sexta-feira, 17 de março de 2017

APA da Escarpa Devoniana – uma lição de vida

Publicado no Diário dos Campos em 18/03/2017.

Na sexta-feira dia 10 de março, tivemos no Cine Teatro Ópera em Ponta Grossa uma reunião histórica. Por iniciativa de deputados da Assembleia Legislativa do Paraná, foi convocada audiência pública para discussão de nefasto projeto de lei que reduz drasticamente a APA – Área de Proteção Ambiental – da Escarpa Devoniana.
O teatro ficou lotado, e fora dele, impedidos de entrar, centenas de pessoas protestaram, ao longo de toda aquela manhã, pois queriam ter também direito de participação e manifestação na audiência. A maioria destes que ficaram para fora era de alunos e professores de universidades e escolas de ensino básico da cidade. A maioria daqueles que estavam dentro do teatro era de proprietários rurais e seus funcionários, que chegaram bem cedo de Jaguariaíva, Piraí do Sul, Itaiacoca e outros locais, trazidos por ônibus fretados para tal finalidade, e logo ocuparam as dependências do teatro.
Resumindo, os que estavam dentro na sua maioria apoiavam a redução da APA, os que estavam fora em sua maioria refutavam a redução. E os alunos gritavam este repúdio, e pediam nova audiência, o que era escutado lá dentro até mesmo pelos que estavam na mesa de direção dos trabalhos. Demonstravam inconformismo não só com o despropósito do projeto de lei, mas também com as estratégias que foram empregadas justamente com a finalidade de deixar de fora os que eram contrários a ele.
Nada de novo, estas são as usuais estratégias do patrimonialismo que não mede esforços para fazer prevalecer seus interesses: mobilização de logística para trazer os trabalhadores rurais num horário muito cedo; escolha de um local para ser preenchido por esses trabalhadores, excluindo outros interessados; direção da audiência por um deputado parcial, nitidamente identificado com os interesses dos ruralistas; implacável segurança para facilitar que o teatro pudesse ser ocupado pelos que tiveram condições de chegar muito mais cedo, excluindo da audiência os contrários à redução da APA; encerramento da reunião muito antes do previsto, de modo que o público não pôde fazer perguntas ou questionamentos. Por muitos a reunião não foi considerada uma verdadeira audiência, pois não permitiu o debate.
Mas nada disso impediu que o encontro fosse histórico. Pelo número de pessoas que reuniu, dentro e fora do teatro, pelos gritos de inconformismo, pela repercussão na mídia. Hoje muito mais gente sabe o que é a APA, uma área protegida mantenedora das condições de sustentação da vida saudável na região, e qual sua finalidade, ambiental, social e econômica. E muito mais gente sabe quem é quem, e quais comportamentos os proprietários rurais se permitem para alcançar seus interesses.
Mas nesta lição de vida que foi a audiência, há que se destacar algo notável: a infeliz declaração de um deputado, justamente quem presidia a audiência. Ele pronunciou-se na mesa e nos órgãos de comunicação afirmando que quem estava reivindicando voz na parte de fora do teatro eram alunos baderneiros, e que eles deveriam estar em sala de aula nas escolas e não gazeando e bagunçando na audiência no teatro.
Que tacanha concepção do que seja o ensino! E que triste manifestação de um membro do legislativo! Se bem que todos saibam qual é o setor da sociedade que este deputado está representando. E por isso mesmo, se vivêssemos uma sociedade democrática, ele nunca deveria ter sido o indicado para presidir a audiência.
Será que só os professores entendem que a melhor aula de sustentabilidade, civismo e cidadania que nossos jovens poderiam ter seria justamente a participação numa audiência como aquela, uma oportunidade rara?
Mas com sua atitude, o deputado deu uma significativa contribuição para demonstrar como pensam e agem alguns de nossos legisladores. Talvez tenhamos que agradecê-lo, pois ele nos esclarece como deveremos utilizar nossos votos na próxima eleição.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Araucaria angustifolia – generosa soberana

Desde meus tempos de criança, quando morava próximo à Serra da Cantareira na zona norte de São Paulo, aprendi a admirar e estimar o pinheiro araucária. Meu pai levava-nos caminhar por um bosque de árvores situado próximo à casa de meus avós, e durante o passeio falava-nos que aqueles pinheiros, que me pareciam gigantes incomensuráveis, eram as mais genuínas árvores brasileiras, e que o país ainda haveria de ser grande como elas. Hoje ainda existem por lá algumas árvores remanescentes, num clube que leva por nome Pinheiral.

