quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Feliz 2019, Brasil!

Publicado no Jornal da Manhã em 27/12/2018 e no Diário dos Campos em 29/12/2018.

Brasil, que em 2019 você se dê conta de sua grandeza. Há cinco países que reúnem tamanho do território, população e valor da produção (PIB) que os credenciam para potências mundiais: EUA, China, Rússia, Índia e Brasil. Nós, talvez junto com a Índia, ainda não acordamos para a nossa grandeza. Que acordemos, e deixemos de estar deitados eternamente em berço esplêndido. Sim, nosso berço é esplêndido. Nosso território tem riquezas que nenhum outro tem: petróleo, minérios estratégicos, solos agricultáveis, rica biodiversidade, água boa e farta, abundante energia solar. E temos também vantagens humanas: conformidade de idioma, cultura, religião.
Que acordemos também para a dignidade. Se nossa história nos fez sempre colônia explorada, que tomemos a decisão de deixar de sê-lo. Hoje a dominação não mais se faz com canhões e fuzis, mas com a manipulação da informação, da economia, a corrupção de autoridades locais. Os assassinatos não são mais de pessoas, mas de economias, de nacionalidades, de identidades, de dignidades. Que tenhamos o amor próprio e o discernimento para enxergar quem são nossos verdadeiros inimigos, e não deixemos que eles nos roubem a honra, a probidade e os sonhos.
Que 2019 seja um ano de reconciliação. Que sejamos capazes de superar conflitos pela diferença de ser e pensar. Antes de tudo, uma sociedade tem de ser livre, inclusiva. Os ódios que têm sido cultivados entre nós não são úteis ao Brasil. São úteis àqueles que invejam nossas riquezas, e temem que nos emancipemos e delas desfrutemos nós mesmos. Esses ódios são estranhos a nós. Têm sido cultivados por interesses estrangeiros que não querem nos ver bem sucedidos. Que acordemos para a cobiça externa que quer ver nossa discórdia e fracasso.
Que compreendamos que reconciliação inclui aqueles que marginalizamos. A raiz do crime e da violência é a miséria, material e moral. A forma mais eficaz de combatê-la é a justiça e a inclusão social. Se lhe for dada a chance de ser um cidadão digno, a esmagadora maioria vai escolher a dignidade, não o crime. Que em 2019 saibamos fazer com que a escolha pela inclusão e dignidade vença a escolha pela exclusão e o crime.
Que em 2019 tenhamos consciência do maior valor do ser humano: a liberdade. Que compreendamos que o custo da defesa da liberdade, o engajamento, o enfrentamento, o desassossego, o desgaste, é irrisório se comparado ao custo de sua perda. A liberdade é o bem essencial para alcançarmos a dignidade, a identidade. E a liberdade começa com a de podermos viver de acordo com nossa natureza. É preciso respeitar as singularidades de um índio, um negro, um asiático, um europeu, um mestiço. A educação não pode abdicar de transmitir valores primordiais como verdade, justiça, soberania, honestidade. Nem pode deixar de perscrutar a História no resgate de aprendizados essenciais para o funcionamento das sociedades. Nem pode ser acusada de doutrinadora ao fazê-lo.
E o maior voto para o ano de 2019: que o imenso desejo de mudança do Brasil se concretize. Que a esperança de superar os desmandos das autoridades e a violência dos excluídos criminalizados gere uma energia de transformação irresistível. Que a probidade e a solidariedade do cidadão simples e honesto varra a desfaçatez enraizada nos poderosos. Que o ímpeto de emancipação debele a violência da intolerância e da miséria.
Se os brasileiros acreditarem no Brasil livre e grande, assim será o Brasil.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Militarismo e servilismo

 Publicado no Jornal da Manhã em 07/12/18.


