quinta-feira, 13 de junho de 2019

Moro e a credulidade brasileira

Publicado no Jornal da Manhã em 14/06/2019.

Credulidade parece ser mesmo um traço atávico do povo brasileiro. Acreditamos na marcha da família com Deus pela liberdade, e apoiamos o golpe militar que promoveu a ilegalidade, a injustiça, o obscurantismo no país por mais de duas décadas. Acreditamos que a ditadura militar foi um momento de sobriedade política e econômica, e não enxergamos que foi quando o Brasil adquiriu sua maior dívida externa, e nem conseguimos saber quantos militares foram corrompidos, é tudo confidencial. Acreditamos que foi o PT e seus governos que inventaram a corrupção na política. Acreditamos que antes ela não existia, e que os outros partidos não a têm como prática usual. Acreditamos que a Petrobras, a OAS, a Odebrecht, a JBS e outras, empresas brasileiras, são as únicas que praticam o suborno para privilegiar seus empreendimentos. Dentro e fora do Brasil. Acreditamos que o PT desgraçou o país, é o responsável por uma herança maldita que os governos que seguiram, e os governos futuros, não vão conseguir resgatar. Acreditamos que os governos que transformaram o Brasil num protagonista mundial, que realizou obras de infraestrutura visando o pleno emprego e a integridade nacional, que promoveu programas de inclusão social, de educação para os pobres, de moradia popular, que valorizou e incentivou a indústria estratégica nas áreas de petróleo, aeronáutica, estaleiros, foram governos corruptos que nos arruinaram. Acreditamos que políticos arrivistas que se dedicaram ao golpe que afastou o governo popular eram bem intencionados, mesmo depois que eles também são condenados por crimes sobre os quais não paira dúvida, e que não puderam mais ser escondidos. Acreditamos que os industriais, banqueiros e outros empresários são a máquina que move o país, mas não enxergamos que sabotaram o governo, e com ele o país, para empossar outro governo que lhes fosse mais subserviente, e menos identificado com os trabalhadores. Acreditamos que a operação montada para destruir o governo popular, que promoveu a inserção social, o protagonismo e a soberania nacional, era uma operação imparcial destinada a revelar e coibir a corrupção que sangra o país. Acreditamos que brasileiros reconhecidos mundialmente nas áreas da educação, da música, da literatura sejam merecedores de ofensas e repúdio.
Acreditamos (ou desacreditamos) em muitas coisas, sem conseguirmos ter a clareza de entendê-las. Agora acreditamos que os indícios de parcialidade do juiz Sérgio Moro à frente da Lava Jato devem-se à excessiva ambição e soberba do magistrado. “─ Qualidades humanas” diriam, presentes em todos nós, exacerbadas em alguns, como poderia ser o caso. Mas não acreditamos que o juiz, o tribunal regional em que ele legislou, a eleição do homem que se reconhece incapaz ser presidente, a nomeação do juiz para o ministério por este homem, tudo faça parte de um orquestrado plano. Para impedir que o Brasil alcance o status internacional que lhe é creditado pela extensão continental, as riquezas naturais, o tamanho da população e da produção econômica. 
A crise brasileira deve ser examinada em confronto com outras crises mundiais: Afeganistão, Iraque, Síria, Ucrânia, países do norte da África e do Oriente Médio na Primavera Árabe, Brexit, Catalúnia, Venezuela...
Um brasileiro, Luiz Alberto Moniz Bandeira, falecido em novembro de 2017, escreveu um livro nesse sentido. Chama-se “A desordem mundial: o espectro da total dominação”.
O subtítulo do livro já nos dá uma ideia do que realmente pode estar por trás das intenções de Moro e da Lava Jato.

