sábado, 4 de novembro de 2023

A Amazônia, as chuvas e o Aterro Botuquara

 Publicado no Jornal da Manhã e no Diário dos Campos em 04/11/2023.

As notícias são paradoxais: verão com temperaturas recordes e incêndios no Hemisfério Norte, inverno sem frio no Hemisfério Sul, seca na Amazônia, chuvas recordes com grandes inundações no sul do Brasil. E há ainda quem teime refutar que estejamos já vivendo as consequências do aquecimento global, provocado pela atividade humana.

Hoje presenciamos o contrassenso da seca na Amazônia e chuvas recordes no Sul. Mas este quadro é só um sintoma passageiro de um desarranjo climático cujas manifestações futuras são imprevisíveis. Amanhã é bem possível que tenhamos seca também no Sul, sobretudo se se agravar a seca na Amazônia. Graças a um arranjo singular na América do Sul, que combina a ação das correntes atmosféricas com a localização da Bacia Amazônica e da Cordilheira dos Andes, temos os “rios voadores”, que trazem a umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil. Se não fosse esse singular arranjo, seríamos aqui uma área desértica, como são todas as outras regiões do planeta nas mesmas latitudes, seja no Hemisfério Norte ou no Sul.

Muitos pesquisadores têm alertado que os eventos climáticos extremos que temos presenciado, incluindo entre eles os antes desconhecidos e agora comuns ciclones extratropicais que têm afetado o sul do Brasil, são já consequências do aquecimento global. E têm alertado também que a distribuição das chuvas e da água no planeta está sendo drasticamente afetada. E já não é possível evitar estes eventos climáticos extremos. É obrigatório que saibamos nos adaptar a eles. Já passamos da hora da prevenção, chegou a hora da adaptação.

Diante desse quadro, é necessário repensar, ainda com mais prudência que antes, o papel dos reservatórios subterrâneos de água potável, os chamados “aquíferos”. É neles que se situa a maior parte da água doce: no planeta, só 3% da água é doce, 69% da água doce está congelada nos polos, 97% da água doce não congelada está contida nos aquíferos, só 3% é água superficial, de rios e lagos, o que corresponde a 0,009% da água existente na Terra. A conclusão é que, com o desvario do clima induzido pelo aquecimento global, vamos depender cada vez mais da água dos aquíferos.

O que o Aterro Botuquara tem a ver com isso? O Botuquara funcionou como lixão a céu aberto de Ponta Grossa desde a década de 1970 até o início dos anos 2000. O local foi escolhido por ser um terreno da prefeitura, o lixão não cumpria nenhuma norma técnica, nem mesmo a impermeabilização do substrato. E o Botuquara está sobre o Aquífero Furnas, que já abastece, através dos chamados poços artesianos, muitas indústrias, postos de combustíveis, hospitais, escolas, granjas, supermercados, abastecimento público e privado em Ponta Grossa. Estudos realizados com dados de 2010 revelaram que, naquela época, os poços artesianos já podiam atender a mais de 50% da demanda de água da cidade.

Os aquíferos são um enorme reservatório de água de boa qualidade, mas têm um problema: não podem sofrer poluição. Se forem poluídos, a recuperação é inviável. Ou seja, há que zelar pela preservação dos aquíferos, se queremos preservar estratégicas reservas de água potável para o incerto futuro hídrico que se nos apresenta.

Em conclusão, é necessário retirar a montanha de lixo do Aterro Botuquara do local onde se situa hoje, sobre o Aquífero Furnas. Lá, o lixo representa risco enorme de contaminação do aquífero, pela infiltração do chorume. Ameaça agravada com as fortes chuvas que têm caído atualmente.

Há outros locais no município, com rochas e solos impermeáveis, que poderiam servir de depósito mais adequado para o lixo do Botuquara, sem ameaças para o aquífero. Se os administradores não providenciarem esta mudança com urgência, estarão comprometendo a principal reserva de água potável para o futuro da região.


quinta-feira, 26 de outubro de 2023

A verdade em Israel e na Palestina

 Publicado no Jornal de Manhã em 27/10/2023.

Qual a verdade em Israel e na Palestina? Como sempre, na guerra a primeira vítima é a verdade. Ela morre junto com a lucidez, a sensatez, a humanidade. As notícias que nos chegam, aqui do outro lado do mundo, não permitem que saibamos o que de fato se passa no Oriente Médio. O que nos leva a fazer conjecturas.