Durante minha alfabetização, a instigante estória das gralhas a enterrar sementes e expandir os pinheirais incentivou-me a aprender a ler e povoou-me a imaginação com mitos que carrego ainda hoje. Depois ainda aprofundei minha admiração e apreço por aquelas altivas e elegantes árvores, em andanças por altos ermos da Mantiqueira e da Bocaina, durante levantamentos geológicos do Vale do Paraíba e regiões vizinhas.

Mas foi quando vim para o Paraná, já lá se vão mais de vinte anos, que em minhas andanças pelas matas da Escarpa Devoniana a minha estima e admiração pelas esbeltas árvores transformou-se também num profundo respeito. Não só pelo fato dela ser a árvore símbolo do Paraná e por um ramo seu aparecer na bandeira do estado. E não só pelo fato de que agora, já um maduro adulto, tenha voltado a sentir-me uma criança diante de um incomensurável gigante quando fui conhecer uma árvore já secular, poupada da sanha e da serra dos madeireiros lá pelos anos 1960 e 1970 pelo fato de situar-se à beira de um abismo, se tivesse sido abatida nunca poderia ter sido resgatada.

Com uma professora de botânica minha colega aprendi que a presença da araucária significa que uma mata está em seu clímax evolutivo, o ápice dos estágios sucessionais. Isto é, aquela mata está em sua evolução ecológica máxima, o que só é alcançado depois de muitas décadas de desenvolvimento sem degradações ou crises fortes. Ou seja, se a araucária está presente numa mata, esta já passou por muitas fases de evolução, quando primeiro se desenvolveram muitas outras espécies, vegetais e animais, que constituem a complexa comunidade de vida necessária para que haja condições de crescimento e sobrevivência da soberana dos bosques: a araucária.

Aprendi também que, se sua existência é exigente, por outro lado a araucária retribui com muita generosidade o sub-bosque que a propiciou. Ela oferece o pinhão, alimento de ratos, cutias, pacas, macacos, tuins, papagaios, maritacas, gralhas e muitos outros bichos, que por sua vez vão alimentar lobos e felinos. Estes últimos não são só predadores, mas são dispersores de sementes e reguladores das populações, ou seja, têm também seu papel na complexa trama ecológica dos bosques mais exuberantes, que vai desde o solo e seus microorganismos até os maiores mamíferos e as imponentes araucárias.

E os humanos então! Embora o pinhão não consiga conquistar meu paladar, tenho de reconhecer, um dia, após uma extenuante caminhada, quando me deparei com um caldeirão com pinhões cozidos, eles me pareceram a mais saborosa iguaria que existe. Talvez só não mais saborosos que o pinhão sapecado no fogo da grimpa, em torno do qual o povo simples do campo conta e reconta os deliciosos causos da mata e da noite.

E não só o pinhão é uma benesse que nos oferece a elegante árvore. Ela se deixa desdobrar nas tábuas que foram a matéria prima das vivendas dos colonizadores, onde nos fogões o nó de pinho aquecia, e aquece, no inverno gelado dos planaltos do sul. Nós de pinho que além de aquecer, com seus anéis de crescimento nos revelam a idade das árvores. Os livros dizem que elas podem alcançar até 350 anos, mas há relatos de que no Estado de Santa Catarina, em Jaraguá do Sul, num museu há um nó de pinho antigo com mais de mil anéis. As árvores teriam então, além da altivez e da elegância, a sabedoria que o tempo traz. Além disso, os nós de pinho preservam-se intactos por milhares de anos soterrados em sedimentos ao longo dos rios, e podem então contar-nos também a história de climas passados antes que por suas matas existissem seres humanos.