sábado, 1 de junho de 2019

A braguilha caducou



Há quinze anos, por acaso, numa viagem em que esqueci de colocá-las na bagagem, descobri numa loja as cuecas ideais. A loja ficava bem no meu caminho do trabalho, foi uma parada emergencial e providencial. No meu entender é até possível usar, após o banho do fim do dia, alguma peça do vestuário que já vínhamos vestindo, mas não a cueca. Trocá-la é imperativo.
Mas aquela foi uma feliz emergência, uma descoberta. Foi assim que encontrei aquela marca de cuecas para mim até então desconhecida, pois não é daquelas que se veem em cartazes, anúncios impressos e televisivos. Uma cueca recatada, com talhe bem tradicional, malha flexível e complacente, corte e cores discretas, confortável e, principalmente, com a abertura, a braguilha dessa peça íntima, que nos faculta nos aliviarmos nos sanitários públicos com dignidade, sem que seja necessário baixar calças e cueca.
Ao longo dos últimos quinze anos essas cuecas têm sido daquelas estimadas companheiras que sentimos satisfação em tê-las encontrado. Aprendi que só são oferecidas numa única rede nacional de populares grandes lojas de departamentos, portanto trata-se de uma produção direcionada, uma exclusividade. Mas, passados todos esses anos, as estimadas cuecas desapareceram. Só encontro nas lojas, mesmo naquela popular rede, cuecas de grife, que ao meu ver parecem mais querer agradar aos olhos e à uma estética alienígena incutida pela propaganda que ao conforto e às necessidades de minhas partes mais íntimas. E, surpresa! Nenhum dos “novos” modelos tem abertura frontal. Tive que perguntar ao meu filho como fazem nos mictórios, ele me explicou o óbvio:
─ Ora, tem que baixar a calça e a cueca!
Que humilhação! Parece outro retrocesso que nos é imposto nesta época de tantos retrocessos. Regredimos até no prosaico ato de realizar nossas necessidades mais básicas. O que me parece mais uma vez um ditame do implacável deus mercado, que precisa sempre inovar, em nome da obsolescência perceptiva e do desenfreado consumo, ainda que as novidades façam regredir a décadas atrás.
Ainda bem que ainda tenho um bom estoque das condenadas e leais velhas cuecas confiáveis e dedicadas. Acho que vai dar tempo dos demais consumidores que têm as mesmas convicções e hábitos que eu darem-se conta do desacerto desta novidade. Elas, nossas velhas, fiéis e boas cuecas, vão voltar ainda mais valorizadas, reconhecidas, até aclamadas.
Não, a braguilha não caducou. Só foi temporariamente condenada pela sanha do consumismo, da cegueira e da injustiça insanas.
Ou fui eu que caduquei?



sexta-feira, 24 de maio de 2019

A ascensão da direita – refluxo de um ciclo?


Publicado na Revista D'Pontaponta de maio/2019 

A direita não avança só no Brasil, é um fenômeno mundial, que parece querer dizer-nos que a Humanidade vive ciclos de progressos seguidos de retrocessos, como um coração a bater ou um pulmão a respirar. Felizmente os progressos predominam, e na maioria das áreas a sociedade evolui.
Sem dúvida o Brasil é um caso particular: história de colônia saqueada; maior país escravocrata; população indígena exterminada; nação sem laços patrióticos sólidos; território continental com riquezas que despertam cobiça estrangeira; duas décadas de ditadura que calou ou exilou quem ousou sonhar com o país liberto de grilhões neocolonialistas.
Tudo isso marcou-nos profundamente. Nossas elites preferem perpetuar seus privilégios curvando-se, e curvando o país, a interesses transnacionais predatórios e escravocratas. Desdenham tornemo-nos uma nação inclusiva e soberana.
Nossa grande mídia demonizou e sabotou o governo de inspiração popular que procurou tornar o país soberano e diminuir as abissais desigualdades sociais. Pois ela também é controlada pela elite que prefere os interesses corporativos do mercado ao interesse coletivo.
O povo não alcança clareza ideológica e firmeza moral para engajar-se na necessária revolução de valores e condutas para resgatar o país da sanha dos que estão a rapiná-lo. É um povo inculto, propositalmente assim perpetuado por séculos para garantir o papel de colônia explorada, de senzala que não é capaz de emancipar-se.
Povo inculto, com o complexo de vira-lata; elite mercenária, entreguista e apátrida, com o complexo de casa-grande; a mídia facciosa, a serviço dessa elite: eis os ingredientes ideais para que viralizem mentiras e ascenda a direita fantoche dos interesses transnacionais, travestida de salvadora da pátria.
Mas este retrocesso civilizatório pode ser visto como o gérmen de um novo ciclo de esperança e prosperidade que está por começar. A reorganização sucede o caos.

sábado, 4 de maio de 2019

A utilidade do Parque Nacional dos Campos Gerais

Publicado no Jornal da Manhã em 08/05/2019.