Conheci certa vez dois fidalgos oficiais de exército, um francês, mais envelhecido e maduro, outro português, de meia idade. Encontrávamo-nos num evento científico, eles já não eram mais militares da ativa. Tivemos oportunidade de nos conhecer bem, fizemos juntos uma viagem de estudos de vários dias pelo Maciço Central francês. Os dois eram ótimas pessoas, tenho-os em alta conta, embora desde então, já lá se vão mais de três décadas, nunca mais os tenha encontrado. Mas não esqueço até hoje o que aprendi com eles.
Naquela viagem, conversa vai conversa vem, constatei que o francês era um fervoroso defensor do militarismo. Ele alegava que só o regime militar consegue garantir a disciplina, e com ela a ordem e o progresso. Segundo ele só a hierarquia militar consegue fazer com que cada um cumpra suas obrigações com eficiência e probidade.  Contestei, argumentei que disciplina, honestidade, comprometimento e ordem podem ser alcançadas num ambiente de liberdade, responsabilidade, respeito e justiça sem a necessidade da obediência cega que é a lei dentro da caserna, onde as ordens superiores têm de ser cumpridas sem questionamento. O francês não concordou comigo, mas notei que o português, embora calado, pareceu estar do meu lado.
Mais tarde naquele mesmo dia, quando estávamos só eu e o oficial português, ele me contou sua marcante história. Ele tinha se tornado oficial muito jovem, vindo de família tradicional, na época em que todos os jovens portugueses eram obrigatoriamente enviados pelo menos por um período para as guerras de independência das colônias portuguesas na África. Ele fora destacado para Moçambique, e de lá trazia uma experiência trágica. Obrigado a seguir ordens superiores, ele conduzira um grupo de oitenta comandados a uma emboscada de morte, já quase ao final da guerra. Embora ele suspeitasse da emboscada, seus argumentos não tinham convencido os superiores, que, por certo, eles mesmos não participaram da operação. O semblante e a voz do oficial português ao contar-me essa história são inesquecíveis. Ele se considerava o culpado por todas aquelas mortes.
Lembro também da canção de 1968 que se tornou hino dos jovens inconformados que resistiam à ditadura militar no Brasil, a belíssima “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, que tem uma estrofe que diz: “Há soldados armados, amados ou não/Quase todos perdidos de armas na mão/Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição:/De morrer pela pátria e viver sem razão”. O oficial português e seus comandados encarnaram bem o que dissera anos antes a canção brasileira.
Quantas guerras, quantas ditaduras, quantas tiranias ainda teremos que viver até aprender que é possível a justiça, a honestidade, o respeito sem a necessidade da obediência cega às ordens que muitas vezes equivocam-se, pois a hierarquia é feita de pessoas, e as pessoas ora equivocam-se ora são servis a interesses inconfessáveis? Quantas agruras ainda teremos que viver até compreender que é possível construir uma sociedade de cidadãos conscientes, probos e engajados, em que instituições democráticas e sólidas garantam que o nosso lado selvagem mantenha-se controlado pelo nosso lado civilizado sem a aberração da obediência cega e do servilismo? Quantos fracassos ainda teremos que amargar até compreender que é preferível o desassossego da participação e do enfrentamento sadio de diferentes pontos de vista do que a omissão, a submissão e o servilismo que advêm do conformismo e do totalitarismo?
Há filósofos e sociólogos atuais que afirmam que nossa civilização está muito complexa, e as pessoas preferem delegar a responsabilidade por tudo que acontece a “autoridades” do que assumirem elas mesmas a responsabilidade por suas vidas e a vida da coletividade. Estaríamos nós renunciando à liberdade? Desacreditamos da possibilidade de uma sociedade livre, democrática e virtuosa? Estaríamos preferindo a obediência cega da hierarquia militar às atribulações e desafios da construção de uma verdadeira e duradoura democracia?
Napoleão, Mussolini, Hitler, Idi Amin, Pinochet, Saddan Hussein, entre tantos outros exemplos, parecem nos indicar que regimes militares são desastrosos para os países e os povos que os adotam. A sociedade é mais que seus militares. E eles, como regra, aprenderam que é preciso morrer pela pátria e viver sem razão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Livre arbítrio



