quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

A Terra é plana!


Nós humanos nos consideramos animais racionais. Afinal, temos o neocórtex maior que outros animais, é ele que nos faculta raciocinar, estabelecer relações de causa e efeito, encadear informações, fazer previsões, calcular. Embora muitas vezes animais pareçam ter mais juízo do que nós.
Esquecemo-nos que além do neocórtex maior temos ainda os cérebros reptiliano e límbico. Eles propiciaram que nossos ancestrais vencessem as barreiras impostas pela seleção natural, de agressividade e de cuidado parental para a sobrevivência. Ainda somos mais agressivos e emotivos do que racionais. Por isso tantas vezes ouvimos que antes de uma ação precipitada temos que contar até dez. É um tempo que damos para que a reação do neocórtex equilibre a reação do réptil e do símio dentro de nós.
Esta natureza tríplice, réptil, primata, humana, é muito manipulada por aqueles nossos congêneres que usam o raciocínio para explorar os semelhantes e para manter-se no topo da pirâmide de privilégios. Uma das ciências mais fomentadas é a que estuda o comportamento humano, sobretudo o comportamento reptiliano e límbico. Ao lograr estimular reflexos condicionados, é possível induzir ao consumo, às ideologias, à subserviência, à omissão.
Terra plana, criação do mundo em sete dias e do homem no sétimo, armas melhoram a segurança, diminuir salários, aposentadorias, investimentos melhora a economia, a educação forma subversivos, a censura no ensino, na cultura, nas artes soluciona impasses sociais, concentrar a renda para os privilegiados fortalece a sociedade, curvar-se ao jugo da grande águia do norte irá nos salvar, funcionários públicos (e professores!) são parasitas que debilitam o país... É um rol sem fim de absurdos tidos como verdadeiros por parte significativa da população e dos nossos dirigentes. Como é possível? O neocórtex não está discernindo?
O neocórtex deve estar funcionando, mas não discernindo. Há muita engenhosidade por trás do convencimento que é preciso ter um carro novo a cada ano, um celular novo a cada seis meses, roupas novas a cada mudança da moda. E ao mesmo tempo ocultar que o planeta está extenuado, já nos dá evidentes sinais de que não dá conta de neutralizar os impactos da presença humana.
Assim como há muita engenhosidade (ou manipulação?) para convencer-nos que pode ser bom um governo segregacionista, que estimula o ódio até entre irmãos, que acha que a natureza atrapalha a economia, que julga que é proveitoso submeter-se à potência imperialista que brada ─ Nós primeiro! ─ para melhorarmos, que entrega nossos ricos recursos naturais para transnacionais rapinantes, que louva o armamentismo, a tortura, a ignorância, o milicianismo...
Acreditar que a Terra é plana, ou querer convencer outros disso, é só um sintoma. De que a razão provida pelo neocórtex não está funcionando bem. Ou está ausente, então é a bestialidade dos animais, ou descolou-se do sentimento que pode ajudar-nos a ter empatia com nossos semelhantes humanos.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

