domingo, 6 de setembro de 2020

O lucro das estatais: às custas de quem?

  Publicado no Jornal da Manhã em 09/09/2020.

Outdoors na cidade de Ponta Grossa assinados pelo Sindicato Rural e Associação de Ministros Evangélicos dizem: “Estatais em 2015: 22 bilhões de prejuízo. Estatais em 2019: 109 bilhões de lucro”. Ao mesmo tempo, a Assembleia Legislativa do Paraná declara-se preocupada com a venda de subsidiárias da Petrobras no estado, com previsão de relevante queda no ICMS e corte de milhares de empregos. Convém refletir sobre a relação entre os dois fatos.

O mau desempenho em 2015 deveu-se principalmente à Petrobras, a maior estatal brasileira. Ela estava no auge da sabotagem imputada às empresas brasileiras desde as delações premiadas da Lava Jato. Sobre isto, é útil a leitura do artigo “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável” de José Luis Fiori e William Nozaki, publicado no Le Monde Diplomatique Brasil em 30 de julho último (https://diplomatique.org.br/conspiracao-e-corrupcao-uma-hipotese-muito-provavel/). O artigo esclarece como o suposto combate à corrupção está sendo usado para destruir grandes empresas brasileiras (não só as estatais) e perpetuar o papel do Brasil como colônia fornecedora de commodities, sobretudo o petróleo.

O alegado “bom desempenho” de 2019 também é devido à Petrobras. O lucro veio da venda de partes da antes gigante brasileira. A Petrobras está sendo desmontada.

Esta é a lógica do governo ultraliberal: contam os lucros, e não seus impactos econômicos e sociais, nem a soberania do país. Quem apóia esta lógica, como o Sindicato Rural e a AME o fazem ao publicar os enganosos outdoors na cidade, é cúmplice da permanência do país num estágio de submissão, exclusão e desigualdade social que só traz mais conflitos, insegurança e atraso. A discrepância social no Brasil já é abismal. Apoiar medidas que a agravam é uma desumana temeridade, um arroubo dos insaciáveis gananciosos ávidos de vantagens pessoais.

O governo ultraliberal atual, que chegou ao poder graças à ingerência externa via cooptação de parte do Estado e da disseminação de mentiras, está tentando maquiar as contas do país com medidas que só prejudicam a população trabalhadora, e favorecem interesses transnacionais: congelamento do investimento em educação, saúde, pesquisa, cultura, infraestrutura, programas sociais e dos salários do funcionalismo (mas não de políticos, militares e judiciário), uberização do trabalho, novas taxações, aumento de tarifas, restrições à aposentadoria, venda das estatais, etc. Enquanto protela mudanças vitais, como a taxação de rentistas e fortunas, a revisão do imposto de renda e dos benefícios da elite.

Há outras considerações a fazer quando se fala em lucro das estatais. Guilherme Estrella, ex-presidente da Petrobras, alerta que a contratação de uma plataforma de exploração de petróleo em estaleiros brasileiros custava mais caro que comprar a mesma plataforma de um estaleiro na Ásia. Porque lá eles usam mão de obra quase escrava, e no Brasil as plataformas eram fabricadas por operários com direitos trabalhistas, resultando num encadeamento de benefícios econômicos e sociais.

Mas isso ficou para trás.


quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A verdade 50 anos atrasada

Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 27/08/2020 e no blog de Carta Capital em 04/09/2020.


O Le Monde Diplomatique de 11 de setembro de 2007 traz uma reportagem perturbadora (https://diplomatique.org.br/o-golpe-da-cia-contra-o-ira/). Ela analisa matéria do New York Times de junho de 2000, revelando relatório secreto da CIA sobre a participação dessa Agência no golpe que derrubou o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadeg em 1953, quase cinquenta anos antes.

Mossadegh apoiava a nacionalização da indústria petrolífera, então dominada pelos britânicos, e a democratização do sistema político. Os EUA alegaram temer que esses fossem sinais de que o Irã estaria prestes a passar para trás da Cortina de Ferro, e decidiram derrubar Mossadegh.

O relatório teria sido propositalmente vazado no ano de 2000, supostamente como estratégia de reaproximação entre EUA e Irã, iniciativa apoiada pela então secretária de Estado Madeleine Albright. Isso foi antes do atentado de 11 de setembro de 2001, que mudaria tudo. O que o relatório revela sobre como a CIA agiu para derrubar Mossadeg em 1953 é surpreendente: propaganda e atividades políticas clandestinas; cooptação de rede de oficiais do exército para um golpe; suborno de parlamentares iranianos; pressões para persuadir o xá Reza Pahlevi a apoiar o golpe; manipulação de manifestações de protesto pela renúncia de Mossadegh.

