quinta-feira, 26 de maio de 2016

Anatomia da crise

          Nunca se ouviu falar tanto de crise no Brasil. Talvez só na Alemanha nazista tenha sido tão colocado em prática o princípio de que uma inverdade incansavelmente repetida passa a ser percebida como uma verdade. Falava-se na crise do governo Dilma, agora fala-se no governo interino que vai tirar o país da crise. Será?

          O governo interino já vai mostrando a que veio: mudanças na aposentadoria, arrochando os direitos dos trabalhadores; aumento de impostos; desvinculação de orçamentos, ou seja, diminuição das verbas, para saúde, educação, moradia e outros setores básicos; o ato falho, depois remediado, de extinguir o Ministério da Cultura (acabar com a educação e a cultura é o caminho para manter as massas ignorantes e manipuláveis); a indicação de um ministro expoente do governo interino que é flagrado afirmando que é preciso acabar com as investigações contra a corrupção, e que diante das câmeras nega descaradamente suas afirmações; as declarações de intenção de privatização de setores estratégicos que, pelo menos em parte, ainda resistem estatais, como educação, saneamento, energia e petróleo; as afirmações sobre mudança de leis trabalhistas em prejuízo dos trabalhadores... Até onde vai esta lista de deslealdades com o país e seu povo?

          E o pior, o governo interino age de uma forma que não lhe cabe outra expressão que não golpe, ou, como dizem alguns, um monumental retrocesso. Alguns não querem que a palavra “golpe” seja utilizada. Mas como é possível que um vice-presidente que foi eleito com um programa de governo, ao ser alçado interinamente à presidência passa a praticar o programa de governo da ala que perdeu as eleições? Onde está o caráter desse vice-presidente, e de todos que o apóiam, ao contrariar o resultado das eleições aproveitando-se de um momento de governo interino que poderá deixar de existir em algumas semanas?

          E o que está por trás do golpe? Historiadores já têm insistido que o Brasil, país que por mais tempo manteve o regime escravocrata, ainda não conseguiu emergir do abismo social entre casa grande e senzala. A maior parte de nossas elites econômicas, sociais e culturais comporta-se como senhores de engenho que consideram o país sua propriedade, e não abrem mão do “direito” de explorar e oprimir aqueles que consideram pertencentes à senzala, ou seja, o povo. São elites atrasadas, que ainda não perceberam que as sociedades mais equitativas têm menos conflitos, menos crimes, mais harmonia e qualidade de vida, e nelas todos saem beneficiados.

          E a propalada crise? A crise é resultado de uma sabotagem também colossal. A começar pela grande mídia, que repete o bordão crise a todo instante, que manipula informações em favor de uma parcialidade assustadora. Não é exagero a expressão “massacre midiático” que se tornou comum nos últimos anos. E a elite econômica faz sua parte. Fiel ao seu apego à casa grande, não deseja ver a ascensão econômica e social da senzala. Não apóia o governo que age em nome dessa ascensão. Boicota investimentos produtivos, promove o desemprego, propicia a inflação e o retrocesso também no crescimento econômico do país.

          Criou-se a crise para justificar o golpe. E o golpe, onde nos levará?

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Decifrando a charada

          A data era 1973, estávamos no terceiro ano do curso de Geologia da USP. Na disciplina de Paleontologia fizemos uma excursão de estudos para Ponta Grossa, para coleta e análise de fósseis devonianos que são abundantes, e mundialmente famosos, nas rochas do subsolo da cidade.

          Quase nada me lembro daquela viagem. Lembro que, graças à presença de um professor que fora do exército, conseguimos pernoite e café da manhã num dos quartéis da cidade, já não me lembro qual. Dormimos num alojamento muito bem arrumado, as camas tinham grossos e verdes cobertores de algodão, apropriados para o frio que fez naquela noite. No café da manhã, iogurte natural e bolos, um dos colegas alunos comentou que aquilo era café da manhã de oficiais, estávamos tendo tratamento especial.

          À saída do quartel, após o café da manhã, nosso ônibus, com quarenta estudantes a bordo, foi barrado na guarita da portaria. Após inspeção, constatou-se que faltava um dos cobertores no dormitório. O ônibus não seguiria viagem enquanto o cobertor não aparecesse. E ele logo apareceu, tinha sido “esquecido” dentro da mochila de um dos colegas mais atrevidos. E seguimos viagem.