Que lição a vida nos dá. A existência da imponente araucária depende de todo um complexo sistema de vida e de fatores ambientais, mas a árvore soberana reina generosa retribuindo a bênção de sua existência com a semente que vai realimentar a terra, com a madeira e o nó de pinho.

Pudera nós humanos aprendêssemos com a natureza como governar com generosidade e sabedoria. Parece que entre nós como regra geral os líderes não têm muita noção da importância que tem toda a tessitura social para a sobrevivência e a prosperidade de toda a comunidade. Parece mais que agimos como supostas altivas árvores que, ao alcançarem o dossel das matas, os níveis mais elevados da escala social, desprezam e deixam minguar todo o sub-bosque que lhes deu vida, sem aperceber-se que assim estão também condenando a si próprias.

domingo, 22 de janeiro de 2017

O espectro da total dominação

O espectro da total dominação é o subtítulo do livro A desordem mundial (Editora Civilização Brasileira, 2016), de autoria do cientista político brasileiro Luiz Alberto Moniz Bandeira, que em 2015 foi indicado pela União Brasileira de Escritores para o Prêmio Nobel de Literatura.
O livro não pode deixar de ser lido por aqueles que tenham a intenção de procurar situar-se dentre os interesses que movem este nosso conflituoso momento atual no planeta, a “desordem mundial” mencionada pelo autor. Ao final do livro, embasado em vasta documentação que inclui arquivos oficiais, depoimentos, notícias, livros, artigos científicos, mensagens eletrônicas e outros, tem-se a convicção que a teoria da conspiração não é só uma teoria, e que a desordem não é algo fora de controle. Na verdade, tudo o que vemos de conflituoso no mundo convergiria para um propósito único muito bem planejado e estruturado: nas palavras do autor, “o espectro da total dominação”.
O livro relata os interesses por trás das guerras que têm se sucedido desde a queda do Muro de Berlim em 1989 (Afeganistão, ex-Iugoslávia, Iraque, Líbia e a “primavera árabe”, Ucrânia, Síria, Israel e Palestina...) e o suposto fim da guerra fria, com a dissolução da União Soviética. Não só os interesses, mas as estratégias utilizadas por esses interesses, que parecem bastante complexas, mas são muito bem articuladas por atores obstinados no seu propósito: a hegemonia do poder mundial.
A qual poder está-se referindo? O militar? O econômico? O do controle dos recursos energéticos e das matérias primas estratégicas? O da ferrenha defesa do dólar como moeda de troca mundial? O do controle dos meios de comunicação? O poder do consenso ideológico construído por todos esses outros poderes?
No entender do cientista político, o agente principal que procura consolidar e estender seu poder até os rincões mais remotos e tradicionais do mundo é personificado pelas corporações que de Wall Street controlam o selvagem sistema capitalista que está a assolar as terras e os povos do planeta. E este agente, embora enraizado na maior cidade da mais poderosa potência do mundo atual, tem suas ramificações disseminadas em todos os centros de poder menores espalhados pela Terra. Não há lugar em que pessoas e instituições não estejam a serviço dos interesses alienígenas do grande propósito da total dominação. E tais serviçais são treinados e apoiados para parecer que sua submissão a anseios egoístas tais como posse e poder pessoal sejam confundidos pelo povo ignaro com liderança alternativa a regimes locais contaminados pela corrupção e totalitarismos. Os serviçais espoliadores são tidos como libertadores.
O livro mostra que tem sido assim ao longo da História recente: estruturas corruptas e ditaduras primeiro são cultivadas no seio de países que sejam alvo de interesses, depois, quando ameaçam fugir do controle de seus criadores, têm que ser drasticamente eliminadas, às vezes ao custo da total destruição de um mínimo de autoridade e infraestrutura local, e da identidade, da cultura, da História de povos milenares. Está-se vivendo uma época de barbárie, estão-se cometendo crimes em nome do combate ao terrorismo muito piores, e numa proporção enormemente maior, que os crimes daqueles que podem ser considerados de fato extremados terroristas.
O livro, publicado em julho de 2016, não chega a analisar os sinais contundentes da guinada mundial para posicionamentos conservadores mais radicais, como o Brexit na Comunidade Europeia, a eleição de um presidente neoliberal na Argentina, o impedimento da presidenta democraticamente eleita no Brasil, a eleição de Trump nos EUA...Também não analisa como esta guinada está afetando a América Latina como um todo, na qual a Venezuela é, ainda mais que o Brasil, o exemplo mais contundente do que pode acontecer a um país detentor de recursos energéticos estratégicos cujo governo eleito não se curva aos interesses dos agentes da desordem mundial vigente.
Pudera o livro de Moniz Bandeira fosse lido e compreendido por todos aqueles no mundo para quem liberdade e identidade (igual a soberania), justiça social e responsabilidade sobre o Planeta Terra sejam valores acima das nefastas ambições pessoais de posse e poder. Desta compreensão depende a possibilidade dos povos não serem rebanhos tangidos por consensos construídos por poderosos meios de comunicação que estão a serviço da total dominação. Povos arrebanhados só fazem sustentar os golpes e os oportunistas de plantão que submetem e destroem nações.
E vida longa a Moniz Bandeira. Que sua inquestionável capacidade de acessar e integrar fontes documentais ainda nos brinde com um volume destinado à América Latina e ao Brasil.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Feliz 2017, Brasil