Foram milhões de dólares gastos pelo ramo iraniano da CIA, comandado por Kermit Roosevelt, para a consecução do golpe. Ele falhou num primeiro momento, mas acabou sendo bem-sucedido graças a subsequentes grandes manifestações de rua e atentados simulados contra religiosos, ambos organizados por infiltrados a serviço da CIA, que se faziam passar por membros do Tudeh, o “Partido das Massas”, o mais importante partido de esquerda no Irã à época.

Em seu livro “Novas confissões de um assassino econômico” (Cultrix, 2018), John Perkins mostra que o golpe no Irã em 1953 foi um aprendizado para a CIA. O fracasso inicial revelou o envolvimento da Agência, e obrigou os EUA a chamar Kermit Roosevelt de volta ao país. Desde então, golpes semelhantes perpetrados em outros países do mundo passaram a ser cometidos pelos assassinos econômicos, ou, no insucesso destes, os chacais, os assassinos de fato. Podemos supor que estes tenham sido os responsáveis pelas mortes “acidentais”, no Brasil, de Juscelino Kubitschek, Ulysses Guimarães, Eduardo Campos e Teori Zavascki. Mais recentemente, os chacais humanos foram substituídos pelos drones, como o que assassinou o general iraniano Qassem Soleimani no início de 2020, no Iraque.

O golpe no Irã em 1953, a revelação do relatório secreto em 2000, a demonização dos partidos de esquerda no Brasil, as manifestações iniciadas no país em 2013, o golpe em 2016 e a ascensão de governos antidemocráticos empenhados na perpetuação do país como colônia reserva de mão de obra barata e exportadora de matérias-primas sem valor agregado nos revelam que os aprendizados da política externa dos EUA têm resultado em sucesso para a ambição hegemônica do Tio Sam.

Enquanto espalham corrupção, ditaduras, guerras e miséria pelo mundo.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Uma revolução da consciência

 

Pensadores que têm refletido sobre o momento que passamos têm falado na urgência de uma “revolução da consciência”. São desde administradores e economistas até filósofos e sociólogos. Talvez o que tenham em comum seja a compreensão do que anda se passando com a humanidade e a civilização atual.

Duas preocupantes constatações atestam que estamos seguindo um caminho equivocado: a crise ambiental provocada pela exploração predatória do planeta, comprometendo o equilíbrio da natureza que sustenta a vida; a crise social decorrente da concentração de riquezas, com aprofundamento do fosso que separa ricos e pobres.

A pandemia da Covid-19 resulta dessas duas crises. O vírus é fruto da desfaçatez com cuidados sanitários indispensáveis num mundo globalizado e de imensa concentração urbana. A sua disseminação atinge sobretudo os mais pobres, sem condições de confinamento e com precários saneamento e condições de saúde. Mas atinge também os profissionais de saúde, os que lidam com as atividades ditas essenciais, que não podem parar, os idosos, os fragilizados por diversas razões. O vírus é seletivo, mas é também imprevisível.

Muitos especialistas estão afirmando que as crises ambiental, socioeconômica e sanitária não são passageiras. Se não promovermos uma aguda revolução da consciência e uma profunda mudança em nossa civilização, vieram para ficar. A Covid-19 é branda, devemos esperar pandemias ainda piores, num futuro próximo. Urge mudar, se não queremos aprender por uma dor ainda mais dilacerante.

Quais seriam as mudanças na nossa consciência para evitarmos o previsível trágico futuro? Basta ver o que temos feito que nos conduziu até onde estamos hoje: a superexploração predatória do planeta, o consumismo irrefreável, a exploração e dominação do próximo, a ambição desmesurada, a intolerância com a diferença, o orgulho e a inveja.

Tudo isto resultaria de uma marcante qualidade humana: a cobiça. Cobiçamos conquistar, cobiçamos ter, cobiçamos acumular. E criamos sistemas econômicos e de governo, princípios morais e legais que acolhem e incentivam a cobiça. Cobiçar passou a ser a qualidade que distingue bem-sucedidos de fracassados, dinâmicos de acomodados, antenados de alienados, celebridades de joões-niguém, racionais de emocionais. Mais recentemente, a cobiça passou também a distinguir direitistas de esquerdistas, capitalistas de socialistas, ditadores de democratas.