          Mas a recordação forte daquela viagem não foi o episódio do cobertor, nem os fósseis devonianos. Na noite em que pernoitamos na cidade, depois da janta e antes de nos recolhermos ao quartel, num grupo de uns vinte alunos saímos perambulando pelas desertas ruas próximas até encontrarmos um boteco ainda aberto, que servia a cerveja que estávamos a procurar. Depois de algumas cervejas e do emergir da alegria e descontração que um tal encontro desperta, o Saul inventou de organizar um jogo, um desafio para decifrar uma charada. E habilmente organizou os colegas em torno de uma mesa, sobre ela esparramou alguns palitos de fósforos e disse que eles representavam um número de zero a dez. Tínhamos que descobrir qual era o número.

          Após algumas tentativas alguém acertava ao acaso, e Saul ia rearranjando os palitos, até que alguém acertava de novo. Rearranjo após rearranjo, Saul revelava-se um artista. Ora aumentava ora diminuía o número de palitos, chegava a ter dezenas ou apenas dois ou três deles arranjados sobre a mesa, redirecionava os palitos, afastava-os, aproximava-os, girava-os, unia ou separava as cabeças inflamáveis, fazia parecer estar exercendo uma complicada arte de cálculo com muitas variáveis, para chegar ao número cifrado no arranjo dos palitos. E os números eram os mais inesperados! E ninguém conseguia descobrir a lógica, os acertos eram casuais, por tentativa e erro.

          Até que um dos colegas mais matreiros, o Kalu, descobriu! Saul pediu-lhe que fizesse segredo até que os demais fossem descobrindo, o que de fato foi acontecendo. A última a não decifrar o enigma foi a Cristina Mulata, uma das três meninas na turma onde dominavam os meninos. E isso foi motivo de regozijo geral. Logo ela, uma das mais cdf’s e queridas da turma, e uma menina, foi o alvo de todas as zombarias da noite. E a Mulata estava inconformada, tentara todas as possibilidades lógicas para decifrar o arranjo dos palitos, sem sucesso. Até que desistiu.

          O que ela não percebera, na sua honestidade e ingenuidade, é que os palitos eram só um engodo para distrair os desatentos. O número a ser descoberto era na verdade mostrado pelos dedos não recolhidos que as duas mãos do Saul discretamente colocadas sobre a borda da mesa exibiam. Uma maliciosa distração, que valeu-nos uma noite inesquecível naquele boteco que não consegui reencontrar vinte e três anos depois, quando o destino quis que eu viesse fixar residência em Ponta Grossa, então já pai de família e professor.

          Mas quando me lembro daquela espirituosa charada do saudoso Saul, não consigo deixar de pensar que, a todo momento, somos ludibriados por digressões menos inocentes. Praticadas pelos nada ingênuos dirigentes desta nossa distorcida sociedade.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Monotremos e utopistas

Os monotremos são nossos ancestrais mamíferos, que surgiram há cerca de 200 milhões de anos atrás, no tempo em que dominavam o planeta os répteis, alguns enormes e vorazes predadores. Os monotremos, por sua vez, eram pequenos, alguns com menos de uma grama de peso. Acredita-se que se alimentavam de insetos, nozes e frutas. Existem ainda espécies viventes até hoje de monotremos, a mais conhecida é o ornitorrinco australiano, que parece uma bizarra mistura de réptil, pássaro e mamífero.

No tempo dos primeiros monotremos, um viajante do espaço que observasse a primitiva vida na Terra talvez imaginasse que aqueles pequeninos seres não tinham chances de sobrevivência. Além de sua pequenez, os filhotes nasciam ainda totalmente despreparados para a vida, tinham de ser amamentados e cuidados por suas zelosas mães até que pudessem enfrentar por si sós as agruras da sobrevivência, àquela época muito mais cheia de armadilhas mortais que atualmente.

Mas, quem diria, os monotremos deram origem aos mamíferos, entre os quais nós, seres humanos. E costumamos dizer que somos a espécie dominante no planeta. Será?