Publicado no Diário dos Campos em 28/12/2016

Que em 2017 tenhamos um ano melhor que 2016!

Que o futebol volte a ser a autêntica expressão do povo brasileiro. Um esporte em que nem sempre o time melhor e mais caro vence, mas em que a garra e a ginga podem superar os fabulosos investimentos. Que continuemos ganhando títulos felizes, como o ouro na Olimpíada. Que as tramas que fabricam resultados e enriquecem investidores fraudulentos afastem-se do nosso futebol. Que os craques voltem a jogar pela camisa, pelo país, e não pelos dólares. Que futebol continue sendo sinônimo de alegria, de descontração, de jogo de equipe e de identidade de um povo que emergiu do complexo de vira-lata graças às conquistas da seleção canarinha nos idos de 1958 e 1962. Que times que são exemplo de êxito, de administração competente, parcimônia nos gastos e empatia com sua torcida e cidade não sejam dizimados por colossais negligências aeronáuticas que causam comoção mundial. Que os estádios encham-se de famílias e torcedores pacíficos em busca de um sadio lazer. Que o futebol seja o esporte do povo, livre da manipulação de gigantes midiáticos e de interesses escusos. Que o horário dos jogos não tenha de competir com o horário dos doutrinadores jornal e novela. Que as torcidas violentas extingam-se.

Que o povo volte a ser alegre, amistoso e hospitaleiro, características que já foram marca mundial do brasileiro. Que discordâncias sobre o futebol, a política e a religião não sejam motivos para intrigas e muito menos para iras inexplicáveis. Nossos avós já diziam que não se acirram discussões de tais assuntos com os amigos se não queremos perdê-los. Que voltemos a confrontar nossas opiniões firme mas pacificamente, aceitando e respeitando a diferença, que ela é justamente a maior riqueza do povo brasileiro. Basta dos ódios que estão sendo cultivados no seio de nossa gente amistosa, seja por coisas mais complexas como ideologias e religiões, seja por coisas mais banais como o time de futebol. Ideologias mais inclusivas prosperarão se aceitarmos debatê-las com serenidade.

Que nunca nos esqueçamos do privilégio que é vivermos no Brasil. Um país continental de riquezas e belezas naturais vastíssimas, que faz inveja a todo o mundo. Que saibamos cuidar de nosso país para que essa inveja não se transforme em pilhagem. E tenhamos orgulho do privilégio de fazer parte do povo brasileiro. Dizem alguns que o Brasil é um esforço dos céus para o congraçamento de raças, credos, culturas... Desta mistura que é o nosso povo deverá emergir o cidadão do futuro, tolerante, solidário, ciente das bênçãos que vêm com a compreensão da alteridade.

Que qualidades de caráter tais como a honestidade, a tolerância, a solidariedade, a responsabilidade, a ética, a perseverança, a serenidade, a sabedoria fortaleçam-se na alma e na identidade do povo brasileiro. E que estas qualidades façam com que nossos sonhos e esperanças de um país grandioso deixem de ser adiadas para um futuro incerto, e realizem-se no presente.