A incivilidade saiu do armário



Trocando impressões com um amigo sobre como anda a Humanidade, inclusive no Brasil, que parece estar tendo um surto de beligerância e imbecilidade, ele respondeu:
─ “O Brasil não imbecilizou, mas os imbecis que sempre existiram saíram do armário. Romperam a linha vermelha do pacto construído com muito sangue ao longo da História em nome da civilidade mínima.”
Quanta verdade! Os imbecis só estavam contidos, a civilidade preponderava. Civilidade é tudo aquilo que nos permite viver em sociedade. As regras de mínima convivência respeitosa datam de mais ou menos dez mil anos, no final da última era glacial, quando os seres humanos começaram a praticar a agricultura, a ter sobras alimentares para enfrentar os períodos de escassez. Mas que ao mesmo tempo eram o motivo de guerras e pilhagens. Foi quando começamos a nos agrupar em cidades, surgiram os ofícios, as trocas. Era preciso ter regras de convivência para que não déssemos asas aos instintos primitivos, que não gostamos de reconhecer, mas que ainda são tão fortes em nós, equivalentes em força à compaixão e à solidariedade que já distinguem o ser humano de outros animais.
É para colocar limites na manifestação desta porção bestial, herdada de nossos ancestrais primatas, que existem as leis, os princípios éticos e religiosos que buscam reforçar aquilo que já alcançamos de humanos frente às investidas do que ainda há de primitivo em nós. Todos temos estes dois lados, o bestial e o civilizado. A preponderância de um ou outro oscila, cada indivíduo ora se encontra mais bestial, ora mais civilizado. E o mesmo acontece com os povos, e as civilizações.
A tendência a longo prazo sem dúvida é de evolução. Hoje temos muito mais justiça, mais civilidade, que há dez mil anos atrás. Mesmo que há cem anos atrás. Este surto de bestialidade atual no Brasil e no mundo, com a ascensão de líderes ignorantes e beligerantes, mistificados por uma parcela considerável da população igualmente bestializada, poderia ser encarado como um desses momentos de preponderância do selvagem sobre o civilizado. Que, ao longo da História, têm sido sucedidos por momentos de iluminação. A Humanidade progride.
Há uma singularidade neste momento atual em que a bestialidade resolveu sair do armário: nunca antes, ao longo das crises civilizatórias da História, tínhamos tanto poder destrutivo como hoje. Temos armas capazes de arrasar todo o planeta várias vezes. Temos possibilidade de inviabilizar a vida mesmo sem usar armas, deteriorando o clima, o ar, a água, os solos, os alimentos, a alma humana. A Humanidade dividida entre Eros amoroso e Thanatos destrutivo revela-nos que somos como instáveis adolescentes, ainda sem discernimento. A capacidade de destruição da vida e do planeta na mão de uma civilização adolescente é um perigo.
Se não queremos colocar em risco o futuro da Humanidade e do planeta, urge confrontarmos a bestialidade humana que saiu do armário. Talvez essa saída do armário seja uma oportunidade de civilizar o obscurantismo renitente na alma humana.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Irã, petróleo, Brasil

Publicado no Jornal da Manhã em 10/01/2020.

Estes dias fui abastecer o carro em Ponta Grossa, surpreendi-me. De manhã, vi o preço do combustível. Quando fui abastecer, perto da hora do almoço, tinha aumentado. Perguntei ao frentista, ele disse que era por causa do aumento do preço do petróleo no mercado internacional, da crise entre EUA e Irã, do atentado que matou o general iraniano.
Falei com o frentista que agora que somos autossuficientes em petróleo, ficamos a mercê das crises internacionais e das mudanças de preço. Não é um absurdo? Ele me respondeu de pronto que o culpado é o Lula e seu governo, que tinha prometido redução dos preços, mas com a roubalheira do petrolão e outros golpes tinha acabado com a Petrobrás.
Espantei-me. Com as pessoas pensando desta forma não surpreende que tenhamos sido capazes de chegar ao ponto em que chegamos no País. Meu entendimento é oposto ao que pensa o frentista. Quem estará certo?
O Brasil tornou-se autossuficiente lá pelos anos 2006-2007, graças à produção das bacias de Campos e Santos, depois aumentada com o pré-sal, a partir de 2010. Em agosto de 2019 a produção do Brasil era de 3,83 milhões de barris equivalentes por dia (petróleo+gás), sendo 63,4% dela do pré-sal. Em fevereiro de 2019 o consumo foi de 2,84 mbpd.
Foi pouco depois do anúncio da descoberta do pré-sal (2006) que a Quarta Frota dos Estados Unidos, responsável por operações na América do Sul e Central, foi reativada (2008). Ela tinha sido desativada em 1950. Foi também por essa época que se iniciou a aguda campanha midiática de demonização do PT e seus governantes. Há relação entre esses assuntos? E a relação com o Irã, com a Venezuela?
Voltando à conversa com o frentista, tentei dizer a ele para pensar se o motivo do aumento do preço do combustível no Brasil, que ele dizia ser resultado da crise EUA x Irã, não é outro. Não é o Lula e suas supostas roubalheiras e política petrolífera. Pedi para ele pensar se a imagem que temos, de que Lula é um ladrão ignorante e incompetente, não foi um engodo criado justamente para poder substituí-lo por quem governa o Brasil hoje. E se quem governa o Brasil hoje não é quem está loteando as nossas grandes reservas de petróleo, privatizando as refinarias e a comercialização no Brasil, exportando o óleo cru barato, e importando os derivados encarecidos, pelo preço internacional, que oscila conforme as crises que não têm nada a ver com nosso País.
Mas acabam tendo tudo a ver. Se deixamos de ter autonomia, de ter soberania, os preços do combustível não vão mais depender de produzirmos ou não o petróleo que consumimos. Se entregamos nosso petróleo, vamos pagar o preço imposto pelo oligopólio controlado pelas empresas estadunidenses, que não hesitam em fazer a guerra contra o Irã, o Iraque, a Síria, não hesitam em destruir econômica e politicamente a Venezuela, o Brasil, em defesa de sua hegemonia. E a Quarta Frota nos monitora.
Será que o frentista parou para comparar os pontos de vista diferentes? Será que os brasileiros estão parando para pensar no que acontece no País?