Não há como deixar de comparar os monotremos com os utopistas, seres humanos assim chamados por defenderem utopias, ou seja, aquelas quimeras muito evoluídas para além da cruel realidade em que vivemos hoje. Tal como os monotremos, os utopistas ainda são uma discretíssima minoria, parecem frágeis, vítimas indefesas num mundo em que os evoluídos mamíferos, nós, seres humanos comuns, mais parecemos agir como os vorazes répteis do tempo dos monotremos.

Mas talvez, bem como os monotremos, os utopistas sejam a semente de uma linhagem evolutiva que vai gerar uma nova espécie destinada a prosperar, e quem sabe até dominar, este mundo em que vivemos. Ao longo da história, os utopistas, que pregam solidariedade, amor, reverência à natureza e ao próximo, desde Cristo até Chico Mendes, têm sido incompreendidos, discriminados, perseguidos e assassinados.

Mas a lei da evolução parece ser mesmo implacável. O novo pode surgir com ares de fracasso, mas basta-lhe a prova do tempo para mostrar a que veio. A evolução é paciente, perseverante, inexorável.

No caso dos monotremos, duas centenas de milhões de anos foram necessárias para que surgisse a complexa e pensante espécie que denominamos Homo sapiens. E no caso dos utopistas? Quanto tempo será necessário até evoluírem para se tornarem a espécie mais evoluída do planeta? Com certeza terá que ser muito menos tempo. Porque se não evoluírem logo, não restará mais planeta a ser habitado.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Que Brasil queremos?

Publicado no Diário dos Campos em 13/05/2016

         Nestes dias de uma propalada crise e de grave questionamento sobre os rumos do país, podemos contrapor dois modelos: o de um país de cooperação e solidariedade, com a preocupação da justiça, inclusão social e soberania de um lado, ou, por outro lado, um país de irrestritas oportunidades, de livre competição, mas com inevitáveis efeitos na concentração de riquezas, na pobreza alastrada e na subordinação a interesses internacionais.

          Se fosse para utilizar rótulos, seria o país socialista de um lado versus o país neoliberal do outro. Embora esta dicotomia traga implícita a artificialidade das tentativas de classificação de situações por demais complexas, ela é muito esclarecedora sobre o embate de ideologias e modelos de país que estão em discussão neste momento.

          Para refletir sobre os modelos de país, vamos de início desmascarar o problema: não se trata de identificar qual partido, qual ideologia ou quais homens públicos são os responsáveis pela corrupção que corrói a moral e as finanças do país. Infelizmente, a corrupção é um mal histórico, sistemicamente enraizado na sociedade brasileira. E o necessário enfrentamento da corrupção, se tem intenção de ter sucesso, não pode iniciar com a farsa de querer atribuí-la a somente um dos lados do embate político-ideológico em curso. O verdadeiro embate dá-se noutra esfera, que parece alcançar as profundezas da natureza humana: somos mais inclinados a uma sociedade de maior cooperação e solidariedade, para tanto aceitando limites de ganho pessoal, ou somos mais adeptos de uma sociedade de oportunidades ilimitadas, mas com as inevitáveis consequências da exacerbada competitividade e seus impactos ambientais e injustiça social?

          Apesar do inquestionável massacre midiático, a opção pelo país mais solidário, inclusivo e soberano ganhou as eleições de 2014, graças aos votos dos estados mais pobres e de parcela considerável da população dos estados mais ricos, que entende que a solução dos crescentes conflitos e crises sociais e ambientais que vivemos depende de um arranjo social mais justo e inclusivo.

          Mas os adeptos do modelo de livre oportunidade e competitividade não se conformam com a derrota nas urnas, e, como é natural para sua índole competitiva, não aceitam esperar pelas próximas eleições para tentar viabilizar nas urnas seu modelo de país. O que se observa hoje no Brasil é uma extraordinária sabotagem da governabilidade, da economia e da informação, com manipulação de boa parte da opinião pública.

          Nosso planeta encontra-se em profunda crise. Guerras, atrozes atos terroristas, correntes extremistas e segregacionistas só fazem crescer. Os esforços para frear a degradação ambiental e o aprofundamento das desigualdades sociais estão perdendo a batalha para a ambição irresponsável. O país autor do maior atentado terrorista da História, os genocídios de Hiroshima e Nagasaki, ainda é considerado o guardião dos direitos humanos e da liberdade no planeta! Enquanto comete os mais tenebrosos atos em prol da manutenção da sua hegemonia mundial conquistada na Segunda Guerra Mundial (ver o livro “Confissões de um assassino econômico”, de John Perkins, Cultrix, 2005).