Ofício da deputada federal Aline Sleutjes (PSL-PR) ao Ministério do Meio Ambiente solicita a revogação de decreto de 2006 que criou o Parque Nacional dos Campos Gerais. Esta notícia tem alvoroçado a mídia local, leva a crer que o parque seja um estorvo que prejudica a região. A deputada argumenta que o parque foi decretado há muito tempo, demora demais para ser implementado e que os proprietários da área não têm recebido indenização pela imposta redução das atividades.  Alega ainda que a área do parque já se encontra protegida, o que não é verdade.
O problema parece estar sendo abordado às avessas. Ao invés de solicitar a extinção do parque, a deputada e os ruralistas que ela representa deveriam estar empenhados em fazer com que o governo conseguisse as verbas necessárias e enfim implantasse o parque, com a devida indenização dos proprietários. Pedir a extinção do parque, numa comparação sarcástica, seria como se uma família para quem empregadores deixaram de pagar os salários devidos, diante da fome do filho, resolvesse desfazer-se da criança, ao invés de ir à luta para receber o que tem direito. A deputada poderia direcionar seus esforços para que as multas de crimes ambientais (como Brumadinho, Mariana, derrames da Petrobras e tantos outros) fossem de fato pagas, e destinadas para a implantação definitiva das unidades de conservação.
Qual a utilidade, do parque? Por qual motivo toda a população, a começar pelos ruralistas que querem extingui-lo, deveria empenhar-se em defendê-lo? Uma unidade de conservação, bem como as áreas de proteção permanente, têm a função de contribuir para manter as condições ambientais equilibradas, e assim garantir a vida. A proteção ambiental é uma prioridade mundial desde desastres acontecidos a partir da década de 1960, quando os países começaram a implantar políticas e legislação pertinente. Quem ainda não percebeu isso está mais de cinquenta anos atrasado. Ou ainda não superou a ganância cega do lucro rápido, e não a substituiu pela responsabilidade do cuidado com o interesse coletivo, com a vida no planeta.
As unidades de conservação e áreas de proteção permanente não são um capricho para deleite de ambientalistas sonhadores. Elas são prioridade em protocolos internacionais porque se aprendeu que é necessário que existam, entre áreas modificadas pelo ser humano (agrícolas, urbanas, silvicultura, etc.), áreas que propiciem os chamados serviços ambientais essenciais: equilíbrio no ciclo hidrológico, influenciando nos mananciais, no clima, nos solos; equilíbrio na biodiversidade, influenciando no controle de pragas agrícolas, de vetores patológicos (mosquitos da dengue, febre amarela, etc.), de agentes polinizadores (abelhas, besouros, vespas, etc.); preservação do patrimônio genético (aplicação em fitoterápicos, fibras e materiais industriais, etc.); estoque de carbono no solo e na cobertura vegetal (efeito estufa) e outros. Estes serviços influem diretamente inclusive na economia.
Que o Ministério do Meio Ambiente comporte-se como tal, e alie-se à luta pela implantação definitiva do parque nacional, bem como outras demandas ambientais prioritárias. Caso contrário, mais pareceria tratar-se do Cemitério do Meio Ambiente.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Apuração dos sobrepreços no pedágio e na taxa do lixo

Publicado no Jornal da Manhã em 27/04/2019.

Os jornais estaduais da última quarta-feira (24/04) noticiaram a redução de 30% na tarifa do pedágio, em decorrência de acordo de leniência entre a força-tarefa da Lava Jato e a CCR RodoNorte. Foram constatadas infrações e ilícitos praticados pela empresa, e embora as investigações continuem sob sigilo, o Ministério Público determinou o ressarcimento dos usuários e municípios lesados. Lembremos que o ex-governador Beto Richa já foi preso duas vezes neste ano de 2019, entre outros motivos por envolvimento em supostos crimes na concessão de rodovias do Estado.
Por outro lado, os jornais de Ponta Grossa da terça-feira 16 de abril exibiram notícia com o título “Prefeitura economiza em contrato com a limpeza urbana”. A verdade é que o portal do TCEPR – Tribunal de Contas do Estado do Paraná – informa que após auditoria realizada no contrato entre a Prefeitura e a empresa Ponta Grossa Ambiental - PGA, concessionária da limpeza pública, foi constatado sobrepreço que, pelas estimativas do TCE, chegaria a 24,2%. O tribunal também constatou “deficiência no controle e na fiscalização dos serviços prestados pela empresa”.
Ou seja, desde 2008 os ponta-grossenses que pagam a taxa do lixo estão pagando preços superfaturados, o que foi constatado pelo TCEPR ao perceber que as despesas do município com a limpeza pública estavam acima do normal. E que foi o descontrole por parte da contratante, a Prefeitura, que permitiu a prática do sobrepreço por tanto tempo.
No caso do pedágio, está ocorrendo a devolução do que foi cobrado em excesso, e há investigação sobre os responsáveis pelos contratos lesivos, no caso o Governo do Estado. E no caso do lixo em Ponta Grossa? A PGA vai ressarcir os munícipes e a Prefeitura por esse sobrepreço? E os responsáveis na Prefeitura por um contrato lesivo ao munícipe e que beneficiou a PGA, vão ser investigados?
O pior é constatar que a PGA vem investindo em dispendiosas equipes de profissionais especializados, na obstinada tentativa de viabilizar a implantação do aterro sanitário privado de sua propriedade em área ambientalmente vulnerável, a mais inadequada do Município para essa finalidade. Trata-se da área à margem direita do Rio Verde dentro da APA da Escarpa Devoniana, próxima ao Parque Nacional dos Campos Gerais e ao Parque Municipal do Capão da Onça, sobre a área de recarga do Aquífero Furnas. A PGA já teve sentença condenatória em processo na Justiça Federal em que é ré por adulterar e retirar dos mapas nascentes e áreas úmidas, o que fez para viabilizar seu condenado empreendimento, situado em áreas de proteção permanente protegidas por lei e colocando em sério risco mananciais subterrâneos que abastecem a cidade de Ponta Grossa.
No caso dos pedágios, investigado pela Lava Jato, autoridades do poder público e a concessionária estão sendo investigados e punidos. E no caso do lixo em Ponta Grossa? Quem vai investigar e, se for o caso, punir?