Nos inalcançáveis firmamentos celestiais, o Mestre, circunspecto, inspecionava sua grande bola de cristal (ou seria uma nuvem de plasma suavemente manipulada?). Do outro lado, Pedro, seu fiel imediato, verificava painéis e planilhas luminosas que pareciam flutuar no ar. O Mestre pareceu intrigado, e, como sempre, apelou para Pedro:
─ Pedro, o que está acontecendo lá naquela joia única no universo, que reúne todas as improváveis condições para dar suporte à vida, a Terra? No meu monitor aparece uma frequência vibratória indicativa de instabilidade...
─ De fato Mestre, a Terra vem passando por um período de desequilíbrio. Um retrocesso civilizatório. Mas isso é normal, é assim que a humanidade evolui, lembra-se? Aquela espécie experimental que colocamos por lá? Pois eles no começo eram bandos errantes, depois agruparam-se e protegeram-se em cavernas. Com o tempo, começaram a cultivar e ter reservas de alimentos para os invernos ou secas mais rigorosos. Juntaram-se em cidades, desenvolveram linguagens e meios de comunicação, aprenderam a transmitir conhecimentos. Evoluíram muito, das cavernas hoje estão em cidades sofisticadas, têm surpreendentes e compactos equipamentos e tecnologias de comunicação que carregam no bolso...
─ Mas, com tanta evolução, por que você fala em retrocesso?
─ Bem, eles evoluíram muito na tecnologia, mas ainda pouco em ética, em sentimentos, em espiritualidade, em discernimento. São ainda bastante parecidos com os primatas de onde vieram. Dentro deles ainda existe o réptil, o primata ancestral, mas já desperta também o ser humano já quase divino. O que está acontecendo nestes tempos ditos de retrocesso é que o réptil e o primata primitivo estão sendo muito estimulados por tudo o que anda acontecendo por lá. Agressividade, competitividade, truculência, desonestidade, mentira têm sido muito mais valorizados que pacifismo, cooperação e urbanidade.
─ Como pode ser isto? Se já foram melhores, como é possível regredirem?
─ A história do planeta, e da humanidade, tem sido uma sucessão de progressos e retrocessos. Felizmente, no final das contas sempre o progresso é maior que o retrocesso, e continuam evoluindo. Veja por exemplo o caso do Brasil, lembra? Aquele país especial onde o Mestre colocou benesses incomparáveis mas um povo recalcitrante que tinha ainda muito o que aprender?
─ Lembro, lembro, claro. É nossa esperança que aquela mistura de índoles, de raças, de credos, de nacionalidades conduza aquele povo a uma percepção da riqueza da diferença e da tolerância. O que anda se passando por lá? Eles têm aprendido a respeitar-se e a compreender-se?
─ Então, as coisas por lá andam bem complicadas. Ainda não conseguimos avaliar bem o que significam...
─ Como assim? Perdemos o controle?
─ Mestre, como sabes, nosso controle é relativo. Procuramos influenciar para a evolução, mas sempre deixamos que eles decidam seu destino. É o princípio do livre arbítrio que não podemos nunca transgredir.
─ E o que anda acontecendo por lá?
─ Pois depois de mais de vinte anos de um regime em que os militares mandavam, a justiça não valia para quem pensava diferente deles, o congresso não tinha liberdade de decisão, em que muitos crimes contra os direitos humanos foram cometidos, a pressão da sociedade enfim resgatou um regime democrático. Elaboraram uma nova constituição e viveram uma fase de relativa liberdade que durou trinta anos. Mas não souberam superar a corrupção e a sanha dos outros países, invejosos das muitas benesses que colocamos lá, e que não vacilam em cooptar vassalos entreguistas dentro do próprio país. Os políticos, juízes, dirigentes caíram em descrédito. Aí apareceu um novo líder dizendo-se a salvação contra a corrupção e a insegurança. Exalta a violência das armas e os torturadores, menospreza o meio ambiente, a educação, os trabalhadores, as minorias. E o povo, confuso pela enxurrada de informações mentirosas e amedrontado com a desfaçatez dos poderosos votou nele em massa. Um fenômeno. Mas até agora não se sabe bem se ele é a solução dos problemas, ou se é um fantoche manipulado pelos invejosos que querem saquear as riquezas do país. Tanto seres humanos de índole violenta, que viram nesse fenômeno um comparsa, como gente de bem e pacíficas mães de família votaram nele na sincera esperança de uma mudança que signifique principalmente o resgate da honestidade e segurança.
─ Mas isso é um anseio nobre e justo! Não é, Pedro?
─ Sim, parece que sim. Vamos ver. Mas é possível que honestidade e segurança sejam ilusões, engodos que estão sendo imputados ao povo. Na verdade, o fenômeno pode vir a ser o fantoche que vai entregar o país aos interesses estrangeiros. Ele tem declarado que vai privatizar empresas nacionais estratégicas. E demonstra incompreensão das causas ambientais, causas indígenas, inserção social de imigrantes e minorias. Está no sentido contrário da tolerância que pretendíamos. E tem uma ideia de educação que ultraja o que pensam verdadeiros educadores. Confunde liberdade de pensamento, de expressão e debate com doutrinação. E acaba defendendo a censura, o cerceamento de ideias.
─ Mas Pedro, todos sabem que não damos asas a cobras. Será que seria o caso de interferência do nosso Departamento de Inspirações Civilizatórias?
─ Já fizemos isso. Estão sendo enviadas as vibrações para inspirar povo e dirigentes para que o enorme impulso para mudança seja no sentido da solidariedade, nosso principal valor. E da inclusão social e tolerância do diferente e também para a soberania do país frente à rapinagem internacional. Mas, sabe como é. Na verdade depende deles. Nossa influência é limitada. O livre arbítrio, a vontade deles, é mais forte do que o que podemos influenciar.
─ Por isso detecto a instabilidade por lá no meu monitor plasmático! Tomara que as inspirações que temos enviado surtam efeito. Tomara que percebam que muita coisa que acontece por lá visa fazer o país regredir e entregar suas riquezas para a cobiça internacional. E que isso divide e povo e acende rancores e preconceitos. Tomara que aquele povo e seus dirigentes despertem, percebam que têm tudo para ser um exemplo para o mundo.
─ É, mas primeiro têm que ser capazes de pensar com a própria cabeça. Têm que deixar de ser deslumbrados e condicionados pelas fabulosas tecnologias de comunicação e manipulação que inventaram e que estão fascinando-os...