O que teria feito o Hamas perpetrar o bárbaro ataque que vitimou centenas de israelenses no 7 de outubro? Teria sido um ato de desespero? Muito improvável. Nem os 75 anos de expatriação e apartheid impostos aos palestinos fariam que eles realizassem a agressão que Israel aguardava, para justificar seu intento de exterminar ou expulsar em definitivo os palestinos. Como está fazendo agora. O que teria então acontecido naquele 7 de outubro?

Diz-se que é impossível que os serviços de inteligência de Israel não soubessem de um plano de ataque do Hamas. Então, tal como fez os EUA no 11 de setembro de 2001, teriam deixado acontecer, para justificar a selvagem retaliação? Que, de outro modo, seria a escancarada confissão dos planos de hegemonia mundial do Tio Sam? E, no caso de Israel, dos planos de exterminar definitivamente os palestinos?

Nem um ato de desespero justificaria os crimes do Hamas. Sabia-se que a retaliação seria monstruosa. Não é improvável pensar que, de fato, o que tenha ocorrido tenha sido um plano arriscado, mas que fugiu do controle. O Hamas pode ter pretendido fazer um grande número de reféns, sem mortos, para negociações com Israel. Por troca de prisioneiros, água, alimentos, medicamentos, energia, liberdade de locomoção... Enfim, pela sobrevivência. Por esse motivo os alvos foram não militares, festas e outros.

Mas em Israel tudo é militar. Por algum motivo, a ação planejada fugiu do controle. Ou pela reação armada de algum dos pretendidos reféns, ou pelo descontrole de algum palestino mais irascível, diante de impropérios a ele dirigidos por algum judeu mais fundamentalista. Um disparo, e o que era para ter sido uma operação para fazer reféns acabou virando uma matança.

E o ataque ao hospital em Gaza que deixou centenas de mortos e feridos, a maioria mulheres e crianças? As trocas de acusações sobre quem teria realizado o ataque parecem querer esconder outra verdade: membros do Hamas, caçados, teriam procurado usar o escudo humano de civis para proteger-se. Um risco imperdoável. Mas Israel menosprezou o “efeito colateral” de centenas de vítimas civis. Talvez tenha encontrado ali outro pretexto para continuar a limpeza étnica?

Judeus e palestinos são irmãos de sangue milenares. Seu DNA é o mesmo. São fruto da mesma terra, dos mesmos povos originais. Como puderam tornar-se inimigos tão mortais? E os judeus, como podem hoje estar repetindo, talvez com ainda mais crueldade, perseguições de que foram vítimas tantas vezes ao longo da História? Nada aprenderam?

A crise atual da civilização não é só ambiental, ideológica, econômica, sanitária... Uma aguda crise ética e espiritual está a desafiar a sobrevivência da Humanidade.

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Trágico despejo

 

Não consegui separar este infeliz episódio doméstico do conflito israelenses versus palestinos. Ele talvez seja o que melhor representa o desvario humano atual.

Aquele galho da árvore do jardim cresceu demais. Estava obstruindo a passagem e tapando a visão. Há tempos pensei em podá-lo, adiei. Ele cresceu ainda mais. De novo compreendi que era preciso podá-lo, de novo adiei. Nem lembro o motivo de tantos adiamentos. Hoje parece-me que foi um simulacro daquelas muitas negligências que vamos cometendo, até que suas consequências tornem-se trágicas.

Então, tarefa inevitável, uma tarde decidi enfim pegar as ferramentas para a necessária poda. Sem a devida atenção, acho que com aquela pressa de quem teme outro pretexto para um adiamento, realizei a tão postergada poda. Não foi fácil, tanto adiamento já fizera aquele galho avantajar-se. Foi necessário um suado esforço. Depois, recuperando o fôlego e as forças, sentei-me na mureta próxima, apreciando a passagem e a visão mais franqueadas, graças à ausência do estorvo do amputado galho.

Foi então que aquele inquieto beija-flor chamou-me a atenção. Ele esvoaçava em torno do galho caído no chão, pairava, inspecionava as ramas, tenho a impressão que olhava para mim. Aproximava-se do galho caído por um lado, pairava, ia para outro lado, pairava de novo, parecia atormentado procurar por algo. Despertou minhas lamentáveis suspeitas.