        Diante deste preocupante quadro global, o Brasil é um país de imensas riquezas naturais e de diversidade racial e cultural que podem ser um diferencial sem igual para que este seja o país da solidariedade e da qualidade de vida. Mas para isso é necessário que os cidadãos sejam mais cooperativos e menos competitivos. Isto significaria estar sendo fiéis aos verdadeiros ideais cristãos, islâmicos, budistas, judeus, enfim todas as religiões que anseiam pelo ser humano emancipado. Significaria vencermos nossos instintos de sobrevivência herdados de animais acuados que já fomos e assumirmos responsabilidade de discernimento, cooperação e engajamento de seres verdadeiramente civilizados em que estamos nos tornando.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Vinganças divinas II

(este texto dá continuidade ao Estória da criação, postado em 20 de novembro de 2015, e ao Vinganças divinas, postado em 4 de fevereiro de 2016)

          Passado algum tempo no Planeta Terra, que nas intemporais plagas celestiais mal teria dado para retomar o fôlego após a última conversa, o fiel ajudante Pedro voltou a procurar o Criador, visivelmente preocupado:

          ¾ Mestre, Mestre, definitivamente nosso experimento na Terra parece estar regredindo...

          ¾ Calma, Pedro, calma. O que está acontecendo?

          ¾ Ora, depois de um final de Século XX com auspiciosos sinais de prosperidade e liberdade, o início do Século XXI voltou a nos trazer sinais preocupantes. Além do incremento de guerras, intolerâncias, atentados e iniquidades pelo mundo, constata-se um contínuo crescimento das chamadas direitas totalitárias, que já levaram a atrocidades, ditaduras...

          ¾ Repetem-se os erros, Pedro? A humanidade custa a aprender, já sabíamos disso.

          ¾ Mas agora estão passando dos limites, Mestre. No Brasil, aquele nosso país experimento dento do nosso Planeta Terra experimento, está se consumando uma das maiores iniquidades da espécie humana. Lembra-se que, após décadas de ditadura, os chamados anos de chumbo, o país chegou a eleger um homem do povo? E depois uma mulher! E que eles eram governantes que tinham como metas de governo a distribuição de renda, e inclusão social e a soberania do país?

          ¾ Claro que lembro, Pedro. Acabamos de conversar sobre isso. Não estou assim tão decrépito! As coisas não andavam bem por lá, até determinamos a epidemia do zika vírus. Piorou?

          ¾ Sim, Mestre, está piorando! Além do zika, da dengue e de uma tal febre chikungunya, providenciamos o ressurgir da tal gripe H1N1, mais mortal que nunca. E as iniquidades do país continuam superando todos os absurdos de que se tem notícia.

          ¾ Explique-me, Pedro.

          ¾ Acontece que a poderosa elite privilegiada do país, a chamada casa grande, uniu-se com a grande mídia e os poderes legislativo e judiciário. E juntos estão transformando uma pretensa luta interna para vencer um mal secular, a corrupção, na luta para derrubar o governo daquela presidenta eleita pelo povo, que queria acabar com a pobreza e o colonialismo no país.

          ¾ Ora, Pedro, mas isso me parece bem habitual. Já sabemos que, ao longo da história, as elites não querem mudanças, e reagem com violência às tentativas de diminuição da distância que separa pobres de ricos. E com astúcia. Sempre conseguem iludir uma parte do povo de que estão lutando pelos interesses do país e dos pobres. Que velhacos! E que povo manipulável!

          ¾ Mas Mestre, no Brasil estão exagerando. Aquela mulher que se tornou presidenta graças ao apoio de seu antecessor, o presidente operário, está sendo injustiçada e condenada pela elite casa grande, por um parlamento corrupto, uma grande mídia mentirosa e a parcela da população que não consegue discernir as coisas. E logo essa presidenta, que desde jovem foi uma idealista militante pela liberdade e soberania do país, e que por isso foi presa e torturada!

          ¾ Temos que ter paciência, Pedro. Já sabemos que a Terra é um planeta que aprende com os erros, que a humanidade precisa colher os frutos amargos de seus desacertos para encontrar o caminho da verdadeira evolução.