Quantos rótulos! Mas a revolução da consciência dispensa os rótulos. A grande mudança que se impõe é aquela que os verdadeiros messias têm tentado nos ensinar há milênios: a humildade, a solidariedade, o discernimento; a empatia com todos os outros seres vivos e com o planeta Terra, nosso lar.

Oxalá não seja necessário a natureza castigar-nos com lições ainda mais contundentes que a pandemia, os eventos climáticos extremos e os conflitos sociais e a insegurança que já vivemos, para que aceitemos que a revolução da consciência é urgente. E enfim a concretizemos.

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Confissões de um assassino econômico



Em 2016 o economista e consultor internacional estadunidense John Perkins publicou nos EUA o livro lançado no Brasil com o nome de “Novas confissões de um assassino econômico” (Cultrix, 2018). Ele dá continuidade a um primeiro livro sobre o tema, publicado em 2004.
O autor denuncia o que denomina corporatocracia e seu objetivo, o império global, ambos identificados com os EUA e sua ação no mundo. Ele mesmo teria atuado como assassino econômico na Indonésia, Equador, Colômbia, Panamá, Arábia Saudita, Irã, Iraque, Venezuela e outros países. As vítimas do assassinato são as nações possuidoras de recursos naturais essenciais para os EUA, sobretudo o petróleo, ou as nações que têm importância geopolítica estratégica para a almejada conquista da total dominação.
A forma de operar dos assassinos econômicos é bem definida: aliciar líderes desses países para entrar numa rede mundial de apoio aos EUA, convencê-los a contrair vultosos empréstimos para obras de infraestrutura, realizadas por empresas estadunidenses, enredá-los em uma teia de dívidas que assegura sua submissão e obediência aos interesses da corporatocracia. Em contrapartida, sustentam a liderança dos aliciados nos países subjugados, ainda que seja na forma de tirânicas ditaduras.
Quando a ação dos assassinos econômicos não é bem sucedida, entram em ação os que o autor denomina chacais. Os assassinos de fato. Mas os crimes não são reconhecíveis como tal, são “acidentes”. Foi o caso dos presidentes Jaime Roldós, do Equador, e Omar Torrijos, do Panamá, ambos mortos em acidentes aéreos em 1981. Os dois presidentes eram nacionalistas e contrapunham-se a interesses de petrolíferas estadunidenses no Equador e à soberania dos EUA no Canal do Panamá.
 No livro, John Perkins afirma que o anseio de império global estadunidense está alicerçado na doutrina do “Destino Manifesto”, crença comum entre os estadunidenses na primeira metade do Século XIX, que dizia serem os colonizadores eleitos de Deus, autorizados a exterminar os povos nativos e a subjugar a natureza na conquista do território. Hoje a doutrina expandiu-se, a conquista é global, bem expressa no lema “America First”.
Os livros de John Perkins não abordam o caso do Brasil. Mas sua leitura faz pensar que os acidentes aéreos que cá entre nós mataram Ulysses Guimarães em 1992, Eduardo Campos em 2014, Teori Zavascki em 2017, e mesmo o acidente rodoviário de Juscelino Kubitschek em 1976, possam não ter sido acidentes. Os quatro eram nacionalistas, sua ação contrapunha-se a interesses predatórios da corporatocracia no Brasil. Todos esses acidentes foram considerados suspeitos, foram investigados, mas não se logrou provar que fossem atentados. Da mesma forma que ocorreu com os “acidentes” de Jaime Roldós e Omar Torrijos em 1981.
Outra suposição que emerge da leitura dos livros de John Perkins: se Lula não tivesse sido preso e impedido de disputar as eleições de 2018, provavelmente hoje estaria morto, vítima de algum acidente.


quinta-feira, 2 de julho de 2020

A mentira tem perna curta; e braços longos.

Publicado no Jornal da Manhã em 17/07/2020.

