quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Dissecando o fascismo

 Publicado no Jornal da Manhã em 19/01/2023.

Não é preciso ser do ramo. Temos visto muitos textos, vídeos, entrevistas, mesas-redondas de psicanalistas, sociólogos, filósofos que tentam explicar o momento de psicopatia, a ascensão do fascismo, que temos vivido, no Brasil e no mundo. Mas há de se reconhecer, os movimentos radicais em favor das sombras sempre trazem junto a reação de tudo que significa o contrário: a iluminação. Foi assim, por exemplo, no Iluminismo, o “Século das Luzes”, que sucedeu a Idade Média, a “Idade das Trevas”.

Os sociólogos dizem que o fascismo, a tradução da extrema-direita, é um recorrente produto do capitalismo. Este concentra a riqueza, dissemina a pobreza, exclui a grande maioria da população. Origina imensas frustrações, não cumpre a promessa de prosperidade que hipocritamente alardeia. A massa desiludida precisa então encontrar um “bode expiatório” onde evacuar sua frustração e revolta. O capitalismo constrói esse inimigo a ser odiado: ora os judeus, ora os negros, ora os imigrantes, ora os comunistas, ora os mais letrados, ora os ainda mais pobres, ora os petistas, ora o torcedor do outro time, ora o adepto da outra igreja...

Os arautos do capitalismo ─ a elite econômica e seus cooptados prepostos da classe média ─ são mestres em manipular as massas e criar o inimigo a ser odiado. Assim, anulam o que seria a justa e lúcida crítica e revolta contra o sistema, o qual enriquece cada vez mais os ricos, às custas do aprofundamento da exploração dos cada vez mais pobres. Sofisticados e custosos recursos são empregados no logro e na incitação das massas contra elas próprias, e não contra o verdadeiro inimigo. Uma forma refinada do antigo “dividir para conquistar”, que há séculos orienta os impérios para manter enfraquecidas e submissas suas colônias.

As estratégias atuais incluem o científico controle da informação e das mídias, que visam a manipulação das massas: um misto de desinformação e mentira com estímulos que reforçam os reflexos condicionados. Instintos que mais fazem o ser humano parecer uma fera selvagem do que um ente que se presume racional e sensível. Não são só os cães, como mostrou Pavlov, que podem ser condicionados a reagir irracionalmente a estímulos falsos. Os seres humanos reagem igual.

O poder que insufla as massas contra si mesmas, encolerizando-as e dividindo-as, tem muitas faces: são as nações imperialistas que querem a hegemonia do poder mundial; são as corporações transnacionais que detêm o controle da economia; são os prepostos locais, os super-ricos, que controlam capatazes da classe média; são todos aqueles inescrupulosos indivíduos ressentidos, em busca de resgate ou de supremacia a qualquer custo, que tornam-se os herdeiros dos capitães do mato do escravagismo, os responsáveis diretos pela tapeação das massas.

No mundo, particularmente no Brasil, há recursos suficientes para que não existisse pobreza. Ela só existe porque os bens produzidos são espoliados da massa de trabalhadores que os gera. Vão enriquecer ainda mais os que já são super-ricos.

Só há uma maneira de romper com a avareza deste sistema: as massas precisam acordar, deixar de ser manipuladas; precisam unir-se na luta contra a milenar exploração.

sábado, 14 de janeiro de 2023

A ditadura do obsoleto

 

A ditadura é a imposição, a repressão, às vezes por qualquer meio. Pode ser só pela intimidação e pela mentirosa manipulação, ou até por meios criminosos, violentos, incluindo sequestro, tortura e assassinato, como amiúde acontece nos totalitarismos. Vamos falar da ditadura exercida pelo obsoleto.

O que é o obsoleto? É tudo aquilo que não funciona mais, já está ultrapassado. Sua falência traz transtornos intransponíveis. Os mecanismos de funcionamento da sociedade que estamos vivendo estão obsoletos. Não acredita nisso? Então como explicar as tantas crises atuais? Materialismo e consumismo exagerados, aquecimento global, eventos climáticos extremos, pandemia, guerras, embargos econômicos, recrudescimento das desigualdades e exclusão, massas de refugiados deslocando-se entre países, agravamento dos segregacionismos e fundamentalismos, aumento da criminalidade e insegurança, armamentismo, descontrole de preços de bens estratégicos tais como alimentos e combustíveis, o alastrar da desinformação via mentiras digitais...?