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Sobrepreço na taxa do lixo em Ponta Grossa: economia ou desonestidade?



Os jornais de Ponta Grossa da última terça-feira (16/04) exibiram notícia com o título “Prefeitura economiza em contrato com a limpeza urbana”. Mas o título da notícia bem poderia ter sido outro, por exemplo: “Desde 2008 concessionária pratica sobrepreço e munícipes pagam taxa do lixo superfaturada”.
O portal do TCEPR – Tribunal de Contas do Estado do Paraná – informa que após auditoria do órgão realizada no contrato entre a Prefeitura e a empresa Ponta Grossa Ambiental - PGA, concessionária da limpeza pública, foi constatado sobrepreço que, pelas estimativas do TCE, chegaria a 24,2%. O tribunal também constatou “deficiência no controle e na fiscalização dos serviços prestados pela empresa”.
Ou seja, desde 2008 os munícipes que pagam a taxa do lixo estão pagando preços superfaturados, o que foi constatado pelo TCEPR ao perceber que as despesas do município com a limpeza pública estavam acima do normal. E que o descontrole por parte da contratante, a Prefeitura, permitiu a prática do sobrepreço por tanto tempo.
A Prefeitura “vai economizar” com a correção imposta pelo TCEPR aos valores do contrato, afirmam as notícias. Ou seria preferível afirmar que Prefeitura e munícipes vão deixar de ser logrados pelo sobrepreço praticado? E a PGA vai ressarcir a Prefeitura por esse sobrepreço? E os munícipes, que pagaram a taxa de lixo calculada pelo sobrepreço, vão ser ressarcidos pelo que foi pago a mais?
O pior é constatar que, com o superfaturamento que vem praticando, a PGA vem auferindo recursos para serem investidos em dispendiosas equipes de profissionais especializados, na obstinada tentativa de viabilizar a implantação do aterro sanitário privado de sua propriedade em área ambientalmente vulnerável, a mais inadequada do Município para essa finalidade. Trata-se da área à margem direita do Rio Verde dentro da APA da Escarpa Devoniana, próxima ao Parque Nacional dos Campos Gerais e ao Parque Municipal do Capão da Onça, sobre a área de recarga do Aquífero Furnas. A PGA já teve sentença condenatória em processo na Justiça Federal em que é ré por adulterar e retirar dos mapas nascentes e áreas úmidas, o que fez para viabilizar seu condenado empreendimento, situado em áreas de proteção permanente protegidas por lei e colocando em sério risco mananciais subterrâneos que abastecem a cidade de Ponta Grossa.
Traduzindo, a PGA recebe dos munícipes valores superfaturados para assim investir na “legalização” de empreendimentos ilegais, imorais e ímprobos, que mais uma vez vão lesar interesses coletivos.
E o papel da Prefeitura, da Câmara de Vereadores, dos Conselhos Municipais, da mídia local? A questão do lixo urbano não é só uma questão ambiental e de saúde, a prática do sobrepreço revela tratar-se também de uma questão econômica, que pode lesar o munícipe que paga em dia os tributos. Qual vai ser a postura destes órgãos municipais frente à constatação de prática de sobrepreço identificada pelo TCEPR? Vão comemorar o não pagamento do sobrepreço para os anos vindouros de vigência do contrato com a PGA? E os anos em que fomos todos lesados? Vão ser esquecidos?
Tantos desmandos continuarão a acontecer somente se poder público e cidadãos mostrarem indiferença. Não é tema, nem momento, para omissão. Que cada protagonista assuma suas responsabilidades.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

Brexit, Trump, Bolsonaro...