Com a ajuda da esposa fomos verificar o galho cortado com mais atenção. Após alguma procura, descobrimos nele a razão da angústia da extremosa mãe beija-flor: um pequeno ninho, caprichosamente tecido com delicadas fibras vegetais, talvez das alvas painas de paineiras, bem fixado num ramo do galho decepado. E, no chão, dois restos quebrados de minúsculos ovinhos brancos.

Que arrependimento! Como pude amputar o galho sem antes uma minuciosa inspeção? Como pude adiar a poda até a época da reprodução dos passarinhos e não tomar esse mínimo cuidado? Ainda tentei toscamente remediar o crime cometido, prendi com fita crepe o delicado ninho noutro ramo perto, com mais ou menos o mesmo calibre do anterior. Uma baldada tentativa de um absolvedor resgate.

E ficamos a observar a reação da desesperada mãe, de quem assassinamos os rebentos e destruímos o lar. Depois de aflitivas buscas no galho cortado no chão, ela procurou na árvore. Acabou por encontrar o canhestro arranjo que tínhamos feito com aquele ninho tão primoroso, preso ao galho com fita adesiva. Vasculhou o ninho vazio, procurava os ovinhos. Foi e voltou várias vezes, parecia não querer acreditar. Queria despertar do pesadelo que, de uma vez, destruíra o grande galho que era seu mundo, o ninho que fora construído com tanto zelo, os rebentos concebidos com tanto desvelo.

Afinal, a mãe beija-flor desistiu do ninho remendado. Sua reação foi então surpreendente. De graciosa, amistosa e depois desolada criatura, passou a agredir com fúria todos os pássaros que se aproximavam de onde era antes o galho sua morada. Tocaiava pousada noutro galho próximo e, subitamente, com rápidos rasantes, atacava sanhaços, bem-te-vis, rolinhas, canários que desavisados se aproximassem. Cheguei a pensar que atacaria a mim e à minha esposa, caso ousássemos nos aproximar. Constatamos que a dor enlouquecera aquela criaturinha.

Não logramos deixar de fazer o paralelo com o que se vê tão amiúde pelo mundo: criaturas que têm seus territórios, seus lares, suas famílias invadidas e destruídas, podem, de uma conduta antes pacífica e amistosa, tornarem-se alucinados e odiosos inimigos, cegos pela dor da perda, da segregação, do desrespeito, da ignomínia.

A desfaçatez transforma a amizade e a paz em ódio. Quando iremos aprender a conviver em paz, cuidando de respeitar o diferente?

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

Nós, os répteis

 

Em 2015, um texto com o título “Nós, os répteis...” já foi publicado em jornal, livro e neste blog. Ele ironizava frase real, ato falho pronunciado por um professor de Paleontologia durante aula no curso de Geologia da USP, nos idos de 1980. O professor teria pretendido dizer “Nós, os mamíferos...”, e se equivocara. Mas sua desastrada frase, pela sua picardia, tornou-se mote do curso de Geologia à época: apareceu estampada em camisetas, foi pichada nos muros da universidade, foi impressa no jornal do centro acadêmico, era pronunciada amiúde e pintada em cartazes de manifestações.

Agora, outros motivos resgatam a agudeza do escárnio contido naquela frase. Acabo de ler o surpreendente livro “O mal-estar na civilização!”, de Sigmund Freud (Companhia das Letras, 2011), que me foi indicado por querida amiga psicanalista. O livro, na verdade um ensaio do renomado psiquiatra austríaco escrito em 1930, é uma reflexão sobre a infelicidade humana, diante da impossibilidade de dar plena vazão a dois impulsos básicos: a sexualidade e a agressividade. É impressionante constatar como, há quase cem anos, o sagaz Freud já foi capaz de encarar com tamanha sinceridade e maestria estes que são dois instintos onipresentes, até hoje insuperáveis tabus.

Os pensamentos de Freud sobre sexualidade e agressividade parecem remeter aos répteis: para aqueles nossos longínquos escamosos ancestrais, estes dois impulsos eram essenciais para a sobrevivência. Há centenas de milhões de anos, a prioridade da irrefreável evolução das espécies era sobreviver. Os répteis, então a forma de vida mais evoluída no planeta, puderam dar origem a outras espécies graças à sua capacidade de sobrevivência, frente aos competidores e às vicissitudes da natureza.