Tantas crises em parte resultam da evolução. Ela, além de progresso, gera também desequilíbrios passageiros e a necessidade de novos arranjos, compatíveis com o progresso alcançado. A mulher, depois de conquistar o direito de votar, quer também participar da vida em igualdade com os homens, quer ser respeitada e protegida por leis que não reproduzam um ancestral, faccioso e cruel patriarcalismo. O homem antes analfabeto, após alfabetizar-se e qualificar-se profissionalmente, quer trabalho digno, quer ter direitos reconhecidos, começa a ter melhor noção da exploração social que o penaliza, passa a reivindicar justiça.

Se o progresso da sociedade não é capaz de suprir estas, e muitas outras, novas demandas, não é progresso: desencadeiam-se as crises. As mencionadas acima são só algumas delas. É o momento, então, de mudar. Urge mudar! Antes que a crise, aprofundada, a demandar solução que não chega, passe a ser insolúvel. Então deixa de ser crise, passa a ser colapso. Da crise ainda podemos sair, encontrando correções planejadas. Já o colapso foge do controle, as consequências são imprevisíveis. No exemplo do aquecimento global, a crise já existe. Já sabemos que existe, quais suas causas, quais suas prováveis consequências atuais e futuras, como podemos evitá-las ou mitigá-las. Mas temos vaga ideia de quais possam ser as consequências futuras, se não soubermos evitar o colapso. Só sabemos que serão desastrosas.

Entretanto, há sempre quem queira silenciar e esconder a crise. São os arautos da negação do alerta e do necessário debate. Deturpam a verdade, impõem a omissão, o falso moralismo e a desfaçatez. São os ditadores do obsoleto. São principalmente os privilegiados pela crise, e que não querem mudanças. Apesar de reconhecerem tratar-se de situação crítica. São imediatistas e individualistas, não acreditam que o colapso aconteça ainda durante sua vida, só vai se abater sobre gerações futuras. Não são só obsoletos; são antes extremados egoístas, que só se importam consigo mesmos.

Mas há também aqueles que, embora não privilegiados, não conseguem, ou têm medo de mudar. Mudanças assustam! Temem perder o que já têm, ainda que seja pouco. São também egocêntricos, de uma natureza diferente. São inseguros, não têm lucidez nem desprendimento. Não atinam que, se não houver mudança, todos, a começar pelos menos privilegiados, vão sofrer as consequências. São aqueles obsoletos que reprimem a reflexão crítica e o debate sobre a necessidade de mudar, de adequar-se aos novos tempos. São os atrasados ultraconservadores.

Estes últimos são os mais numerosos obsoletos, usualmente logrados pelos privilegiados. Do despertar destes logrados ditadores do obsoleto depende o reconhecimento da crise e o envidar soluções. Antes do advento do colapso.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

A barbárie escancarada

 Publicado no Jornal da Manhã em 02/02/2023.

Bárbaros, todos nós somos um pouco. Assim como também somos um pouco divinos. Particularidade dos seres humanos, temos ainda muitas reminiscências de nossos ancestrais selvagens. Mas já temos também alguma percepção do sagrado que nos transcende. Somos criaturas intermediárias entre o ignorante e o sábio! Alguns dizem que nosso lado instintivo selvagem é tânatos, catalizador de todo impulso destrutivo. Herança da primordial agressividade essencial para a preservação da espécie. Nosso lado amoroso e criativo é eros. Ele vem se fortalecendo ao longo da evolução do Homo sapiens e da civilização.

Comportarmo-nos ora como egoístas bestas-feras, ora como solidários seres amorosos, dependendo de muitas variáveis que se combinam: nosso meio familiar, a vizinhança e amigos que temos, nossa educação formal e informal, nossas experiências de vida, a cultura do nosso povo, o momento civilizacional que estamos vivendo e até nosso humor num dado momento, que depende de circunstâncias objetivas e subjetivas. A resultante é que ora podemos ou ser uma besta-fera individualista e violenta, ora ser alguém fraternal, compreensivo e conciliador.

Desde sempre a besta-fera que reside em nós tem sido manipulada para promover disputas e guerras em favor de conquistadores. A velha máxima “dividir para conquistar”. Mas nas últimas décadas esta manipulação alcançou sofisticação extraordinária, com o advento das redes sociais, dos algoritmos, dos bots e das criminosas empresas digitais destinadas à desinformação e à doutrinação. Paradoxalmente, o avanço tecnológico, num primeiro momento, propicia o desequilíbrio do frágil arranjo de bem-estar social civilizatório, que temos construído com vagar e dificuldade ao longo de milênios. Se, pouco a pouco, vamos superando a barbárie e nos aproximando de uma sociedade mais humanizada, ao mesmo tempo manifestam-se forças contrárias à emancipação dos seres humanos. É a reação de tânatos, inconformado com a prosperidade de eros.