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Ponta Grossa no divã II

Publicado no Jornal da Manhã em 22/11/18 e no Diário dos Campos em 23/11/18.

Em março passado foi publicado o texto Ponta Grossa no divã, que lembrava bizarrias que marcam a cidade: o mito da maldição do beato João Maria; a única cidade brasileira que deu vitória a Guilherme Afif Domingos; a associação de empresários punida pelo Ministério Público por pregar que beneficiários de programas sociais não pudessem votar; a mesma associação que apoia o general que defende a intervenção militar; a vereadora que simulou o próprio sequestro; o time de futebol de altos e baixos...
Outras bizarrias que levaram o nome da cidade aos jornais nacionais poderiam ser lembradas: a biblioteca com as paredes todas de vidro, inclusive as dos banheiros; os bordéis de menores ao longo da rodovia que atravessa a cidade; a criminosa explosão da loja de fogos de artifício pelos inconformados concorrentes...
Mas Ponta Grossa não é feita só de bizarrias: é uma cidade polo de uma região singular; congrega importante parque industrial e agronegócio com notável patrimônio natural; abriga universidades públicas consolidadas com marcante influência regional; é cidade média conectada à capital e tem atraído empreendimentos industriais, imobiliários, da área de saúde e comércio de monta; tem boa infraestrutura e oferece qualidade de vida muito superior às grandes cidades; é pródiga no recurso natural mais estratégico do Século XXI – a água de qualidade.
Justamente por coexistirem na cidade atributos e interesses tão diversos, Ponta Grossa tem potencial para tornar-se um exemplo, para o Brasil e o mundo, de convivência frutífera. A sabedoria do ser humano há de ser capaz de compreender que o convívio harmonioso dos diferentes enriquece. Ainda aprenderemos isto, superando os instintos primários que nos movem à ambição desmesurada, à competitividade e à violência.
Mas uma parcela da população ponta-grossense parece teimar em reproduzir bizarrias na cidade. Reitera a necessidade de uma segunda sessão no divã. A última foi o manifesto-censura ao Reitor da UEPG, publicado em jornais no dia 20 de novembro. O Reitor é censurado por enaltecer a cultura no momento em que, segundo suas palavras, tenta-se amordaçar a arte, o pensamento, a liberdade de cátedra. Ainda segundo ele, o tradicional Festival Nacional de Teatro promovido pela Universidade continua a ser uma bandeira democrática hasteada em céu turvo.
Surpreendente como estas palavras puderam alvoroçar essa parcela da população da cidade. No meu entender, deve ser aquela parcela que ainda não atinou que já não estamos mais no tempo das sesmarias nem da monarquia. E que, sem conseguir identificar-se com o espírito republicano, almeja que se instale um mando militarista, que sempre traz consigo o autoritarismo, a truculência, a iniquidade.
A Universidade não se destina somente ao ensino e à pesquisa. Nem a formar técnicos e professores sem discernimento. A Universidade destina-se a formar antes de tudo cidadãos responsáveis, com qualificação técnico-científica, para assumir posições profissionais na vida respeitando princípios civilizatórios. Se não formamos cidadãos, arriscamos formar um especialista em práticas nefastas, sejam elas os golpes financeiros, a propagação de mentiras, a manipulação das massas, as máquinas de matar e destruir. O cidadão é formado com valores éticos, reflexão e discussão do diferente, exercício no contato com a sociedade através dos projetos de extensão, dos projetos culturais como o Fenata e tantos outros.
A Universidade deve ser capaz de inspirar a sociedade a progredir. Não deve ser uma reprodutora das limitações da sociedade. Por isso a sociedade investe nela. Na esperança de que ela seja o farol a mostrar caminhos para o progresso social. E por isso há tantos protocolos regulando o ingresso e a permanência nos quadros da Universidade.
E o Reitor, mais que ninguém na Universidade, deve sim defender a liberdade de expressão, inclusive a sua própria. É o saudável embate de opiniões que conduz às alternativas mais adequadas para cada situação. Do contrário estaríamos ignorando a ideia de “banalidade do mal” de Hannah Arendt, que esclarece que dirigentes sem a coragem de contrapor-se a barbáries institucionalizadas são os responsáveis pela ascensão de regimes de terror, como o foi o nazismo na Alemanha.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

