentada sabedoria da velhice? Não me parece. O que tem mudado nas últimas décadas é o poder de manipulação das tecnologias midiáticas. Até idosos com gostos consolidados mudam suas convicções, e queimam na fogueira as referências anteriores. Talvez não tenham aprendido nada com elas? Queimar livros é um histórico símbolo de incompreensão e retrocesso obscurantista.

O que mais preocupa é constatar como somos vulneráveis à manipulação. Não soubemos controlar as tecnologias de informação. Então estamos sendo controlados por elas.

sábado, 19 de setembro de 2020

Ideologia ou hegemonia?

  

Há mais de dois séculos a humanidade vem se polarizando, dizem alguns que a polarização é ideológica: direita x esquerda, marxismo x liberalismo, socialismo x capitalismo, individualismo x comunismo e outros muitos rótulos. Esses rótulos têm sido enfaticamente repetidos e distorcidos, até que a população em geral ou não conheça mais seu verdadeiro significado, ou desenvolva em relação a eles um amor ou um ódio irracional.

A polarização supostamente ideológica encontrou sempre seu correspondente nos blocos econômicos: durante a guerra fria eram os “aliados” contra o bloco da Cortina de Ferro, atualmente é o Ocidente contra a emergente China e seus satélites. E nós, no Ocidente, sempre aprendemos que estamos sob ameaça da expansão do comunismo, identificado tanto com a União Soviética e a Cortina de Ferro quanto com a China e seus satélites.

Convém refletir sobre o real significado da polarização, já que ela muitas vezes leva países inteiros a guerras civis fratricidas por divergências de convicção. Talvez estas guerras fratricidas sejam já um objetivo conquistado por aqueles que manipulam e exacerbam a polarização: a concretização do princípio “dividir para conquistar”.

Terminada a Segunda Guerra Mundial os EUA difundiram pelas Américas o medo que no Brasil denominou-se a Doutrina de Segurança Nacional. O perigo iminente a ser combatido: o pensamento identificado com o outro grande vencedor (a um custo incomparavelmente mais caro) da guerra mundial: a União Soviética. Comunismo, marxismo, leninismo, socialismo passaram, para muitos brasileiros, a serem sinônimos de tirania, de crueldade, do mal maior, a ser evitado a qualquer custo, ainda que este custo seja a liberdade, a legalidade, a independência. A Doutrina de Segurança Nacional foi o pretexto para as ditaduras militares na América Latina, incluindo o Brasil.

Os dados históricos, entretanto, parecem revelar outros motivos para as radicalizações semeadas mundo afora. Nelas sempre se confundem as razões ideológicas, manifestas, e as econômicas, acobertadas. Não é isso que nos diz a aliança EUA e Iraque contra o Irã, depois a invasão do Iraque por causa das supostas, e inexistentes, armas de destruição em massa? A verdadeira razão dos conflitos sempre foi o petróleo, o Iraque tornou-se inimigo quando ameaçou exigir autonomia na comercialização de sua produção da maior fonte de energia do mundo atual. É essa fonte de energia, da qual os EUA carecem, que move os principais conflitos mundiais das últimas décadas, junto com os minérios estratégicos. Afeganistão, Irã-Iraque, Ucrânia, Líbia, Síria, Venezuela, Brasil e muitos outros, são guerras, crises e golpes cuja real razão é o controle das matérias-primas estratégicas.

As sofisticadas tecnologias midiáticas conseguem fazer o povo simples acreditar que assume posições ideológicas, na verdade está sendo manipulado para assumir posturas a favor da hegemonia econômica do grande ganhador da Segunda Guerra Mundial que pouco sofreu com ela, saiu-se como o grande credor da reconstrução da Europa, e temido após a demonstração de força dos maiores atos terroristas da História, o extermínio da população civil de Hiroshima e Nagasaki.

A suposta polarização ideológica serve a vários propósitos. Os dois principais talvez sejam a difusão do ódio fratricida, o “dividir para conquistar”, e a ocultação de que os conflitos visam, na verdade, a hegemonia econômica dos EUA sobre o planeta.

Às custas da submissão incondicional de seus vassalos.

domingo, 6 de setembro de 2020

O lucro das estatais: às custas de quem?

  Publicado no Jornal da Manhã em 09/09/2020.