          ¾ Mas Mestre, vamos deixar as coisas assim como estão? Vim procurá-lo porque nosso Departamento de Compensação de Iniquidades está desorientado, já não sabe o que fazer diante de tantas afrontas. Veja que até circulou pelas redes de besteirol dos humanos que se cercassem o parlamento com um muro, seria o maior presídio do país! E se cobrissem com uma lona, seria o maior circo!

          E os dois riram como crianças, algo incomum lá pelas bandas celestiais. Depois olharam-se com jeito de troça e escárnio, os músculos das faces ainda relaxados, os olhos brilhantes de uma aguda e maliciosa vivacidade.

          ¾  Creio que desta vez não precisaremos intervir, Pedro. Os acontecimentos vão seguir seu rumo natural. O Brasil já está voltando a ser motivo de espanto e zombaria de todo o mundo, como aconteceu na derrota de 1X7 para a Alemanha. Agora a goleada foi no parlamento. A iniquidade foi quem ganhou de goleada. Mas um dia, Pedro, um dia, o povo, o país, vão envergonhar-se desse episódio de sua história, tão eivado de erros e de infâmias, e de seus desdobramentos. Então vão arrepender-se, e procurar caminhos mais civilizados.

          ¾ É, Mestre, civilidade é o que parece estar faltando...

          ¾ O valor da civilidade só é reconhecido quando a perdemos. É esta a lição a aprender no momento.

          ¾ Que assim seja, Mestre, que assim seja. Então, vamos ver...


          E Pedro retirou-se. Sozinho, o Criador tinha o semblante preocupado, as sobrancelhas franzidas. Estariam conduzindo de forma acertada aquela arriscada experiência no Planeta Terra?

quarta-feira, 13 de abril de 2016

VCG - mesquinharia ou pirataria?

          A Viação Campos Gerais (VCG), empresa que detém o monopólio do transporte coletivo em Ponta Grossa, está impondo uma novidade que é um espantoso retrocesso: os alunos não têm mais direito à consagrada meia tarifa fora do restrito horário de suas aulas. Se têm aulas pela manhã, não têm direito à meia tarifa à tarde, se têm aulas à tarde, não têm direito pela manhã, se têm aulas à noite, não têm direito durante o dia.

          Mas o que significa esse retrocesso imposto pela empresa? Talvez signifique um esforço de aumentar seu lucro? Então teríamos de considerar que se tratasse de um caso de mesquinharia? Ou talvez signifique um esforço deliberado para prejudicar o desempenho escolar de nossos jovens provenientes das camadas mais carentes da população? E neste caso teríamos que considerar que se tratasse de uma pirataria, e assim sendo o que estaria sendo pilhado seria a educação de uma parte da juventude, a mais pobre, que está sendo preparada para conduzir nosso país?

          Seriam os dirigentes da VCG que inventaram este retrocesso pessoas que nunca frequentaram uma escola? Ou nunca precisaram utilizar o transporte coletivo? Não saberiam eles que, além do horário das aulas, os alunos, principalmente os dos ciclos superiores, no ensino médio e na universidade, também frequentam as bibliotecas para pesquisas e consultas, reúnem-se com colegas para estudar e elaborar trabalhos, participam de grupos de estudo e de iniciação científica, fazem estágios obrigatórios, assistem a encontros científicos, participam de centros acadêmicos estudantis e de atividades culturais ou sociais nas suas instituições de ensino?

          E as direções das instituições de ensino, principalmente das universidades e faculdades da cidade, qual seria seu papel perante tal retrocesso? No meu entender, as diretorias e reitorias, bem como o Núcleo Regional de Educação, deveriam estar questionando esta absurda imposição da empresa de ônibus. Já lhe basta o questionável privilégio do monopólio.

          E os estudantes penalizados com a proibição da meia tarifa? Bem, a estes meu conselho é que se organizem em suas entidades estudantis, centros acadêmicos, diretórios, e exijam a devolução do direito consagrado que lhes está sendo usurpado. Reivindiquem perante as direções das instituições de ensino cobrando-lhes um posicionamento diante da VCG, reivindiquem diretamente à VCG, reivindiquem perante a prefeitura, que é quem contrata a empresa de ônibus. E se isto não der resultados, manifestem-se perante a população, vão à rua dar visibilidade à usurpação de seus direitos e à improbidade da empresa de ônibus.