A vida e as armas

Publicado no Jornal da Manhã em 08/11/18 e no Diário dos Campos em 10/11/2018.

Assustei-me de perceber uma possível conexão entre temas que podem parecer tão desconexos: o livro/filme “Contato”, de Carl Sagan, a série “Cosmos” do mesmo astrofísico, o documentário “Vida Extraterrestre” da série “Explicando” da Netflix, o filme “Vida” de Daniel Espinosa (2017) e, por fim, o fenômeno de ascensão da extrema direita no mundo, incluindo Bolsonaro no Brasil.
Em “Contato”, “Cosmos” e “Vida Extraterrestre” aparecem questões cruciais: por que não temos notícias de outras civilizações, visto que, dada a vastidão e idade do universo conhecido, é de se supor que não tenhamos sido a única espécie inteligente a surgir no mundo? Se existem outras civilizações, como elas teriam ultrapassado sua adolescência tecnológica? Se não existem, teriam elas todas se extinguido durante essa tal adolescência tecnológica?
Em “Vida”, uma ficção científica quase terror, os humanos, supostamente seguros na estação orbital internacional, cultivam um organismo unicelular dormente, encontrado a baixíssimas temperaturas no solo de Marte. Para deslumbre dos pesquisadores, assim que estimulado o organismo desperta e desenvolve-se. Mas o que no início parecia um ser gracioso e amistoso, ao desenvolver-se foge do controle, passa a ser uma ameaça, os cientistas tentam exterminá-lo. Então o organismo alienígena revela uma qualidade implacável: a luta pela sobrevivência. Surpreende a todos, quebra todos os protocolos de isolamento e segurança vigentes na estação orbital laboratório.
Se pensarmos um pouco, o mesmo instinto implacável pela sobrevivência é o que tem guiado a evolução das espécies no planeta Terra. O nosso desígnio primordial é sobreviver, nossos instintos básicos são de competição para superação dos competidores, reais ou imaginários. No passado do planeta, fenômenos naturais tais como mudanças na composição da atmosfera, congelamentos planetários, queda de meteoritos, promoveram extinções em massa que propiciaram o desenvolvimento de novas espécies melhor adaptadas. Foi assim que os mamíferos prosperaram após o declínio dos répteis decretado pela queda do grande meteorito há sessenta e cinco milhões de anos.
Agora talvez estejamos vivendo a adolescência tecnológica da humanidade. Nossa engenhosidade já nos permite construir artefatos para destruir o planeta, já somos capazes de desencadear o aquecimento global ou de degradar a atmosfera a ponto dela não mais nos proteger da radiação solar, somos capazes de poluir os mares, as águas doces, os solos, o ar, somos capazes de ameaçar a biodiversidade e o equilíbrio ecológico, somos capazes de manipular a informação divulgada globalmente e induzir populações inteiras ao consumo, ao desentendimento, à intolerância, à guerra... Não são mais os fenômenos naturais que estão no limiar de promover mudanças globais.
A engenhosidade humana desenvolveu-se aparentemente sem que tenha sido acompanhada pela evolução ética e espiritual. Somos capazes de comprometer todos os sistemas naturais que são os responsáveis pela manutenção da vida na Terra, inclusive a nossa vida. Passamos a ser a espécie dominante no planeta, superpovoando-o, mas não logramos aprender regras básicas de convivência de modo a preservar direitos equitativos, a garantir o respeito à diversidade e a coexistência pacífica.
A ascensão da extrema direita no mundo, marcada pela intolerância e violência, parece resultar destes dois fatores: primeiro, nossos implacáveis instintos de sobrevivência, que nos fazem competitivos e agressivos; segundo, a nossa adolescência tecnológica, já somos capazes de destruir o planeta e a humanidade, mas ainda não somos capazes de controlar nossos atos e avaliar suas consequências.
Será a humanidade capaz de guiar-se não só pelos instintos básicos de sobrevivência? Será capaz de ultrapassar o crítico momento da adolescência tecnológica para alcançar um estágio de temperança, tolerância e paz?