Outdoors na cidade de Ponta Grossa assinados pelo Sindicato Rural e Associação de Ministros Evangélicos dizem: “Estatais em 2015: 22 bilhões de prejuízo. Estatais em 2019: 109 bilhões de lucro”. Ao mesmo tempo, a Assembleia Legislativa do Paraná declara-se preocupada com a venda de subsidiárias da Petrobras no estado, com previsão de relevante queda no ICMS e corte de milhares de empregos. Convém refletir sobre a relação entre os dois fatos.

O mau desempenho em 2015 deveu-se principalmente à Petrobras, a maior estatal brasileira. Ela estava no auge da sabotagem imputada às empresas brasileiras desde as delações premiadas da Lava Jato. Sobre isto, é útil a leitura do artigo “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável” de José Luis Fiori e William Nozaki, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em 30 de julho último (https://diplomatique.org.br/conspiracao-e-corrupcao-uma-hipotese-muito-provavel/). O artigo esclarece como o suposto combate à corrupção está sendo usado para destruir grandes empresas brasileiras (não só as estatais) e perpetuar o papel do Brasil como colônia fornecedora de commodities, sobretudo o petróleo.

O alegado “bom desempenho” de 2019 também é devido à Petrobras. O lucro veio da venda de partes da antes gigante brasileira. A Petrobras está sendo desmontada.

Esta é a lógica do governo ultraliberal: contam os lucros, e não seus impactos econômicos e sociais, nem a soberania do país. Quem apóia esta lógica, como o Sindicato Rural e a AME o fazem ao publicar os enganosos outdoors na cidade, é cúmplice da permanência do país num estágio de submissão, exclusão e desigualdade social que só traz mais conflitos, insegurança e atraso. A discrepância social no Brasil já é abismal. Apoiar medidas que a agravam é uma desumana temeridade, um arroubo dos insaciáveis gananciosos ávidos de vantagens pessoais.

O governo ultraliberal atual, que chegou ao poder graças à ingerência externa via cooptação de parte do Estado e da disseminação de mentiras, está tentando maquiar as contas do país com medidas que só prejudicam a população trabalhadora, e favorecem interesses transnacionais: congelamento do investimento em educação, saúde, pesquisa, cultura, infraestrutura, programas sociais e dos salários do funcionalismo (mas não de políticos, militares e judiciário), uberização do trabalho, novas taxações, aumento de tarifas, restrições à aposentadoria, venda das estatais, etc. Enquanto protela mudanças vitais, como a taxação de rentistas e fortunas, a revisão do imposto de renda e dos benefícios da elite.

Há outras considerações a fazer quando se fala em lucro das estatais. Guilherme Estrella, ex-presidente da Petrobras, alerta que a contratação de uma plataforma de exploração de petróleo em estaleiros brasileiros custava mais caro que comprar a mesma plataforma de um estaleiro na Ásia. Porque lá eles usam mão de obra quase escrava, e no Brasil as plataformas eram fabricadas por operários com direitos trabalhistas, resultando num encadeamento de benefícios econômicos e sociais.

Mas isso ficou para trás.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A verdade 50 anos atrasada

Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 27/08/2020 e no blog de Carta Capital em 04/09/2020.


O Le Monde Diplomatique de 11 de setembro de 2007 traz uma reportagem perturbadora (https://diplomatique.org.br/o-golpe-da-cia-contra-o-ira/). Ela analisa matéria do New York Times de junho de 2000, revelando relatório secreto da CIA sobre a participação dessa Agência no golpe que derrubou o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadeg em 1953, quase cinquenta anos antes.

Mossadegh apoiava a nacionalização da indústria petrolífera, então dominada pelos britânicos, e a democratização do sistema político. Os EUA alegaram temer que esses fossem sinais de que o Irã estaria prestes a passar para trás da Cortina de Ferro, e decidiram derrubar Mossadegh.

O relatório teria sido propositalmente vazado no ano de 2000, supostamente como estratégia de reaproximação entre EUA e Irã, iniciativa apoiada pela então secretária de Estado Madeleine Albright. Isso foi antes do atentado de 11 de setembro de 2001, que mudaria tudo. O que o relatório revela sobre como a CIA agiu para derrubar Mossadeg em 1953 é surpreendente: propaganda e atividades políticas clandestinas; cooptação de rede de oficiais do exército para um golpe; suborno de parlamentares iranianos; pressões para persuadir o xá Reza Pahlevi a apoiar o golpe; manipulação de manifestações de protesto pela renúncia de Mossadegh.

Foram milhões de dólares gastos pelo ramo iraniano da CIA, comandado por Kermit Roosevelt, para a consecução do golpe. Ele falhou num primeiro momento, mas acabou sendo bem-sucedido graças a subsequentes grandes manifestações de rua e atentados simulados contra religiosos, ambos organizados por infiltrados a serviço da CIA, que se faziam passar por membros do Tudeh, o “Partido das Massas”, o mais importante partido de esquerda no Irã à época.