Que os dirigentes, os tomadores de decisão de nosso país, sofram todos de uma misteriosa epidemia que os metamorfoseiem e os façam valorizar mais interesses públicos, coletivos, que seus interesses pessoais. Que eles passem a ser inspirados pelas personalidades iluminadas que já passaram pela nossa história global, Cristo, Buda, Maomé, Mahatma Gandhi, Indira Gandhi, Mandela, Chico Mendes, John Lennon, Cora Coralina e tantos outros, e encham-se de urbanidade e patriotismo. Que coloquem acima de tudo a honestidade, o espírito público, a inclusão social, a distribuição da renda e a justiça social, a defesa da soberania nacional, o respeito ao patrimônio público construído ao longo de décadas.

E que nós, cidadãos comuns, nos preparemos, ao longo de 2017, para as escolhas de novos dirigentes que vamos fazer em 2018. Que até 2018 já estejamos sabendo reconhecer quem são os ainda obstinados oportunistas, e saibamos distinguir os estadistas que saberão defender o país da sanha dos falcões que estão vigiando para rapinar a identidade, as riquezas e as empresas brasileiras.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Oportunistas ou estadistas?

Publicado no Diário dos Campos em 3 de setembro de 2016

        Estaremos, no Brasil, perdendo a capacidade de distinguir entre os oportunistas e os estadistas?

Oportunistas são aqueles cujo princípio é o da vantagem pessoal ou de grupos fisiológicos, que não têm ética nem outro ideal, e por isso são camaleões que mudam de postura ao sabor de conveniências casuísticas. Estadistas são aqueles que aprenderam a priorizar o interesse coletivo, do Estado, alcançaram o espírito público, por isso desenvolveram princípios éticos, que pressupõem o respeito ao direito do outro, a solidariedade, a inclusão social, a emancipação pessoal e a liberdade e soberania perante todas as forças retrógradas que tentam perpetuar a opressão da alma humana.

Vivemos no Brasil um momento de crise com mistura de ingredientes singular: um poder midiático sem precedentes; um desequilíbrio entre executivo, legislativo e judiciário que revela a fragilidade, a falência, do sistema político vigente; um embate visceral entre concepções econômico-sociais neoliberais ou estatizantes; a pressão de um clima mundial de retrocesso, não só econômico, mas também de valores civilizatórios, da tolerância, da solidariedade, da paz. O mundo anda intolerante, excludente, beligerante.

Lembremo-nos que crise tem seu lado positivo: ela é a revelação da decrepitude do velho, quando o novo ainda não surgiu para substituí-lo. O individualismo, o egoísmo, a exploração, a opressão, a tirania são o velho que precisa ir-se. A solidariedade, a tolerância, a paz, a responsabilidade, a honestidade, a esperança, o sonho são o novo que quer, mas está sendo impedido de nascer. Mas cuidemos para que a crise não se torne colapso, isto é, quando o velho já está morto, e o novo já não tem mais como nascer.

É bom também, neste nosso país de predomínio da inspiração cristã, que nos lembremos da tragédia de Cristo. Um homem que pregava a solidariedade, o amor, o despojamento, a paz, a liberdade. Ele tinha doze seguidores, mas, por suas pregações, amealhou incontáveis adversários, principalmente entre as autoridades, locais e do império que então dominava hegemonicamente o mundo. As convicções de Cristo o levaram à crucificação, não sem antes a ironia de seu destino ter sido delegado às massas. O poder imperial lavou as mãos, mas o povo escolheu salvar Barrabás. Sem dúvida identificaram-se mais com o notório salteador que com o homem que pregava ética.

É possível que possamos comparar Cristo com o estadista, Barrabás com o oportunista. Suponhamos que hoje nos deparássemos com situação análoga àquela que teria acontecido há dois mil anos. Qual seria o desfecho?

sábado, 2 de julho de 2016

Táticas de manipulação para o consumo e a intolerância

Publicado no Diário dos Campos em 7 de julho de 2016.