Depois de Freud, neurocientistas e antropólogos têm afirmado que o Homo sapiens ainda conserva o primitivo cérebro reptiliano, acrescido do emocional cérebro límbico dos mamíferos e do racional neocórtex, que caracteriza nossa espécie. Tornamo-nos assim, para além da aptidão de sobreviver dos répteis, zelosos cuidadores das crias e dos grupos familiares, e capazes de observar, aprender, discernir, planejar, criar...

Há quem diga que já começamos a desenvolver um outro cérebro, representado pela hipófise, discreta glândula na base da caixa craniana. Este cérebro hipofisário seria identificado com a compaixão, solidariedade, fraternidade, empatia, ética, comunhão com o outro e com o planeta... enfim, seria o cérebro da espiritualidade.

Ufa! Que alívio! Estamos a compreender que somos mais que os répteis e os impulsos básicos que os comandaram ─ a sexualidade e a agressividade ─, tão honestamente dissecados por Freud. Mas afirma-se também que o cérebro reptiliano não só ainda está vivo em nós, como é o primeiro a se manifestar nas situações mais críticas. Por isso é tão importante não reagirmos intempestivamente, sem refletir. Seria nosso réptil ancestral que estaria a nos comandar, e não o Homo sapiens que o sucedeu.

Entretanto, atualmente parece que é o cérebro reptiliano que tem guiado a civilização. O zelo do límbico, o racional do neocórtex e o fraternal do hipofisário parecem estar sendo suplantados por dominantes impulsos sexuais e agressivos, que não logramos mais reprimir. E, nas palavras de Freud, daí nosso mal-estar, nossa infelicidade.

Estaremos regredindo ao ancestral cérebro reptiliano? O professor de Paleontologia da USP dos anos 1980 teria dito uma profecia? Ou estamos vivendo um lapso em que nosso cérebro reptiliano está sendo vilmente estimulado, a ponto de superar, nas reações que produz, os outros mais evoluídos?

O surto de hiperconsumismo, depredação ambiental, guerras, intolerâncias, segregacionismos, egoísmo, desigualdades, negacionismo, irracionalidade, cegueira ética e religiosa, incapacidade de discernir entre verdades e mentiras, nos faz supor que a frase possa estar acertada: sim, “Nós, os répteis...”.

sábado, 26 de agosto de 2023

Dia da sobrecarga da Terra – 2 de agosto de 2023

 Publicado no Jornal da Manhã em 14/09/2023.

O “dia da sobrecarga da Terra” (em inglês o “Earth Overshoot Day”, sigla EOD) é aquele dia do ano em curso em que o consumo de recursos naturais pela humanidade ultrapassa a capacidade do planeta de renová-los ao longo de todo aquele ano. Numa comparação grosseira, é como se fosse o salário sendo gasto ao longo do mês: se ele termina antes do fim do mês, e continuamos a gastar, vamos acumular saldo devedor. E teremos de pagar o débito no futuro, com juros. Como a Terra vai nos cobrar isso?

O cálculo do EOD é feito dividindo-se a capacidade de reposição dos recursos naturais renováveis ─ chamada “biocapacidade” ─ pelo consumo efetivo desses recursos pela humanidade ─ a chamada “pegada ecológica” ─ ao longo de um determinado ano, e multiplicando-se o resultado por 365 dias. Numa expressão matemática seria: biocapacidade mundial/pegada ecológica mundialx365. Esse cálculo tem sido feito por organizações internacionais não lucrativas, como a Global Footprint Network, a New Economics Foundation, a World Wildlife Fund e mais uma dezena de entidades envolvidas com estudos sobre a sustentabilidade no planeta.

A biocapacidade é a possibilidade de reproduzir recursos naturais consumidos pela população e a capacidade de reciclar/decompor resíduos. É um indicador da capacidade de regeneração do planeta frente à ação humana. É um conceito que envolve terras cultiváveis, pastagens, áreas de pesca, florestas, áreas urbanizadas, áreas de reservatórios artificiais e o tamanho da população que consome os recursos naturais e produz resíduos.

Visto que a biocapacidade tem sido cada vez menor e a pegada ecológica cada vez maior, o resultado do cálculo tem dado cada vez menos que 365. Neste ano de 2023, o resultado do cálculo deu 214. O que corresponde ao dia 2 de agosto passado. Ou seja, já ultrapassamos neste ano o consumo daquilo que o planeta Terra vai ser capaz de produzir ou renovar até o final do ano. Na comparação com o salário para durar 30 dias, é como se nosso saldo bancário estivesse já zerado no dia 18 do mês. A partir daí, entramos no vermelho. Vamos ter de contrair empréstimos a serem pagos no futuro, com juros.