O mundo dá evidências de que estamos bem num destes momentos de reação de tânatos: segregacionismos e individualismos exacerbados, fundamentalismos, guerras, fanatismos, extremismos. No Brasil não é diferente. Em 2018 elegeu-se um líder que personifica tânatos: genocida, segregacionista, misógino, armamentista, violento, negacionista, escatológico, devastador ambiental... Mas que, contraditoriamente, tornou-se o mito de uma parcela da população: tanto aqueles com ele identificados na reação de tânatos contra eros, quanto aqueles encabrestados pelas tecnologias da desinformação. Com a agravante que estas manipuladas vítimas de tânatos foram ludibriadas e convencidas que sua ira representa os ideais da pátria, da família, de Deus e da liberdade.

Os acontecimentos dos últimos meses, que atingiram clímax no vandalismo deste domingo 8 de janeiro em Brasília, desmascaram tânatos, manifesto naqueles que não souberam discernir. Antes tarde que nunca! Caída a máscara de cidadãos patriotas, devotos e equânimes, que nunca foram de fato, agora estes adeptos de tânatos têm que mostrar coragem para vencer o ódio destrutivo que as cegou. E retomar eros, para retornarmos à marcha de prosperidade da civilização. 

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

Psicanálise do fenômeno Lula

 Publicado no Jornal da Manhã em 05/01/2023.

Uma querida amiga psicanalista fez uma análise do significado de Lula e da cerimônia de posse. Que evento! Uma celebração no dia mundial da paz e da esperança que foi dignificada não só no Brasil, mas no mundo todo. Pelo fato que o mundo todo compreende, talvez até melhor que nós mesmos, brasileiros, que nosso país personifica o impasse civilizacional que vivemos: de um lado o totalitarismo truculento e excludente, de outro a democracia que inspira a solidariedade e a inclusão, e desestimula o egoísmo.

Minha amiga chamou a atenção para as muitas vezes em que, durante a longa cerimônia de posse, Lula foi tomado pela emoção: voz embargada, olhos lacrimosos, mãos trêmulas. Uma figura humana, sensível, frágil. Atributos ditos femininos. E a psicanálise assevera que as relações humanas são fundadas no poder e na hierarquia, simbolizados no falo masculino. Como pode, então, a vulnerável figura tão humana de Lula na posse reunir a força e o poder necessários para comandar a conciliação de um país cindido pela segregação e pelo ódio, que vêm sendo agravados entre nós há uma década, desde as “jornadas de junho” de 2013? Segregação e ódio que vêm sendo cultivados ao longo dos nossos cinco séculos de história, pela colonização predatória, o extermínio dos nativos, a prolongada escravatura, a “independência” decretada pelo poder imperial, a desastrada abolição?

O poder e a força de Lula não estavam aparentes na figura do idoso comovido e fragilizado às lágrimas, na mesa do Congresso, no alto da rampa e no parlatório defronte o Palácio do Planalto. A força de Lula não estava visível na figura do líder que tomava posse. Nele, estava invisível. Mas estava presente, na sua já comprovada habilidade de negociar e de conciliar, enraizada numa surpreendente trajetória de vida, que o tornou um homem capaz de compreender a injustiça e o sofrimento humanos, e de entregar-se à construção de um mundo mais solidário.

Mas se a força e o poder de Lula não estavam visíveis na sua frágil figura, estavam escancarados na multidão que o ovacionava, entoando “Lula, guerreiro, do povo brasileiro!” E que teve a honra de receber em retribuição o cumprimento que foi o sensível e delicado reconhecimento da incansável resistência da “Vigília Lula Livre”: “Boa-tarde, povo brasileiro!” Paródia dos abençoados cumprimentos em coro de bom-dia, boa-tarde e boa-noite dos 580 dias da injusta prisão em Curitiba.

A força e o poder de Lula estão no carisma que mobiliza a multidão dos que se contagiam com o ideal de inclusão e justiça social. Representados na posse pela gente do povo que entregou a faixa presidencial. É esta multidão de apoiadores, os que já optaram pela solidariedade contra o egoísmo, que deve manter-se mobilizada e atuante. Disso depende que o governo do líder carismático e humano tenha sucesso no duro desafio da luta contra os arraigados preconceitos e a cupidez que marcam a natureza humana e a sociedade.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

Feliz 2023, Brasil!

 Publicado no Jornal da Manhã em 28/12/2022.