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Feliz 2020, Brasil!



Os votos de ano novo confundem-se com os votos natalinos. Natal, não esquecer, é a data em que convencionamos comemorar o nascimento de Jesus Cristo, principal guia espiritual da Humanidade. Embora ela esteja se transformando na data apoteose do consumismo.
Cristo, sejam quais forem nossas convicções e crenças, simboliza um ideal de ser humano. E qual foi a lição que Cristo procurou nos ensinar, há mais de dois mil anos? Creio que ela possa ser abreviada na sentença “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”. Advertência que teimamos, resistimos aprender, negamos. Esse ensinamento-advertência nos diz muito.
“Ama a Deus”. Qual o entendimento que temos sobre Deus? Creio que não existam duas pessoas que pensem igual. Talvez seja mais certo acreditarmos que não o conhecemos plenamente, mas conhecemos sua obra. Deus seria o criador. Da vida, de nós mesmos, do planeta Terra, do sistema solar, do universo. Se não conseguimos entrar num acordo sobre quem seja Deus, deveríamos entrar num acordo sobre amar, e respeitar, a sua obra. Amar a vida, em todas as suas formas, humana, animal, vegetal. E amar o planeta Terra, essa joia única pairando no espaço, que nos concede o milagre da vida. Amar o ar que respiramos, a água que nos dessedenta, os solos que produzem nosso alimento, os recursos naturais com os quais a civilização prospera, as belezas naturais que nos iluminam a alma. Amar os arranjos que fazem funcionar com perfeição tudo isso que conhecemos. Amar a Deus poderia então ser traduzido como amar a natureza.
“Ama o próximo”. Quem é mesmo o próximo? O familiar, o amigo, o colega de trabalho, o correligionário, o vizinho de bairro? Ou o nosso contemporâneo, esteja ele onde for, e que conosco compartilha este momento de encruzilhada do ser humano, em que convivem o desperdício e a miséria, a desfaçatez e a consciência, a imbecilidade e o discernimento, a beligerância e a solidariedade, a ignorância e a sabedoria? O próximo talvez seja todo aquele que conosco, nesta época de deslumbramento da Humanidade, enfrenta o desafio de saber vencer o que dizem ser a adolescência da civilização, em que já temos tecnologia para nos emanciparmos ou para nos aniquilarmos, e nosso juízo ainda vacila sobre qual caminho seguir.
“Ama a ti mesmo”. É preciso que nos digam que devemos aprender a amar a nós mesmos? As estatísticas sobre suicídios, crimes passionais, doenças depressivas, consumo de drogas lícitas e ilícitas, parecem dizer que sim. Além da renúncia de nós mesmos ao apelo da mídia que nos aliena, do consumismo que nos ilude, dos comodismos que nos viciam, do individualismo que nos distancia, dos falsos estadistas que nos aliciam.
Mas talvez, na sentença de Cristo, o primordial não seja entender quem seja Deus, nem o próximo, nem o que signifique o ti mesmo. Talvez o essencial seja mesmo o verbo amar. É esse verbo que já demoramos mais de dois mil anos para entender.
Que em 2020 sejamos, então, mais amorosos. Um 2020 mais amoroso, Brasil!

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

... Pátria aRmada, Brasil!

Publicado no Jornal da Manhã em 14/12/2019.