A grande mídia agora se declara a serviço da democracia. Arrepende-se do erro que cometeu. Mas não tem dignidade de admitir o erro. Ao contrário, sempre cobra a autocrítica do PT. Quer que o PT, e as esquerdas, assumam a culpa pelos erros que cometeram, como se fossem eles os culpados pelo desgoverno e barbárie que vivemos hoje no Brasil.
Sim, o PT e as esquerdas erraram. Mas acertaram muito mais que erraram. Quem esconde e distorce isso, como o faz a grande mídia, mente. Por não aceitar uma sociedade com menos privilégios, mais inclusiva, mais lúcida e menos manipulável.
A grande mídia criou a criatura que fugiu de seu controle, e agora a afronta, sufoca-a com seus grandes braços. Um jogo de cena para continuar logrando o povo? Pois a criatura, que agora a grande mídia diz repudiar, faz exatamente aquilo que ela defende e deseja: avilta o trabalho e o trabalhador, privatiza serviços estratégicos (saúde, educação, segurança, saneamento, energia, aviação, etc.), loteia o patrimônio nacional, desdenha o meio ambiente, afrouxa a regulamentação da iniciativa privada, concentra renda e privilégios, isenta rentistas, imbeciliza a educação.
Há quem diga: “Não, a criatura que aí está destruindo o Brasil não era o candidato da grande mídia”. É verdade. Esse talvez tenha sido o mais espetacular erro da grande mídia. Ela não soube prever que estava criando o inqualificável fenômeno Bolsonaro: quando demonizou o PT e os governos de esquerda, quando apoiou o golpe contra o governo democrático eleito, quando louvou o governo fantoche ultraliberal de Temer, quando endeusou as distorções e mentiras da Lava Jato e a prisão de Lula, quando frustrou o sonho de uma sociedade mais justa e inclusiva. Acabou vítima de seu próprio erro, de seu próprio veneno.
Os resultados das urnas de 2018 mostraram duas coisas fundamentais: o poder de manipular o povo, fazendo-o votar na aberração travestida de novidade; e a recusa do povo logrado em escolher o candidato da grande mídia e de seu elitista sonho de plutocracia. Os grandes derrotados de 2018 foram a democracia e o PSDB.
Se a grande mídia agora vai assumir de fato o serviço à democracia, esta é uma alvissareira novidade. Mas a democracia que ela tem em mente será a mesma desejada pelo povo excluído? Que sonha com melhores condições de trabalho, salário e aposentadoria? Com um Estado forte, justo e nacionalista, que controle um setor privado voraz, entreguista, monarquista e escravocrata? E que inspire o orgulho de viver numa nação tão rica, por natureza e pela virtude de seu povo, como o é o Brasil?
Ou a grande mídia ainda é a porta-voz de arraigados instintos selvagens: o egoísmo, a ganância desmesurada? Eles impedem enxergar que a inclusão é o caminho para a superação de graves empecilhos sociais, ambientais e econômicos. Vencê-los seria galgar um degrau na escala civilizatória.
Oxalá seja a esta democracia que a grande mídia esteja declarando servir. Será que é?

sábado, 27 de junho de 2020

Trágicos erros involuntários


Marcam-me a memória dois trágicos e pungentes erros involuntários, tomei conhecimento deles pelo noticiário, já lá se vão décadas.
Um deles foi o de um pai que, durante as férias, foi encarregado pela mãe de, logo após o almoço, levar o filho de três anos à casa da avó. Nesse meio tempo, um colega de trabalho pediu-lhe uma ajuda inesperada. Ele, de carro, no caminho deu uma passada, era para ser rápida, pelo escritório. O filho adormecido na cadeirinha, não quis acordá-lo, resolveu deixá-lo ali no carro fechado, estacionado ao relento, enquanto rapidamente atendia ao pedido do colega. Envolveu-se na questão de trabalho, esqueceu do filho. Só lembrou quando recebeu o telefonema da preocupada avó. A criança não sobreviveu, nesse meio tempo o sol, antes oculto atrás de nuvens, aparecera inclemente.
O segundo trágico erro foi o da tripulação do avião de carreira levando passageiros de Marabá a Belém, à noite. Saindo de Marabá, o rumo do avião deveria ter sido fixado no azimute 27.0. Equivocadamente, foi fixado em 270. O erro só foi percebido tarde demais. O avião encontrava-se em meio à Floresta Amazônica, sem combustível. O resultado foi um pouso forçado em meio à selva, com o triste saldo de três dezenas de mortos ou gravemente feridos. Piloto e copiloto sobreviveram. O erro foi consequência de uma alteração na maneira de programar os instrumentos de bordo, implementada poucos meses antes do acidente.
Quando relembro estes dois casos, rezo para que os envolvidos tenham conseguido perdoar a si mesmos pelos involuntários trágicos erros dos quais foram protagonistas. Imagino que eu mesmo poderia ter cometido erro parecido. Seria capaz de perdoar-me?
Mas nos tempos atuais, não consigo deixar de comparar aqueles trágicos erros com o que estamos vivendo neste momento no Brasil. O país desgovernado frente à pandemia do Covid-19 já conta dezenas de milhares de perdas humanas, que poderiam ter sido evitadas. E ainda nem chegamos ao pico do contágio. E o erro não se limita à desfaçatez com a pandemia, a qual está ajudando a esconder outros erros, econômicos, sociais e diplomáticos. O Brasil tornou-se ameaça e piada internacional.
O erro neste caso teve muitos protagonistas. Todos aqueles que acreditaram na promessa de um governo sem os vícios de corrupção e da velha política clientelista são  os protagonistas deste erro. Involuntário? Para alguns sim, para outros não. Não é possível alegar desconhecimento do erro. O que esperar de quem escancaradamente defendia a tortura, exaltava milicianos criminosos e o armamentismo, vociferava descrença na democracia e na justiça? Ainda assim, confundidos pela mídia facciosa e pelas eficazes tecnologias de desinformação, muitos foram iludidos, e cometeram o erro involuntariamente. Por esses, rezo também para que perdoem a si mesmos, para que reconheçam o erro cometido, e ajudem a repará-lo e a remediar suas consequências.
Entretanto, muitos incorreram no erro intencionalmente, tendo plena consciência dele. Pelo fato de se identificarem com a violência e a insanidade nele contidas. É aquela estridente fração da população lacaia de Tânato, regida pelo segregacionismo nascido do medo e do egoísmo. Falta-lhe humanidade.
Estes não estão a carecer que lhes inspiremos perdão. Estes carecem de iluminação, de discernimento. E muitos, de internação.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Ódio: milenar estratégia de dominação