Publicado no Diário dos Campos em 06/04/2019 e no Jornal da Manhã em 11/04/2019.

    O que esses três eventos têm em comum? Vendo-se o filme “Brexit” (Reino Unido, 2018, direção de Toby Haynes), um drama biográfico que tem sido exibido nos canais HBO, deduz-se que têm tudo a ver.

O fenômeno Brexit, o surpreendente resultado do referendo realizado em 2016 em que a maioria da população do Reino Unido, num pleito acirrado, decidiu retirar-se da União Europeia, está demandando penosas negociações ainda nos dias de hoje, três anos depois. O filme de Toby Haynes nos mostra algumas notáveis e inusitadas peculiaridades daquele pleito. Logo se consolidaram dois comandos de campanha, um pelo “sai” outro pelo “fica” dos britânicos na UE. O bloco do “sai” foi comandado por um competentíssimo profissional das comunicações, comprometido unicamente com o propósito de vencer, aparentemente sem vínculo ideológico. Ele, inicialmente recrutado por alguns poucos parlamentares conservadores, logo rompe com seus recrutadores, por avaliar que suas engessadas visões levariam à derrota. Então de onde veio o suporte político e financeiro para a exigente e dispendiosa campanha do Brexit? O filme revela: veio de ultraconservadores republicanos estadunidenses, que assim financiaram o enfraquecimento da união de países europeus que poderia vir a fazer alguma sombra a interesses hegemônicos dos EUA.

O bloco do “fica” foi comandado por profissionais com ideologia definida e politicamente engajados, que acreditaram que o caminho para a vitória seria o apelo à inteligência dos eleitores britânicos. Já o pessoal do “sai” enxergou que a vitória seria conquistada com o apelo ao emocional, ao irracional. E como calibrar esse apelo ao irracional? O competente coordenador de campanha contratou os serviços da inovadora empresa Cambridge Analytica, com um aplicativo com algoritmo capaz de, em tempo real, monitorar e analisar o fluxo de mensagens nas mídias sociais (facebook, twitter, etc.), traçar o perfil psicológico dos usuários e conceber novas mensagens imediatamente disseminadas, com conteúdos cientificamente estudados, falsos ou não, destinados a atingir os twitteiros no cerne de seus obscurantismos e assim conduzi-los irracionalmente a votar pelo “sai”.

Essa e outras eficazes estratégias da turma do “sai”, como a identificação e conquista dos indiferentes que, se não estimulados, nem teriam ido votar, levou à inesperada vitória do Brexit, que tantos embaraços tem trazido aos países europeus.

E qual a relação entre o Brexit, Trump, Bolsonaro e possivelmente outros eventos pelo mundo? Vários indícios de semelhança: a desvinculação dos ganhadores com a política tradicional, o apelo ao irracional e não à inteligência, a mesma Cambridge Analytica e o uso de farsas midiáticas nas três campanhas. No caso de Trump o objetivo foi colocar o governo da maior potência mundial nas mãos de poderes não identificados com a política tradicional, mas sem dúvida poderes profundamente enraizados, e nem sempre visíveis, no cenário econômico e político global.

No caso do Brexit e de Bolsonaro, o objetivo parece mesmo ter sido sabotar dois emergentes protagonistas do arranjo mundial, UE e Brasil, e conduzi-los a posições mais subservientes às mesmas forças que colocaram Trump no comando dos EUA.

Diante de tudo isso, resta-nos acreditar que bizarras afirmações twittadas como “o nazismo é de esquerda” não sejam reles bravatas de uma mente doentia, mas sim produtos cientificamente pesquisados para assegurar que a população continue refém da irracionalidade.

Brexit, Trump e Bolsonaro também nos dão uma outra lição capital: o apelo unicamente à inteligência não tem força suficiente para convencer; e o apelo unicamente à irracionalidade pode levar-nos a escolhas desastrosas. A mescla razão-emoção, expressa nas palavras sentimento, empatia, compaixão, talvez possa conduzir-nos a escolhas que promovam a emancipação da humanidade.