O desgoverno atual elegeu-se fazendo com a mão direita um arremedo de arma de fogo disparando. Antes já fizera exaltação do talvez mais famoso e mais odiento torturador do País, no momento de votar a favor do golpe que depôs o governo democraticamente eleito, e que era pacífico. Seguiram-se declarações explícitas e leis facilitando a posse e o porte de armas, por aqueles que podem comprá-las.
Novas declarações, de que a velocidade máxima nas vias não tem que ser respeitada, as punições contra os que transformam seus veículos em armas e com elas aleijam e matam são relaxadas. Some-se ainda o explícito incitamento à indiscriminada ocupação da Amazônia, resultando em eventos de queimadas recordistas e assassinatos de nativos e seus líderes. Enquanto isso, tenta-se passar outra lei, esta felizmente barrada no legislativo, que usa a enganosa expressão “excludente de ilicitude” para dizer “licença para matar”.
A família do desgoverno tem laços indisfarçáveis com as milícias, que como se sabe resolve na bala e no terror as paradas no mundo do crime que cultiva. O novo partido do desgoverno é o 38, propositalmente o grosso calibre do revolver mais popular entre a bandidagem. Os ministros e filhos do desgoverno, nesse meio tempo, preocupados com as massivas revoltas populares nos vizinhos sul-americanos, ameaçam com a volta do regime de terror perpetrado à força das armas, da tortura e da impunidade, que traumatizou e atrasa o Brasil até hoje.
De um lado incita-se a população a se armar e à violência, de outro se ameaça qualquer revolta com a repressão dos exércitos e da polícia. Isso é demência, de perigosos desequilibrados. O desgoverno é insano, e está empenhado em enlouquecer e encolerizar os demais poderes e líderes do País. E o povo junto. Os brasileiros estão sendo incitados ao ódio de um pelo outro, pelas diferenças de convicção, de religião, do local de nascimento, da cor da pele, da cor da camisa.
Estamos com um desgoverno que quer armar, incendiar e destruir o Brasil. São pessoas doentias, destrutivas. Parece ser esse o intuito dos estrangeiros que apóiam esse desgoverno. O País destruído poderá enfim ter seus imensos recursos, petróleo, minérios, solos agricultáveis, água, Amazônia, o território geoestratégico, apossados pela rapinagem transnacional que nos espreita ávida.
O Brasil enlouqueceu? Não temos mais brasileiros sãos e nacionalistas que percebam a destrutiva insanidade que está sendo cultivada entre nós? Quando o País vai acordar que não são as armas, não é o ódio, não é a violência que vão construir um País próspero e soberano? A prosperidade vai vir com a tolerância, com a compreensão, a paz, a cooperação. Senão vamos nos destruir e dissipar na destruição a energia que temos, sem nada construir nem para nós nem para as gerações futuras.
É hora de dizer não à insanidade. É hora de recuperarmos o que há de civilidade e solidariedade em nossa índole e recuperar a esperança de um país próspero, de paz e alegria.
... Pátria AMADA Brasil!

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Cultura enlatada

Publicado no Jornal da Manhã em 30/11/2019.

Outro dia, por acaso, parei num filme que passava num canal fechado na TV. O filme logo me impressionou, pelo realismo dos personagens que se parecem comigo e com pessoas que vejo no dia a dia, pela intensidade de emoções, sentimentos, ações desses personagens. O nome do filme: “Sem amor”. O tema: drama familiar. O diretor: Andrey Zvyagintsev. A nacionalidade: russo. Os mais exaltados já dirão: ─ Comunista! Não, pudera, não me considero comunista. Ainda falta muito de desapego e solidariedade em mim para que possa dizer-me comunista.
O filme surpreendeu-me pelo clima que cria em torno de um tema tão crucial: o amor filial. Deve ter sido uma produção muito barata comparada às superproduções estadunidenses que inundam nossas telas, e que atraem multidões e arrecadam milhões. Por que filmes realistas, baratos, sobre temas humanos essenciais, que aliam arte, reflexão e entretenimento, comumente vindos do Leste Europeu e do Oriente, são tão raros e costumam ser fracassos de bilheteria entre nós?
Ocorreu-me como resposta que vivemos uma civilização da cultura enlatada. Não só no cinema, mas na literatura, na música, no teatro... Para consumo rápido, que nos entorpece mais do que nos encoraja e desperta sentimentos e a reflexão. Uma cultura que não emancipa, ao contrário, submete. Sentir e refletir estão na contramão de uma civilização baseada na necessidade de consumir rápido e insaciavelmente, senão entra em colapso. Não é assim o mundo em que vivemos, em que as fábricas fazem produtos com vida útil programada para que tenhamos que trocá-los logo por outros, senão a produção cai, a fábrica vai à falência? E o mesmo não está se passando com a indústria cultural, que esqueceu o sentido da palavra cultura, que é cultivar a humanidade dentro de nós? Cultura passou a ser um produto como qualquer outro no mundo consumista, precisa ser vendido rápido e em grande quantidade. Mas pressa e quantidade não combinam com o sentido original da palavra cultura.
Neste mundo de consumo que vivemos uma das ciências em que mais se investe e que mais avança é a ciência que estuda o controle, a manipulação do comportamento humano. Somos bombardeados a todo instante por técnicas cada vez mais sofisticadas e eficazes, para pensarmos, desejarmos, comprarmos, agirmos, votarmos exatamente da forma como nossos manipuladores desejam. Ou seja, somos como eles querem, perdemos a identidade de ser pensante e sensível, com singularidades e aspirações intrínsecas. Somos treinados para responder com reflexos condicionados, exatamente como deseja o mercado. Somos consumidores.
O resultado dessa eficaz manipulação revela-se em tudo: nos filmes que assistimos, livros que lemos, músicas que escutamos, compras que fazemos, ideologias que defendemos, governantes que elegemos, ícones que idolatramos ou que amaldiçoamos.
O contrário da cultura enlatada seria a cultura popular, impregnada da autenticidade da realidade da vida de um povo, sua tradição, território, lutas, conquistas, subjetividade, memória. No Brasil, onde a cultura popular ainda consegue sobreviver à terraplanagem da cultura enlatada? Talvez nos rincões da Amazônia, no sertão nordestino?
Não por acaso o filme mais falado e premiado produzido no País nos últimos tempos, o Bacurau, de Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, aborda justamente o confronto do tradicional com a enlatada farsa no sertão nordestino.
Urge resgatar a cultura autêntica, expressa na cultura tradicional, na cultura popular.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Lula Livre é medo da verdade