Esperamos que, no final do mês de dezembro de 2023, as redes sociais, TVs, rádios, jornais e revistas tragam a seguinte retrospectiva do ano:

- após uma espantosa retomada da confiança no país e na democracia, expressa em massivas e legítimas manifestações populares que encheram ruas e praças de muitas cidades, o Legislativo, constrangido e pressionado, passou a debater e aprovar leis que beneficiam o pleno emprego, salários justos, educação e saúde de qualidade para todos;

- o Judiciário capacitou-se a exercer a justiça com rapidez, transparência e uma equidade nunca antes vistas; em decorrência, as polícias passaram a agir com probidade exemplar; a corrupção e outros crimes passaram a ser evitados ou punidos com rigor;

- o Executivo iniciou campanha de resgate da identidade, da autoestima e da dignidade da população como um todo; começando pelo respeito e valorização do diverso, reduzindo drasticamente os preconceitos de raça, cultura, credo, gênero, classe, ideologia;

- com o reaparelhamento dos órgãos de proteção e educação ambiental, recuperou-se a compreensão de que a vida saudável, em todos os sentidos, depende da natureza saudável; o país está aprendendo a utilizar seus riquíssimos recursos de forma sustentável, preservando as funções vitais dos processos naturais;

- a ciência, revitalizada, logrou desenvolver no país sistemas de controle e vacinas eficazes contra várias doenças endêmicas e epidêmicas, principalmente a Covid, a dengue, a febre amarela, a malária, a varíola, a zika, a chikungunya e outras; ao mesmo tempo fortaleceu-se o SUS, garantia de cuidado da saúde de todos;

- a economia passou a priorizar o mercado interno; alimentos, construção civil, roupas, maquinários e outros bens e serviços passaram a beneficiar antes os brasileiros; graças a isso, a economia ficou menos suscetível a crises internacionais e a golpes especulativos do mercado manipulado; os preços caíram e se estabilizaram;

- a economia forte deu sustentação para ações governamentais em teimosas questões tributárias e político-partidárias; os impostos tornaram-se mais justos, os partidos políticos têm novas regras que reduziram o clientelismo, o fisiologismo, o corporativismo; fortaleceu-se a “Constituição Cidadã” de 1988;

- no Congresso, respeitando-se o que seja a democracia representativa, passou a vigorar a “lei da transparência”: não existem mais os votos e orçamentos secretos, nem os sigilos sobre transações que envolvam recursos públicos;

- o governo desencadeou tratativas internas e internacionais para desbaratar os infames paraísos fiscais, que toleram contas anônimas que se prestam a lavagem de dinheiro auferido com crimes que vão desde o tráfico de pessoas e armas até o esbulho de recursos públicos;

- o Brasil recuperou o protagonismo relevante nas questões internacionais, como país engajado no respeito à soberania e liberdade dos povos, na justiça social, nos direitos humanos, na preservação ambiental e na paz;

- a rica cultura, em todas as suas áreas, fruto do sincretismo dos povos formadores do brasileiro, foi valorizada e incentivada; voltamos a ser uma referência mundial na criação cultural autêntica;

- no meio do ano que se encerra, Brasília foi a capital mundial da paz e da espiritualidade; líderes de todas as religiões do planeta reuniram-se para um ritual ecumênico de celebração do sagrado, que conduz a humanidade no caminho da luz; todos os seres humanos sentiram e repercutiram as vibrações de amorosidade que emanaram do evento;

- recentes pesquisas de opinião revelaram que a população do país está vivendo uma nova era de confiança, solidariedade, honradez e sincero orgulho de ser brasileiro; a ideia de nação está firmemente embasada no sentido de justiça social e fé no porvir;

- o Brasil melhorou muito em 2023; que 2024 seja ainda melhor!

sábado, 10 de dezembro de 2022

O Brasil não podia ganhar!

 Publicado no Jornal da Manhã em 13/12/2022.

Desta vez não foi tão humilhante como em 2014. Mas não poderíamos ir longe numa copa em que a camisa canarinha carrega simbolismos tão antagônicos. Lembremo-nos, o futebol teve um papel capital no processo de conquista da autoestima do povo brasileiro, resgatando-o do complexo de vira-lata, incutido pelos séculos de colonialismo predatório e escravagismo.

Da marcante atuação da seleção na copa de 1938, com o artilheiro negro Leônidas da Silva, o “Diamante Negro”, até a conquista de 1958, com outro fenômeno negro, Pelé, foram duas décadas de busca da identidade miscigenada e até então segregada do brasileiro. Com as conquistas de 1962, 1970, 1994 e 2002 o futebol definitivamente emancipou-nos.