          Vimos neste blog (ver texto "O novo surto de intolerância" postado em 30 de junho) que o planeta dá mostras de que nos encontramos num momento de crescente intolerância. Haveria alguma motivação para isso, visto que, em tese, deveríamos estar evoluindo para uma civilização mais solidária na alteridade?

No início do Século XX o cientista russo Ivan Pavlov realizou um experimento simples, mas de incomensurável importância: ao longo de vários dias, tocava-se repetidamente uma sineta ao mesmo tempo em que se alimentava um cão; passado um tempo, a sineta passou a ser tocada mas agora sem o alimento, e então o cão, já condicionado, apresentava todas as evidências de que estava pronto para receber o alimento, como ensalivar e outras reações orgânicas e comportamentais. O cão sujeito da experiência passa a considerar que a sineta quer dizer alimento, embora tal associação já tenha passado a ser falsa.

A isto denominou-se “reflexo condicionado”, isto é, a repetição de uma associação (alimento+sineta) induz uma resposta comportamental aprendida (salivação), que passa a ocorrer mesmo na ausência do fator real desencadeador da reação (sineta sem o alimento). Logo atinou-se com as enormes possibilidades de aplicação da descoberta, não só em tratamentos psicológicos, mas também na propaganda, de produtos, ideologias e comportamentos.

Examinemos algumas aplicações da experiência de Pavlov. Até há pouco tempo éramos bombardeados com mensagens cigarro=aventura, cigarro=masculinidade, cigarro=força, cigarro=glamour, cigarro=prazer... E a verdade é que o cigarro é um veneno que mata aos poucos. Todos os dias, por todos os meios, chega-nos insinuantemente que carro novo=sucesso, carro novo=conforto, carro novo=beleza, carro novo=desempenho, carro novo=status, carro novo=segurança, carro novo=conquistas, carro novo=felicidade... E mesmo que não precisemos e nem tenhamos condições de comprar o carro novo, ele passa a nos parecer imprescindível, irresistível.

Talvez o consumo de produtos e bens seja um imenso campo de aplicação do reflexo condicionado de Pavlov, pois nós, seres humanos, costumamos ter o mesmo nível de reação inconsciente dos cães utilizados na experiência. Mas certamente existem os outros campos de aplicação do reflexo, muito mais vastos e nefastos. O que impediria que o condicionamento fosse utilizado para estigmatizar pessoas, raças, credos, instituições, ideologias e até nações? Não tem sido assim ao longo do tempo?

O reflexo condicionado tem sido empregado para cristalizar associações como latino=indolente, muçulmano=terrorista, MST=baderneiros, comunista=comedor de crianças, Irã=mal, etc. Tomemos como exemplo um sujeito hipotético denominado Darci. O que aconteceria conosco se fôssemos bombardeados incessantemente com estímulos do tipo Darci=corrupção, Darci=recessão, Darci=ingovernabilidade, Darci=crise, Darci=antipatia, Darci=erros, Darci=mentira...? Supondo que estas associações pudessem não ser verdadeiras, mas fruto da intenção dos inimigos de Darci, depois do bombardeio, o que pensaríamos de Darci?

Seria muito desejável que, ao invés da reação irracional do cão que associa, mesmo que falsamente, sineta=alimento, utilizássemos a razão e o discernimento que nos diferencia do cão para refletir se estas associações são verdadeiras, ou se são falsas e visam condicionar nosso julgamento. E se assim for, quem está nos manipulando? Com qual propósito? Trata-se de uma experiência como a de Pavlov ou os interesses são outros? Quais?

No mundo atual, em nossas vidas, além do consumo de produtos, muitas vezes supérfluos, quais outros tipos de condicionamentos temos sofrido? Quem sabe até para manipular nosso julgamento sobre quem é corrupto e ladrão, e quem é honesto? Ou sobre quem fala a verdade, quem fala mentira? Ou quem é nacionalista, quem é entreguista? Ou quem é estadista, quem é oportunista?