Publicado no Jornal da Manhã em 13/11/2019.

Encontrou-se um controverso artifício, 6X5 no STF, para soltar Lula. Ele, que alguns consideram o maior estadista do Brasil, deve estar vivendo um sentimento ambíguo: alegre por estar solto, triste por não reconhecerem o que sua prisão significa.
Lula foi solto por uma divergência de entendimento sobre uma jurisprudência e o que reza a Constituição. E o parecer de que ele estava preso indevidamente prevaleceu por pouco. Faz pensar que o erro jurídico era uma questão difícil, passível de equívoco.
Vamos a outra interpretação. Lula foi solto porque nossos vizinhos sul-americanos, Chile, Argentina, Equador, Bolívia, Uruguai, estão dando mostras que a população lá não aprova as mesmas medidas entreguistas que estão sendo implantadas no Brasil, e pode revoltar-se violentamente. E é crescente o temor de que a população do Brasil acorde. Analistas dizem que a revolta explosiva depende de uma gota d’água depois que o copo já está cheio. Essa gota d’água pode ser o aumento na tarifa do transporte público, o aumento no combustível, o arrocho salarial, o desemprego. Mas o que enche o copo d’água até que uma gota baste para fazê-lo transbordar?
No caso do Brasil, muitos eventos têm enchido o copo d’água. A começar pelo injustificado golpe que depôs Dilma. A seguir veio a questionável condenação de Lula, contestada por juristas internacionais de renome, que apontaram falta de provas, facciosidade, atropelamento do processo e motivação política. Depois a posse de Temer que traiu o programa que o elegeu vice-presidente, e entregou o País à sanha transnacional. Depois a eleição de Bolsonaro graças a crimes digitais que nunca foram devidamente apurados. Depois as denúncias do laranjal do PSL que elegeu Bolsonaro. Depois as denúncias do The Intercept Brazil comprovando o facciosismo da Lava Jato. Depois os indícios de envolvimento da família Bolsonaro com milícias e o crime organizado. No meio de tudo isso, as queimadas na Amazônia, as trapalhadas diplomáticas com parceiros comerciais importantes, as declarações cada vez mais frequentes de autoridades nacionais e internacionais de que temos na presidência alguém que não está à altura do cargo.
Tudo isso é mais que suficiente para encher o copo d’água. Soltar Lula talvez dê a falsa impressão de que o copo não está tão cheio. Só impressão. Porque se nos lembrarmos que durante essas trapalhadas todas o desemprego subiu, a concentração de renda aumentou, a miséria cresceu, o crescimento econômico continua pífio, não há investimento, direitos trabalhistas estão sendo radicalmente precarizados, o pré-sal e estatais de energia estão sendo rifados, a Petrobras e grandes empreiteiras brasileiras foram sangradas gravemente, o povo brasileiro está dividido e desorientado, então percebemos que já há água suficiente para transbordar.
Que o Brasil acorde para a verdadeira razão da soltura de Lula: é confundir sobre a verdadeira razão de sua prisão. Que é a sabotagem de um país que ensaiava assumir um protagonismo que não interessa ao poder hegemônico mundial.