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Os cinco problemas do Brasil


Poderíamos dizer que os cinco problemas que estão nos fazendo crer que abalam o Brasil sejam a corrupção, o ódio, o complexo de vira-latas, nossa colonização predatória, a história de país escravocrata e exterminador de indígenas. Com certeza todos estes fatores contribuem para o que somos hoje como povo e nação. A corrupção arraigada corrói nossas riquezas e nossa moral. O ódio gera a desunião que impede a solidariedade para o progresso. O tão falado complexo de vira-latas faz-nos sempre almejar o ideal estrangeiro. A colonização predatória, que nos fez quintal rapinado até que para cá veio em fuga a família real portuguesa, nos fez um país sem alma. A prolongada escravatura e a extinção dos indígenas só reforçaram os traços mais primitivos, segregacionistas e cruéis da índole humana.
Alguns desses fatores demandam reflexão. No momento vivemos um surto de ódio sem precedentes, inimaginável para o antes tido como cordial povo brasileiro. O país da miscigenação de raças deveria ser um exemplo de tolerância. Mas não. Ódio entre ideologias, entre classes sociais, entre nordestinos e sulistas, entre os de pele clara ou escura, entre as opções de gênero, religião ou time de futebol. Nunca as diferenças foram tão demonizadas. Carece relembrar como foi, e porque foi, acirrado esse ódio tão generalizado. Convém lembrar que o ódio, ao longo da História, tem sido a arma principal dos dominadores para subjugar os dominados. “Dividir para conquistar”. No Brasil há décadas vem-se cultivando a semente do ódio. Durante a ditadura militar jovens idealistas e nacionalistas cujo crime era pensar e se manifestar eram tachados de subversivos, fazia-se crer que eram o mal da nação. Hoje a mão de ferro dos militares foi substituída pela grande mídia, pelo whatsapp e as mentiras, tantas vezes repetidas que viram verdade. Nunca antes apelou-se tanto para o reflexo condicionado, que obtém respostas irrefletidas tanto de cães de laboratório quanto de mães de família e cidadãos de bem.
Mas os cinco verdadeiros problemas do Brasil são outros. São o petróleo, os minérios, a água potável, a biodiversidade e os solos agricultáveis. Não há riqueza igual no planeta reunida num único país. E essa riqueza gera cobiça dos poderosos. Que não querem ver seu poder ameaçado, e investem pesado para que por aqui nunca prospere uma nação com o povo unido em torno do ideal de justiça social e soberania. Fomentam o ódio, a corrupção, a mentira, a confusão e a divisão. A velha fórmula dividir para conquistar ainda funciona muito bem, renovada com as fantásticas novas tecnologias de informação. Elas evoluíram muito mais rapidamente que nossa capacidade de assimilá-las judiciosamente.
Se sonhamos despertar do berço esplêndido e nos tornarmos uma nação justa, próspera, livre, soberana, antes temos que despertar para quais são os verdadeiros problemas do Brasil.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O grande erro do PT

Publicado no Jornal da Manhã em 11/10/2018.