Depois veio o vexame de 2014. Alguns dizem que a humilhação dos 7x1 para a antes freguesa Alemanha foi um “carma coletivo instantâneo”. A justiça divina teria punido exemplarmente a elite brasileira presente ao estádio no jogo de abertura, que, menos de um mês antes, perpetrara o maior ato de injúria da história das copas, para com a presidenta Dilma Rousseff. Eleita legitimamente, ela era então uma governante empenhada num governo que priorizasse os pobres e reduzisse as abissais injustiças sociais que acometem o país. Foi vítima de um estrepitoso “Dilma, vai tomar no cu”, orquestrado pela elite ressentida e rancorosa por ver questionados o que considera seus privilégios sacralizados.

O vexame dos 7x1 não recaiu só sobre a elite no estádio que proferiu o coro vergonhoso. Recaiu sobre toda a nação, que não soube opor-se ao farsesco processo de afastamento de Dilma, consumado em 2016.

Agora, em 2022, o resultado não poderia ter sido outro que não novo tropeço da seleção canarinha. Até que ela foi longe! O futebol ainda voltará a representar a emancipação do povo brasileiro de sua algoz elite escravagista. Ainda haveremos de comemorar com festa e alegria popular a vitória da habilidade da ginga e do drible, que parece que só a miscigenação de raças e culturas foi capaz de engendrar. Expressão máxima do esporte bretão que nasceu elitista e  segregacionista, e tornou-se o maior espetáculo mundial quando alcançou as várzeas e as massas.

A seleção de 2022, cindida como o povo brasileiro num cisma político-ideológico sem precedentes, não poderia ir mais longe. Voltaremos a conquistar um título quando a camisa canarinha voltar a representar um ideal de nação e de um povo libertos, e não a expressão de ressentimento de uma parcela da população inconformada e desinformada, que não quer abrir mão de seus sovinas privilégios, não quer compartilhar as riquezas que nunca se sacia de pilhar e acumular. Tal qual o craque que, cegado pelo egoísmo e o deslumbre, apesar de já celebrizado não consegue jogar o jogo coletivo do time; tem sempre que jogar antes o jogo para si mesmo. E não percebe que ambos perdem, ele e o time.

Perde junto a nação, que enquanto não conseguir superar o egocentrismo de parte da população, vai amargando a espera. Mesmo com a melhor seleção do mundo, e o melhor país do mundo, ainda continuará perdedora.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

Filme “O milagre” – retrato da natureza humana

 

A Netflix está exibindo o filme “O milagre” (direção de Sebastián Lelio, Irlanda, Reino Unido e EUA, 2022, com Florence Pugh e Niamh Algar nos papéis principais). Imperdível. A começar pelo primor da ambientação em meados do século XIX. O filme trata da “observação” de um aparente milagre no seio de uma isolada e pobre família de camponeses da Irlanda: uma adolescente de onze anos mantinha-se saudável após meses sem se alimentar, e assim tornava-se uma notoriedade regional que atraía curiosos e devotos.

O conselho de notáveis do vilarejo resolve contratar uma enfermeira ─ vinda de Londres ─ e uma freira para verificar o milagre e produzir, em duas semanas, um relatório a respeito. A enfermeira deveria realizar a observação racional do fenômeno, a freira seria a visão pelos olhos da fé.

Os eventos da trama que se sucedem nas duas semanas de observação são uma metáfora em que se consubstanciam fatos históricos da Irlanda em ambiente ainda vitoriano, a natureza e o comportamento humanos, estes atemporais. Uma mescla inextricável de componentes racionais e irracionais, objetivos e subjetivos, conscientes e inconscientes. Um constante caminhar entre a realidade cotidiana e as profundezas do psiquismo dos personagens.

A adolescente milagrosa, sua família em busca de publicidade, seu irmão falecido, a enfermeira e seus traumas pregressos, a freira e sua fé obediente, o conselho de notáveis do vilarejo e o jornalista vindo de Londres para noticiar o milagre têm suas existências, conhecidas e desconhecidas, emaranhadas numa urdidura que é o retrato possível da indecifrável natureza humana.

O desfecho do filme é um clímax de riqueza impressionante: cada personagem assume uma explicação própria para o enigma do milagre. O que vale dizer desde a visão beatificada da freira até a conclusão legalmente chancelada do conselho de notáveis, passando pela imersão nas nebulosas razões psicológicas do fenômeno e nos engenhosos artifícios, consentidos e não consentidos, para resolvê-lo.

Quer ver um filme que nos transporta para o insólito da natureza e do comportamento humano? E ao mesmo tempo apresenta surpreendentes e factíveis soluções? Veja “O milagre”. Ele contribui para instigar-nos na busca da compreensão dos inexplicáveis desatinos que têm acometido a sociedade em que vivemos.