Em seu livro “Novas confissões de um assassino econômico” (Cultrix, 2018), John Perkins mostra que o golpe no Irã em 1953 foi um aprendizado para a CIA. O fracasso inicial revelou o envolvimento da Agência, e obrigou os EUA a chamar Kermit Roosevelt de volta ao país. Desde então, golpes semelhantes perpetrados em outros países do mundo passaram a ser cometidos pelos assassinos econômicos, ou, no insucesso destes, os chacais, os assassinos de fato. Podemos supor que estes tenham sido os responsáveis pelas mortes “acidentais”, no Brasil, de Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos e Teori Zavascki. Mais recentemente, os chacais humanos foram substituídos pelos drones, como o que assassinou o general iraniano Qassem Soleimani no início de 2020, no Iraque.

O golpe no Irã em 1953, a revelação do relatório secreto em 2000, a demonização dos partidos de esquerda no Brasil, as manifestações iniciadas no país em 2013, o golpe em 2016 e a ascensão de governos antidemocráticos empenhados na perpetuação do país como colônia reserva de mão de obra barata e exportadora de matérias-primas sem valor agregado nos revelam que os aprendizados da política externa dos EUA têm resultado em sucesso para a ambição hegemônica do Tio Sam.

Enquanto espalham corrupção, ditaduras, guerras e miséria pelo mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Uma revolução da consciência

 

Pensadores que têm refletido sobre o momento que passamos têm falado na urgência de uma “revolução da consciência”. São desde administradores e economistas até filósofos e sociólogos. Talvez o que tenham em comum seja a compreensão do que anda se passando com a humanidade e a civilização atual.

Duas preocupantes constatações atestam que estamos seguindo um caminho equivocado: a crise ambiental provocada pela exploração predatória do planeta, comprometendo o equilíbrio da natureza que sustenta a vida; a crise social decorrente da concentração de riquezas, com aprofundamento do fosso que separa ricos e pobres.

A pandemia da Covid-19 resulta dessas duas crises. O vírus é fruto da desfaçatez com cuidados sanitários indispensáveis num mundo globalizado e de imensa concentração urbana. A sua disseminação atinge sobretudo os mais pobres, sem condições de confinamento e com precários saneamento e condições de saúde. Mas atinge também os profissionais de saúde, os que lidam com as atividades ditas essenciais, que não podem parar, os idosos, os fragilizados por diversas razões. O vírus é seletivo, mas é também imprevisível.

Muitos especialistas estão afirmando que as crises ambiental, socioeconômica e sanitária não são passageiras. Se não promovermos uma aguda revolução da consciência e uma profunda mudança em nossa civilização, vieram para ficar. A Covid-19 é branda, devemos esperar pandemias ainda piores, num futuro próximo. Urge mudar, se não queremos aprender por uma dor ainda mais dilacerante.

Quais seriam as mudanças na nossa consciência para evitarmos o previsível trágico futuro? Basta ver o que temos feito que nos conduziu até onde estamos hoje: a superexploração predatória do planeta, o consumismo irrefreável, a exploração e dominação do próximo, a ambição desmesurada, a intolerância com a diferença, o orgulho e a inveja.

Tudo isto resultaria de uma marcante qualidade humana: a cobiça. Cobiçamos conquistar, cobiçamos ter, cobiçamos acumular. E criamos sistemas econômicos e de governo, princípios morais e legais que acolhem e incentivam a cobiça. Cobiçar passou a ser a qualidade que distingue bem-sucedidos de fracassados, dinâmicos de acomodados, antenados de alienados, celebridades de joões-niguém, racionais de emocionais. Mais recentemente, a cobiça passou também a distinguir direitistas de esquerdistas, capitalistas de socialistas, ditadores de democratas.

Quantos rótulos! Mas a revolução da consciência dispensa os rótulos. A grande mudança que se impõe é aquela que os verdadeiros messias têm tentado nos ensinar há milênios: a humildade, a solidariedade, o discernimento; a empatia com todos os outros seres vivos e com o planeta Terra, nosso lar.

Oxalá não seja necessário a natureza castigar-nos com lições ainda mais contundentes que a pandemia, os eventos climáticos extremos e os conflitos sociais e a insegurança que já vivemos, para que aceitemos que a revolução da consciência é urgente. E enfim a concretizemos.