          Em outros locais do Brasil e do mundo a reivindicação hoje é pelo passe livre, e não pela meia tarifa. Já se pode considerar um atraso reivindicar a meia tarifa plena. Um atraso maior, beirando a ignorância, é o retrocesso de restringir a meia tarifa. A não ser que esteja prevalecendo o entendimento de que é necessário que a população mais pobre, aquela a quem faz diferença a tarifa do ônibus, tenha mesmo que ter a educação prejudicada, e tenha que permanecer na ignorância.

          Será este o caso?

domingo, 27 de março de 2016

Crucificados

Publicado no Diário dos Campos em 29/03/2016

          Cristo foi crucificado pela multidão. Homem simples que pregava o amor com firmeza, teve muitos admiradores e seguidores, e também uma multidão de detratores e ferozes adversários. Quando Pilatos lavou as mãos e entregou a sorte de Cristo às massas, estas escolheram salvar Barrabás, um notório salteador, homem do povo, pecador como as massas.

          Quais teriam sido as razões para a multidão condenar um homem santo e libertar um notório bandido? Talvez pelo fato de as massas identificarem-se mais com este último, com o qual compartilhava pecados da mesma natureza?

          Ao longo da história encontram-se muitos exemplos de homens e mulheres santos, ou pelo menos com algumas notáveis boas intenções, sacrificados pelos seus adversários. Joana D’Arc foi executada por rivais aos 19 anos, em 1431, por juntar armas ao lado de causas populares e em prol da soberania da França frente aos interesses ingleses, estrangeiros sempre dominadores.

          Giordano Bruno foi condenado pela inquisição por defender ideias consideradas heréticas, como a evolução das espécies e a imensidão do universo. Foi queimado em Roma em 1600, porque era um homem capaz de ver a verdade à frente de seu tempo.

          Gandhi, apesar de também ter muitos seguidores entre as gentes simples, sem o querer fazia inimigos desconhecidos. E por suas ideias libertadoras e pacifistas foi assassinado na Índia em 1948.

          Luther King foi outro libertador. Teve a coragem de desafiar a arrogante e truculenta hegemonia branca de sua época pregando igualdade racial sem violência. Coragem que lhe valeu o apoio dos negros, e o ódio de segregacionistas brancos. Foi assassinado em Memphis em 1968.

          John Lennon falava de amor e liberdade e sua linguagem era a música. Encantou gerações de jovens que o idolatravam, mas também despertou inexplicáveis ódios. Foi assassinado em 1980 em Nova Iorque.

          Chico Mendes foi outro homem simples que se dispôs a lutar pelos direitos dos trabalhadores rurais e em defesa das matas do Acre. Utilizava a tática dos empates, manifestações pacíficas em que os seringueiros defendiam as árvores com os próprios corpos frente ao avanço das máquinas dos desmatamentos. Foi assassinado com tiros de escopeta em dezembro de 1988.

          Dorothy Stang, religiosa estadunidense naturalizada brasileira, também atuava na Amazônia junto a trabalhadores rurais, buscando defender seus direitos e a barrar grilagens e desmatamentos ilegais. Foi assassinada numa estrada de terra no interior do Pará numa manhã de fevereiro de 2005.

          O traço comum entre essas celebridades é o fato de terem sido assassinados por tentar mudanças no mundo, seja lutando por maior justiça social ou maior amor entre os seres humanos, seja defendendo a verdade e a natureza que alimentam o corpo e a alma humana. E o verdadeiro amor inescapavelmente conduz à justiça. Talvez por esse motivo tenham sido todos assassinados? Mas qual é essa razão, ou falta de razão, que faz com que homens e mulheres que dedicam sua vida ao amor, à verdade, à justiça social e à liberdade sejam odiados a ponto de serem assassinados, e que os salteadores do povo sejam poupados?

         Se temos alguma consciência, é bom que dediquemos uma boa reflexão sobre isto. Estamos a celebrar o sacrifício de Cristo, que aconteceu há cerca de 2000 anos. Mas estes nossos conturbados tempos têm também suas celebridades idealistas que amealham ódios, e seus absolvidos salteadores do povo.