Publicado no Jornal da Manhã em 25/06/2020.

No último final de semana (30-31/05/2020) entristecedoras imagens viralizadas pela mídia digital escancararam-nos o ódio que está sendo cultivado, e que está prosperando, entre nós, no Brasil: os mascarados com tochas alusivas à criminosa supremacia branca da Ku Klux Klan em Brasília, a manifestante com o taco de beisebol em São Paulo, os confrontos com bombas e balas de efeito moral pelo país. Até nos EUA, a nação que contraditoriamente arroga-se ser a guardiã da democracia e das liberdades do mundo, reacende-se o violento ódio racial, após o estrangulamento do cidadão negro já rendido pelo policial branco.
Os acontecimentos nos mostram que, no Brasil e no mundo, ainda não aprendemos, com tantas lições ao longo da História, que o ódio é a arma dos conquistadores para governar. “Dividir para conquistar” tornou-se um preceito universal. Assim fizeram as nações imperialistas ao longo dos séculos, assim o fazem no presente. Assim agem todos aqueles sórdidos poderes entremeados na estrutura social onde quer que seja, com a finalidade de perpetuar os privilégios de uns poucos à custa da submissão e miséria de muitos. Oxalá nos servisse de exemplo e alerta o ódio genocida cultivado entre etnias, religiões, castas, tribos, na Índia, no mundo árabe, na África, entre os povos da América pré-colombiana...
A humanidade vive um momento inusitado, de penosa transição. Deste momento singular podemos evoluir para uma civilização mais solidária, harmoniosa, pacífica, copiosa. Ou podemos mergulhar num colapso e num retrocesso de imprevisíveis consequências, mas certamente catastrófico. Temos sofisticadas tecnologias de comunicação e de manipulação da opinião, acumulamos armas de destruição em massa que nos tornam muito perigosos,  para o planeta, para nós mesmos. Mas não alcançamos ainda o discernimento e a compaixão que nos esclareçam se caminhamos para a iluminação ou para a barbárie das trevas.
Talvez nunca antes tantos teólogos, antropólogos, sociólogos, psicólogos, neurocientistas, historiadores, filósogos tenham nos alertado tão inquietantemente a respeito da paradoxal “natureza humana”. Abrigamos anjos e demônios dentro de nós. Temos instintos selvagens e vislumbres celestiais. Nosso cérebro ora age como aquele de um réptil, primitivo e egoísta, ora como o de um selvagem mamífero a defender ferozmente a prole, ora como uma inteligência obstinada com o domínio do outro. Por vezes um desavisado laivo de compaixão nos revela que somos a espécie mais ameaçadora e ao mesmo tempo mais promissora do planeta.
Com a capacidade de disseminar ódio e de destruir que nossa engenhosidade já nos trouxe, está na hora de usar nossa inteligência para a compreensão de que já não somos mais um bando de feras cujo único ou primordial desígnio seja impor-se e sobreviver. No Século XXI tornamo-nos esta complexa sociedade que tanto pode destruir-se quanto emancipar-se para uma civilização de compartilhada prosperidade.
Qual caminho vamos escolher?