Durante a campanha eleitoral, martelou-se a ideia de que a disputa estava polarizada entre o extremo radicalismo da esquerda e o radicalismo extremo do fascismo. E agora, após os resultados do primeiro turno há quem desesperadamente entenda que estamos entre o bolivarianismo e o nazismo.
Mesmo antes, mais agudamente desde 2013, o PT tem sido estigmatizado como o partido da corrupção. Vamos voltar a 1989, quase trinta anos atrás. Na primeira eleição direta pós-ditadura, Lula surpreendentemente chegou ao segundo turno, e ameaçava ganhar as eleições do caçador de marajás criado pela Globo, Fernando Collor. Na semana que antecedeu a decisão do segundo turno vários acontecimentos: o uso passional dos depoimentos de uma ressentida e rancorosa ex-companheira de Lula; a vergonhosa edição do debate Lula X Collor pela Globo beneficiando o caçador de marajás; o estouro do cativeiro de Abílio Diniz na véspera da votação transmitido em rede nacional em tempo real, os sequestradores vestindo camisetas do PT. Só anos mais tarde reconheceram-se as provas de que as camisetas foram criminosamente impostas aos sequestradores, que não tinham nada a ver com o partido. E que a Globo manipulou o debate, e que a ex-companheira era uma irremediável ressentida.
Ou seja, mesmo antes da pecha de partido da corrupção, o PT há muito tempo vem sendo demonizado. Tentaram antes imputar-lhe a pecha de partido dos terroristas e sequestradores, que não colou. E a pecha de único partido da corrupção só colou pelo incomensurável empenho midiático e judicial de exaltar os malfeitos de quadros do PT e esconder aqueles de todos os outros partidos, que igualmente os cometem. Porque infelizmente a corrupção é um ingrediente inescapável da sórdida política brasileira.
A demonização do PT não terminou. Quem não viu Adélio Bispo, o agressor do atentado a Jair Bolsonaro, legalmente considerado perturbado e fanático, vestindo camiseta vermelha quando foi transferido de presídio na semana que antecedeu o primeiro turno? Não conseguiram provar, embora tenham muito tentado, ligação do agressor com o PT, então enfiaram-lhe a camiseta vermelha, um apelo subliminar sem palavras a reflexos condicionados que têm sido inculcados a décadas.
E ligar o PT ao risco do Brasil virar uma Venezuela parece-me a apoteose do desvario dos comportamentos condicionados e dos consensos construídos que por muito tempo serão objeto de estudo de cientistas políticos, psicólogos e sociólogos. O Brasil e a Venezuela têm sim algumas coisas em comum. A primeira delas é terem grandes reservas de petróleo, a principal fonte de energia e matéria prima mundial, e cujo controle está na mão de transnacionais que não toleram qualquer ameaça a seu cartel. A segunda é que os dois países tiveram governos que ousaram sonhar com a soberania nacional, inclusive sobre suas reservas petrolíferas. Mas comparar o PT com o que se passa na Venezuela é uma cegueira só explicável pela facilidade com que o ser humano, tal como os cães de Pavlov, é controlado pelos estímulos repetitivos e pelo reflexo condicionado.
O grande erro do PT é ser o Partido dos Trabalhadores, que nasceu de lutas sindicais, e não capitula abrir mão dos princípios de inclusão e justiça social e soberania nacional. Se ele fosse o Partido do Mercado, o Partido da Hipocrisia, o Partido do Fisiologismo, o Partido Camaleão, o Partido de Aluguel, o Partido da Elite Entreguista, não teria sido vítima de tão agudo e continuado esforço de demonização.
Esse esforço de demonização criou o fenômeno Bolsonaro. Agora os criadores desse fenômeno parecem estar confusos, assustados com sua criatura.