EOD, biocapacidade, pegada ecológica são conceitos complicados, cuja validade pode gerar controvérsias. Mas, com certeza, ainda que sejam passíveis de aperfeiçoamentos, nos revelam verdades inquestionáveis. Os cálculos históricos indicam que até o final dos anos 1960 a biocapacidade compensava a pegada ecológica. Mas já no ano de 1970, o EOD foi o dia 30 de dezembro. Essa data crítica vem recuando desde então. No ano de 2000 foi no dia 22 de setembro. No ano de 2022, recuperação da pandemia, foi no dia 28 de julho. Em 2023, foi em 2 de agosto.

O constante recuo do EOD resulta do crescente consumismo de uma sociedade regida pelo capitalismo, cujo propósito é o lucro. O EOD é um dos alertas ambientais da insanidade dos rumos da civilização atual. A ele somam-se outros alertas ambientais, como o aquecimento global e os eventos climáticos extremos, e os alertas de degradação social, traduzida nas crises econômicas, guerras, multidões de refugiados, instabilidade política, totalitarismos, intolerâncias, miséria, criminalidade, concentração de renda, retrocesso cultural, religioso, moral...

Ou a humanidade compreende a dimensão ambiental, social e econômica do termo “sustentabilidade”, ou logo transformaremos a Terra num planeta insustentável. Quer dizer, inabitável por humanos.

sábado, 19 de agosto de 2023

Apagão de nacionalismo

 Publicado no Jornal da Manhã em 26/08/2023.

O apagão que tumultuou o Brasil no dia 15 de agosto último foi muito revelador. Até o dia seguinte as autoridades ainda não conseguiam ─ ou ainda não ousavam ─ revelar as causas. Mas admitiam que o sistema brasileiro é interligado, e que o problema num determinado local pode originar um efeito dominó de consequências nacionais. E também admitiam que as causas poderiam ser devidas a “falha humana ou até dolo”. Ou seja, não sabiam dizer se poderia ter sido um acidente ou uma sabotagem, algo premeditado.

Este apagão não poderia ter vindo em hora mais adequada para uma advertência: na véspera, o governo do Paraná vendia a antes estatal Copel ─ Companhia Paranaense de Energia ─ na bolsa de valores de São Paulo. Antes, a Eletrobrás já fora privatizada, em 2022. E, num sistema integrado como reconhecem as autoridades, onde um colapso localizado pode estender-se nacionalmente, as empresas de energia estaduais assumem a mesma importância estratégica da nacional. O possível dolo, ou seja, a possibilidade de uma sabotagem, aventado pelas autoridades, pode ter origem numa estadual, ou na nacional.

No Brasil ainda não aprendemos que o mundo vive um momento de conflitos e disputas que não dispensam as sabotagens? Que não é improvável que o apagão tenha de fato resultado de uma sabotagem? E que o sistema energético do país é de importância vital, e que seu colapso desencadearia o caos e a absoluta vulnerabilidade? E que hoje, no mundo, nações agem como as aves de rapina que são seus símbolos, debilitando suas presas para depois predá-las impiedosamente?

Energia, água, alimentos, combustíveis, transporte coletivo, saneamento, comunicações, saúde, educação, pesquisa científica, moradia... são setores vitais para um país que deseja tornar-se soberano, próspero e inclusivo. Setores que devem estar controlados por interesses nacionais, e não pelo volúvel e ambicioso interesse de empresas privadas. A razão de ser das privadas é o lucro. Doa a quem doer. A razão de ser das empresas estatais é, em princípio, a autonomia, o benefício coletivo, a independência. Embora as estatais estejam sob ataque constante daqueles que querem sucateá-las, depreciá-las e então privatizá-las, para o lucro e benefício de poucos vis apaniguados.

Essa é a diferença entre governos e políticas públicas socializantes versus privatizantes. É a diferença entre o socialismo e o neoliberalismo. Este último propugna o “estado mínimo”, alegando que o mercado é autorregulável, e que a estatização só atrapalha e atrasa. Que argumento tão enganador! A prática tem mostrado, no mundo todo, que a privatização dos setores estratégicos só traz prejuízos e retrocesso para as nações e suas populações. Quem ganha são aqueles poucos acionistas que já estão locupletados, mas nunca lhes basta a riqueza, nada consegue saciar sua sanha. Privatizações de setores estratégicos têm sido revertidas em reestatizações nos países que experimentaram os erros de acreditar na mentira da autorregulação do mercado.