Pavlov nos demonstrou que somos manipuláveis, como os cães. Mas não somos cães, somos seres humanos, a quem foi dada a capacidade de refletir, de discernir, e também os sentidos de justiça e solidariedade, que nos fazem assumir compromissos com o respeito aos direitos e deveres não só de nós mesmos, mas também de nossos semelhantes, e de toda a vida no planeta. Mas parece que temos tendência de abrir mão destas nossas capacidades. Comportamo-nos condicionada e irrefletidamente, como os cães. A força, a astúcia e a mesquinhez dos interesses que controlam a manipulação são muito grandes. Se vacilarmos, sucumbimos a seu poder.

É urgente que deixemos de reagir como condicionados cães, e passemos a agir como seres humanos, com discernimento, autonomia e sensibilidade. Disto depende nosso futuro, o futuro do país, do planeta.

quinta-feira, 30 de junho de 2016

O novo surto da intolerância

          Já vivemos na Terra momentos de desbragada intolerância, esta muitas vezes a serviço de cruéis autoritarismos. Lembremo-nos da inquisição que queimava seus opositores na idade média, as limpezas étnicas na Europa nazista e em países como a África do Sul, Nigéria, Ruanda e ex-Iugoslávia, o macarthismo anticomunista nos EUA, as guerras entre torcidas de futebol na Inglaterra e em outros cantos do mundo, até no Brasil, e, nos dias atuais, os fundamentalismos que segregam gênero, crença, nação, que só fazem alastrar-se.

          E muitos outros tristes exemplos em que ignorância e instintos de violência fazem sucumbir a razão e a compreensão. Sem dúvida, situações cuja explicação está no campo da psicologia e da sociologia. Embora nos denominemos seres racionais e sociais, ainda resta muito em nós, humanos, de inconscientes instintos animais que nos fazem agressivos defensores de um território que pode ser desde o espaço físico da moradia, do trabalho, do bairro, cidade ou país até o território imaterial no campo das ideias, convicções ou o time de futebol preferido.

          A decisão do Reino Unido de retirar-se da União Europeia parece ser a mais recente demonstração deste novo surto de intolerância que assola a humanidade. A União Europeia surgiu do esforço de integração após a lição das duas grandes guerras que destroçaram a Europa no Século XX. E não é de espantar que seja justamente o Reino Unido, a outrora maior potência colonizadora e opressora do planeta, o país a iniciar a desagregação desse imenso esforço de reconstrução e concórdia. Mas é preciso reparar que o plebiscito que decidiu a saída do Reino Unido foi decidido por maioria muito apertada. Os mais idosos votaram maciçamente pela saída, levados sobretudo pela xenofobia. Contrariando a vontade dos mais jovens, que votaram pela permanência do país na comunidade. Jovens que se revoltam com o resultado, que parece lhes tolher a possibilidade de ter mais liberdade de escolher onde trabalhar, onde viver, onde encontrar amigos e cônjuges...

          No Brasil, o surto de intolerância também é bem visível, e não só nas tradicionais guerras de torcidas. Não é por acaso que se produz no país um orquestrado esforço de convencimento do cidadão comum do que é certo (o bem) e o que é errado (o mal) e de cultivar a raiva, o ódio, àquilo que é rotulado como “o mal”. Nunca antes presenciei tantas pessoas, sejam desconhecidos na rua, sejam colegas de trabalho, sejam alunos, sejam amigos, sejam protagonistas de notícias, a manifestar irracionais reações agressivas perante diferenças que divergem do consenso implacavelmente construído pelo massacre midiático que vivemos no país.

          Este é um ponto crítico, que deve nos fazer refletir. Ao longo da História, os agudos surtos de intolerância sempre resultaram de manipulações de autoritários e inescrupulosos poderes hegemônicos, que assim se faziam impor aos povos e nações conquistados. É a aplicação da velha máxima “dividir para governar”, cujos mestres maiores foram os britânicos, que a empregaram por séculos em suas colônias pelo mundo.

          Aqui no Brasil também estamos sendo vítimas de uma perversa e modernizada estratégia de divisão interna. Parece que ainda não acordamos para o fato que existe um astuto e obstinado protagonista externo, que manipula mercenários aliados internos, e que está bem feliz com sua eficácia em promover nossa ruína interna. E conta com esse nosso embotamento de ideias e o crescimento de nossa intolerância para prosperar e disseminar sua hegemonia sobre o planeta.