Privatizar setores estratégicos, como é o caso da energia, é entregar o país à sanha da vampiragem transnacional.

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

Os gols que o Brasil tem perdido

 

O primeiro que me impactou muito, foi o gol que o Santos – meu time do coração – perdeu contra o Barcelona, na final do mundial de clubes de 2011. O time catalão dominava a contenda, punha o Peixe na roda. Mas não conseguia infiltrar-se na área, não conseguia finalizar. A defesa do Santos estava muito bem plantada. O placar ainda 0X0. Até que o Santos conseguiu um contra-ataque fulminante, rápido. Neymar pelo meio avançava com a bola, mas à frente dois zagueiros do Barça o bloqueavam. Correndo ao lado de Neymar, livre, ia o lateral Danilo, na entrada da área catalã. Mas Neymar quis passar no meio dos dois adversários. Tomaram-lhe a bola! E na continuidade do jogo, o Santos, envolvido pelo talentoso e entrosadíssimo Barcelona, acabou perdendo por 4X0. Teria sido diferente se tivesse feito o primeiro gol.

O segundo, que me lembrou muito aquele de 2011, foi neste 29 de julho de 2023, no jogo do campeonato mundial feminino de seleções, França versus Brasil. Estava 1X1, após o Brasil ter iniciado o jogo perdendo. Então, outro contra-ataque fulminante, muito parecido com aquele de 2011. Debinha com duas zagueiras francesas à sua frente, na entrada da área, a seu lado uma jogadora brasileira livre – não me lembro quem era. Mas Debinha quis passar pelo meio das duas adversárias, para fazer seu segundo gol na partida. Tomaram-lhe a bola! E o Brasil acabou perdendo, por 2X1. E depois, no 0X0 contra a Jamaica, foi desclassificado. Não teria sido, se tivesse empatado com a França.

Se há duas coisas que atualmente distinguem o melhor futebol do mundo deste que se tem praticado no Brasil, são o espírito coletivo acima da vaidade pessoal, e a rapidez e acerto da decisão, acima dos vícios da lentidão e do desnecessário drible a mais, que parece só querer humilhar o adversário. Os melhores do mundo hoje, inclusive os hermanos e as hermanas da América do Sul, já nos ultrapassaram nestes dois atributos, essenciais para o bom futebol.

O que há conosco, que não conseguimos praticar o futebol solidário e objetivo que os melhores têm praticado? E que já praticamos um dia? Talvez o futebol seja uma manifestação do sentimento de nação. Quantos talentos, e quantas benesses, temos desperdiçado, e quantos gols temos perdido? Perdas que nos perpetuam como a grande nação do futuro nunca alcançado?

Solidariedade, garra e acerto/objetividade nas decisões não são atributos que têm faltado somente ao nosso futebol. Talvez os esportes só estejam refletindo o que está acontecendo com o país, com sua população. Isso explicaria como fomos capazes de acolher, pelo voto universal, o surto de totalitarismo e obscurantismo que está grassando pelo mundo todo, mas que entre nós veio com demência inusitada. O retrocesso civilizatório que vimos no Brasil está se refletindo no futebol, e também noutros esportes. O individualismo e a vaidade superaram a solidariedade e a causa coletiva. O desvario, a negligência e o erro superaram o zelo e a diligência.

Apesar da extraordinária mudança de rumo nas últimas eleições, ainda temos tido exemplos demais que nos fazem desacreditar do Brasil, e nos impelem ao individualismo e ao descaso. Os estoicos exemplos de apreço e amor pelo país, e pela riqueza cultural e moral de seu povo, acabam soterrados pelos exemplos de iniquidade, improbidade e demência. E estes últimos parecem ser incansavelmente incensados por uma mídia insidiosa, que visa justamente nos desacreditar dos nossos valores, talentos, e de um futuro de generosa prosperidade.

Se não quisermos nos submeter a uma nova forma de escravidão, temos de recuperar nossa identidade, e resgatar os talentos que nos distinguem. É reaprender a sermos solidários e termos garra na busca das conquistas que representam avanço coletivo. Quer dizer, avanço civilizatório. Então também voltaremos a praticar o melhor futebol do mundo.